Ignacy Sachs e o desenvolvimento

Por Laila Maia Galvão

Hoje foi realizado na UnB um evento com o “ecossocioeconomista” polonês, naturalizado francês, Ignacy Sachs. Na mesa estavam o professor Elimar Nascimento e o Senador Cristovam Buarque. O evento buscou promover o lançamento de seu mais novo livro, chamado : A Terceira Margem – em busca do ecodesenvolvimento, em que Sachs relata acontecimentos de sua vida em uma espécie de autobiografia, que não deixa de expor os desafios enfrentados pelo pensamento do desenvolvimento ao longo da segunda metade do século XX e nesse início do século XXI.

Ao responder uma das perguntas da platéia, Sachs fez um apanhado geral da disputa referente à divulgação e implementação da ideia de desenvolvimento sustentável. Assim, de 1972 até 1992 teria ocorrido um avanço significativo, quando colocou-se nas agendas nacionais e internacionais a questão ambiental. A problemática ambiental teria sido assumida pela maioria dos países, a partir de um debate mais amplo sobre o tema e da criação de organismos estatais destinados à pensar estratégias de preservação do meio ambiente. O auge desse processo foi a Rio 92, que conseguiu produzir um documento de considerável qualidade. Após 1992, verificou-se um fracasso político enorme daquilo que havia sido decidido no Rio de Janeiro. Teria havido uma falha de comunicação com a população mundial sobre os temas tratados no documento da conferência, além da escassez de debates sérios que fossem capazes de repercutir as propostas firmadas. 

O autor do livro faz uma crítica às novas políticas de desenvolvimento sustentável: afirma que elas não partem do que deve ser feito e sim do quanto pode ser feito. O resultado dessa fórmula utilizada é óbvia: propostas tímidas que não trazem bons resultados. Muito interessante, portanto, a noção de Sachs de que é preciso pensar grande. Isso pode ser observado no alerta que ele nos faz quando aponta que estamos caminhando em direção a uma catástrofe (cita inclusive o uso de energia fóssil), caso não haja uma mudança de rumo que ocorra de forma rápida e drástica. Cristovam Buarque o complementou ao dizer que o problema é ideológico, ou seja, está conectado a uma concepção de progresso e de processo civilizatório. Nesse sentido, criticou o individualismo consumista e o pensamento no imediato.

Quando questionado a respeito da valoração dos serviços ambientais, Sachs sustentou que essas medidas podem ser importantes para a preservação do meio ambiente, mas argumentou que não se pode reduzir o debate a isso. Para ele, a consideração exclusiva da questão da valoração é fruto da cultura neolioberal, cujas promessas não teriam vingado, demonstrando que nós não devemos ser tão subservientes às regras do mercado. Sachs diz que corremos o risco de cair na seguinte lógica: “eu não vou fazer se eu não for pago” ou “se vocês não me segurarem eu vou destruir”. Quanto aos créditos de carbono, haveria uma série de distorções, em que seria melhor comprar uma fazenda na Patagônia a despoluir na França. Para ele, o comércio desses créditos representa a compra do direito de poluir.

Outra pergunta da platéia, de forma resumida: como alcançar o desenvolvimento sustentável diante das contradições expostas em nossa sociedade, em que, por um lado, busca-se preservar a natureza e, por outro, há um incentivo, por exemplo, à compra de veículos novos? Sachs ressaltou a tese que já defende há vários anos, referente à necessidade da articulação entre a ecologia, a sociologia e a economia. Para ele, não podemos pensar que é tudo ou nada. Em nossas vidas já verificamos essa realidade: não podemos pensar em termos absolutos. Na luta pela sustentabilidade também deve-se ter isso em mente.

Cristovam elogiou Ignacy Sachs, ao apontar aquilo que Sachs teria lhe ensinado ao longo de todos esses anos: perda da ortodoxia (capacidade de enxergar a mesma coisa a partir de vários olhares), possibilidade de entender o problema da sociedade e da natureza, compreensão de que a tecnologia e sua utilização deve estar permeada de valores éticos, compreensão de que a engenharia social nem sempre nos leva a bons resultados, busca do cosmopolitismo (olhar não só para o norte, mas para todos os lados), busca de soluções simples (e achar que elas são possíveis) e a paixão pela multidisciplinaridade.

Após a palestra instigante do professor e dos comentários de Cristovam Buarque, fui para mesa na qual se encontrava o livro que havia sido lançado naquele evento. Ao folheá-lo, me deparei com um trecho que dizia que é preciso atribuir maior peso à política. Somente a política pode encarar de forma sincera esse mundo de múltiplas possibilidades. É no campo da política que devem ser realizados os debates mais profundos e diversos, com o intuito de se firmar um pensamento e uma ação que de fato levem em consideração o longo prazo. Nesse mesmo momento, recordei do grupo brasil e desenvolvimento e de seus propósitos. Me resta o desejo de ler a obra em questão, na busca de elementos que possam contribuir para nossas reflexões sobre o desenvolvimento e para nossa atuação política.

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6 respostas em “Ignacy Sachs e o desenvolvimento

  1. Sachs diz que corremos o risco de cair na seguinte lógica: “eu não vou fazer se eu não for pago” ou “se vocês não me segurarem eu vou destruir”.

    Ah, claro! É BEM mais razoável supor que as pessoas serão lentamente iluminadas rumo a uma sabedoria harmoniosa com o meio ambiente.

    (Tentei ser irônico, se alguém não percebeu).

    Eu também acredito que as atitudes em relação ao meio ambiente possam mudar. Aliás, a maior parte das pessoas têm consciência de que o meio ambiente está sendo paulatinamente esculhambado pelo homem. Mas aqui a velha teoria econômica (neoliberal?) tem bem mais a dizer do que jeremiadas dirigidas contra a “ganância”. Diz a teoria econômica que o problema da poluição é difícil de ser resolvido num plano individual porque se trata de uma externalidade. A esculhambação ambiental decorre, em última análise, de inúmeras pequenas ações que, tomadas individualmente, não são danosas, mas que somadas descongelam o ártico e a antártida.

    Em questões ambientais — especialmente climáticas — devemos agir rápido e AGORA. E essa rapidez, infelizmente, deverá passar por uma série de políticas públicas, sendo a “cap and trade” criticada por Sachs como economicismo gananciosos uma das mais importantes entre elas. Isso porque reconhece que a poluição tem um valor econômico: poluímos porque é BOM para nós, aumenta nosso bem-estar. Mas também reconhecemos o preço dessa conduta, que não está sendo internalizado pelos agentes: saio dirigindo meu carrão por aí, e comendo carne loucamente todos os dias, e não “pago” por esses prazeres tão destrutivos ao meio ambiente.

    Nesse sentido, “precificar” condutas nocivas — mas úteis até certo ponto, e inescapáveis, como “comer carne” — de maneira a incluir nelas o gasto total que esta tem para a sociedade é um mecanismo que merece mais respeito, especialmente por economistas ambientalistas, como parece o caso de Sachs.

    • Pelo que entendi da palestra de Sachs, o problema é reduzir todo o debate sobre a questão ambiental a essas questões de valoração. Creio que Sachs não desconsidera a importância e a relevância dessas políticas para que se busque uma maior preservação. No entanto, essas medidas são direcionadas a problemas específicos e podem fazer com que nós fujamos da discussão sobre algo mais abrangente: referente ao nosso modelo desenvolvimento como um todo.
      Essas soluções práticas que você cita, as quais, aliás, são muito válidas, devem refletir um planejamento maior, que vise instituir um novo padrão de desenvolvimento. Não podem significar um fim em si mesmo, mas sim uma das estratégias a serem utilizadas para que se possa de fato preservar o meio ambiente.

  2. Aliás, estou sendo um pouco injusto, uma vez que o cara reconhece o papel desse tipo de política, apenas as considera insuficientes (guh!)

    Mas me exaspera esse tipo de crítica vago e “moralista”, que denuncia o “consumismo” Somos todos consumistas, cara pálida! Pergunte ao índio que gosta de espelhinhos, ou ao aborígene da Papua Nova-Guiné que cultua o homem branco dotado de “cargo” — não no sentido candango, mas no sentido de “carga em navio”, mesmo.

    Apelos à moralidade ou a “valores éticos” (Cristóvam) são cortinas de fumaça auto-laudatórias, que não apontam para soluções práticas, mas apenas procuram sinalizar a “virtude” do cara que fala nesses termos. Pegue o Cristóvam e o Sachs: provavelmente os dois são classe média (bem) alta, viajam (bastante) de avião, têm um padrão de consumo muito superior (muito mesmo) ao da média da população mundial: são ESSES caras (ou seja, nós) que estamos destruindo o meio ambiente, CARAMBA! Não suporto ver gente suja até o talo na tragédia ecológica que construímos trantando-a como se fosse algo externo e ético: “oh, se todos fossem tão iluminados quanto nós!” Que nada. Não há uma iluminação especial nas pessoas. Contra Cristóvams e Sachs, com suas viagens de aviões poluídoras: taxas e regulações sobre o comportamento dessa cambada anti-Gaia!

  3. A propósito, a referência que fiz ao nosso “consumismo” intrínseco, lembrando os “cargo cults” que emergiram em diversos lugares da Polinésia, consta do livro “The God Delusion”, de Richard Dawkins.

    Percebam que há algo de inocente em querer arrancar de nossa psique algo tão entranhado quanto nossa sanha consumista (ou crenças irracionais em geral, by the way).

    My main authority for the cargo cults is David Attenborough’s
    Quest in Paradise, which he very kindly presented to me. The
    pattern is the same for all of them, from the earliest cults in
    the nineteenth century to the more famous ones that grew up in the aftermath of the Second World War. It seems that in every case the islanders were bowled over by the wondrous possessions of the white immigrants to their islands, including administrators, soldiers and missionaries. They were perhaps the victims of (Arthur C.) Clarke’s Third Law, which I quoted in Chapter 2: ‘Any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic’

    The islanders noticed that the white people who enjoyed these
    wonders never made them themselves. When articles needed repairing they were sent away, and new ones kept arriving as ‘cargo’ in ships or, later, planes. No white man was ever seen to make or repair anything, nor indeed did they do anything that could be recognized as useful work of any kind (sitting behind a desk shuffling papers was obviously some kind of religious devotion).

    Evidently, then, the ‘cargo’ must be of supernatural origin. As if in corroboration of this, the white men did do certain things that
    could only have been ritual ceremonies: They build tall masts with wires attached to them; they sit listening to small boxes that glow with light and emit curious noises and strangled voices; they persuade the local people to dress up in identical clothes, and march them up and down – and it would hardly be possible to devise a more useless occupation than that. And then the native realizes that he has stumbled on the answer to
    the mystery. It is these incomprehensible actions that are the rituals employed by the white man to persuade the gods to send the cargo. If the native wants the cargo, then
    he too must do these things.

    It is striking that similar cargo cults sprang up independently on
    islands that were widely separated both geographically and
    culturally. David Attenborough tells us that Anthropologists have noted two separate outbreaks in New Caledonia, four in the Solomons, four in Fiji, seven in the New Hebrides, and over fifty in New Guinea, most of them being quite independent and unconnected with one another. The majority of these religions claim that one particular messiah will bring the cargo when the day of the apocalypse arrives.

  4. Leio e estudo as obras de Ignacy Sachs há um ano. Ao aplicar seus conceitos nas pesquisas do grupo de estudo que faço parte, pude perceber que é possível sim atingir um grau de desenvolvimento que seja sustentável para a economia, para as questões sociais e para o ambiente natural. Não é fácil, mas é possível. Leva-se em consideração, também, que todo modelo é uma simplificação da realidade e que o modelo de desenvolvimento sustentável defendido por Sachs deve servir de estímulo e não ser utilizado como “receita de bolo”, pois as atividades de desenvolvimento na França não devem ser as mesmas praticadas no Brasil. Cada localidade deve realizar seus próprios estudos e seguir seu próprio caminho.

  5. Pingback: Brasil e Desenvolvimento « Diários de Gestão

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