Projeto à lá brasileira

Por Gustavo Capela

Numa reunião do fórum de extensão da Universidade de Brasília, realizada na semana passada, um professor “progressista” anunciou aos alunos que a extensão como parte do tripé universitário (ensino, pesquisa e extensão) ainda precisava alcançar o século XX. Criticava o argumento da menina que, com os olhos brilhando em razão do projeto que ela desenvolvia junto com seus colegas, autonomamente, dizia querer mudar o mundo. “Antes de mudar o mundo”, dizia ele, “precisamos nos ocupar em trazer a universidade ao século XX”.

Esse pensamento ilustra o que muitos encaram como uma crítica de quem se preocupa com os rumos do país, de quem pensa, estuda e vive a tentativa de transformação da sociedade. Clamam pelo aprimoramento tecnológico, científico, educacional, chamando o país, em síntese, de atrasado. Mas, que mal lhe pergunte, atrasado em relação a o quê? Em relação, claramente, a um modelo de mundo imposto, dado, por situações diferentes da nossa, em locais diferentes do nosso e com culturas – institucionais ou não – diferentes da nossa. Existe, nesse sentido, atraso?

Não entendam errado. Mudança é necessária. E antes que os conservadores de plantão perguntem por que raios d’água uma sociedade com nosso nível de desigualdade, com nossas perspectivas de ascensão social, e com o grau de analfabetismo que temos precisa mudar, digo logo que é por uma questão de ideologia. A grande questão é o tipo de mudança que queremos. Queremos ser uma Suécia tropical? Um estados unidos da América latina? Um reino unido brasileiro? Se sim, realmente, estamos muitíssimos atrasados. Até porque, ainda precisamos vivenciar toda a história deles.

A mudança que o grupo Brasil e Desenvolvimento defende se respalda na necessidade do país se encarar como ele é antes de mais nada. As nossas diferenças regionais, nossas várias línguas, nossas culturas e climas amplíssimos, nosso gosto musical peculiar e nossa forma de resolver tudo com o famoso “jeitinho” são peculiaridades que não coexistem em nenhum outro lugar do planeta. O projeto que busque alterar as estruturas sociais que oprimem o brasileiro comum deve enfrentar, antes de mais nada, os problemas que são especificamente nossos. Os países e nações de sucesso histórico devem servir de exemplo em algumas ocasiões, certamente, mas jamais figurarem como modelo a ser buscado.

Não nos tornamos os melhores jogadores de futebol do planeta jogando como os ingleses nos ensinaram. Não tocamos música como um americano, não importamos a bossa nova. Não fazemos comida como os italianos, nossas pizzas têm chocolate e cream cheese – ao mesmo tempo! Guimarães Rosa não virou o melhor escritor da língua tentando ser o próximo Mark Twain, ou Dostoiévski. Temos um estilo próprio, temos uma forma de agir própria e as instituições sociais deveriam se adequar ao que nos faz brasileiros. Ao invés de importar modelos prontos, deveríamos privilegiar nossas jabuticabas e nos lançarmos no experimentalismo institucional que um país diversificado como o nosso requer.

A política e as conseqüentes políticas públicas devem sim almejar a mudança do mundo e não diminuir o atraso segundo uma concepção que não nos tem ao centro. Estamos aqui, vivemos em sociedade aqui, em nosso país. É sempre a partir (desde) dele que deveríamos enxergar o mundo.

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3 respostas em “Projeto à lá brasileira

  1. Memes são um patrimônio universal da humanidade. Graças ao nosso cérebro grande, e ao correspondente prazer de nossa espécie em “macaquear”, podemos valer-nos de atalhos precisos, construídos com experiência alheia.

    (A propósito: macacos, na verdade, não são bons macaqueadores, por isso não voam tão longe quanto nós em produção e reprodução de cultura).

    Ora, sendo assim, a postura antropofágica é a que faz mais sentido. Copiemos e transfiguremos — macaqueemos — a experiência alheia, adequando-a de maneira a caber mais confortavelmente em nossos pés.

    Todavia, considerando que temos uma população relativamente deseducada e miserável — em razão do péssimo ensino público fundamental e da baita concentração de renda, respectivamente — é bastante possível que tenhamos mais a aprender e macaquear, do que provavelmente a ensinar.

    Mas quem sabe um dia devolvamos Mozarts e Thomas A. Edisons tupiniquins, para compensar os que já ganhamos por mamar nas tetas deliciosas de nossa gloriosa civilização ocidental.

    • Legal. Mas acho que falta, sobretudo, conversar com quem tem problemas parecidos com os nossos, e ver o que estão fazendo. Experimentar, sim. Mas não adiantar reinventar a roda. Isso não é inovação institucional. Fazer essa distinção é fundamental – e só dá para fazê-la conhecendo os outros, e bem.

      Abraços.

  2. Pingback: O Brasil que nasce da rua: o desenvolvimento desde a planície « Brasil e Desenvolvimento

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