Planejamento para mudança.

Por Gabriel Santos Elias

 Todo movimento social busca a mudança, senão certamente não desperdiçaria tantos esforços ao empreender uma luta. Para conseguirmos mudar nossa realidade nos mais diversos objetivos é clara a necessidade de disposição e militância. Disposição para deixar de fazer varias coisas muito importantes para você, para sua carreira, para sua família e amigos. Militância para as inúmeras e necessárias reuniões, para disputar espaços e divulgar ações. É preciso perder noites de sono e esquecer horário de almoço e finais de semana. Mas ter militância ainda é algo relativamente fácil, apesar de nem todos os movimentos sociais a terem. Até lutar pela mudança e conseguir mudar essa nossa realidade é fácil.

O difícil, e o que poucos movimentos têm em mente, é buscar saber em que direção mudar. Por isso, anteriormente a fazer uma manifestação de centenas de pessoas, realizar uma ação direta, ou mesmo criticar a nossa realidade é necessário fazer uma profunda discussão política. É muito fácil assumir uma bandeira histórica de luta, através de suas conhecidas e cativantes palavras de ordem, sem nem sequer refletir sobre o que nos é colocado como essencial no processo de mudança. E assim age boa parte das pessoas bem intencionadas no objetivo de mudar o mundo. Mas não é suficiente para uma mudança concreta. A profunda reflexão política dialoga com a própria atuação política, é o que Gramsci chama de filosofia da práxis, não sendo possível separar uma da outra.

Muitos acreditam que esse processo de reflexão leva o movimento a imobilidade. Porém, quando empreendemos uma luta sem o devido processo filosófico, considerando elementos teóricos e conjunturais a respeito da ação, levamos o movimento à imobilidade e, conseqüentemente, ao fracasso. Devemos mobilizar e cativar através de idéias contidas em um plano. Indicar a necessidade desse plano, como um caminho a ser construído e seguido com destino a uma sociedade mais justa.

O planejamento, para movimentos que pautam mudança, significa ter em mente o que fazer quando a porta da reitoria cair e iniciar uma ocupação, mas também buscar respostas para o que fazer quando o reitor da universidade cair. O planejamento para movimentos revolucionários tem que pensar o que fazer quando as instituições que perpetuam as desigualdades caírem, que instituições construir em seu lugar. Não basta saber que as instituições, como estão, são ruins e que a mudança é necessária, mas temos que buscar saber como serão as instituições que solucionarão esses problemas, ou se existem alternativas a essas instituições.

O mundo tem diversas desigualdades. O sistema capitalista produz contradições claras e nos indica que não é possível seguir sem mudanças. A maioria de nós entende a necessidade dessa mudança e que a mudança só virá com nosso esforço e nossa luta. Defendemos a necessidade de uma revolução porque temos ciência de que pequenas mudanças não garantem a efetivação da mudança social que acreditamos ser necessária para o país. É necessária, principalmente, a mudança da estrutura de poder do Estado. Mas acreditamos também que para efetivar essa mudança é necessário um plano. Esse plano ainda não existe, entendemos que não adianta buscá-lo em outros lugares, em outro tempo na história. Devemos construí-lo juntos, por uma revolução planejada!

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6 respostas em “Planejamento para mudança.

  1. Gabriel: Defendemos a necessidade de uma revolução porque temos ciência de que pequenas mudanças não garantem a efetivação da mudança social que acreditamos ser necessária para o país.

    Pelo contrário, colega. Os revolucionários são grandemente superestimados. As mudanças que realmente importam são graduais, tateantes, impercebidas, cumulativas, sedimentais.

    Tá certo que de quatrocentos em quatrocentos anos surge um Rimbaud, uma Atenas da coxa, uma Afrodite da espuma. Mas esses são monstros maravilhosos que apenas existem para comprovar a regra de que a natureza não opera por saltos.

    (Mozart começou a compor aos cinco; sua primeira obra-prima somente veio aos vinte anos: mesmo ele precisou de laboriosos quinze anos para aprender bem o ofício).

    Burke, o famoso crítico da Revolução Francesa, gostava de rir que poucas décadas após a o cataclisma, os franceses estavam novamente com reis, e menos livres do que os ingleses.

    A liberdade é o que pacientemente construímos entre um grande gesto e outro. É esse paulatino aprender a conviver, a fazer, a manobrar na matéria. A liberdade não são grandes e estentóreos discursos: não, meus caros. A liberdade é a pista de aeroporto que aquele nerd-zinho insignificante sentado numa mesa desolada da biblioteca aprende lentamente a calcular; a iluminação de ler e reler bebadamente uma página bem-escrita de Dostô; o prazer de cultivar uma difícil — e recompensadora — amizade.

    Grandes gestos possuem toda a grandiloqüência e o vazio do melodrama. Eles chamam a atenção, duram um instante brilhante na mente, mas não perduram.

    • Cara, você fala de reflexão filosófica, mas onde está? Que é por exemplo revolução? Olhei aqui no dicionário e estava escrito: “um monte de gente correndo, gritando e pilhando. Depois, essas mesmas pessoas sendo obrigadas a devolver tudo para os que conseguiram pilhar muito mais.”
      Isto é, como dizia Renato Russo na canção: “mudou a estrutura de poder do estado, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim tão diferente”. De fato, a história prova que de fato fica um pouco diferente, fica um pouco pior que antes.

      Equanto isso, o cara aí no computador soltando fanfarra no ouvido da gente. Acorda! O séc. XIX já passou. Não existe mais proletário, nem camponês, nem siamês, nem albino neste mundo (ou seja virou um desvio populacional estatisticamente irrelevante). Pelo menos nos países de longa tradição capitalista!

      E a alternativa ao capitalismo? (enquanto realidade hsitórica, por favor, não enquanto ideia).

      Pois é, amiguinho, enquanto você for falar do dever-ser do mundo você está livre para dizer qqr bobagem, embora seja razoável explicar melhor alguns conceitos-chaves, já que o trem é filosófico.

      Só que esse dever-ser não é interessante, é coisa de universitário à-toa. Queria ouvir em termos de experiências reais os benefícios e mesmo a necessidade dessa tal de revolução planejada não-capitalista e não-contraditória.

      • Caro Idiota*,
        Acredito que o que você entende por revolução não coincide com o que acreditamos ser. Revolução não é um dia que amanhece e a sociedade está linda e perfeita, ou caótica e violenta. Como nos ensina Gramsci, é um processo que ocorre na sociedade e deve chegar a mudanças efetivas relacionadas ao próprio Estado, entendendo como organização social.
        Entendo sua preocupação com relação ao nosso projeto de sociedade. Estamos acostumados com projetos prontos e impostos, enquanto nosso projeto não está pronto. E mais, está em fase de iniciação ainda =/.
        Um projeto de sociedade deve ser fruto de uma profunda reflexão a respeito dos problemas da nossa organização social atual e as perspectivas possíveis de mudança. É meio vago sim, e realmente espero, como você, que vá ficando claro ao longo do nosso aprofundamento coletivo no tema.
        Não defendi que algo deva ser de determinada maneira. Apenas apontei que nossa sociedade é injusta e devemos lutar para que seja mais justa. Você não concorda com isso? Pois é isso que defenderemos, por vezes abstratamente, como agora, por vezes mais diretamente, como na defesa da reforma agrária pelo Estado, ainda que através das ações diretas promovidas pelo MST.

        *Pesa muito tratar assim, mas você não me permitiu escolher.

    • Caro Thiago,
      Você polariza duas coisas que não estão obrigatóriamente contrapostas: a profunda transformação e o processo gradual no qual essa deve se dar.
      Concordamos que o processo ideal de transformação da sociedade deve ser gradual, livre de traumas e garantido pelos direitos de todos os individuos. No nosso planejamento de transformação é o que será contado.
      Porém não podemos garantir que todo o processo de transformação ocorra dessa maneira, infelizmente.
      O poder é uma droga e vicia. É necessária uma redistribuição de poder da sociedade para que garanta a emancipação de parte da sociedade que vive a sua margem. Ao proporcionar essa redistribuição do poder devemos levar em consideração que o oligarca não achará bonitinho e aceitará de bom grado que todos sejamos felizes com poderes efetivamente iguais.
      Essa análise faz parte de um planejamento bem feito de trasformação, justamente para que saibamos agir em uma situação dessas.
      Porém, cabe ressaltar que a transformação da sociedade não depende desse trágico cenário de ruptura repentina. Não queremos que seja esse o simbolo da revolução.
      Grandes transformações são necessárias pois não acredito que haja um elemento unico causador de todas as desigualdades. Uma mudança em um setor deve ser seguida de outra que garanta a sustentação daquela e aprofunde as transformações subsequentes, fazendo a revolução.
      A revolução não é a queda da bastilha, nem o período específico de violência e morte. É um processo histórico gradual. Acredito que a violência nesses casos não contribuíram para a sustentação das transformações e nossa proposta é diferente!
      A liberdade não se conquista sozinho na mesa da biblioteca, lendo um livro ou cultivando amizades. Acredito que a libertação é um processo que deve ser coletivo. Estudamos (muito) na biblioteca, lemos (muitos) livros, e cultivamos (muito) nossas amizades, mas garantimos que esses hábitos sejam seguidos de trocas de experiências e articulação de idéias para a tranformação da sociedade. Não a sustentação de nossas preferências individuais em uma sociedade já por demais injusta.
      Grandes sonhos, seguidos de grandes projetos – coletivos – são necessários para o cultivo da esperança, motor de toda mudança!

    • Caro Thiago,
      Você polariza duas coisas que não estão obrigatóriamente contrapostas: a profunda transformação e o processo gradual no qual essa deve se dar.
      Concordamos que o processo ideal de transformação da sociedade deve ser gradual, livre de traumas e garantido pelos direitos de todos os individuos. No nosso planejamento de transformação é o que será contado.
      Porém não podemos garantir que todo o processo de transformação ocorra dessa maneira, infelizmente.
      O poder é uma droga e vicia. É necessária uma redistribuição de poder da sociedade para que garanta a emancipação de parte da sociedade que vive a sua margem. Ao proporcionar essa redistribuição do poder devemos levar em consideração que o oligarca não achará bonitinho e aceitará de bom grado que todos sejamos felizes com poderes efetivamente iguais.
      Essa análise faz parte de um planejamento bem feito de trasformação, justamente para que saibamos agir em uma situação dessas.
      Porém, cabe ressaltar que a transformação da sociedade não depende desse trágico cenário de ruptura repentina. Não queremos que seja esse o simbolo da revolução.
      Grandes transformações são necessárias pois não acredito que haja um elemento unico causador de todas as desigualdades. Uma mudança em um setor deve ser seguida de outra que garanta a sustentação daquela e aprofunde as transformações subsequentes, fazendo a revolução.
      A revolução não é a queda da bastilha, nem o período específico de violência e morte. É um processo histórico gradual. Acredito que a violência nesses casos não contribuíram para a sustentação das transformações e nossa proposta é diferente!
      A liberdade não se conquista sozinho na mesa da biblioteca, lendo um livro ou cultivando amizades. Acredito que a libertação é um processo que deve ser coletivo. Estudamos (muito) na biblioteca, lemos (muitos) livros, e cultivamos (muito) nossas amizades, mas garantimos que esses hábitos sejam seguidos de trocas de experiências e articulação de idéias para a tranformação da sociedade. Não a sustentação de nossas preferências individuais em uma sociedade já por demais injusta.
      Grandes sonhos, seguidos de grandes projetos – coletivos – são necessários para o cultivo da esperança, motor de toda mudança!

  2. Gabriel: “Grandes sonhos, seguidos de grandes projetos – coletivos – são necessários para o cultivo da esperança, motor de toda mudança!”

    De certa forma você está bem certo. As micro-mudanças ocorrem à revelia do que queremos ou fazemos, e no limite o homem é apenas um farelo boiando em ondas cuja fenomenologia decorre de fatores muito mais profundos e fortes do que ele próprio (Tolstói dizia isso dos grandes personagens de sua obra magna, Guerra e Paz).

    Esse pessimismo leva à imobilidade, e deve ser combatido tanto pela sua pura e simples negação, como também pela observação simples e profunda de que mesmo que não sejamos importantes ou mesmo que — ao fim e ao cabo — não sejamos realmente livres, a nossa consciência opera como se fôssemos tanto um quanto outro, e não somos relativistas pirronianos no dia-a-dia, pelo contrário: nos comportamos com a firme consciência (com a firme ilusão?) de que somos agentes causais importantes nos eventos que nos cercam, e essa “ilusão” (verdade profunda?) é o que realmente importa.

    O chato de perseguir projetos grandiosos, que conscientemente miram para além de nosso círculo de conhecidos imediatos, é que para tanto devemos sujar as mãos, fazer compromissos, nos envolver nas tramas de poder e dominação dos organismos institucionalizados pré-existentes (DCE, partido, etc), cultivar certa moral pública (que desde Maquiavel sabemos NÃO SE CONFUNDIR com a moral privada), cultivar certo macaco hierárquico e vaidoso (e auto-superador e poderoso) que há dentro de cada um de nós.

    Not my cup of tea, hehehe. Mas acho que é importante que existam pessoas dispostas a perseguir esse tipo de coisa — chamemo-os “empreendedores políticos”. Só não acho que eles sejam, no final das contas, mais úteis que o encanador ou que o escritor de blogs dionisíacos (ver: http://ditirambo.ning.com/ ). São ocupações e vocações diferentes, e é um pouco utópico esperar que todos sigam o chamado heróico da vida política.

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