Como ficar milionário de três formas diferentes

(Ou como ficar rico sem esforço)

por Danniel Gobbi.

  1. Escreva um livro ensinando as pessoas como enriquecer. A receita tem que ser mágica. De maneira geral, no método milagroso, você deve prescrevê-las a mentalização de uma situação de prosperidade e o contato com uma força suprema do universo. Se fizer isso, seguirá a mesma trajetória enriquecedora de Rhonda Byrne e outros escritores de auto-ajuda. Logo, seu livro será um best-seller com milhões de cópias vendidas e receberá direitos autorais em proporção direta às vendas. Possivelmente, você será chamado para dar palestras em vários os lugares, então, esteja com a agenda bem disponível. Para que seu livro dê certo, é muito importante que você faça seus leitores acreditarem que também ficou rico apenas com os métodos milagrosos que ensina.
  1. Abra uma igreja e prometa às pessoas a benção da fartura. Exija para isso uma contraprestação dizimística fixa, além de doações esporádicas. Faça-as crer que o tamanho da generosidade de Deus com elas dependerá do tamanho da generosidade da oferta delas para o Senhor. Você verá suas cifras crescerem vertiginosamente. Deixe, pois, bem claro que você não está assumindo responsabilidade nenhuma, e que fique subentendido que você é o único canal legítimo de intermediação — desmereça as outras religiões —. A responsabilidade de receberam a dádiva, contudo, é apenas delas e julgada por Deus, aquele que não falha, não erra, nem comete injustiça. Logo, se elas não receberem a benção é porque doaram pouco de si. Precisam ofertar mais para que o Senhor lhas abençoe. Nessa trajetória, sua igreja logo dará certo. Esteja preparado para reformar o seu templo. Quando puder acomodar muito mais gente, comece a vender também a cura milagrosa e abra um programa de televisão. O melhor de tudo é que você não pagará impostos, diferentemente dos hospitais e das escolas — essas instituições laicas que não contribuem para a melhoria social e ainda propagam coisas diabólicas.
  1. Abra um jogo de azar — uma loteria, talvez —, mas tome muito cuidado, pois, legalmente, apenas o Estado está autorizado a enganar as pessoas dessa forma. Você verá, então, as filas da sua lotérica se formarem com aqueles aposentados desiludidos após 30, 35, 40 anos de salário-de-fome e alguns jovens e adultos que vêem a sorte como a única forma de mudar de vida. Alimente a magia incessantemente. Faça-as sonhar com um prêmio milionário e, você verá cifras bilionárias entrarem na sua conta. Se você resolver operar na modalidade jogo do bicho, mantenha uma propina sempre em mãos. Se for abrir um cassino, concorra nas próximas eleições deputado.

Caso ao final desse post, você tenha sentido-se moralmente agredido com o enriquecimento espúrio e a preguiça humana, esse é um bom sinal. Caso contrário, você decida seguir alguma dessas trajetórias, envie-me sua história depois e eu a postarei.

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4 respostas em “Como ficar milionário de três formas diferentes

  1. Você esqueceu do concurso público – um pecado especialmente para quem mora em Brasília. Nem todos os concurseiros são preguiçosos e a escória da humanidade, e alguns tem vocação para desenvolver o país no serviço público, mas eu já trabalhei um pouco com a administração pública (um eufemismo, é claro) e, sim, é uma forma de ganhar dinheiro fácil, e cheio de preguiçosos.

    Gostaria de ser advogado, mas não há perspectivas de isso se realizar no horizonte. Então estou estudando para concurso e buscando parcerias para abrir uma lotérica. Com o dinheiro do que der certo primeiro, te pago uma cerveja pela dica.

  2. Dito de outra forma, o post é parcial. Não frequento cassinos ou igrejas, e já li um ou outro livro de auto-ajuda. Mas reconheço que igrejas prestam serviços sociais (entre outros, trazem paz a certas pessoas), cassinos são formas de entretenimento (não muito diferentes de um inocente bingo para idosos) e dá muito trabalho escrever livros de “auto-ajuda” de sucesso (no meio de um monte de porcaria, há bons livros mal-etiquetados como auto-ajuda – sugiro “Como chegar ao sim”, que é um livro-resumo de uma pesquisa sobre negociação da Universidade de Harvard). Ah, e as lotéricas financiam a Caixa Econômica Federal, a principal instituição que atenua o problema da moradia no país, na minha opinião.

    E claro que há bons funcionários públicos – um ou outro aparece aqui e ali – mesmo entre aqueles que se candidataram aos cargos por motivos menos nobres.

  3. Oi André,

    Como andam os estudos? Ano de eleição chegando não é boa notícia para quem quer ingressar no funcionalismo público. A cervejinha é sempre bem vinda.

    Sobre o tópico, eu não tinha a pretensão de abordar toda a realidade em um simples post. Era para ser parcial mesmo. Era para descrever apenas um ponto. Era para criticar o individualismo extremo na buca pelo enriquecimento fácil (que não oriundo do trabalho que gera bem-estar), que se torna espúrio, quando enganoso.

    A minha crítica não foi feita às igrejas (apenas para esclarecer, frequento a missa regularmente), mas à prática de se usar a religião para sugar o dinheiro das pessoas e criar impérios econômicos. Questiono porque sobretaxamos hospitais e escolas, mas isentamos as atividades religiosas que geram renda para investimento em negócios altamente lucrativos (televisão, rádios e teatros). Será que essas igrejas representam mais que a educação e a saúde a solução para os nossos problemas? Porque então as subsidiamos?

    Sobre os jogos de azar, não me referi à abertura de uma lotérica regularizada, mas à criação do próprio “jogo de azar” ou do jogo de “Loteria”. Se loteria é enganação, não creio que ela se torna mais legítima porque é controlada pelo Estado. A caixa não divulga às pessoas o quanto elas perdem apostando na loteria, mas apenas o quanto podem ganhar. São informações assimétricas, que atuam em desfavor principalmente do público mais carente e excluído.

    E, por último, comento a minha primeira crítica. Ela se dirige apenas aos livros de auto-ajuda que enunciam baboseiras homogêneas sem qualquer rigor teórico no intuito de ensinar as pessoas a enriquecer facilmente, sem esforço, apenas pela mentalização de imagens. Essa foi a crítica mais leve, porque as pessoas compram tais livros se quiserem. Eu adquiri o livro “O Segredo”, induzido por uma propaganda fantástica ( Esse é o best-seller que vai mudar sua vida / o livro mais comentado e lido da atualidade). Eram críticas excelentes à época. Senti profundo desgosto pelo engano, mas só.

    O que os três casos trazem em comum, de forma não tão homogênea, é a obsessão por enriquecer enganando o próximo e desvirtuando-o de solucionar seu problema. São as pessoas premiadas por gerar mal-estar na sociedade, em vez de contribuir para a sua melhoria. E o governo fazê-lo por meio de loterias também não é nada louvável, mesmo que, ao fim, utilize o dinheiro para financiar o esporte e a casa própria. Afirmar o contrário seria querer justificar os meios pelos fins.

    Um abraço

  4. Abrir um banco também é uma grande ideia, na linha do que o Danniel falou… (E, sim, claro que os bancos podem desempenhar funções sociais relevantes, assim como Igrejas, mas não era disso que o post tratava…).

    Há uma frase famosa, parece que de Bertold Brecht: “Melhor do que roubar um banco é fundar um”. Em tempos de brutal socialização dos prejuízos dos bancos pelo mundo, parece bastante adequada…

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