Hegemonia e contra-hegemonia: fim do consenso e perspectivas latino-americanas…

Por Rodrigo Santaella

O último quarto do século XX, na América Latina, assistiu ao advento do neoliberalismo na região. Tendo sido considerado em sua época como a solução de todos os problemas relacionados ao “atraso” do continente, o consenso de Washington foi, em diferentes níveis e épocas, adotado em todos os países do continente, com a exceção óbvia de Cuba. Este receituário econômico-social para o continente atendia a interesses claros do capital estrangeiro, na medida em que adequava os mercados latino-americanos para o funcionamento do capitalismo em sua forma globalizada.

É importante entender que o termo “consenso” não está posto aqui por acaso. Em seu período de instauração e posteriormente durante os primeiros anos do neoliberalismo no continente, principalmente na década de 80 e inícios dos 90, o clima intelectual, político e social existente no continente lembrava bastante um clima consensual. Isso, entretanto, se deve menos às qualidades do projeto imposto do que às condições históricas que levaram até ele. O período anterior ao advento neoliberal no continente havia sido o período das ditaduras militares, que gerou uma situação de crise econômica bastante grave. Além disso, é importante entender que a eliminação ideológica da esquerda do continente, a eliminação física direta, a desarticulação política, o exílio, enfim, o enfraquecimento da esquerda como um todo por parte das ditaduras militares, abriu caminho para as transições pacíficas para a democracia no continente. A democracia havia sido a maior bandeira de luta dos movimentos sociais e da esquerda latino-americana durante toda a segunda metade do século XX, o que fez com que a democratização trouxesse certa dose de alívio aos que restaram dessa esquerda, era como se o dever tivesse sido finalmente cumprido. Entretanto, tratava-se de uma democracia apresentada necessariamente como acompanhante do neoliberalismo. Era como se uma coisa dependesse diretamente da outra, como se tudo fosse um pacote só. Somando esses três fatores: enfraquecimento da esquerda, democratização do continente e profunda crise econômica, o neoliberalismo aparecia de fato como uma solução infalível para todos os problemas. Neste sentido, intelectuais, políticos, economistas, jornalistas, e sociedade civil como um todo saudavam a solução neoliberal como a abertura das portas para a modernização do continente. A idéia do neoliberalismo havia se tornado hegemônica em todo o sentido gramsciano que essa concepção pode trazer: tanto na sociedade civil, quanto na sociedade política os questionamentos a esta lógica eram totalmente escassos.

Com o passar dos anos, contudo, e com as conseqüências perversas que passaram a ser percebidas, esse quadro consensual começou a sofrer algumas inflexões. Primeiro os movimentos sociais do continente começaram a reorganizar-se, e a esquerda como um todo passou a tomar fôlego novamente. Exemplos como o MST no Brasil e o movimento cocaleiro na Bolívia são bastante ilustrativos neste sentido. Além disso, aos poucos foi se formando no âmbito das sociedades civis latino-americanas um sentimento de que os problemas econômicos não tinham sido resolvidos como prometera a agenda neoliberal, e que, o pior, os problemas sociais estavam se agravando. O aumento da pobreza e da desigualdade, e as enormes crises econômicas que entraram os países ao longo da década de noventa e início dos anos 2000, tendo o México como pioneiro em 1994, seguido depois por todos os demais, Argentina, Brasil, etc., foram a gota d’água na percepção de que o neoliberalismo não era uma solução milagrosa, muito pelo contrário parecia ser o grande responsável por essas conseqüências, na medida em que as situações dos países invariavelmente pioravam.

A essa percepção seguiu-se uma estratégia defensiva dos movimentos sociais e da esquerda no continente. A hegemonia do neoliberalismo já passava a ser questionada, mas ainda não se percebia um projeto concreto de contra-hegemonia. A estratégia ia no sentido de resistir às ofensivas neoliberais, de garantir no mínimo a continuação das condições existentes, de não permitir nenhum recuo de direitos e nem a piora da situação social. Aos poucos, de forma bastante gradativa, a partir dessa lógica de resistência aos ataques neoliberais, um projeto de contra-hegemonia foi-se construindo dentro da esquerda do continente, principalmente entre os movimentos sociais. A sociedade civil latino-americana, em sua maioria, passou a questionar-se também a respeito do tema. Esses questionamentos deram um pouco mais de ímpeto aos movimentos, que passaram a pensar mais concretamente em uma estratégia ofensiva, de passar a propor alternativas contra-hegemônicas.

O resultado de todo esse processo de maturação do surgimento de um projeto contra-hegemônico que viria a se contrapor ao neoliberalismo pôde ser visto nas urnas, a partir do finalzinho do século XX. Ainda que com muitas diferenças entre os diversos contextos nacionais e com algumas exceções como Colômbia e México, as eleições de Hugo Chávez na Venezuela em 1998, de Lula em 2002 e 2006 no Brasil, dos Kirchner em 2003 e 2007 na Argentina, de Evo Morales na Bolívia em 2005, de Daniel Ortega na Nicarágua em 2006, de Rafael Correa no Equador em 2007 e de Fernando Lugo no Paraguai em 2008 demonstram mudanças significativas nos processos políticos da América Latina. Tudo indica que estas eleições sinalizam uma crítica, por parte dos setores dominados dos países latino-americanos, aos modelos econômicos e políticos tradicionais que historicamente foram adotados no continente. Apesar de todas as diferenças existentes, às vezes enormes, entre os projetos políticos destes países, todas essas eleições representaram, sem sombra de dúvida, a insatisfação da sociedade civil com o modelo neoliberal implantado nos últimos anos. Neste sentido, houve claramente uma ruptura com o consenso neoliberal: a hegemonia voltou a estar em disputa.

A única coisa que se pode afirmar com segurança atualmente a respeito de toda essa “virada à esquerda” que viveu e vive a América Latina é que o consenso neoliberal acabou. É importante, porém, entender até onde pode ir o significado dessa afirmação. Afirmar que o consenso acabou não significa que o projeto neoliberal tenha sido derrotado e que agora vai chegar um momento de glória e verdadeiro crescimento para o continente. Longe disso. Significa apenas que não existe mais consenso. A América Latina voltou a polarizar-se politicamente, e agora existem, de fato, projetos alternativos ao projeto neoliberal, principalmente na Venezuela, Bolívia e Equador. Esses projetos são nacionais e bastante diferentes entre si, o que torna necessário e bastante fecundo o estudo de cada um deles separadamente. Entretanto, entender o movimento geral do continente e o contexto internacional no qual todo este debate está inserido é essencial para ter-se a dimensão das mudanças que estão ocorrendo e das perspectivas do que pode vir a ocorrer no continente.

Ainda que sejam projetos nacionais diferentes entre si, e que em cada um deles existam limites e falhas, existe inegavelmente uma busca de integração internacional destes países, o que torna todo o movimento de contestação ao neoliberalismo mais forte. Neste sentido, pode-se imaginar em longo prazo que os projetos alternativos possam se aprofundar e se consolidar enquanto alternativas viáveis às políticas historicamente impostas para a América Latina. Ao tratar desta quebra de hegemonia e deste projeto de contra hegemonia, que defende os recursos naturais, a integração continental, a reformulação das constituições, entre outras coisas, não se pode minimizar o papel dos movimentos sociais neste processo. Apesar de a virada à esquerda ser assim chamada a partir das vitórias eleitorais de determinados candidatos, ela se dá na verdade no âmbito da sociedade civil, e principalmente da parcela organizada desta. São na verdade os movimentos sociais que podem dar sustentabilidade em longo prazo para que esses processos se consolidem. As tentativas de golpe na Venezuela e na Bolívia, que foram impedidas justamente pelas ações da população organizada, são exemplos claríssimos disso. O caso atual de Honduras é também esclarecedor neste sentido: na medida em que o apoio dos movimentos sociais hondurenhos a Zelaya não é tão forte como nos casos boliviano e venezuelano, é mais complicado resistir internamente à deposição forçada do presidente, e a resolução do problema passa a contar com a participação internacional. Para que o fim do consenso neoliberal signifique de fato avanços políticos, sociais e econômicos profundos para a América Latina, é imprescindível que estes movimentos mantenham-se organizados e que, gradativamente, passem a participar cada vez mais das decisões estatais.

Implantar um novo sistema na América Latina, já dizia Mariátegui com relação ao socialismo, é tarefa que exige muita luta e criatividade. Imaginar o socialismo como sendo democracia sem fim, como faz Boaventura de Sousa Santos, é sem dúvida uma maneira inovadora de abordar a questão. Trazer essa abordagem à América Latina e aprofundar a democracia direta com a participação dos movimentos sociais como protagonistas do processo pode garantir passos importantes na direção de um novo projeto de sociedade no continente e no mundo. A responsabilidade passa pelos governos, mas termina nos movimentos sociais. São estes os principais responsáveis pelo que pode acontecer na América Latina nos próximos anos, no que diz respeito a alternativas ao projeto capitalista que sempre nos foi imposto. Estamos sendo observados como o laboratório político mais interessante do planeta, atualmente. Que, então, aprofundemos as inovações e assumamos o papel de protagonistas da construção de novos modelos de gestão estatal, relação estado/sociedade civil e, principalmente, de democracia. Rumo à democracia intensa, à democracia sem fim.

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9 respostas em “Hegemonia e contra-hegemonia: fim do consenso e perspectivas latino-americanas…

  1. Que tal lermos a versão da história que o verdadeiro inventor do termo — o famoso economista John Williamson — tem a oferecer? Assim, perceberemos que menos do que uma conspiração internacional para escravizar países subdesenvolvidos, o consenso de Washinton de fato refletia um conjunto de idéias que circulavam em Washington no final dos anos oitenta, e que buscavam solucionar certas aporias a que nosso modelo de desenvolvimento estatocêntrico — nitidamente esgotado à época — nos havia conduzido.

    O trecho que colo abaixo consta do livro “The Washington Consensus Reconsidered – Towards a New Global Governance”, editado por Narcís Serra e Joseph Stiglitz. É composto por artigos de vários economistas famosos — Krugman, Blanchard e Rodrik, entre eles e sem dúvida é o melhor que já encontrei até agora sobre o tema.

    The term ‘Washington Consensus’ was coined in 1989. The first written usage was in my background paper for a conference that the Institute for International Economics convened in order to examine the extent to which the old ideas of development economics that had governed Latin American economic policy since the 1950s were being swept aside by the set of ideas that had long been accepted as appropriate within the OECD. In order to try and ensure that the background papers for that conference dealt with a common set of issues, I made a list of ten policies that I thought more or less everyone in Washington would agree were needed more or less everywhere in Latin America, and labeled this the ‘Washington Consensus.’ Little did it occur to me that 15 years later, I would be asked to write about the history of a term that had become the center of fierce ideological controversy.
    The first section of this chapter describes what I recollect about the circumstances of my background paper for the 1989 conference. The second section retraces much more familiar ground, summarizing the ten points that I included in the Washington Consensus. This is followed by an account of the reception given to the term, and the analysis. The next section tries to account for the fact that the term became used in such different ways in different quarters and thus to be at the center of ideological controversies. The last substantive section is forward-looking, and describes what I believe needs to be added to my original list in order to formulate a policy agenda for Latin America today.

    Background
    The story started in the spring of 1989 when I was testifying before a Congressional committee in favor of the Brady Plan. I argued that it would be good policy to help the debtor countries overcome their debt burden, now that they were making profound changes in economic policy, along the lines advocated by Balassa et al. (1986). I encountered rank disbelief in the congressmen before who I was testifying that there were any significant changes in economic policies and attitudes in process in Latin America. After discussion with Fred Bergsten, the Director at the Institute for International Economics where I was (and am) professionally located, we decided to convene a conference to test the extent to which I was correct and to put the change in policy attitudes on the record in Washington.
    A few weeks later, I gave a seminar at the Institute for Development Studies in England, where I made much the same argument. I was challenged by Hans Singer to spell out what I meant when I said that many of the countries were changing their policies for the better. This emphasized the need to be very explicit about the policy changes of which I was thinking. I decided that the conference that we were planning for the autumn, which we decided to call ‘Latin American Adjustment: How Much Has Happened?’ needed a background paper that would spell out the substance of the policy changes in which we were interested.
    That paper, which was entitled ‘What Washington Means by Policy Reform,’ was sent to the ten authors who had agreed to write country studies for our conference, in an attempt to ensure that they addressed a common set of issues in their papers. That paper said, inter alia, on its opening page:

    This paper identifies and discusses 10 policy instruments about whose proper deployment Washington can muster a reasonable degree of consensus. . . . The paper is intended to elicit comment on both the extent to which the views identified do indeed command a consensus and on whether they deserve to command it. It is hoped that the country studies to be guided by this background paper will comment on the extent to which the Washington consensus is shared in the country in question . . .

    The Washington of this paper is both the political Washington of Congress and enior members of the administration and the technocratic Washington of the international financial institutions, the economic agencies of the U.S. government, the Federal Reserve Board, and the think tanks. The Institute for International Economics made a contribution to codifying and propagating several aspects of theWashington consensus in its publication Towards Renewed Economic Growth in Latin America.
    (Balassa et al. 1986)

    My opinion at that time was that views had pretty much coalesced on the sort of policies that had long been advocated by the OECD. I specifically did not believe that most of the ‘neoliberal’ innovations (I use the word ‘neoliberalism’ in its original sense, to refer to the doctrines espoused by the Mont Pelerin Society. If there is another definition, I would love to hear what it is so that I can decide whether neoliberalism is more than an intellectual swear word.) of the Reagan administration in the United States or the Thatcher government in Britain had survived the demise of the former (Mrs Thatcher’s government was still in its death throes at the time). The exception was privatization, which was Mrs Thatcher’s personal gift to the economic policy agenda of the world, and which, by 1989, had proved its worth. But I thought all the other new ideas with which Reagan and Thatcher had entered office, notably monetarism, supply-side economics, and minimal government, had by then been discarded as impractical or undesirable fads, so no trace of them can be found in what I labeled the ‘Washington Consensus.’ Of course, acceptance as relevant to the developing world of ideas that had long been motherhood and apple pie in the developed world was a momentous change. All through the Cold War, the world had remained frozen in the 1950s’ classification of First, Second, and Third Worlds, each of which was assumed to have its own distinct set of economic laws. The year 1989 marked the end of the Second World, to the great relief of most of its subjects, and also the end of the intellectual apartheid that had so long assumed that citizens of the Third World behaved quite differently than those of the FirstWorld. But the globalization of knowledge never meant general acceptance of neoliberalism by any definition I know.

    Content of the Original List
    The ten reforms that constituted my list were as follows:
    1. Fiscal discipline. This was in the context of a region where almost all countries had run large deficits that led to balance of payments crises and high inflation, which mainly affected the poor because the rich could stow their money abroad.
    2. Re-ordering public expenditure priorities. This suggested switching towards pro-growth and pro-poor expenditures, from things like non-merit subsidies to basic health care, education, and infrastructure. It did not call for the entire burden of achieving fiscal discipline to be placed on expenditure cuts; on the contrary, the intention was to be strictly neutral about the desirable size of the public sector, an issue which even a hopeless consensus seeker like me did not imagine that the battle had been resolved with the end of history that was being promulgated at the time.
    3. Tax reform. The aim was a tax system that would combine a broad tax base with moderate marginal tax rates.
    4. Liberalizing interest rates. In retrospect, I wish I had formulated this in a broader way as financial liberalization, stressed that views differed on how fast it should be achieved, and—especially—recognized the importance of accompanying financial liberalization with prudential
    supervision.
    5. A competitive exchange rate.3 I fear I indulged in wishful thinking in asserting that there was a consensus in favor of ensuring that the exchange rate would be competitive, which essentially implies an intermediate regime; in fact, Washington was already beginning to edge towards the two corner doctrine, which holds that a country must either fix firmly or else it must float ‘cleanly.’
    6. Trade liberalization. I acknowledged that there was a difference of view about how quickly trade should be liberalized, but everyone agreed that this was the appropriate direction in which to move.
    7. Liberalization of inward foreign direct investment. I specifically did not include comprehensive capital account liberalization, because I did not believe that it did or should command a consensus in Washington.
    8. Privatization. As noted already, this was the one area in which what originated as a neoliberal idea had won broad acceptance.We have since been made very conscious that it matters a great deal how privatization is done: it can be a highly corrupt process that transfers assets to a privileged elite for a fraction of their true value, but the evidence is that it brings benefits (especially in terms of improved service coverage) when done properly, and the privatized enterprise either sells into a competitive market or is properly regulated.
    9. Deregulation. This focused specifically on easing barriers to entry and exit, not on abolishing regulations designed for safety or environmental reasons, or to govern prices in a non-competitive industry.
    10. Property rights. This was primarily about providing the informal sector with the ability to gain property rights at acceptable cost (inspired by Hernando de Soto’s analysis).

    O capítulo continua, mas para não ficar grande demais o post, peço que os interessados em dar uma olhada no livro (que vale a pena dar uma treslida) mo peçam pelo e-mail thiagomoliva@gmail.com .

    Percebam que não há nada de muito “irrazoável” na lista de pontos “consensuados” coligida pelo williamson (o inventor do termo “consenso de Washington”, reitere-se, tanto que o próprio Brasil adotou com sucesso várias dessas políticas. Quem não adotou a cartilha hoje está “se danando” (para não dizer coisa pior, hehehe), como mostram vários países de nossa América Latina (mas não o Chile ou o Brasil, por exemplo).

    • Que o consenso de Washington era consenso em Washington não há dúvidas, Thiago. Além disso, é importante entender que ele existe, ou que suas políticas começaram a ser aplicadas aqui na América Latina antes da criação do termo.
      Da maneira como vejo as coisas, e como escrevi no texto, todos os países da América Latina, com a exceção de Cuba, adotaram a cartilha neoliberal, alguns com mais ou menos intensidade, mas invariavelmente foram adotadas as reformas propostas, então não consigo enxergar quais seriam esses países que estão “se danando” por não terem cumprido a cartilha. Na grande maioria dos casos, os cumpridores da cartilha tornaram-se países mais desiguais (e algumas vezes menos pobres, é bom que se diga). A Bolívia cumpriu à risca, por exemplo, e segue sendo o país mais pobre da América do Sul. No Brasil a pobreza diminuiu, mas a desigualdade aumentou. No Chile, sem dúvida o país que apresentou melhores resultados com a cartilha neoliberal, não podemos esquecer dos pilares formados no governo de Salvador Allende, que sustentaram muitos dos resultados depois atribuídos às políticas neoliberais, como na área de educação, por exemplo.

  2. Uma coisa: leiam atentamente o decálogo original do Consenso de Washington, e respondam em seguida: em que medida o governo Lula representa de fato uma reação a ele?

    Não representa, caramba!

    O Consenso de Washington, por incrível que pareça, é do bem! Por mais que certa retórica esquerdista tente dizer o contrário, o governo Lula prosseguiu — para o bem ou para o mal — as macro-políticas econômicas do governo FHC em quase todas as áreas que “realmente importam”.

    Senão, vejamos: propornho olhar ponto por ponto do decálogo e ver como o governo Lula se sai na questão:

    1) Disciplina fiscal: o governo Lula manteve as conquistas consolidadas com a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal, e seu governo vem sido marcado por constates superávits primários, muitas vezes até mesmo maiores do que as “metas” inicialmente estabelecidas.

    2. Reordenação das prioridades com gastos públicos, com êfase em Investimentos em saúde, educação e infra-estrutura. Checa, também, apesar do BNDES (que continua muito generoso com os “muy amigos” do governo de plantão) e de outros gastos governamentais inúteis.

    3. Reforma tributária: não foi feita. Nosso sistema tributário continua maluco, bizantino, complexo. Mas DEVE ser feita, e é uma grande decepção o governo Lula não term empenhado parte de seu capital político para tentar resolver essa questão.

    4. Liberação de taxas de juros: nossa Constituição em sua redação inicial tinha um dispositivo estúpido que limitava a taxa de juros a 12% aos anos. O STF foi sábio em limitar ao máximo sua aplicabilidade, até que um dia ele foi simplesmente chutado de nossa constituição, por uma emenda.

    5. Taxa de câmbio “competitiva”: esse ponto nunca foi consensual, como admitiu o próprio Williamson. Mas hoje seguimos uma espécie de “flutuação suja”, um modelo respeitável, adotado em vários outros lugares — ainda que, aparentemente, para países em desenvolvimento como o nosso, uma política chinesa de câmbio desvalorizado pudesse ser bem melhor;

    6. Liberalização do comércio internacional: Uêba, se não checa! Graças a essa liberação posso digitar esta mensagem para vocês, de um laptop de última geração. Tivéssemos no início da década de 90, nossa única esperaça seria… muamba (que naquelas condições era menos um crime do que um ato de desobediência civil plenamente justificado, hehehe: sem whisky importado do Paraguai, nossa Bossa Nova teria sido muito menos divertida e rica, que o digam as festas regadas a whisky contrabandeado em casa de Vinícius, Tom Jobim e Cia.!

    7. Liberalização de investimento estrangeiro: Balança de pagamentos sempre foi o calcanhar de aquiles de nossa economia. Mas essa é outra mudança que veio para ficar, e que persiste no governo Lula.

    8. Privatização: até onde saiba, Lula não desfez nenhuma privatização, que deu resultados ótimos na maior parte dos setores em que foi feita. Se você tem um celular e uma linha fixa em casa, saiba que isso não teria sido possível sob o monopólio infame da infame Telebrás;

    9. Desregulação: esse é outro ponto que vale a pena ressaltar, apesar de hoje estar fora de moda. Temos de lembrar que a economia brasileira pré anos 90 era CARTELIZADA e toda atravancada por controles de preços determinados pelo Estado. Se a desregulação foi longe demais em alguns setores, como o setor financeiro (sendo, mesmo, uma das causas para a crise atual), na maior parte dos demais setores era um imperativo de racionalização, especialmente em países tão infensos ao livre mercado quanto era nosso Brasil antes doa nos 90.

    10. Direitos de propriedade. tentativa de trazer o setor informal para a formalidade. Não deu certo, no Brasil, e pode ser uma fonte de ineficiência importante em nossa economia, uma vez que direitos de propriedade claramente definidos favorecem a eficiência alocativa.

    • Sem dúvida que Lula não representa uma reação, em termos de política macroeconômica, ao que foi o Consenso de Washington. O que quis dizer, e reproduzo aqui o texto, é que a eleição dessas figuras – Lula incluído – na América Latina, representou, sim, uma demonstração de insatisfação popular com o que existia anteriormente. Ou você acha que o eleitorado tinha clareza de que Lula representaria o mesmo que FHC em política econômica?

      “Tudo indica que estas eleições sinalizam uma crítica, por parte dos setores dominados dos países latino-americanos, aos modelos econômicos e políticos tradicionais que historicamente foram adotados no continente. Apesar de todas as diferenças existentes, às vezes enormes, entre os projetos políticos destes países, todas essas eleições representaram, sem sombra de dúvida, a insatisfação da sociedade civil com o modelo neoliberal implantado nos últimos anos. Neste sentido, houve claramente uma ruptura com o consenso neoliberal: a hegemonia voltou a estar em disputa.”

      É claro que, dentre os citados aí, Lula é um dos que mais cumpre a cartilha neoliberal, nas coisas que “realmente importam”, como você falou. Entretanto, a eleição do Lula – e por isso tanta gente se decepcionou – buscava outra coisa. Se acreditava que o governo do PT poderia, de fato, apresentar alternativas no que diz respeito à política econômica para o país. Doce ilusão.
      O fato de que não se esteja fugindo da cartilha neoliberal com o governo do PT não significa que, quando este foi eleito, em 2002, a população esperasse isso dele. Justamente por isso a decepção foi e é tão grande em grande parte da sociedade. E justamente por isso fica cada vez mais difícil, para a população, diferenciar o PT do PSDB, por exemplo, algo antes completamente impensável (quando o discurso do PT era contrário à cartilha neoliberal).

  3. “Estamos sendo observados como o laboratório político mais interessante do planeta, atualmente.”

    Daqui da França, eu reafirmo essa impressão. Não desperdicemos a nossa experiência!

    Abraço!

  4. Repassem se possivel.

    MST ocupa fazenda grilada pela Cutrale
    A grande imprensa no último dia 05 de outubro alardeou a “invasão” de terra provocada por integrantes do MST. Em voos razantes a PM captou imagens de um trator cortanto pés de laranja. Como é de costume, a mídia apresenta os fatos sem uma necessária contextualização do problema com o intuito claro de colocar a opinião pública contra os movimentos sociais. Esses movimentos lutam pelo real desenvolvimento social do país frente ao grande crescimento econômico que aquece a conta corrente daqueles que estão no topo da escala social.

    A região mostrada na imprensa, Aras, Agudos, Borebi, no centro-oeste do Estado de São Paulo, onde hoje a empresa Cutrale tem imensas plantações de laranja, tem sua história abafada pelos interesses dos grandes latifundiários brasileiros. Vamos a ela então.

    No início do século XX o Governo Federal destinou naquela região mais de 50 mil hectares para a colonização italiana. No entanto, isso não foi possível pois os fazendeiros do café entendiam que essas terras para colonização italiana diminuiriam a oferta de trabalho barato nas plantações de café, e como é de costume, impediram que essas terras fossem destinadas para o fim proposto.

    Com o passar do tempo esses 50 mil hectares foram sendo grilados por grandes empresas, principalmente madeireiras. Um pouco mais recente é a entrada da Cutrale nessa região através de terras griladas. Hoje a Cutrale mantém ali uma plantação de cerca de 4 mil hectares apenas de laranja. Só a título de exemplo, com esse número mais de 130 famílias poderiam estar assentadas e plantando alimentos necessários para a alimentação da população, já que não só de laranja vive o homem.

    Essas terras da região centro-oeste são uma reinvidicação de mais de 15 anos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra para que ela seja destinada a reforma agrária e contribua para a melhora do quadro social do país. Segundo o INCRA, orgão governamental que regula a reforma agrária, a invasão da Cutrale é ilegal e as terras deveriam ser devolvidas ao governo federal.

    Mais de 350 famílias ocupam essa região como forma de pressão para que as terras do governo sejam destinadas à reforma agrária. Parece inconcebível que uma mega empresa, através de meios obscuros como é a grilagem, explore a terra apenas para lucro próprio sem ter pago nenhum centavo, enquanto milhares de famílias continuam na luta por um pedaço de terra agricultável.

    Na região de Borebi alguns pés de laranja, entre os 4 mil hectares plantados, foram derrubados para que arroz, feijão, milho, batata pudessem ser plantados. Não nos esqueçamos nunca que a reforma agrária é imprescindível para a construção de um país realmente justo, democrático e menos desigual.

    Enquanto o Brasil continuar com uma ditribuição fundiária quase feudal, os números midiáticos continuarão nos falando lindas mentiras e a realidade, duras verdades.

    Lembrando de João Cabral de Melo Neto, pergunto: qual será a parte que cabe ao povo neste latifúndio chamado Brasil?

    http://www.cacoffunesp.blogspot.comcacoffunesp@gmail.com

  5. Isso que o colega acima escreveu é off-topic, logo errado na forma. Tudo bem.

    O problema é que é errado também na substância. Defender o que o MST fez naquela fazenda é defender que eu possa ir até a sua casa, sujá-la, pichá-la, queimar seu computador e depois ainda sair numa boa, com a consciência de que “lutei contra o latifúndio”. Se Gramsci justifica isso, então há que se colocá-lo severamente em perspectiva.

    Aqui a reportagem da Folha de São Paulo, publicada hoje (sábado):

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    MST deixa plantação após depredar imóveis e tratores
    Faxineira da Cutrale diz que foram levados DVD, TV, rádio, chuveiro e “até as lâmpadas’

    Líderes do MST dizem que as acusações são “armação” contra o movimento e que eles só destruíram 3.000 pés de laranja da propriedade

    Cristiano Zanardi/Agência Bom Dia

    Sem-terra durante desocupação de fazenda da Cutrale em Iaras
    (São Paulo) após decisão de reintegração de posse da Justiça

    MAURÍCIO SIMIONATO
    DA AGÊNCIA FOLHA, EM IARAS

    Um cenário de destruição e depredação foi encontrado na fazenda de plantação de laranja da Cutrale em Iaras (271 km de São Paulo), desocupada ontem pelo MST após decisão de reintegração de posse da Justiça.
    Famílias de funcionários que moram na fazenda disseram que suas casas foram depredadas e tiveram objetos furtados.
    Todos os 28 tratores da fazenda foram danificados (tiveram a bateria e outras peças retiradas), sendo que dois foram desmontados. Quatro caminhões também foram danificados. Os veículos foram pichados com a sigla MST. Defensivos agrícolas foram esparramados pelo chão e pelas paredes. Um computador foi queimado.
    “Levaram DVD, TV, rádio, roupas, calçados, inalador, ferro de passar roupa, o chuveiro e até as lâmpadas e as torneiras”, declarou Silvana Fontes, 37, cozinheira e faxineira da sede da fazenda. A Folha foi à casa dela e viu que a janela apresentava sinais de arrombamento.
    Silvana, casada há três meses com um vigilante da empresa, Adriano Feliciano, 30, disse que alguns dos objetos furtados eram presentes de casamento e nem sequer haviam sido tirados das caixas. “No dia em que invadiram, deram duas horas para sairmos de casa.”
    A Folha entrou na fazenda após o MST deixar o local. Na frente da casa de um dos funcionários, um poste e um muro foram derrubados com tratores. Apenas uma das nove casas não foi arrombada. A sede da fazenda também tinha sinais de vandalismo, como pichações e lixo jogado pelo chão.
    A Cutrale e as polícias Civil e Militar atribuem o vandalismo, o furto e a destruição ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que havia invadido a área no último dia 28, com 250 famílias.
    Os líderes do MST disseram ontem que as acusações são “uma armação na tentativa de criminalizar o movimento”.
    Pelo menos 120 homens da PM, da Polícia Ambiental, da Polícia Rodoviária, do Corpo de Bombeiros e da Polícia Civil cercaram o local no início da manhã -a PM mobilizou um helicóptero para a operação.
    Os integrantes do MST deixaram o local sem resistir à ordem de reintegração de posse, determinada anteontem pela Justiça do Estado, atendendo a pedido da Cutrale. Eles saíram em três caminhões cedidos pela Cutrale e em carros particulares. Foram para assentamentos e casas de parentes.
    No início da semana, os invasores destruíram parte da plantação de laranjas com um trator. Segundo o MST, foram 3.000 pés. Segundo a Cutrale, foram destruídos entre 7.000 e 10 mil pés. Os prejuízos com a ação podem chegar a R$ 3 milhões. A fazenda tem cerca de 1 milhão de pés de laranja.

    Investigação
    A Polícia Civil abriu inquérito. Segundo o delegado Jader Biazon, serão apurados os crimes de formação de bando ou quadrilha, esbulho possessório, dano e furto qualificado.
    O MST alegou que a área pertence à União e a Cutrale se apropriou indevidamente.
    O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de SP disse que a sociedade deve ficar “atenta aos desdobramentos dessas ações, porque elas comprometem a própria existência da democracia”.

  6. Thiago, citar Fábio Meirelles, presidente da FAESP há mais de 30 anos, um cara que nunca plantou um pé de couve (ele é de Franca, minha cidade), que se reelege dominando os sindicatos rurais paulistas no mais puro peleguismo clássico, como defensor da democracia, é uma falha gravíssima. Esse senhor não possui qualquer moral para criticar autoritarismo algum.

  7. Venezuela e Cuba, especialmente, apesar de trazerem perspectivas contra-hegemônicas para sua organização econômica, ainda estão presas a um velho paradigma latino americano de organização política: o personalismo e a tendência ao autoritarismo messiânico.

    Acho que precisamos aprender a fazer juízos mais pontuais quanto a esses países: elogiar sua capacidade de reação e inventividade na organização econômica e social, mas sem perder a capacidade de crítica quanto à sua organização política e à restrição de liberdades.

    Não será possível abordar uma reordenação econômica e social dentro de um modelo político efetivamente democrático, que respeite liberdades e minorias? Não acho que esse modelo político seja restrito ao liberalismo econômico, então não precisa estar vinculado a ele.

    Passo agora à crítica de um trecho do post:

    “Trazer essa abordagem à América Latina e aprofundar a democracia direta com a participação dos movimentos sociais como protagonistas do processo pode garantir passos importantes na direção de um novo projeto de sociedade no continente e no mundo.”

    Também acho que a participação da sociedade civil nos processos decisórios é fundamental para a efetiva concretização da democracia, mas quando você propõe “democracia direta”, eu costumo associar isso à realização de plebiscitos e referendos; nesse caso, não acredito que seja o melhor caminho para superação do impasse hoje colocado pela falta de eficiência da democracia representativa.

    Napoleão governava com farto uso de plebiscitos e referendos. Fazia uso deles para legitimar suas ações e esmagar opositores, e era, sem dúvida, um líder autoritário, um Imperador. Esses instrumentos clássicos de democracia direta não apresentam, em verdade, todos os outros requisitos de um procedimento democrático: a esfera pública, o espaço de debate, a preservação das minorias. O risco é tornar a disputa política um eterno debate demagógico, para agradar o grande número. Ser democrático implica, algumas vezes, em tomar decisões contra o desejo da maioria.

    Por esses motivos, critico essa visão de que a melhor forma de inclusão da sociedade civil no processo político seja por meio da democracia direta. Acho que precisamos escolher e criar mecanismos que permitam a transparência na atuação pública, o controle dos atos do Estado, ao mesmo tempo em que preservamos liberdades fundamentais, os direitos das minorias.

    Isso sem falar no poder exacerbado das mídias de massa em um sistema que recorre constantemente ao voto popular para legitimar seus atos.

    Enfim, sugiro outros caminhos para inclusão da sociedade civil no debate. Via muito potencial, por exemplo, na criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, mas esse potencial não foi devidamente aproveitado.

    Essa é minha crítica à sua proposta de democracia direta dos movimentos sociais. Ou você quis dizer algo diferente do que entendi com a expressão “democracia direta”?

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