A esperança como mote.

Por Rodrigo Santaella

Pensar Política, em qualquer espaço que seja, tem se tornado uma tarefa cada vez mais árdua. Além de dificuldades concretas como falta de tempo (afinal todo mundo tem que se sustentar de alguma maneira) e falta de espaços reais de debate político, vivemos em uma era na qual pensar política está fora de moda. Somos desestimulados em todos os âmbitos a nos preocuparmos cada vez mais com nossos problemas individuais e esquecermos do resto. Outro dia conversava sobre isso com um conhecido, e ele me disse que “o mundo sempre teve problemas, e não vai ser mais um jovem com boas intenções que vai resolver isso”. Infelizmente, creio que esse seja um pensamento hegemônico na sociedade brasileira. De fato, o mundo e o Brasil sempre tiveram problemas. Trata-se, entretanto, de acreditar na possibilidade de mudança concreta, de melhoria concreta. A esperança tem que servir como mote para o pensar político.

Para que uma mudança radical e efetiva no país e no mundo em que vivemos seja tornada uma possibilidade concreta, para que seja efetivamente possível lutar e conseguir um mundo melhor, é preciso pensar o não realizável: é preciso ousar, tentar, errar, tentar outra vez e seguir lutando, questionando e, principalmente, pensando. A rendição ao que se chegou a chamar de o “fim da história” é o abandono da característica mais importante dos seres humanos: a capacidade de refletir. Se o mundo não parece oferecer condições reais e concretas para uma mudança radical das condições impostas ao nosso redor, que nós, que habitamos este lugar, criemos estas condições. Esta mudança não depende de ninguém além de nós mesmos. Não são a ética, a vontade de melhorar, a busca do bem comum ou o projeto político de emancipação humana que têm que se justificar e provar sua inocência no tribunal do mundo real, mas sim o contrário. Da mesma maneira, diria Zygmunt Bauman que “é a realidade que deve que explicar por que não conseguiu atingir o padrão de decência estabelecido pela esperança.”

Enquanto as pessoas diferentes – sejam estas diferenças financeiras ou quaisquer outras – se mantiverem afastadas umas das outras, enquanto a educação não cutucar a fundo as feridas da sociedade e incitar todos a pensar criticamente e enquanto não começarmos a questionar efetivamente se o que está se passando diante dos nossos olhos é realmente necessário, se este é realmente o único mundo possível, as coisas vão continuar caminhando ao colapso, seja este um colapso ambiental ou um colapso social. Está mais do que claro que é preciso agir e que, antes de tudo, é preciso pensar no que fazer. Existem infinitas possibilidades com relação ao que pode acontecer daqui para frente, infinitas posições distintas, todas elas igualmente válidas e legítimas. Faz-se fundamental abrir espaços concretos e contínuos de debates. O meio virtual proporciona elementos interessantíssimos para isso, mas não é suficiente: universidades, favelas, escolas, praças, bares e etc. devem também entrar em uma lógica de debate constante. É preciso criar uma cultura do verdadeiro e franco debate, enquanto disputa de idéias: debater não com o intuito de sair vencedor em uma discussão, adquirir mais status na comunidade intelectual ou lograr conquistar uma posição política, mas sim de buscar alternativas reais e alcançáveis para a mudança do mundo em que vivemos.

A esperança deve ser colocada como motor condutor das ações e do pensamento humano para que se possa pensar a mudança profunda: é nela que se deve encontrar a justificativa para toda a luta pela melhora do mundo à nossa volta, e é justamente ela que os que não têm interesse na mudança tentam minar. É preciso resistir a essa tentativa de omitir a esperança: a história não acabou e não vai acabar… ela é e segue sendo escrita diariamente, no cotidiano. Que a história passe a ser escrita por mais mãos, com outras canetas, em outros papéis e em outras direções depende única e exclusivamente de nós. Ainda que tudo o que está em volta jogue contra, é preciso pensar politicamente. É preciso pensar para além de onde nossa vista alcança. Assim, e só assim, a realidade pode começar a prestar contas para a esperança.

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2 respostas em “A esperança como mote.

  1. É verdade Telé… O seu texto eu tinha lido, o do Paraná ainda não…

    Li agora, e a verdade é que há muita identidade.

    A angústia é coletiva dentre os que se dispõem e têm a coragem de pensar…

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