O problema dos “ismos”

Por Gustavo Capela

Foi Chris Rock quem falou: “Dizer-se conservador ou liberal (na acepção estadunidense dos termos) em absoluto é burrice. Como todo mundo, sou liberal em certas coisas, conservador em outras.” Veio de um comediante. Queria fazer graça, mas falou coisa séria. Nada mais sensato à política, ao ambiente público, que admitir isso. Tenho mais proximidade ao pensamento de um do que de outro. Gosto mais das idéias de um partido do que do outro. Detesto o que aquele doutor fala sobre economia. Adoro o que aquele jornalista fala sobre o MST. Em todos os casos, é salutar que as discussões em ambiente político estejam para além dos gostos pessoais. Explico.

Se me perguntassem hoje, ou melhor, se me obrigassem hoje a dizer de qual lado brinco, diria que prefiro ser canhoto a me adaptar a usar as cadeiras mais normais, mais comuns, para destros. Não fui criado assim. Meus pais gostam do status quo, meu tio é militar, daqueles que acreditam no Bush, meu avô não achou ruim o golpe militar e eu fui criado em um país onde a palavra comunista é um dos piores xingamentos que se pode proferir. Penso assim talvez pela idade, talvez pelos professores que me influenciaram, etc. No fundo, é uma escolha contingencial. Contingente, porém existencial, o que indica que posso mudar e reformular tudo que digo em um instante. Essa não é, afinal, a condição do ser? Ser o que não é e não ser o que é?

Não defendo que não existam limites. Longe disso. Acredito que eles existam, mas, como sabem, acredito que esses limites existem no outro, na experiência de permitir que a pluralidade do outro se manifeste. Iris Marion Young fala da importância da democracia nesse sentido – do outro. Jamais saberei o que um coronel golpista pensa se não me permito ouvi-lo de fato. Preciso de sua perspectiva. Somente assim terei mais consciência, assim como ele, de minhas escolhas. Pode ser, por óbvio, que, ainda assim, eu, na esfera pública, escolha não dar bola para o que ele disse. Não importa. O espaço está aberto e tenho que reconhecê-lo como igual para, depois, reduzir seu argumento ao nível de importância que considero justo.  E devo fazê-lo abertamente também. Nesse espaço ideal e utópico de discussão livre, aberta e fraternal, os embates são de idéias e não há má vontade com os que são contrários à nossa ideologia.

O grande ponto é: não existe resposta certa. Não há uma forma correta de enxergar o mundo. Nem o meu jeito, nem o seu, então porque olhar torto para quem vota em tal ou tal partido se podemos, ao fim, discutir os pontos importantes para efetivar um plano que melhor enfrente os problemas que nos aterrorizam? Existem dúvidas que o Brasil é um país desigual? Existem dúvidas que a violência no Rio e em São Paulo são problemas sérios a serem resolvidos? Existem dúvidas que há corrupção? Acredito que não. E se há esse pano de fundo, essa concordância genérica quanto aos problemas, a discordância é quanto ao método.

O comunismo, assim como capitalismo, é um modo de viver que as sociedades escolhem para si. Envolve conceitos, modo de produção, símbolos, teses, etc. Ele adquire carga negativa em um embate ideológico, onde uma parte quer impor sua vontade. Debate político não deveria ser isso. O debate deveria ser um afronte de idéias, onde o modus operandi  “erro-tenativa” é comum.  Não somos obrigados a seguir um modelo que privilegia totalmente o capital, tampouco um que impede sua ação. Podemos mesclar. Aliás, somos mestres nisso. A teoria nada mais é que uma tentativa de enfrentar o problema prático que nos é posto. Repito, tentativa. Não devemos brigar pelas tentativas de outros sem nós mesmos tentarmos, juntos, criar nosso próprio método.

Isso está bem claro no atual movimento contra o debate aberto para a expansão de vagas no curso de direito da Universidade de Brasília. O movimento estudantil como um todo, aparentemente, concorda com a necessidade de se debater estratégias antes de implementá-las. A pós-graduação do direito concorda que é preciso discutir, abrir espaço para o plural, permitir discordância. A reitoria, em tese, também concorda. Por que, então, o movimento estudantil não está unido por essa pauta? Por que, então, há tanta resistência ao argumento do movimento em prol do debate? Por que, então, o espaço não é concedido? Será mera vaidade ideológica? Busca pelo poder? Sendo um ou outro, como isso resolve o problema? Não resolve. Apenas impõe uma ideologia, uma vontade, e massacra o espaço democrático. E, depois? Depois os tomadores de decisões, os chamados detentores do poder, declaram serem os mais democráticos, clamam e duvidam que sejam mais democráticos que eles.

Anúncios

4 respostas em “O problema dos “ismos”

  1. Textos que refletem sobre a forma do agir político usualmente ou são simplistas demais ou complexos ao extremo. Os primeiros tendem a reduzir tudo a simples atos e medidas que “salvam o mundo”. Os segundos, descrevem uma situação caótica, apresentam as mais diversas teorias, adjetivam todos os participantes da discussão, cavam trincheiras, e terminam com bordões.
    Seu texto tem o privilégio de não incorrer em nenhum dos dois desvios. Consegue debater de forma lúcida o agir político e, no fim, atribui a responsabilidade exatamente àqueles que podem influenciar algo para mudar nossa própria realidade: nós mesmos, ao passarmos a aceitar o outro como interlocutor. Não será realmente possível que, tendo as mesmas metas e objetivos, possamos construir caminhos concretos, ao invés de nos acabarmos em disputas de vaidade? A resposta, somente pelo debate.

  2. Gustavo: Por que, então, há tanta resistência ao argumento do movimento em prol do debate?

    Particularmente, eu sou contra o movimento em prol do “debate” porque concordo com a decisão já tomada pela reitoria e pela Faculdade de Direito.

    Também sou contra o debate porque temo que os alunos “percebam” em massa que um aumento das vagas na Faculdade de Direito da UnB inevitavelmente implicará uma diminuição em sua qualidade (espero que pequena) e no aprazível caráter de clube que a cerca.

    Aquela artesanalidade de relações professor-aluno e aluno-aluno que marca uma faculdade pequena, em que todos — para citar uma bela expressão Arendtiana — encontram-se à distância de uma face.

    Eu não invejo os alunos de uma FD hipertrofiada. Mas acho que essa hipertrofia é necessária, será compensada pelo fato de que a UnB passará a formar o dobro de bacharéis por semestre. Haverá maior “oxigenação”, uma vez que o pequenísssimo tamanho do nosso corpo discente, se permite uma rara concentração de “talentos”, também contribui para sua homogeneidade.

    Quero crer que o aumento de vagas trará mais vantagens do que desvantagens para os alunos. Contudo, creio que isso NÃO É VERDADE. A verdade é que os maiores benefíciários serão a sociedade pagadora de impostos e aquele rapaz que ficaria em 81ª colocação no nosso concorridíssimo vestibular.

    Abraços!

  3. Pingback: A emancipação pelos “commons” « Brasil e Desenvolvimento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s