E agora, José?

Edemilson Paraná

“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?”

Do poema José, Carlos Drummond de Andrade.

Tal qual o poema de Drummond, a angústia toma conta, agora, de milhões de Josés pelo Brasil. Um deles talvez respire aliviado. Um deles talvez sorria extasiado.

Aos Josés das Marias, que só tem a Jesus, só resta marchar. Marchar pra onde, José?

Aos Josés de Brasília, contraste de ontem, ironia de hoje, só resta calar. Calar por que, José?

A crise do Senado não foi novidade, não foi histórica. A crise do Senado só fez expor, ainda mais, a realidade nua e crua da política brasileira.

De um PT agonizante que, enamorado do poder, luta contra sua própria história e vontade de resgatar o que já foi. De um PMDB, que há muito tempo é mais P do que MDB. De uma oposição não menos humilhada pela culpa compartilhada, pela ética retórica, pelo acordo celebrado. De uma imprensa orquestrada, que sabe a que veio, em nome de outro José.

Oh, deuses da conciliação desavergonhada, tão nua e crua é a realidade de um país que não encara seus problemas de frente. Tão cruel é seu destino de permanecer vergonhosamente mergulhado na desigualdade, na injustiça social, no esvaziamento da democracia, na despolitização militante.

A comédia no Senado se transfigurou em tragédia, protagonizada por todos nós, os incautos de sempre. Das irrevogáveis decisões protagonizaram-se os revogáveis caráteres. De indigestas palavras engoliu- se a resignação amarga. E da esperança dos pobres gargalhou mais uma vez a dureza de Maquiavel.

O espetáculo foi notável. Arns vociferou contra o PT exaltando a ética humilhada de Virgílio, Marina pediu seu adeus, Mercadante não teve forças para preservar a si mesmo. E, ao final, se concretiza o trágico destino de um partido que um dia ousou desafiar os deuses da “política como ela é”: discursar com os coronéis de ontem, cerrar os punhos em correntes enferrujadas, subir nos palanques de Calheiros, Collors, Sarneys; curvar-se ao peso do possível, abandonar sem dó nem saudosismo as utopias do impossível.

O resulta da soma? A nação de analfabetos políticos se orgulha, cada vez mais, de estufar o peito e dizer odiar a política. Ao Brasil invoquemos a alma penada de Brecht: “Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio exploradores do povo”.

Falta coragem para desfraldar a estrela vermelha no alto das próximas eleições, sobra temor dos retrocessos de antes, expiram as dúvida, salta a angústia. E agora, José?

Se a história recente da nossa política nos leva a crer que a esperança é, de fato, filha da mentira; que permaneceu entre os homens, por ordem de Zeus, apenas para prolongar nosso tormento ou se o teimoso sonho de um país melhor insiste em vê-la como a dádiva perdida entre os males de pandora; não nos resta escolha agora, José: em 2010 ela não pode morrer!

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

2 respostas em “E agora, José?

  1. Excelente texto, Paraná!!

    Os episódios do Senado não foram, desta vez, desilusão para nós… Poucas ilusões restaram com relação aos atores envolvidos (governo, oposição, partidos, mídia…) e seu modus operandi. De qualquer forma, não deixa de ser mais uma derrota pública da inegociabilidade da ética, de uma política pautada em princípios… É preciso, porém, renovar as esperanças e continuar buscando a inovação! Uma outra política é possível!

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