Land Of Plenty de Wim Wenders

Por Laila Maia Galvão

Costumo gostar dos filmes de Wim Wenders… Asas do Desejo, Buena Vista etc. Aluguei, então, um de seus trabalhos recentes: Land of Plenty (com a tradução infame para o português de Medo e Obsessão). O filme conta com a participação da ótima atriz Michelle Williams, que interpreta uma garota filha de pais missionários, que cresceu na África e que morava na Palestina. O ator John Diel, por sua vez, interpreta um veterano da guerra do vietnã que trabalha para a agência especial americana investigando possíveis células terroristas em Los Angeles.

Ele, Paul, é o tio dela, Lana, que se muda para os Estados Unidos e passa a trabalhar num abrigo para os homeless administrado por um pastor. Com a morte de um desabrigado paquistanês chamado Ahmed, os dois se encontram e passam a investigar as possíveis causas do assassinato, possivelmente conectada aos planos de um futuro ataque terrorista com armas químicas.   

Os diálogos são previsíveis e chatos. Há sempre aquele lugar-comum de se referir aos EUA como uma grande nação, aos valores da América etc. O tio representa aquela caricatura de cidadão patriota, que crê que não há nada melhor do que os EUA e que ele deve lutar por seu país e por seus valores a qualquer custo. A sobrinha, de volta à sua terra natal, tenta resgatar sua identidade e suas raízes, ao mesmo tempo em que tenta reestabelecer o vínculo familiar com seu tio. 

A garota é o estereótipo da ativista humanitária, toda meiga e prestativa, inclusive em relação ao tio. Então temos, por um lado, a figura da Lana, que representa uma esquerda cristã, benevolente com os pobres. De outro lado, a figura do tio, conservador por excelência, preconceituoso em relação às culturas mais distantes e cego à pobreza que o cerca. Talvez Wim Wenders tenha tentado desconstruir essas imagens estereotipadas. No entanto, não consegue. Parece que, ao contrário, apenas as reforça.

 A bandeira dos Estados Unidos aparece durante todo o filme, mais do que os próprios personagens. Está no carro do agente, nas placas, nos quadros das casas enfim. Uma verdadeira overdose de vermelho-azul-branco.

Era pra ser uma crítica da sociedade americana? Com imagens da pobreza em Los Angeles e com o acompanhamento do dia-a-dia de um agente paranóico? O que parece ser uma denúncia, no que diz respeito à atuação do agente, passa a ser uma espécie de aprovação, já que ao longo da história é como se desenvolvêssemos uma espécie de simpatia pelo personagem atormentado pelas novas possibilidades de ataque ao seu país.

O que salva o filme é o fato de as investigações da morte do paquistanês não terem resultado em nada. A morte nada tinha que ver com o planejamento de futuros ataques. Foi, na verdade, o resultado da paranóia do próprio agente, que buscava poder ser prestativo ao seu país, para poder salvar vidas. Paul queria nunca mais sentir aquela sensação de impotência que experimentou na ocasião dos ataques de 11 de setembro.

Ao final, os dois, sobrinha e tio, viajam para Nova Iorque. Ao observarem o ground zero, com olhares desolados, repetem uma série de frases senso comum. Não acompanhei a última cena até o final por já estar saturada de tantos clichês. Tenho certeza de que não perdi muita coisa.

A trilha sonora e as imagens, by the way, são ótimas!

Creio que Wenders quis fazer um filme em que pudesse criticar os rumos dos EUA pós-11 de setembro e, ao mesmo tempo, exaltar os valores da América, país pelo qual nutre amor e respeito profundos. Acaba incidindo nos mesmos erros de filmes e livros anteriores, que se focam em apenas nas questões – Por que eles fizeram isso conosco? Para que matar os inocentes trabalhadores do world trade center? -, desprezando uma série de possíveis interpretações e análises que poderiam emergir da tragédia que marcou a história desse nosso novo século e que teve e continua a ter as mais diversas repercussões políticas.  

Já se foram oito anos e ainda não tive a oportunidade de ver uma boa análise do 11 de setembro (alguém sugere algo?). Um dos maiores acontecimentos desse nosso século continua aí, nos assombrando. No entanto, já não são suficientes visões maniqueístas e reducionistas do evento. Mais uma tarefa pro B&D: tentar fazer uma análise (de qualidade) de conjuntura política nacional e internacional nesse século XXI pós-11/09!

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3 respostas em “Land Of Plenty de Wim Wenders

  1. Belo post.

    “Já se foram oito anos e ainda não tive a oportunidade de ver uma boa análise do 11 de setembro (alguém sugere algo?). ”

    Well, em nossa era desencantada de “super-especialização” duvido que encontremos uma boa análise sobre O onze de setembro.

    Existirão, quiçá, apenas análises parciais, que miram na tromba, no tronco, nas patas ou no etc. do elefante.

    O elefante, contudo, persistirá magnífico e insondável, fora do alcance de nossas mãos.

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