Amanhã vai ser maior

Por Edemilson Paraná

7:30 da manhã. O ônibus desce na rodoviária do plano; já estou atrasado. Corre daqui, liga dali, combina acolá. Vejo muitas, várias caras novas a empunhar faixas, cartazes e distribuir entusiasticamente cartões vermelhos nas arquibancadas. De mim, só restou câmera na mão, bloquinho de notas e palavras de ordem; a vontade de protestar era maior do que a de trabalhar.

Aos poucos a adesão popular começa a crescer. Crianças enfileiram-se para pintar os rostos risonhos e fazem farra com os cartões vermelhos distribuídos pelos estudantes. Papais aplaudem, senhoras apóiam. Mais do que notada, nossa presença era bem-vinda. “Sarney Safado, devolve o Senado!”.

Pelo rádio, mais soldadinhos de papel são chamados para reforçar o cordão de isolamento. Nada de novo. Em criativas palavras de ordem, compostas ali mesmo, o movimento surpreende com intervenções pacíficas, palavras precisas, atos simbólicos.

A cena havia sido roubada. De arquibancada em arquibancada os quase 200 manifestantes foram arrancando sorrisos, palavras de apoio e aplausos da população. No começo do desfile, alguns pracinhas (veteranos brasileiros da segunda-guerra) chegaram a acenar em apoio, aplaudindo e apontando do alto de seus carros para o protesto que tomava corpo em uma das arquibancadas. Soldados, fuzileiros, dançarinas, não havia passante que não se espantava, sorria, fechava a cara ou apoiava. A adesão era enorme, mas poderia ser muito maior: “Essa é de rir, o Senado já virou Sapucaí!”.

Estávamos longe do presidente. Ele, mais do que ninguém, precisava ouvir as indigestas palavras de contestação. De uma ponta á outra da Esplanada seguimos protestando e tentando contagiar o resto das arquibancadas com inquietação e inconformismo. “Você aí parado, também foi roubado!”. Ao nos aproximarmos do palanque do presidente o tempo fechou: PM, BOPE, Exército. Entre a captura de imagens e entrevistas esporádicas, soltei a voz e mostrei também minha indignação.

Saída pela tangente, um tempo para desorganização oficial e mais entusiasmo no final: depois de empurra-empurra e confusão usual, a barreira foi rompida. Um senhor de 64 anos tomou um mata-leão de um dos seguranças da Presidência e precisou de assistência médica. Nada de mais sério aconteceu.

O desfile se encaminhava para o fim. Lula e seu convidado de honra já haviam dado no pé. Sarney e Temer sequer apareceram. Mas a mensagem havia sido transmitida com louvor: temos memória, vontade e sede de mudança. Para além da simbologia quase imediatista do “Fora Sarney” continuaremos lutando por transformações sociais profundas.

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O saldo final? Melhor do que esperávamos, menor do que desejávamos.

Com o fim de toda exibição patriótica, fizemos nosso próprio desfile. Ao som das acrobacias da Esquadrilha da Fumaça irrompemos pista adentro manifestando com alegria e bom humor até a rodoviária do plano: “Sou brasileiro, sou patriota, mas eu não sou idiota”. O coro engrossou ao chegar á rodoviária. Vitalidade popular, bateria improvisada e muito barulho. No fim, o grito não poderia ser outro: “amanhã vai ser maior, amanhã vai ser maior…”

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Outro depoimento interessante: Blog da Leili

Mais informações e clipping completo da cobertura da mídia: http://forasarney.com.br/

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

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