Desenvolvimento ou transformação social?

Por Gustavo Moreira Capela

Na última reunião do grupo Brasil e Desenvolvimento, o Professor Armando Barrientos foi o convidado especial. Suas teses sobre pobreza e “poverty traps” renderam muitas discussões e certamente contribuíram para a formação intelectual do grupo. Contudo, um momento em especial chamou atenção. Ao ser indagado sobre o conceito que ele adota para desenvolvimento, o professor nem titubeou: “não gosto da palavra desenvolvimento”. Para ele, o teor da palavra que dá nome ao grupo remete a algo linear. Como se estivéssemos todos rumo a um lugar mais alto, mais desenvolvido. Segundo sua exposição, o termo mais adequado seria “transformação social”, pois, ainda parafraseando algo que foi dito pelo professor, cria-se a idéia de algo que está em constante mudança, que se insere numa luta social que jamais terá fim.

É difícil discordar de alguém com tanta experiência no campo, ainda mais alguém que adquire seu respeito pela facilidade com que lida com seu conhecimento e o explora bem ali, na sua frente. É preciso refletir, sem dúvidas, mas a sociedade brasileira dá indícios de que precisa urgentemente de uma transformação. Talvez o sentido de desenvolvimento esteja intrinsecamente atrelado ao conceito de transformação. Como já exposto nesse blog, vários autores defendem que desenvolvimento é sim uma tentativa de aumentar as capacidades individuais, de empoderar o indivíduo. No Brasil, isso só existirá com uma transformação brutal.

Perceber a necessidade de tal mudança não está tão distante para quem observa algo mais que seu próprio umbigo. Preocupação social, necessariamente, é enxergar no outro algo tão importante como o “eu” que nos reina. Nada mais justo, portanto, que analisar certos costumes e normas de um dia dentro da instituição que representa nossa democracia e, por que não?, nossa sociedade: o congresso nacional.

Estive no Senado no mesmo dia da reunião, pela manhã. Fui enviado para assistir uma audiência pública sobre as demissões em massa da Embraer. No meio da exposição do senhor vice presidente da empresa de aeronáutica, este bradou, de peito cheio, que sua empresa possuía 2(dois) representantes dos trabalhadores no conselho administrativo. Dois! São 11(onze) membros no total. O conselho de administração de uma empresa, para quem não sabe, é o órgão que decide os rumos, que escolhe onde e como a empresa vai atuar. É o órgão que responde aos acionistas quando a empresa perde dinheiro. Segundo o site da Embraer:  “É o órgão responsável, dentre outros, pelo estabelecimento das nossas políticas gerais de negócio e pela eleição dos nossos Diretores, bem como pela supervisão da gestão dos mesmos.”

A Embraer é um exemplo a ser seguido, claro. Preocupa-se com a representação de quem, de fato, leva a empresa nas costas. O resto leva no bolso. Mas dois representantes são o suficiente?

Entendamos a estrutura de uma empresa como essa. São milhares de trabalhadores, centenas de gerentes e dez diretores. E a escala de pagamento elava-se exponencialmente quanto menos pessoas existirem em cada patamar. Valoriza-se infinitamente mais o indivíduo que toma decisões. São dados a ele o melhor salário, os melhores benefícios e, principalmente, o maior status. Argumentam os conhecedores do assunto que tomar decisões, fazer escolhas, requer um conhecimento amplo-amplíssimo dos acontecimentos mundanos. Em especial quando a empresa é do porte da Embraer. É preciso saber economia, administração, política, direito, línguas, e todos os outros aspectos da vida que se aprende sentado na cadeira de uma instituição de ensino. Conhecimentos estes quase inalcançáveis para o homem comum.

O Nosso país é feito disso. De uma maioria que é relegada a não tomar decisão, pois entendem os mais “estudados” que eles mesmos são mais capacitados para tomá-las. Os “incapazes” são relegados a fazer trabalhos mais “simples”, que exigem menos intelecto. Alguém precisa limpar o chão de quem pensa. Alguém precisa fazer a comida de quem pensa. Algúem precisa lavar a roupa, catar lixo, limpar banheiro, tratar esgoto, cortar grama, etc, etc. É certo que existem dons individuais. Que certas pessoas gostam/estão mais adequadas a fazer certas coisas. Mas a valorização elevadamente díspar faz parte de um ciclo vicioso.

Indivíduo nasce de família pobre, tem pouco acesso à educação, educação é extremamente valorizada na sociedade de informação, indivíduo já está atrás. Indivíduo precisa comer. Para comer, precisa de dinheiro. Vai atrás de trabalho. Não tem nível educacional para ganhar muito dinheiro, tem menos poder na sociedade, não escolhe com que trabalha. Faz trabalho manual, mantém baixo status social, não realiza sonhos, perde auto-estima. Tem filho. O processo reinicia.

O pior de tudo isso é que quem protege todo esse sistema, toda essa estrutura, é justamente a pessoa que é oprimida por ela. Nossos policiais, soldados, seguranças e todas outras profissões que implementam forçosamente o status quo normalmente advém das classes sociais inferiores. Eles reprimem e controlam os costumes e atitudes que são próprios de sua educação familiar em prol de uma estrutura pensada e construída em prol de um ser totalmente diferente dele.

Isso não é diferente na casa de representação da República.  Estava de calça Jeans e tênis assistindo a audiência quando um senhor segurança me empurrou para fora do plenário por não estar de terno. Sim, cometi o mais alto crime numa instituição democrática: usar trajes descontraídos. O circo inteiro montado atrás dele, milhões de reais sendo desviados na sua frente todos os dias, dinheiro este que, de certa forma, lhe pertence e nada. Mas entrar na comissão de calça jeans e blusa, isso sim é um afronte aos princípios do Estado Democrático de Direito.

Começo a acreditar que o poder é sim um ente imaginário. Ou simbólico, nos dizeres de Bourdieu. Cria-se uma imagem, um viés do que pode ou não pode ser feito e as pessoas seguem essas regras, sem questioná-las. Alguns podem fazer o errado, outros não. Alguns podem vestir uma roupa, outros não. E assim vivemos. Se todos os trabalhadores parassem de apertar botões na fábrica da Embraer, nenhum avião mais seria feito. Da mesma forma, se nenhum administrador tomasse mais decisões a empresa falia. Por que um é mais importante que o outro? Se é mais importante tomar decisões, por que uma função tão árdua está na mão de poucos? Por que não capacitar mais pessoas para fazê-lo? Por que educar poucos quando há grande valorização no conhecimento adquirido na escola e nas universidades?

Se todo cidadão se levantasse contra a corrupção, dissesse não às instituições e formalismos caducos que emperram nossa vivência em comum, o país mudava. Afinal, onde está esse poder dos Senadores para fazer o que bem entendem? Nós o concedemos, não?   Manda quem pode, obedece quem tem juízo. E, ora, somos nós, o povo, o todo, a galera, que possui o poder de fato. Somos mais numerosos, certamente. Com empenho e dedicação, certamente somos mais fortes. Basta uma vontade, um anseio de melhorar, de se fazer ouvir e de impedir que essas injustiças estruturais ajam sobre nós como se karma fosse.

Desenvolvimento é uma palavra que deve ser definida por cada língua e cada nação soberana. Barsilianamente falando, é desejável que o desenvolvimento do país passe por uma transformação das lógicas estruturais que imperam as relações pessoais. Talvez para que isso aconteça primeiro é preciso conscientizar, educar, alertar. O poder está naquilo e em quem o atribuímos. Enquanto o indivíduo e a sociedade como um todo não se sentirem forte o suficiente para derrubar quem transgride os princípios mínimos de uma democracia efetiva, como transformar?

É preciso desenvolvimento para transformar ou transformar para desenvolver?

Anúncios

Uma resposta em “Desenvolvimento ou transformação social?

  1. Acho muito interessante a forma como o grupo desenvolve o trabalho.

    Acredito em grande parte das palavras que foram ditas nas linhas acima.

    A questão da transformação é algo indispensável no atual cenário brasileiro e importante para permitir a ampliação da participação nas decisões.

    Nosso país passa por um momento importante e é possível perceber amadurecimento em relação algumas posturas. A construção de um lugar melhor, com certeza, será possível ao se dar mais ouvidos aos setores antes sem voz.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s