A experiência de Link Valley

Por Mayra Cotta 

Acho sempre bastante interessantes as experiências advindas da organização da sociedade civil para resolução de um determinado problema. Há diversos exemplos de iniciativas criativas boladas por comunidades que obtiveram sucesso em empreitadas aparentemente fadadas ao fracasso. Uma que muito me impressionou foi a Stella Link Revitalization Coalition, que buscou a revitalização da região de Link Valley, no Texas, em 1988. O que chama a atenção para essa experiência é que ela enfrentou um dos problemas que mais assusta hoje em dia – o tráfico de drogas.

 A região de Link Valley, antes ocupada pela classe média, a partir da década de 1980, começou a ser tomada pelo comércio de drogas e boa parte de seus moradores acabou saindo de lá. A região passou, então, a ser local de compra e venda de entorpecentes, freqüentada por traficantes e consumidores drive-thru. Esta situação acabou refletindo no próprio aspecto da região, que passou por uma decadência física.

 A comunidade de lá, então, decidiu tomar alguma atitude para recuperar a região. Juntamente com a Polícia, os moradores elaboraram uma estratégia para retirar os traficantes da região e promover a revitalização do local. De forma resumida, a ação desta Coalition foi separada em duas frentes, cada uma voltada para um objetivo específico.

Os policiais tinham um objetivo específico, que era o de inibir a entrada de consumidores na região. Todos os acessos foram, então, bloqueados por viaturas policiais, que paravam todos os carros que passavam pelo local. É importante observar que os policiais não revistavam nenhum carro e, durante todo o período em que durou a “operação”, nenhuma prisão fora realizada. E nem era esse o objetivo. Pretendia-se, com a ação policial, inibir a entrada dos consumidores o que acabaria forçando a saída dos traficantes. De fato, a maioria dos carros que era parada acabava retornando, sem nem tentar realizar a compra.

 A outra frente da empreitada, colocada em marcha no dia seguinte à primeira ação policial, consistia na revitalização da cidade. Por meio da mídia e de convites pessoais, membros da Coalition convocaram os moradores da comunidade para comparecerem levando sacos de lixos, mangueiras e vassouras. Centenas de pessoas atenderam ao chamado e, por cinco dias, se empenharam na limpeza e na aparência de sua região.

Esta inciativa, bastante resumida nas linhas acima, certamente não resolveu o problema do tráfico de drogas, nem transformou radicalmente a comunidade, superando todos os seus problemas. Mas ela mostra a força da sociedade civil e as possibilidades de soluções criativas fora dos meios tradicionais. Os moradores de Link Valley identificaram um problema em sua região e se juntaram para resolvê-lo, da forma mais adequada para aquele local.

A solução contou com a cooperação da Polícia, que, no caso, também atuou de forma inovadora, desistindo de prender os pequenos traficantes e usuários para se focar na prevenção da conduta ilícita. Isso mostra que idéias inovadoras vindas da sociedade civil podem inovar as instituições. No caso, a atuação policial não visou alcançar objetivos estabelecidos pela Polícia, mas estabelecidos pela própria comunidade.

A inovação das instituições é algo sempre buscado por este grupo e a sociedade civil é voz fundamental nesse processo.

Anúncios

9 respostas em “A experiência de Link Valley

  1. Acredito sinceramente que a única solução sensata para o problema das drogas é a sua imediata legalização. Vejam bem: legalização regulamentada.

    Lutar contra as drogas é a luta mais vã. O homem anseia por — de vez em quando — se livrar das garras atrozes da realidade… Para tanto ele se vale das mais variadas práticas (e substâncias). Não há diferença digna de nota entre se drogar de anfetaminas correndo uma maratona ou tomando uma pílula.

    O pior da guerra anti-drogas não é seu quixotismo, contudo: é o fato de que ela sai MUITO caro: o governo americano gasta 45 bilhões de dólares POR ANO com essa brincadeira de mau-gosto. http://www.somethingawful.com/d/most-awful/worst-government-waste.php?page=3

    A tentativa de banir consumo de drogas via ilegalização de seu consumo ou comércio é quixotesca por qualquer ângulo que você olhe.

    Se não acreditam em mim veja:

    (i) 95 % das cédulas de dólar contém traços de cocaína.

    (ii) Todas as sociedades já estudadas pelos antropólogos ou historiadores tinham algum uso para substâncias alteradores de consciência;

    (iii) A população carcerária americana mais do que decuplicou, em grande medida por decorrência dessa guerra infantil. Como o tráfico é levado a efeito predominantemente por minorias étnicas como negros e hispânicos, estes possuem uma participação desproporcional no sistema carcerário daquele país. Existem econometristas que vinculam o maior número de crianças negras criadas por mães solteriras a essa tragédia demográfica: um em cada sete negros adultos atrás das grades por uma infração tão leve quanto comercializar substâncias alteradores de consciência.

    (iv) conforme tangenciado no item anterior, a guerra é injusta com segmentos oprimidos da população, uma vez que a elite branca e endinheirada tende a consumir drogas não-ilícitas, como Prozac ou Rivotril. Agora, há muito de arbitrário e injustificável no fato de você tornar ilícita a maconha, mas não o Ritalin (cuja molécula é extremamente semelhante ao princípio ativo da cocaína, diga-se de passagem).

    Cansei de escrever. Mas persisto indignado.

    Abraços!

  2. Thiago, concordo com você acerca da legalização. Aos seus argumentos – bastante pertinentes – acrescento mais alguns. Primeiramente, a “guerra” empreendida contra o tráfico, aqui no Brasil, reforça a seletividade do sistema penal. Com a nova lei, deixando o consumo de ser penalizado, a atividade policial se volta para o traficante de forma que, na prática, se mostra bastante discriminatória. Explico: um jovem da elite branca abordado com cinco cigarros de maconha muito provavelmente será enquadrado como consumidor – afinal, é razoável que alguém com dinheiro tenha para consumo próprio essa quantidade de droga. Os policiais nem perdem tempo numa abordagem desse sujeito. Um jovem negro de baixa renda, por sua vez, apanhado com cinco cigarros de maconha, evidentemente, está traficando – afinal, como um moleque pobre poderia comprar cinco cigarros de uma só vez para consumo próprio? Óbvio, que só poderia ser para traficar…

    Além disso, a nova lei de drogas está servindo basicamente para lotar nossos presídios de pequenos “aviões”, inchando o já extremamente desgastado sistema prisional brasileiro – como você mesmo ressaltou quando falou dos presídios. Uma recente pesquisa conduzida na UFRJ demonstrou que a nova lei de drogas é aplicada quase que exclusivamente aos chamados pequenos traficantes – em geral, as condenações envovlem situações em que o réu portava uma quantidade muito baixa da droga.

    A guerra contra o narcotráfico parece ser mais uma tentativa de se legitimar um claro controle social por meio do direito penal.

    Mas, frente à proposta de legalização, fica uma grave questão: como se daria essa legalização? Qual seria o papel dos grandes traficantes no sistema de produção capitalista? Eles se tornariam, então, grandes empresários e os aviões passariam a ser empregados assalariados? Há formas de se garantir isso? Ou a comercialização da maconha, cocaína, skunk, etc. seria apropriada pelas grandes indústrias farmacêuticas, mantendo-se aqueles que hoje trabalham com o tráfico à margem da sociedade?

  3. Bem, os grandes traficantes se tornariam Phillip Morris e AmBevs, provavelmente. Dever-se-ia tomar cuidados pertinentes a toda substância perigosa, como os que a Anvisa tenta estabelecer com tintas e cosméticos, por exemplo. Dever-se-ia gastar parte do dinheiro poupado com ações repressivas em publicidade sobre os efeitos danosos das drogas ao corpo e à mente.

    Sou otimista em relação à legalização das drogas, porque, na prática, a classe média alta de todo o mundo já tem o consumo de droga totalmente liberado, e nem por isso presenciamos uma epidemia de drogados e junkies neste segmento da população. Eu, você e demais pessoas que lêem esse blog muito provavelmente teríamos acesso fácil a drogas, se assim desejássemos, aliás. O problema, mesmo, é a questão do tráfico, um PSEUDO problema gerado exatamente pela repressão desnecessária do Estado, um fenômeno do século XX.

    Assim, não vejo problemas especiais em relação à regulamentação do setor, não maiores do que o problema da regulação de alimentos, medicamentos ou de drogas legalizadas, como o café, o álcool, o cigarro e a MTV, hehehe.

    Abraços!

  4. Prezada Mayra e demais leitores do blog:

    Recomendo fortemente a leitura da seguinte reportagem da revista inglesa The Economist, lançada por ocasião da celebração de outro tratado internacional irrealista de “combate às drogas”.

    http://www.economist.com/printedition/displayStory.cfm?Story_ID=13237193

    Tomo a liberdade de transcrever o primeiro parágrafo dela:

    How to stop the drug wars

    Mar 5th 2009
    From The Economist print edition

    Prohibition has failed; legalisation is the least bad solution

    Illustration by Noma Bar
    A HUNDRED years ago a group of foreign diplomats gathered in Shanghai for the first-ever international effort to ban trade in a narcotic drug. On February 26th 1909 they agreed to set up the International Opium Commission—just a few decades after Britain had fought a war with China to assert its right to peddle the stuff. Many other bans of mood-altering drugs have followed. In 1998 the UN General Assembly committed member countries to achieving a “drug-free world” and to “eliminating or significantly reducing” the production of opium, cocaine and cannabis by 2008.

  5. Reparem outra conseqüência da “Guerra às Drogas”, salientada pela revista inglesa: a esculhambação de nações inteiras, produtoras de matérias-primas necessárias à confecção da droga — nações como Colômbia, Bolívia, Afeganistão e, agora, México.

    hat is the kind of promise politicians love to make. It assuages the sense of moral panic that has been the handmaiden of prohibition for a century. It is intended to reassure the parents of teenagers across the world. Yet it is a hugely irresponsible promise, because it cannot be fulfilled.

    Next week ministers from around the world gather in Vienna to set international drug policy for the next decade. Like first-world-war generals, many will claim that all that is needed is more of the same. In fact the war on drugs has been a disaster, creating failed states in the developing world even as addiction has flourished in the rich world. By any sensible measure, this 100-year struggle has been illiberal, murderous and pointless. That is why The Economist continues to believe that the least bad policy is to legalise drugs.

  6. O ponto do texto não é o combate às drogas, Thiago.

    Acho mais importante a experiência da comunidade em revitalizar seu espaço, onde ela tem identidade e vivência, em especial com o apoio e colaboração do Estado em seu braço policial, de uma forma não violenta.

    Achei muito interessante mesmo. O fato de não ter havido nenhuma prisão é excepecional.

    Mayra, vc tem aí as fontes dessa história? Links? =)

  7. A degradação de lugares como Link Valley, sul de Chicago, periferia étnica de Los Angeles — os exemplos poderiam ser multiplicados — é decorrência direta da malfadada luta às drogas. Nossas favelas cariocas não se transformariam do dia para a noite em Orange County caso o combate às drogas fosse suspenso ou varrido para o lixo da história, mas com certeza seriam lugares muito MUITO mais pacíficos e melhores de se habitar. Séries de TV como “The Wire”, documentários como “Notícias de uma guerra particular” e livros/filmes como Cidade de Deus tocam exatamente nessa nota: a degradação inerente a um front de guerra particular e inútil.

    A própria senhorita Cotta ressalta esse ponto, quando diz: “A região de Link Valley, antes ocupada pela classe média, a partir da década de 1980, começou a ser tomada pelo comércio de drogas e boa parte de seus moradores acabou saindo de lá. A região passou, então, a ser local de compra e venda de entorpecentes, freqüentada por traficantes e consumidores drive-thru. Esta situação acabou refletindo no próprio aspecto da região, que passou por uma decadência física.”

    Se as drogas não fossem ilegais, esse ponto de comércio seria como outro ponto de comércio qualquer. Aliás: ele não existiria, pois os pontos de comércio iriam para os locais onde são mais demandados: a classe média que curte drogas caras como ecstasy, heroína e cocaína. Haveria, por assim dizer, uma dissipação geográfica do “tráfico” que — legalizado — se tornaria um negócio como outro qualquer.

    Veja bem: apontando essa ligação entre degradação de espaços urbanos e guerra estúpida contra as drogas eu não quero dar a entender que considero que uma sociedade com drogas legalizadas não teria outros problemas. Teria-os claro, e não devemos subestimar o aumento do consumo inevitável que uma medida como essa implicaria. Mas, na política — mais do que em qualquer outro lugar — somos sempre obrigados a escolher entre alternativas profundamente imperfeitas. Dos males o menor.

  8. Rená, tive contato com a história de Link Valley pelo livro “Beyond 911 – a New Era for Policing”, que discute as possibilidades de transformação das Polícias, bem dentro da idéia de policiamento comunitário. No início do livro, três histórias como a de Link Valley são contadas, justamente para mostrar como é possível uma atuação policial junto à comunidade e voltada à prevenção do delito, superando-se as práticas meramente punitivas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s