A Construção Social da Subcidadania

Por Mayra Cotta

Um pensador bastante importante para o grupo – que inclusive já se reuniu com a gente – é Jessé de Souza, autor do livro “A Construção Social da Subcidadania”. Nesta obra, discute-se a formação do que Jessé chama de ‘ralé’ e da violência simbólica que justifica e naturaliza a enorme desigualdade social que se vê no Brasil. O autor percebe uma oposição entre uma classe excluída das oportunidades materiais e simbólicas e uma classe de incluídos, ainda que incluídos de forma diferenciada. Jessé de Souza defende que essa classe de excluídos deve ser assumida como classe, pois apenas assim será possível desconstruir o fetiche economicista como panacéia de todos os problemas sociais, para abordar os problemas principais do Brasil enquanto sociedade.

O próprio autor explica:

O livro não trata apenas de subcidadania. É mais ambicioso. O que tento é refletir sobre o que há de específico num país como Brasil que tem uma grande complexidade econômica, de um lado, e uma desigualdade social abismal, de outro. Como foi possível ter a maior taxa de crescimento econômico do globo entre 1930 e 1980 sem que tenha havido repercussão relevante na desigualdade social?

Minha suspeita: esta desigualdade foi naturalizada. Ou seja, foi tornada natural, como se não fosse obra do homem. A subcidadania é a ponta deste iceberg. Traz à tona hordas de marginalizados que não tem nada. Que são sub-gente.

O pensamento social brasileiro marca passo neste particular. Mas é bom que se diga que a nível internacional também há uma pobreza teórica para explicar a especificidade de sociedades periféricas como a nossa.

Nós precisamos nos ver como somos. E antes de acharmos que somos um exemplo para mundo temos que olhar nossos graves problemas. Claro que fizemos progressos. O abolicionismo alargou a elite. Na revolução de 30 os extratos médios entram no poder. Em 1980 com o PT a classe trabalhadora or-ga-ni-za-da entra no circuito do poder. Mas agora quem vai incluir a ralé, os imprestáveis? De novo, não estou culpando a vítima. Como nesse nosso mecanismo classificatório eles não conseguem explicar as causas da sua miséria dizem a si próprios: o fracassado sou eu, é por minha culpa.

Talvez a frase que resuma o Brasil não seja “Sabe com quem está falando?” mas a do trabalhador que cumpre suas obrigações e ainda diz “Desculpe qualquer coisa”.

É verdade. A frase é ambígua porque ele diz isso e no íntimo lhe odeia.

 

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6 respostas em “A Construção Social da Subcidadania

  1. Jessé (apud COTTA): “Como foi possível ter a maior taxa de crescimento econômico do globo entre 1930 e 1980 sem que tenha havido repercussão relevante na desigualdade social?”

    Bem, existem explicações “economicistas” para esse fenômeno, as mais variadas. Algumas, inclusive, tentam incorporar em seus modelos fatores como “mercados de sinais”, para dar conta da influência que algumas normas sociais de cunho discriminatório possam ter sobre a renda.

    Becker, aliás, já na década de 60 propunha modelos para dar conta da discriminação e tem até mesmo um livro denominado “The Economics of Discrimination”: http://books.google.com/books?id=50qHcSNVVEMC&lpg=PP1&dq=becker%20racial%20discrimination&pg=PP1#v=onepage&q=&f=false

    Bem, não acho que “ódio” a si próprio ou “subserviência” sejam fatores interessantes para explicar o fenômeno da desigualdade no Brasil. Isso porque diversas nações saíram de patamares de desigualdade e de renda per capita semelhantes aos do Brasil, na década de sessenta, e hoje se encontram em sociedades mais prósperas e menos desiguais. O exemplo sempre citado é o da Coréia do Sul.

    (Há menos em comum entre Coréia e Brasil do que sonha nosso samba no pé, e nossa pamonha com pimenta e lingüiça, hehehe).

    De qualquer modo, sempre desconfio de “insights” de difícil comprovação empírica. Espero que não tachem minha posição de economicista ou de cientificista apenas por causa disso: trata-se, na verdade, de uma posição honesta, uma que o famoso filósofo da ciência Karl Popper recomendava.

    A desigualdade social no Brasil, eu ousaria dizer, se deve a fatores econômicos mais fundamentais. A professora Leda Paulani (pace Furtado) gosta de mencionar o fato de nossa economia ter sido voltada para as exportações, com fraca presença de mercado interno, até bem a segunda década do século XX.

    A esse fator econômico e histórico eu acrescentaria um cultural (até para defender-me da pecha economicista): nossa mentalidade pré-capitalista — nossa “cordialidade”, tão bem descrita pelo pai do Chico, no clássico “Raízes do Brasil”. Uma cordialidade que favorece o nepotismo, a corrupção para os “chegados”, práticas políticas clientelistas e também — no lado positivo — nosso rico afeto familiar e nossas amizades tão cálidas. Tudo isso é uma decorrência da hipertrofia do privado sobre o público, do patrimonialismo, inerente à nossa “cordialidade”.

    Abraços!

    • Amigo Thiago, a proposta de explicação da desigualdade no Brasil,do professor Jessé, é exatamente para desmitificar esse tipo de visão: “nossa “cordialidade”, tão bem descrita pelo pai do Chico, no clássico “Raízes do Brasil”. Essa forma de ver o Brasil é epistemologicamente e teoricamente absurda. Ver a obra: Modernidade Seletiva, do mesmo autor. Abç.

  2. “You never change things by fighting the existing reality. To change something, build a new model that makes the existing model obsolete” – Buckminster Fuller.

    A percepção é legal. Mas qual o modelo alternativo?

    Entendi. A visão binária da economia aponta uma divisão que foi “naturalizada” e portanto não é vista como problema.

    Daí, para que a existência de uma ralé seja um problema, precisamos pensar um mundo sem essa categoria de pessoas. Não sem as pessoas que hoje se enquadram nesse grupo, mas se o próprio grupo. Daí as pessoas estariam no mesmo “nós” que “nós” e situação delas seria absurda.

    Esse modelo novo é que o “xis”. Acho (pulo do Paulo) que a inclusão digital faz esse clique. Todo mundo tem direito à internet. “Mas esse cara nem onde dormir tem?”. É, rede de comunicação pra ele tb. E saberemos (poderemos pelo menos) dos problemas dele, nós e outros como ele, que se ajudarão e tal. Que tal?

    • Paulo, embora haja largas evidências na literatura especializada de que o acesso a telecomunicações proporciona o aumento da riqueza e a redução das desigualdades sociais, até onde tenho visto (e nem são pessoas que não tem nada, elas só tem muito pouco) dar acesso a internet para pessoas em péssimas condições de vida só aumenta usuários no Orkut, MSN e o valor de sites de pornografia. Ah, e também se suga a Wikipedia para fazer trabalhos escolares superficialíssimos (nada contra a Wikipedia, muito ao contrário, mas contra o uso mal feito dela).

      A Sociologia “clássica” (é até onde conheço melhor) se pretende uma ciência descritiva mesmo, e creio que isso repercute até hoje no modo de fazer sociologia, senão vira outra coisa. Não deveríamos esperar dela uma solução (isso se faz com a Economia ou o Direito).

      Abraços,

      • André: [existem] largas evidências na literatura especializada de que o acesso a telecomunicações proporciona o aumento da riqueza e a redução das desigualdades sociais.

        Engraçado que eu já vi explicações CONTRÁRIAS, no que tange aos efeitos da nova economia sobre a distribuição de renda. O argumento é o seguinte: uma economia que tem parcela importante de seu dinamismo baseado em informações tende a aumentar a desigualdade, pois recompensa com muito vigor pessoas dotadas de uma inteligência muito acima da média. Isso não é negar o potencial gerador de riquezas da nova economia: os ganhos de produtividade nos Estados Unidos, por exemplo, foram imensos nos anos noventa e nos anos dez, de tal forma, que mesmo durante a presente crise financeira ELES NÃO DIMINUÍRAM (um fato deveras notável: crises econômicas graves costumam ser acompanhadas de queda na produtividade).

        Inteligência é algo relativamente bem distribuído fora das classes localizadas no topo da pirâmide sócio-econômica, especialmente em países subdesenvolvidos, que não premiam com tanto vigor essa característica (vide, por exemplo, nossa elite política, para quem QI significa Quem Indica).

        Assim, a economia de informação favorece a MOBILIDADE SOCIAL: uma pessoa pode fazer uma fortuna do nada, com uma boa idéia, nessa seara. Vejam o que aconteceu com dezenas de milhares de indianos paupérrimos, mas inteligentes, hoje prósperos programadores no Vale do Silício, ou ainda trabalhadores de informática que, a partir da Índia mesmo, prestam serviços a empresas americanas (a nova economia torna “distância” um termo cada vez mais vago e matizado: importante para alguns setores, bem menos para outros, como software). Recentemente uma empresa indiana de informática famosa abriu uma filial no Brasil, e já ganhou várias licitações.

        O fato de as oportunidades de ascenção social aumentarem, pelos motivos apontados no parágrafo anterior, não necessariamente implicam, contudo, que essas tecnologias implicam em maior IGUALITARISMO. Pelo contrário: ao concentrarem seus prêmios e oportunidades em pessoas dotadas de uma característica extremamente mal-distribuída na população — isto é, “inteligência” — ela tende, pelo contrário, a AUMENTAR a desigualdade econômica. Assim, quase todos os países desenvolvidos tiveram duas décadas de prosperidade antes da crise de 2008, acompanhada de um AUMENTO na desigualdade social. Os frutos distribuídos de maneira desigual da nova economia certamente foi um fator importante nesse aumento da desigualdade.

        Abraços!

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