O Blog do Planalto e a política na era web 2.0

Por Edemilson Paraná

Hoje foi inaugurado o Blog do Planalto, o esperado e comentado Blog do presidente Lula. Pela manhã, o blog saiu do ar por não suportar o alto número de acessos. Resolvido o problema, o conteúdo pode ser conferido no endereço: http://blog.planalto.gov.br/

O Blog, no entanto, não será do presidente Lula, e sim da Presidência da República. Veja a descrição postada pela equipe do Blog:

Segunda-feira, 31 de agosto de 2009 às 14:00

Estamos aqui para compartilhar com vocês informações sobre o cotidiano da Presidência da República. A equipe do Blog do Planalto (ver foto) vai acompanhar de perto os eventos, atos e a agenda do Presidente para que você, seus amig@s, familiares e companheir@s de navegação na internet possam compreender melhor as ações, programas e políticas do governo.

A equipe coordenada pelo jornalista Franklin Martins, ministro da Comunicação Social, precisará de boas idéias para não transformar o veículo em mais um despersonalizado portal de notícias sobre as atividade do presidente. A escolha foi clara, o Blog é do PLANALTO e não do LULA.

O blog tem vídeos, enquetes, mas peca ao não permitir comentários, um dos recursos centrais para o sucesso de blogs como fomentadores de debate público.

Conscientes do poder midiático e interativo dos novos meios digitais, nossos políticos começam a divulgar seus blogs, twitters e perfis em serviços da Web. O poder eleitoral dessas ferramentas é promissor, mas poucos testaram na prática.

Obama, que trabalha de forma genial sua imagem, foi um dos primeiros políticos a acordar para essa realidade e o que a vetorizou da melhor forma.

Os instrumentos liberados pelos recentes avanços tecnológicos abriram grandes possibilidades para a transformação da política e da relação representante-representado. Para além dos tradicionais meios de comunicação como a televisão e o rádio, a internet apresenta-se como uma meio cada vez mais abrangente e presente na vida das pessoas. A simultaneidade, convergência midiática e interatividade da web expandiram substancialmente a velocidade da produção e propagação de informações na sociedade contemporânea.

No âmbito da política, as discussões da transparência e participação ganharam espaço, permitindo ao eleitor e à imprensa proximidade cada vez maior não só do trabalho e atividades políticas do representante, mas também de sua privacidade. Nesse âmbito, a separação entre o público e o privado é cada vez menos clara. As discussões públicas no espaço da web potencializam o alcance das informações e suas múltiplas interpretações. Com o avanço da “midiatização” da sociedade, o trato com a informação torna-se, então, ainda mais estratégico.

Dessa maneira, avançamos rumo a um “comportamento midiático”. Os indivíduos, atores sociais, movimentos políticos e socais ocupam espaço na mídia de maneira ativa e racional produzindo conteúdo e informação que lhe são favoráveis. Muitos atos e falas, para além de sua real significação prática, têm como único objetivo construção de discurso, imagem e representação. A comunicação não é mais privilégio apenas das rádios, jornais e emissoras de televisão; e os atores sociais se tornam cada vez mais competentes em lidar com a imprensa e produção da imagem que desejam para si. O desenvolvimento e crescimento das assessorias de comunicação pessoais e institucionais inserem-se nesse movimento.

Reforçado pelas características intrínsecas à democracia liberal representativa em uma sociedade de massas, o debate político de maior relevância se dá, sobretudo, na esfera dos meios de comunicação de massa. E o sucesso das ações políticas acaba intrinsecamente ligado à construção da imagem e representação do agente que promoveu essa ação. Estar consciente e pronto para trabalhar com essa realidade torna-se fundamental a qualquer político.

Poderá a democratização da internet salvar a sociedade da despolitização? A era da ” política web 2.0 ”  determinará um novo tempo nos debates políticos? Alguns teóricos mais otimistas falam do poder reverberador e anárquico da rede. Um poder capaz de teletransportar-nos para a era da democracia direta.

Euforismos à parte, é preciso lembrar que a revolucionária campanha cibertnética #forasarney não foi capaz de estimular internautas a deixar suas cadeiras estofadas rumo à Esplanada dos Ministérios. E pergunta retorna: a internet favorece ou prejudica a mobilização social? Facilidade comunicacional ou letargia paralisante? Difícil responder, difícil prever.

Para Marshall McLuhan, um dos principais teóricos da Comunicação, “o meio é a mensagem”. O messianismo da frase de impacto alude à idéia de que a cognição dos meios de comunicação definem um modo de organização social específico. Assim a sociedade da escrita (Galáxia de Gutemberg) se desconfigura com a sociedade rádio-telegráfica (Galáxia de Marconi), e assim por diante.

É preciso tomar cuidado para não cairmos, diante dessa noção, nos exageros do determinismo tecnológico.Os meios de comunicação abrem  possibilidade para nova organização social, mas não podem ser vistos por si só como agentes dessa mudança. É a característica especifíca desse ou daquele meio de comunicação  que transformará a sociedade ou uso humano e racional das possibilidades comunicacionais liberadas por esses meios? Na dúvida entre homem e máquina, fico com o homem. Só nós seremos capazes de nos redimirmos,  só nós, humanos, poderemos mudar a política e a nossa sociedade. Seja via blog, twitter, internet, tv, rádio ou telégrafo, a inventividade e vontade do homem ainda determinam (e continuarão a determinar) a gênese e concretização de suas utopias.

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

8 respostas em “O Blog do Planalto e a política na era web 2.0

  1. Pingback: Paulo Rená da Silva Santarém (prenass) 's status on Tuesday, 01-Sep-09 20:31:12 UTC - Identi.ca

  2. Edemilson,

    parabéns pelas questões, bastante pertinentes, e pela conclusão: no final, depende mesmo é das pessoas, ainda que os meios se mostrem mais abertos à participação.

    Por outro lado, sempre vale lutar por mais abertura. No caso, diz-se que o blog não tem toda a interatividade que poderia. Ele deveria mesmo ter? Faltou esse ponto.

    Agora, dicas de blogueiro: faltaram links no seu texto. 😉

  3. Pingback: Paulo Rená da Silva Santarém (prenass) 's status on Tuesday, 01-Sep-09 20:34:34 UTC - Identi.ca

  4. Valeu Rená.
    E, ah, pode me chamar de Paraná! hauahuahau! Edemilson soa mto formal! Só no trabalho me chamam assim!

    Concordo que sempre vale a pena lutar por mais abertura. Essa luta não pode parar,até mesmo pq meu argumento serve também para a explicar a opressão e o fetichismo da vigilancia social.Não é esse ou aquele meio que permitem mais opressão e vigilância.É o uso humano orientado para esse fim. Contra isso a gente deve lutar com todas as forças.

    Hoje li a resenha de um livro interessante que adaptava as idéias de Focaut para o ciberespaço…Uma coisa de discutir a existência(ou não) de panótipos virtuais. Não me lembro o nome agora, mas assim que lembrar eu te passo.

    Em relação á interatividade do Blog do Planalto, vamos lá…
    O blog está oficialesco, rígido, duro, não permite comentários(um dos elementos mais revolucionários dos blogs, na minha opinião). Sei lá, não me aventurei a discorrer sobre o Blog propriamente dito porque usei a questão apenas como gancho para falar de determinismo tecnológico…mas podemos discutir…o que vc acha?

    com relação a falta de links, não há como não fazer a mea culpa. Parece que eu ainda estou na literalidade linear do papel, na galáxia de gutemberg! hauahauha…aliás essa é uma discussão interessante…será que a nossa falta de imaginação e inventividade não tem feito com que utilizemos a internet apenas como reverberador de antigos modos de discussão, debate e intervenção? o que poderia ser diferente nesse processo?

    ficam as provocações.

    abraço.

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