Acaso existirão os brasileiros?

Por João Telésforo Medeiros Filho

O objetivo deste grupo é imaginar e construir uma alternativa de desenvolvimento que transforme o Brasil.

Na dimensão mais reflexiva do nosso projeto, vários textos do blog já trouxeram à tona alguns dos sentidos que podem ser conferidos ao termo desenvolvimento.

Este será o primeiro de vários posts dedicados a problematizar criativamente a outra palavra do nosso nome: Brasil? Por que Brasil? Qual Brasil? Brasil para quê? Quais efeitos positivos e negativos as várias formas de nacionalismo e patriotismo desempenharam na história do nosso país?

Nada pode falar melhor de uma sociedade do que as suas várias formas de manifestação cultural.

Começamos o debate, então, com Carlos Drummond de Andrade, um dos grandes poetas que temos o orgulho de poder chamar de brasileiros. Seguem dois poemas de Drummond, na íntegra: “Também já fui brasileiro” e “Hino nacional”:


    Também já fui brasileiro

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

    Hino nacional

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.

O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonnettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas.

Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.

Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.

Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões…
os Amazonas inenarráveis… os incríveis João-Pessoas…

Precisamos adorar o Brasil.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos…
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

    Hino nacional

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.

O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonnettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas.

Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.

Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.

Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões…
os Amazonas inenarráveis… os incríveis João-Pessoas…

Precisamos adorar o Brasil.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos…
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasPOileiros?

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5 respostas em “Acaso existirão os brasileiros?

  1. Seria fácil negar a identidade brasileira. Mas identidade cultural é assim mesmo. É contrafática. É o modo de projetarmo-nos e localizarmo-nos no mundo, negando aquilo que efetivamente somos. É a outra banda da laranja, como dizia Machado.
    Por isso, acho que a idealizada identidade brasileira pode ser muito positiva, enquanto indutora do desenvolvimento. Pode ser, por outro lado, muito negativa, se levar à paralisia de Narciso. Me parece que essa última tem tido, historicamente, mais peso.

  2. Pingback: O Brasil que nasce da rua: o desenvolvimento desde a planície « Brasil e Desenvolvimento

  3. Pingback: O Brasil que nasce na rua « Liberdade Política

  4. Não precisamos ter intuição do Brasil, apenas entendimento de suas variações. Aos poucos vamos percebendo que as grandezas do Brasil são justamente suas variedades, a começar pelo mosaico étnico. Temos de descobrir os brasileiros para chegar ao Brasil. Mesmo que seja lento e gradual, chegaremos lá!

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