Contando uma história – “O Contador de Histórias”

Por Gustavo Moreira Capela

Há um filme nacional novo nos cinemas. Chama-se “O Contador de Histórias”. Nele, conta-se a história de Roberto Carlos Ramos, hoje pedagogo, uma vez aluno da FEBEM em Minas Gerais que foi “resgatado” por uma pedagoga francesa. Segundo o filme, a instituição anunciava publicamente que ali um indivíduo carente encontraria condições educacionais para um dia ser médico, engenheiro ou advogado. Por isso, sua mãe, de origem paupérrima e genitora de mais nove, escolhe Roberto como o premiado. Talvez por ele ser o caçula, talvez pela idade em que aceitavam meninos na FEBEM, ou talvez porque a chegada do mais novo membro da família diminuiu consideravelmente o racionamento dentro de casa. Não importa a razão no contexto do filme, pois o trama está centrado no problema da educação infantil e a formação do ser humano.

O filme tem uma mensagem quase-óbvia. Digo quase pela mesma razão que Cristovam Buarque levantou em sua campanha para Presidente da República  em 2002: se o problema da educação fosse óbvio, por que um projeto de país que queira revisitar essa questão recebe tão pouca adesão? São milhões de analfabetos e mais milhões de analfabetos funcionais. Num país com o grau de crescimento econômico como o nosso, a falta de pessoas minimamente preparadas para o mercado de trabalho é problemática, limita a capacidade produtiva do país. Nem um liberal pode discordar disso.

O questionamento, no entanto, é outro. Em um determinado momento do filme, a diretora da FEBEM diz à pedagoga francesa que a “batalha” já está perdida. Ela se refere a uma manifestação da pedagoga contra a idéia de que nenhuma criança é um “caso perdido”. Segundo a diretora, os meninos que vão à FEBEM precisam de mães, de carinho, de demonstração de amor. Numa política pública de massa, segundo a diretora, isso é impraticável. Pois, é impossível ensinar com sentimento, ou, então, ensinar o próprio sentimento? É impossível ou indesejável? Pela imagem construída no filme, falta mais a vontade do que a capacidade de fazê-lo. Mas, enfim, a batalha está perdida? A estrutura opressora ganhou de todos nós e o pobre é pobre e salve-se quem puder?

Muitas das discussões do grupo passam pela premissa do fator mudança. Como mudar um país como o nosso? A mudança é desejável? Muitos colegas brincam com os dizeres desse e outros grupos falando, em síntese, que a busca por mudança é característico de uma pretensa-e-barata-esquerda. Não rejeito o rótulo esquerdista. Até porque acredito que o teor “esquerda” reflete uma insatisfação com o status quo, com a forma com que a estrutura se mostra externa e internamente. Assim, a reposta para este grupo é definitivamente positiva. É preciso mudar algumas lógicas desse sistema que favorecem, sem dúvidas, o maior acúmulo que a história já viu, mas sempre em detrimento de milhões que passam fome e são oprimidos pela ausência de escolhas sociais e sonhos alcançáveis.

Mas, pergunto-me, com toda sinceridade possível, é a educação que altera toda a lógica do sistema? A maioria dos marxistas entende que não.  O sistema é propagado, em especial pelo próprio Estado, de forma que beneficia essa divisão em classes e a acumulação de capital. Portanto,  não se muda a estrutura utilizando-se um peão que a ela pertence. Não se muda o carro botando ar condicionado. A educação, assim com a saúde, a previdência social e todos os outros mecanismos de bem-estar nada mais são que suavização de uma engrenagem perversa. Por essa razão, entre outras, a professora-diretora da FEBEM de Minas Gerais estaria certa: a batalha já está perdida, para vencer a guerra, só uma revolução.

Não é possível descartar por completo essa possibilidade. Até porque, como já mencionado, há necessidade de um sistema cuja lógica se apegue ao homem e não ao acúmulo de capital como fim primordial. Entretanto, parece mais plausível acreditar que as instituições possuem papel fundamental em toda essa perspectiva. Que elas são capazes de instituir mudanças culturais e, consequentemente, estruturais em nossa sociedade. Afinal, se não tivermos fé em nossas instituições democraticamente postas(traduzindo – escolhidas e feitas por nós mesmos), é difícil pensar em algo que funcionaria. A idéia de auto-governo deve se embasar na capacidade de alterar a forma de resolver problemas quando não estão de acordo com nossas expectativas. Se não gostamos, que troquemos o modo de fazê-lo.

A educação certamente é uma das instituições (ou organizações nos dizeres de North) que possui alta capacidade de mudança. Uma vez o grupo recebeu um convidado(Paulo Furquim) que enalteceu a idéia de que cada instituição tem uma função e que não podemos atribuir a cada uma delas a necessidade de resolver todos os problemas sociais. O sistema educacional tem como função primordial formar indivíduos, prepará-los para o modo de produção. E o modo de produção, segundo um velho barbudo qualquer, é nossa própria forma de viver. Logo, o sistema educacional nos prepara para viver. Segura certos desejos, incentiva outros, cria novos, e assim por diante.

Dentro de um contexto de mudança estrutural, ainda parece que muitos dos desenhos institucionais precisam voltar ao drawing board social. A educação está entre eles, certamente. A batalha continua perdida em diversos campos Brasil a fora, não significando que o Estado deve desistir da luta constante e necessária. O primeiro passo a ser dado é estabelecer prioridades. O que queremos afinal? Poucos ricos e muitos pobres? Se assim for, já estamos num bom caminho. Caminho para recontar uma velha história.

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