Um mundo de transformações pela frente

Por Edemilson Paraná

O IPEA divulgou no último dia 24, o 30º Comunicado da Presidência, com as primeiras análises qualitativas dos dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios) do IBGE.

O documento, de 26 páginas, traz análises sobre desigualdade de renda, evolução recente da pobreza e da desigualdade, e trata das condições de vida, da qualidade dos domicílios e acesso a bens.

A conclusão do estudo é clara: avançamos muito, mas ainda há um mundo de transformações pela frente.

Tomemos como exemplo o índice de Gini, que mede a desigualdade de renda: de 60,1 pontos, em 1994 caímos para 54,4, em 2008. A queda acentuada não serviu, no entanto, para tirar o Brasil da metade mais desigual da região mais desigual do mundo. Ainda há muito para ser feito.

O mesmo podemos dizer em relação á assustadora diferença entre remuneração do capital e remuneração do trabalho. Vejamos:

O Coeficiente de Gini é a soma ponderada de uma medida de progressividade de renda, chamada Coeficientes de Concentração, de cada componente da renda. Todo Coeficiente de Concentração varia entre -1 e +1 (ou -100% e +100%). Quanto mais próximo de -1, mais progressiva (pró-pobre) é o tipo de renda cujo Coeficiente de Concentração está sendo calculada; quanto mais próximo de +1, mas regressiva (pró-rico). O Coeficiente de Concentração da renda total é justamente o Coeficiente de Gini.

Os Coeficientes de Concentração das diferentes rendas no Brasil são tão díspares que variam de – 0,416 para o Programa Bolsa Família, até + 0,792 para a renda do capital (juros, dividendos e aluguéis). A variação é tão alta que o estudo optou por representar sua variação em dois gráficos diferentes: um mostra a evolução das rendas progressivas (cujo Coeficiente de Concentração é inferior ao Coeficiente de Gini) e o outro a evolução das rendas regressivas (cujo Coeficiente de Concentração é superior ao Coeficiente de Gini).

A dimensão dos desafios não diminui, no entanto, o valor das relevantes conquistas na área social. Nesse post optei por apontar nossos problemas como um convite á inquietação transformadora, mas é inegável que um longo texto poderia ser escrito apenas para explicar a melhoria nos índices e os avanços que obtivemos na busca por um país mais igual. O estudo comprova que o fortalecimento do salário mínimo e a expansão dos programas de complementação de renda, como o Bolsa Família, tiveram impacto significativo no combate á pobreza e desigualdade. Devemos avançar na consolidação de caminhos como esses. É preciso fortalecer a reversão do histórico movimento de desigualdade ascendente e construir em torno disso um pacto social forte o suficiente para ser irreversível.

As notícias distributivas são extremamente positivas, mas apontam para a necessidade de aprofundar as políticas públicas para a melhoria da distribuição de renda. O Coeficiente de Gini continua caindo, mas ainda falta muito para nossa distribuição de renda chegar a patamares civilizados. Houve aumento na renda do todos os centésimos, mas a renda média mensal do vigésimo mais pobre da população ainda é de meros R$ 32,72 per capita.

Estamos apenas iniciando a construção de nossos consensos fundamentais. Estamos apenas começando uma luta que deve perdurar ainda por muitos anos. Nossa responsabilidade enquanto nação depende do mais edificante e transformador dos compromissos: o compromisso com uma cidadania plena.

Para mais informações

Veja os gráficos sobre distribuição de renda

Veja os gráficos sobre evolução recente da pobreza e da desigualdade

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

5 respostas em “Um mundo de transformações pela frente

  1. A direita anti-populista em qualquer lugar tende a pertencer ao establishment e, portanto, é meio cega para questões redistributivas. Isso é errado, na minha opinião: disparidades muito grandes de renda, mesmo em locais nos quais todos possuem uma renda mínima relativamente elevada, são nocivas para o bem-estar até mesmo psicológico das pessoas.

    Não nos esqueçamos que nossa psicologia foi moldada em grande parte num ambiente ancestral em que diferenças marcadas de condições materiais eram inexistentes. Daí, então, não podermos subestimar os malefícios da desigualdade extrema, malefícios esses que afetam até mesmo a psicologia das pessoas — problemas, portanto, mais graves do que os meramente “sociais”.

    Veja:

    Within the rich world, where destitution is rare, countries where incomes are more evenly distributed have longer-lived citizens and lower rates of obesity, delinquency, depression and teenage pregnancy than richer countries where wealth is more concentrated. Studies of British civil servants find that senior ones enjoy better health than their immediate subordinates, who in turn do better than those further down the ladder.

    And the evidence is that the differences in status cause these “gradients”. Low-caste Indian children do worse on cognitive tests if they must state their identities beforehand. High-status baboons bred in captivity show elevated levels of stress hormones and become ill more often when they are moved to groups where they no longer dominate.

    Perceba que o texto supra não consta de uma publicação esquerdista-darwinista, mas sim da revista de centro-direita mais importante do mundo, The Economist: http://www.economist.com/books/displaystory.cfm?story_id=13176890

    Então, que tentemos controlar as desigualdades — sem constranger demais o indivíduo e a centelha de brilhantismo empreendedor no processo, claro.

    Abraços!

  2. Torço e trabalho politcamente pelo o dia em que a direita brasileira seja composta por pessoas como você, que debatem profundamente a lógica racional (e ideológica) dos argumentos para além dos seus interesses imediatos.

    Esse coronolismo despolitizado da época da colononização só faz da direita brasileira um ator ainda mais deprimente!

  3. Mas vamos começar a discordar:

    Se for preciso constranger (e bastante) alguns poucos individuos em prol de uma sociedade mais igual, não nos enganemos…

    Certos conflitos socio-distributivos são inevitáveis e isso obviamente é transferido para o campo da disputa política! Olha aíí o velho barbudo te assombrando! hauahauhaua

    abs

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