Da média à mudança

Por Gustavo Capela

A classe média como expoente de um discurso de mudança possui um sério problema: é uma classe que, antes de mais nada, tenta manter privilégios. Não é rica, não possui os meios de produção, não possui os maiores privilégios do sistema. Mas também não é pobre, esquecida, ralé. Ela tem certos privilégios que não são dados, são conquistados. Isso é feito por um esforço que passa de geração em geração e a ocupa durante toda a vida. O famoso berço de ouro não é o dado à classe média. Ela é a classe que detém a maior capacidade de mudança e, ao mesmo tempo, contraditoriamente, a que menos se mobiliza. Como classe, portanto, não se une, não se impõe, mas se adéqua e tenta seguir as regras da melhor maneira possível. Se o fizer, se seguir os caminhos delineados pela lógica do sistema, terá cumprido com sua missão na terra: manter seus privilégios.

Como é de fácil constatação, a Universidade pública, mas em especial a Universidade de Brasília, é um local onde a classe média se educa com o intuito acima mencionado. Lá, os jovens que se engajam nas atividades políticas que envolvem a universidade, seja no movimento estudantil partidarizado, nas esferas decisórias das faculdades, ou nos grupos autônomos, geralmente se alinham a um pensamento de esquerda. É a famosa esquerda “leite-com-pêra”. Pregam mudança, efeitos danosos do capital, revolução armada, problemas estruturais de nossa sociedade, etc, etc. Mas, como diz a piada recorrente nos âmbitos da Universidade, à noite voltam para suas casas quentes, com comida pronta, e quarto arrumado[1]. E aí? Aí esquecem do intuito revolucionário cool,beijam suas mães e fazem o dever de casa. Afinal, quem não estuda, raramente será “algo na vida”.

E esse “algo na vida” é o que atrapalha a mobilização. Há chances, e chances reais, da classe média se manter, ou até – ilusoriamente ou não –  elevar seu status. Pensam que o caminho está aberto para o sucesso. A palavra de ordem é – lute que o caminho já está traçado. Quem nunca ouviu o sermão do pai mediano dizendo não ter tido as oportunidades que o filho têm, ou exigindo mais esforço pela possibilidade que ele está dando ao filho? Quem tem a ilusão de que não fará o mesmo com o filho? Por óbvio, essa circunstância não é exclusiva da classe média. Mas parece ser mais impactante. Ouço que posso e parece que, de fato, posso. Por que, então, não tentar? Por que largar tudo e tentar mudar uma estrutura social que, em certos aspectos, beneficia alguém, como eu, que, se empenhado, conseguirá atingir seus desejos. Desejos materiais, claro. Porque quanto aos existenciais…já não posso dizer.

Digo tudo isso porque mudar uma estrutura social não advém de um querer qualquer. É necessário um querer sincero, um querer-ativo. É uma escolha de agir, de se jogar na vontade absurda e necessária de mudar. Aí encontramos o obstáculo de quem precisa manter privilégios. Como vou me dedicar a uma causa de mudança, que requer uma dedicação exclusiva e intensa, quando há pressão social para que eu faça outras coisas? É preciso ter um emprego tal, é preciso ganhar tanto, é preciso ter este ou este carro, morar neste ou naquele lugar. Como conciliar? É possível? O intuito revolucionário, aparentemente, deve estar acima de tudo e todos, deve ser a pauta da vida de quem se enxerga nesse destino-propriamente-traçado. Não parece estar em consonância com o projeto de se manter num patamar X.

Ora, manter-se é seguir, é dizer sim ao que se quer combater. Mudanças drásticas, mudanças profundas requerem planejamento, requerem dedicação extrema. Não há meio termo. A lógica do mundo que nos envolve é inquestionavelmente forte o suficiente para nos empurrar para uma inércia existencial, onde seguimos caminhos já delineados de acordo com nosso local e classe de nascença. As exceções convalidam isso. Por isso mesmo, ir contra essa lógica opressora é demasiadamente difícil para um indivíduo de classe média enfrentar sozinho.

Daí a importância de um grupo, de um agir coletivo. Um indivíduo dessa classe precisa de forças internas do mais alto teor para se manter à margem daquilo que o permeia (se assim desejar, claro). Mais do que isso, ele precisa se desgarrar de valores que o fazem ser quem ele é. Valores que, provavelmente, jamais o deixarão por completo. O coletivo é capaz de criar novos valores, incentivar novas condutas. A força da coletividade está nos incentivos externos à individualidade que amenizam o sofrimento de nadar contra a maré. Mudar um país, mudar as estruturas de uma sociedade jamais poderá ser feito por uma pessoa, por mais poderosa que seja. A máquina é grande, autônoma e move rápido o suficiente. Enxerga facilmente e não tem medo de exterminar. Grupos buscam, para além de uma potencialização nos atos, uma blindagem aos efeitos que advém da desobediência à ordem estabelecida. Com sucesso nesses dois âmbitos, a mudança é mais plausível, mais factível, para um futuro próximo.

Os grupos de classe média devem estar constantemente atentos às dificuldades que o permeiam. É preciso romper com lógicas pré-estabelecidas, é preciso reinventar valores sociais, é necessário agir em prol de uma vontade mais autêntica que a pregada pelo pensamento hegemônico, é imprescindível entender e criar uma consciência de classe, é indispensável querer a mudança acima de qualquer outro fim.

O grupo Brasil e Desenvolvimento possui todos esses problemas. É formado por jovens da classe média, situa-se num mundo onde o valor da existência se mede com dinheiro e profissões de status, compete com o pensamento dominante pelos incentivos que quer dar aos seus membros, requer dedicação extra-humana.

Mas quer, acima de tudo, a mudança.


[1] Não descarto os casos poucos em que a situação é diferente, falo do geral.

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9 respostas em “Da média à mudança

  1. Bom texto. O problema da classe média, enquanto força política, é que ela é amorfa. Já no século XIX Marx negava organicidade a ela.

    O legal é que vejo nisso uma qualidade, não um defeito: ora, uma classe média ilustrada –não era isso o que Kant tinha em mente, com sua utopia de um mundo cosmopolita, pacífico e educado? Ou que Habermas sonha? Pessoas limpas, sem doenças, com cabedal cultural, com hobbies.

    Uma aurea mediocritas encontra-se na base de todo o pensamento social-democrata atual.

    A isso talvez possamos colocar uma pitada de “semi-profundezas” pressentidas. Uma classe média que PRESSENTE coisas mais dolorosas ou mais transcendentais — mas que NÃO QUER sofrer os vastos turbilhões da história.

    Sim, uma mediocrização do mundo se segue à sua vasta desdramatização. Não mais Maratonas ou Dias “D”. Compensações: dentes brancos e dieta balanceada, uma velhice saudável, até pelo menos bem próximo do fim.

    Não acho que isso seja algo ruim, como regra para o animal humano.

    (Mas que alguns se ergam do rebanho, de quando em quando, para sentir e denunciar o vazio de certas promessas de nosso mundo desencantado.)

    “Promises of science. Modern science has as its goal the least pain and the longest life possible–that is, a kind of eternal happiness: to be sure, a very modest kind in comparison with the promises of religions.”
    Nietzsche

    “Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comumente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia. (…) E, assim, alheios à solenidade de todos os mundos, indiferentes ao divino e desprezadores do humano, entregamo-nos futilmente à sensação sem propósito, cultivada num epicurismo subutilizado, como convém aos nossos nervos cerebrais.”
    Pessoa

  2. Classe média precisa trabalhar para estudar seus filhos ,para comer ,para pagar impostos, a classe média realmente conquistou o seu lugar e luta duro para mante-lo ela move o pais , muitas vezes não luta mais porque realmente está trabalhando , isso realmente é verdade quer o melhor para os que ama , quer dar para mutos o que não teve, penso que é uma classe sonhadora sim , porém se ela parar muito vai se perder , talvez seja acomodada em alguns aspectos , mas trabalha muito

  3. É preciso saber se não é possível à pessoa de classe média manter sua busca por realização individual enquanto se engaja em projetos e ações para mudar coletivamente a situação que a cerca.

    Guardamos ao mesmo tempo a ânsia pela independência das raízes familiares, mas seguimos caminhos que não escolhemos, que foram traçados pelas gerações que nos antecederam, ainda que de forma inconsciente.

    Seu texto parece fazer um elogio àquele que consegue se colocar à margem de um dado sistema para poder questioná-lo, mas será que realmente é possível a algum de nós se colocar fora do contexto de sua própria vida? Parece que você mesmo se responde, dizendo que somos frutos, em parte, de nossa existência, o que envolve nossa classe-médialização.

    O risco é, buscando sair do sistema da classe média, cair em outros modelos de pensamento pré-determinados, fórmulas prontas de revolução, sem uma formulação adequada do seu papel naquele movimento e da transformação que se pretende implementar.

    Concluo com um voto de crença no poder de mudança da pessoa comum, da pessoa classe-média. Não acho que ele seja inerte e apolítico. Acho que está assim e que pode mudar. Pode fazer da vida pública parte de sua vida e, com isso, afetar a esfera política.

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