Literatura Brasileira e Novas Atitudes

Por: Laila Maia Galvão

Uma concepção abrangente de desenvolvimento, que ultrapasse –e muito– a busca do crescimento econômico e que vislumbre uma verdadeira transformação da nossa sociedade, deve enfrentar a questão cultural.

Por tal motivo, acredito que precisamos estabelecer uma nova relação com a nossa produção artística. Creio que essa nova forma de lidarmos com nossos produtos culturais poderá ter um impacto positivo não só no “mundo das artes”, mas em várias outras esferas do nosso cotidiano. Para que ocorra a transformação social que queremos, precisamos adotar novas posturas e buscar alternativas em relação a tudo aquilo que nos circunda. Em um mundo complexo e interconectado, a adoção de atitudes diferentes em campos específicos pode ser capaz de estimular todo um processo de mudança.

Para elucidar tal questão, trago o exemplo da literatura, mais  especificamente da literatura brasileira nesse início de século. No que diz respeito a esse tema, podemos observar, com frequencia, duas posturas que considero bastante problemáticas.

A primeira posso traduzir mais ou menos na seguinte frase (bastante repetida por aí): “nada do que é produzido atualmente presta”. Daí, repetem a ladainha de que tudo que se produz hoje é lixo e de que a literatura brasileira deve se agarrar aos antigos mestres, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa etc. Nada contra Machado, muito pelo contrário. Devemos sim ler os clássicos e conhecer a fundo a obra dos grandes escritores brasileiros, que nos deixaram um legado riquíssimo. No entanto, questiono a postura fácil e comodista de se atrelar aos clássicos, ou seja, àquilo que já foi discutido e analisado o bastante e que já representa um consenso, menosprezando a produção contemporânea. Como dizer que absolutamente nada tem valor? Antes de se fazer uma afirmação tão contundente, é preciso ler o que está sendo produzido, é preciso conhecer mais de perto a nova geração de escritores.

Devemos estar abertos a outras temáticas e a diferentes formas de utilização da linguagem. Devemos estar abertos ao novo, para podermos ampliar nossas possibilidades. Autores novos e criativos estão surgindo no cenário literário brasileiro e desprezá-los seria reflexo de uma conduta estúpida e conservadora.

Outra postura igualmente problemática é a de alguns críticos literários (e escritores também), que tecem elogios e mais elogios a obras recém-lançadas por autores brasileiros contemporâneos mais conhecidos e celebrados. Parece que há um reflexo do nosso estilo conciliador, que prefere fugir do embate de ideias para se refugiar em um campo de cordialidade simulado. Ninguém quer se indispor com ninguém. Ocorre que uma crítica de uma obra literária é uma análise da obra e não uma ofensa pessoal ao autor.

Nesse sentido, afirma Leandro Oliveira em seu site: Parece haver um zeitgeist, de tom conciliador, entre os próprios escritores, que estão cada vez mais conversando entre seus pares, reafirmando qualidades e imprimindo lampejos sobre aquilo que já está suficientemente iluminado. E Lucas Murtinho, em entrevista para o Gaveta: (…) essa tradição de só falar bem dos pares faz pensar imediatamente na “cordialidade” captada pelo Sérgio Buarque de Hollanda. Isso empobrece muito a conversa sobre literatura no Brasil.

Devemos nos apropriar da nossa produção literária. Para isso, devemos ler o que tem sido escrito, sem deixar de levar em consideração que há produções de boa qualidade, assim como há produções de má qualidade (o que é evidente). Temos que incentivar o aumento do número de leitores. Por isso chamo atenção para algo que descobri recentemente: o projeto Copa de Literatura Brasileira .

A proposta do projeto é empolgante. Trata-se de uma copa que simula os grandes prêmios literários. Os concorrentes, livros lançamentos do ano, são como times que disputam uma partida. Assim, os jogos são decididos por jurados e os livros que perdem as partidas vão sendo eliminados da competição. Assim, após várias rodadas, chegamos à final, quando os dois livros finalistas se enfrentam e são analisados por todos os jurados. Os torcedores, internautas que acompanham as partidas, podem sempre deixar seus comentários e participar das discussões.

Abaixo, alguns dos pontos que me fazem acreditar que a Copa apresenta uma alternativa interessante no que diz respeito à nossa maneira de lidar com a literatura brasileira produzida no presente:

1- Nos prêmios literários tradicionais, os jurados escolhem os melhores livros, mas não argumentam, não expõem os motivos de suas escolhas. Prevalece uma suposta sensação de imparcialidade e a prevalência de um argumento de autoridade inquestionável. Na copa, o jurado tem que expor seus argumentos, tem que se abrir para o debate.

2- Além da resenha do jurado, qualquer internauta pode comentar a avaliação do jurado, o que costuma gerar alguns debates muito interessantes.

3- Existe a consciência de que a escolha do “melhor” livro não é objetiva. O site já diz: E antes que digam que a Copa dificilmente escolherá o melhor romance brasileiro do ano, adianto que já sabemos disso. O importante é que o campeonato seja divertido e o debate, inteligente. Mais relevante do que o resultado final, portanto, é a discussão gerada pelas partidas. Trata-se de conhecer a produção e de debatê-la com pessoas variadas, elogiando-a ou criticando-a, mas sempre buscando travar um debate de bons argumentos.

Enxergo a Copa, então, como uma proposta interessante e ousada, que procura ampliar a discussão em torno das produções literárias e estimular a leitura dos novos livros, se utilizando da incrível ferramenta que é a internet. Trata-se de um projeto específico, mas creio que metas como ampliação da participação, promoção de debates mais amplos e profundos, diminuição da relevância do argumento de autoridade e valorização da produção nacional devem ser buscadas em todas as esferas.

Em 2009, a Copa será acirrada. Lourenço Mutarelli, Contardo Calligaris, Daniel Galera, Rodrigo Lacerda, Maria Esther Maciel, Moacyr Scliar, Milton Hatoum, Patrícia Melo, Fernando Molica e Paulo Coelho são alguns dos autores cujas obras figuram como concorrentes. Para surpresa de todos, Paulo Coelho está concorrendo nesse ano. O organizador da Copa, Lucas Murtinho, afirma o motivo da escolha: acho o desprezo automático e recorrente à obra de Paulo Coelho um dos aspectos mais intrigantes da cena literária brasileira contemporânea. Pois é, precisamos também discutir o fenômeno-de-vendas Paulo Coelho.

Enquanto isso, aguardamos ansiosamente os jogos de 2009. Vida longa à Copa de Literatura Brasileira e ao debate mais amplo e profundo sobre a literatura brasileira do século XXI!

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5 respostas em “Literatura Brasileira e Novas Atitudes

  1. Bela abordagem de cultura e desenvolvimento.
    Momentos marcantes da história humana são acompanhados por grande efervescência nas artes. Vide o renascimento, o barroco brasileiro, que acompanha a formação das primeiras cidades na colônia, o expressionismo alemão, a revolução modernista européia, o modernismo brasileiro, que acompanha a revolução industrial paulista… Seja como causa ou conseqüência, a arte acompanha a vontade de expressão humana e reflete um espírito de libertação de velhos padrões e construção do novo.
    Sobre os clássicos na literatura brasileira, indispensável a obra do Flávio Kothe, professor da UnB, sobre os Cânones.

    Muito interessante essa Copa de Literatura. Acho que seria ainda mais interessante se fosse estruturada num sistema de reader-review, com abertura para opinião, votação e discussão por todos os leitores. As novas tecnologias permitem isso e poderia ser muito interessante pra questionar o domínio dos críticos de arte.

    abraços estetas,

  2. Márcio: por que você considera a obra do Flávio Kothe sobre os clássicos brasileiros “indispensável”?

    Gosto da postura profanadora com que ele trata o canône. Contribui para que abandonemos nossa postura reverencial ante eles, que nos é incutida pela tradição, em geral absorvida de modo acrítico. Kothe nos leva a pensar o valor desses cânones, da tradição que os afirma como “clássicos”.

    Mas, discordo de muita coisa que ele escreve nesses livros. Acho que ele exagera no tratamento conferido a várias obras clássicas brasileiras, as trata de forma hipercrítica, enquanto não dispensa o mesmo tratamento a obras do cânone universal….

    (Há um artigo de um bacharel em Filosofia na UnB – não me lembro do nome dele agora – que fala do hipercriticismo com que olhamos para os pensadores nacionais – para nós mesmos inclusive, quando é o caso -, em contraposição à condescendência com que olhamos para os estrangeiros alemães, franceses, americanos… Segundo Kothe, o contrário ocorre na literatura: sobrevalorizamos o cânone nacional. Tenho grandes dúvidas sobre isso, e discordo bastante de várias análises que ele faz nesse sentido.)

  3. Ok. Indispensável talvez tenha sido um exagero. Mas quero destacar que acho a obra dele interessante e importante. Com a hipercrítica que lhe é característica, o leitor acaba incomodado e tende a tomar uma posição, ou pelo menos passa a ter outro ponto de vista para refletir melhor sobre o tema. Num país onde reina o “deixa-disso” e as críticas brandas, acho que uma acidez kothiana é bem vinda.
    Com o “indispensável” não pretendia dizer que tudo que lá está escrito é plenamente válido e correto.

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