O caminho está aqui embaixo…

Por Rodrigo Santaella

A esquerda brasileira, durante muito tempo, se organizou em torno do PT. Projetos, expectativas e esperança convergiam harmonicamente na figura do partido e de seu principal quadro, Luís Inácio Lula da Silva. Com a vitória de Lula nas eleições de 2002 e a conseqüente chegada do projeto político petista ao poder, este panorama modificou-se totalmente. César Benjamim afirmou em 2004 que nunca um governo de esquerda, progressista ou reformista teve oportunidades tão favoráveis quanto o primeiro de Lula: eleito legitimamente com 65% dos votos, com o PT tendo maioria no congresso, simpatia do meio militar, da Igreja e principalmente dos movimentos sociais, o cenário parecia perfeito para mudanças estruturais na sociedade brasileira. Se a esperança venceu o medo, mesmo com todo o entorno favorável, a continuidade da política macroeconômica e o enfraquecimento de um dos pilares sustentadores mais importantes do partido, o da ética, fizeram com que, em muitos aspectos, a frustração substituísse a esperança.

Com o sentimento de que “tudo poderia ter sido diferente”, sairemos do segundo governo Lula com muitos avanços, muitas continuidades, mas sem dúvida com uma nova correlação de forças e uma nova conjuntura na sociedade e na esquerda brasileira. A eleição de 2002 despertou na população expectativas  que iam muito além do que a sua capacidade de exigir que elas fossem alcançadas. Hoje, com o choque de realidade sofrido com a subida do PT ao governo, a esquerda desfez-se de muitas ilusões e as perspectivas adquiriram tamanho mais real. A esperança em uma mudança vinda “de cima” deu lugar à consciência de que o único caminho para se modificar concretamente a realidade nacional passa necessariamente pela mobilização, organização e ação política da sociedade civil. Nesta tarefa, os movimentos sociais têm papel fundamental. Na medida em que é o campo de conflitos, o espaço de luta entre as ideologias onde se constrói a hegemonia de determinado projeto político, a sociedade civil tem enorme relevância em relação ao Estado burocrático institucionalizado, o que torna, em determinadas conjunturas, menos importante o controle da máquina burocrática dentro de um processo de mudança profunda. Se normalmente é de grande ajuda ter o controle da máquina, é sempre fundamental ter a capacidade de exigir que ela funcione e a força para decidir as direções que ela toma. Se o poder estatal não vem como conseqüência de um projeto político sustentado pela capacidade de mobilização popular, pouco se pode avançar concretamente.

Neste sentido – e é aqui que eu queria chegar com esta reflexão – enquanto grupo intelectual/político que tem como principal objetivo a mudança concreta da situação nacional, o Brasil e Desenvolvimento deve começar, de forma sistemática, a pensar maneiras de aproximação e articulação com diversos movimentos sociais. É justamente aí que parecem estar as maiores potencialidades de mudança da realidade social brasileira. Isso nos diz, também, que é desnecessário o desespero com relação ao resultado das eleições do ano que vem. É óbvio que um governo que tenha um mínimo de vontade política para a mudança estrutural que se faz necessária no Brasil ajudaria na construção desse processo, mas ainda que a velha direita volte ao poder, o foco da ação política que pretende dar resultados em longo prazo deve ser a conscientização política da sociedade civil. Neste âmbito, o grupo tem bastante potencial para contribuir, tanto no debate intelectual quanto na disputa política propriamente dita, e o principal caminho para que essa contribuição possa ser dada é o estreitamento das relações com os movimentos.

Não é necessário subir ao governo para começar uma mudança profunda na estrutura social brasileira. Antes que me acusem de conformista ou derrotista, é importante deixar claro que não se trata aqui de renegar toda a importância de estar no governo. O que tento afirmar é que quando as mudanças devem ser de cunho estrutural, é preciso que elas sejam sustentadas pela sociedade civil organizada, e para isso o governo é desnecessário (não irrelevante, mas desnecessário). Além disso, não vemos nas próximas eleições perspectivas de um governo que trabalhe em prol de mudanças profundas no país, o que torna ainda mais importante conscientizar-se de que o processo de mudança depende fundamentalmente da sociedade civil.

Diria Thiago de Mello que

“É tempo sobretudo

de deixar de ser apenas

a solitária vanguarda

de nós mesmos.

Se trata de ir ao encontro.

( Dura no peito, arde a límpida

verdade dos nossos erros. )

Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,

e saber serão, lutando”

O povo organizado está nos movimentos sociais. É deles que temos que ir ao encontro. Não dar importância ao estreitamento dessas relações é um equívoco para qualquer um que queira transformar a realidade nacional. Por enquanto, a escada que leva ao poder estatal pode ser deixada de lado, ou deixada nas mãos daqueles que a ela mais se apegam… Ainda há – e sempre haverá – muito que fazer aqui embaixo.

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3 respostas em “O caminho está aqui embaixo…

  1. Rodrigo,

    Primeiramente, parabéns. Você expôs de forma clara, consistente – e consciente! – o conteúdo essencial que deve guiar a postura de quem se engaja na transformação existencial do projeto de nação que temos até então construído.

    As posturas teóricas, metodológicas e políticas que devem conduzir esse processo de transformação de nossa vivência institucional tem de ser capazes de identificar, como você bem aludiu, onde de fato se pode criar discussão, comoção e posicionamento político: a sociedade civil organizada.

    Essa é a realização da virtude política: exercitar a liberdade e dar os fins da comunidade política.

    A democracia participativa deve se reconhecer como exercício constitutivo permanente e não como a mera escolha de inquilinos de nossa liberdade política.

    A questão que eu gostaria de suscitar, por profundo desconhecimento e dificuldade analítica de determinação, é:

    1) como se cria, como funciona, como se identifica um movimento social?;

    2) quais são formas de “simbiose”, de integração/cooperação entre movimentos sociais e estrutura burocrática estatal (se é que é possível segmentar de forma tão ‘incisiva’) e quais são as mais necessárias?;

    3) Como diferenciar um movimento social legítimo de uma mera agregação de interesses particulares apresentados sob feição coletiva?

    Grande abraço,

    João Paulo

  2. Compartilho da sua visão estratégica, Rodrigo. Se um grupo apresenta um projeto à sociedade, a disputa de cargos no Estado é uma das formas de realizá-lo, mas não é a única e não pode ser a todo custo.

    Quando se tem um projeto de transformação social, não é pragmático achar que eleições devem ser ganhas a todo custo. Não é pragmático porque nem sempre a vitória contribuirá para o avanço na realização do projeto; pode até implicar retrocessos, pela desmobilização que conciliações são capazes de gerar.

    Por outro lado, é claro que esse cálculo estratégico nunca é fácil… A política não é o lugar da fórmula pronta, e cada situação política pode exigir posturas diferentes. A sabedoria política consiste em saber lidar com conjunturas totalmente diferentes e pensar qual é a melhor forma de ação em cada uma delas.

  3. Pingback: O Brasil que nasce na rua: a luta por cidadania desde a planície « Brasil e Desenvolvimento

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