Marina Silva, de novo.

Por Rodrigo Santaella

E sob um novo ponto de vista.

A possível troca de partidos da senadora Marina Silva, do PT para o PV, e sua conseqüente candidatura à presidência tem despertado discussões interessantes por todo o país. Parece perfeitamente possível que, como ficou claro a partir do post da Laila há 3 dias, a senadora traga mais qualidade ao debate nacional, além de funcionar como mais um fator para despolarizar a campanha, que naturalmente tende a polarizar-se no PT e no PSDB. Além disso, é bastante claro que o projeto político que acompanha a senadora desde os princípios de sua vida pública tem muito a contribuir com o país. Para além disso, entretanto, quando pensamos na pequena política, aquela mesquinha, que vem com “p” minúsculo mesmo, alguns fatores nos chamam a atenção, e deixam quaisquer observadores atentos com a pulga atrás da orelha. É justamente para analisar essa questão sob um novo ponto de vista que volto a um assunto recentemente discutido no blog.

Não pretendo, neste post, tratar do mérito da senadora ou propriamente dos aspectos nos quais ela poderia contribuir estando presente na campanha eleitoral. O que me inquieta no assunto, e acredito que pouco se tem falado sobre isso, é a consideração de quais seriam as conseqüências concretas mais prováveis de uma candidatura como a de Marina Silva para a campanha eleitoral de 2010. Que as chances de vitória seriam praticamente nulas, acredito não haver dissenso. A questão central, então, passa a ser pensar quem se beneficiaria com tal candidatura. A imagem de Marina Silva, saída do PT, do norte do Brasil, com um projeto político que traz debates “novos” e interessantes, sendo mulher, não parece ter o potencial de plantar a dúvida na cabeça dos eleitores decididos de José Serra. Por outro lado, é notório que o PV não tem nenhuma restrição em aliar-se com o PSDB e com o DEM (e o Rio de Janeiro está aí para que todos vejam). Para alguns, justamente por isso, a princípio foi surpreendente o convite feito à senadora. No entanto, quando se adentra mais a fundo na questão, e passa-se a analisar quem realmente pode sair ganhando com tal manobra política, a surpresa vai se dissipando. A probabilidade de que exista por trás desse convite do PV uma jogada de profunda esperteza política para apoiar José Serra é bastante grande. Não seria a primeira vez que isso aconteceria no Brasil: para citar um exemplo, a candidatura da Soninha para a prefeitura de São Paulo, pelo PPS, se deu mais ou menos nesses moldes, e serviu direitinho para enfraquecer ainda mais a ex-prefeita Marta Suplicy e eleger Gilberto Kassab.

Uma candidatura desse tipo é muito mais funcional para a candidatura do Serra do que os segundos televisivos diários que seriam cedidos ao PV para apóia-lo oficialmente, sem candidatura própria. Além disso, o mais óbvio para uma hipotética campanha eleitoral de Marina Silva é que ela seja pautada em cima da diferenciação desta com relação ao PT e à Dilma, colocando-se perante a sociedade enquanto grande defensora do meio-ambiente e portadora do verdadeiro projeto de desenvolvimento do país. Mais um trunfo para a candidatura do PSDB.

A candidatura de Marina Silva à presidência da República representaria mais uma subdivisão na “esquerda” e atenderia, intencionalmente ou não, aos interesses mais imediatos do PSDB. Na pequena política, é preciso tomar muito cuidado com a ingenuidade. Travar o debate sobre Marina Silva sem considerar essas possibilidades pode ser representar um enorme erro para aqueles que consideram que qualquer coisa, ou quase, é melhor do que uma vitória tucana nas eleições de 2010. Marina Silva não é ingênua, e tomará sua decisão consciente dos riscos que corre, tanto ela quanto o país. Esperemos que seja a decisão certa.

Anúncios

7 respostas em “Marina Silva, de novo.

  1. Rodrigo, acho muito pertinente sua análise a respeito das possíveis consequências de uma candidatura de Marina Silva e concordo que há uma possibilidade de um “racha” na esquerda, o que facilitaria muito a vida dos tucanos nas próximas eleições. O que eu acho significativo é que o tema da possível candidatura da Marina sucitou debates interessantes, como o seu post por exemplo. Em um noticiário que repete mil vezes as mesmas temáticas, a movimentação da negociação entre Marina e o PV fez com que os brasileiros parassem para refletir sobre os projetos dos possíveis candidatos à presidência. A questão do desenvolvimento sustentável também passa a ser o foco central de muitas discussões sobre o futuro do país.
    O discurso da Marina, que envolve a busca de um novo modelo de desenvolvimento e que sustenta que estamos em um momento histórico em que é possível darmos um novo salto civilizatório é muito relevante, em minha opinião. Melhor será se ela conseguir articular essas reflexões com outros políticos de esquerda, com os movimentos sociais e com o próprio PT.

  2. Um passarinho brasiliense me contou hoje que tem ocorrido movimentação do PSDB para tentar levar a Marina pra uma chapa com o Serra, tendo ela como vice.
    Marina seria o “José Alencar” do Serra.
    É esperar pra ver.

  3. Concordo Laila…
    Acredito que de fato o nível do debate se eleva, ou pelo menos se começa um debate sobre alguma coisa. Meu receio é muito mais pragmático, e como você falou no fim do seu comentário, o melhor de fato seria ela elevar o nível dessas reflexões no âmbito da própria “esquerda”, sem necessariamente rachá-la às vésperas das eleições.

    Quanto à tentativa de levar a Marina pro PSDB, Marcos, sinceramente não acredito que ela aceitaria. Acho que seria um suicídio político, que ela não cometeria. Ir para o PV, apesar de na minha opinião poder trazer consequências perversas, não seria tão absurdo para a opinião pública, principalmente pelo aspecto da convergência de idéias (pelo menos na aparência) no que diz respeito às questões ambientais, e nem para ela, pelos mesmos motivos. Mas ir para o PSDB, para o “lado negro da força” assim de forma direta, acho que ela não faria. Esse é meu achismo, por enquanto.
    Mas por aqui tudo pode acontecer… é esperar.

  4. Marina da Silva é muito mais parecida com o PT que admirávamos antes de 2003 — o PT da renovação política, do fim das práticas clientelistas que remontam às capitanias hereditárias, o PT dos que nunca tiveram voz.

    Éramos idealistas, sim, hehehe.

    Hoje o PT é o partido cuja candidata quase certa à presidência é uma senhorita brava que mente sobre encontros mantidos para favorecer coronéis em investigações fiscais…

    O PT teria sido muito mais pragmático tivesse feito uma escolha menos pragmática, e escolhido a Marina da Silva e não Dilma Rousseff como candidata à presidência.

    Afinal, qual das duas representaria melhor o PT que tanto admirávamos, antes que este mostrasse a verdadeira cara, alçado ao poder?

    Aqui, pragmatismo excessivo acaba servindo como um tiro desferido ao próprio pé. Se Marina da Silva de fato chamuscar as chances do PT de continuar seu projeto de poder, bem feito: até mesmo na política há limites para certo “pragmatismo” e para certa “incoerência” ideológica.

    (O melhor antídoto contra o idealismo político talvez seja observar o comportamento efetivo de partidos idealistas e santimoniosos, quando de fato chegam ao poder: isso valeu para Robert Michels, em relação ao PSD alemão da década de 10, e ainda vale para o sincerily yours, aqui, que graças à Realpolitik petista caiu das nuvens, mas não do terceiro andar, hehehe)

    Abraços desiludidos!

  5. Conhecem o dito profético do único nobre digno do nome que já tivemos, aqui na Bruzudanga?

    “Queres conhecer o Inácio, coloca-o num palácio!”

    (Barão de Itararé, sobre um ser então inexistente).

  6. Concordo plenamente em vários aspectos, Thiago. Nos desiludimos todos com o que foi o governo do PT e por isso posso retribuir o abraço desiludido. Além disso, me parece óbvio que seria muito mais coerente com a história do PT ter escolhido Marina Silva como candidata.

    “Aqui, pragmatismo excessivo acaba servindo como um tiro desferido ao próprio pé. Se Marina da Silva de fato chamuscar as chances do PT de continuar seu projeto de poder, bem feito: até mesmo na política há limites para certo “pragmatismo” e para certa “incoerência” ideológica.”

    Concordo também. A questão que se impõe é: bem feito para quem? Bem feito para o PT? Sem dúvida o PT merece uma boa chacoalhada e, de fato, no meu Brasil ideal o PT atual estaria bem longe do poder. A questão é que aqui embaixo, no mundo real, a alternativa pragmática que se apresenta é a do PSDB, com José Serra como presidente.
    Se de fato Marina Silva chamuscar as chances do PT, pode estar chamuscando o pouco de bom que o governo Lula trouxe. Na minha análise, uma vitória do Serra pode trazer diversos retrocessos ao país.
    Neste caso, é bem feito para quem?

  7. Pingback: Retrospectiva 2009 « Brasil e Desenvolvimento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s