Reforma das Calçadas do Plano Piloto

 

Por Laila Maia Galvão

Em um dos encontros do grupo no ano passado, discutimos com Paulo Furquim, conselheiro do CADE, questões relativas a políticas e investimentos públicos. Extraímos dessa reunião uma conclusão que pode soar bastante óbvia, mas que parece ser menosprezada no dia-a-dia da política brasileira. A lição é: os recursos são escassos e, por tal motivo, é preciso elencar prioridades.  

Nesse ano de 2009, após certa pressão de grupos de moradores do Plano Piloto, área residencial nobre de Brasília, o Governo do Distrito Federal decidiu reformar a calçada de algumas quadras (quadras são conjuntos habitacionais que englobam alguns edifícios e uma área de lazer). De repente, são publicadas inúmeras reportagens falando sobre o grande problema das calçadas de Brasília (digo, do plano piloto) as quais seriam as responsáveis por pequenas fraturas e joelhos ralados. O tom dessas reportagens chega a ser cômico: mulheres que caminham de salto alto desabafam com o entrevistador as dificuldades que enfrentam para transitar nas ruas de seus bairros.  

Acredito que é válida a reivindicação dos moradores por uma melhoria da infra-estrutura do Plano, apesar de eu achar que a infra-estrutura dessa região é muito boa: áreas de lazer, saneamento, bibliotecas públicas, balões floridos etc. Quem vive no Plano sabe que desfruta de uma das melhores condições de vida de todo país.  

Alguns milhões estão sendo gastos numa calçada que não é tão precária quanto fazem parecer que é (transito por esses espaços e posso garantir que a calçada é boa). Enquanto isso, nas cidades satélites, lugares invisíveis para a classe média candanga, várias ruas não têm asfalto! Várias famílias passam todos os dias em ruas de terra e não faz diferença se estão de salto alto ou sem qualquer sapato, pois é certo que ficarão todas sujas após o percurso.  

Destaco que, segundo o site do GDF, obras de pavimentação em Itapoã, Arapoangas e Santa Maria foram iniciadas. Menos mal. Ao menos a questão da falta de infra-estrutura das cidades satélites (algumas ainda nem contam com saneamento básico!) está sendo atacada de alguma forma pelo Governo.  No entanto, sabemos que os problemas do DF não param por aí. 

Um exemplo clássico é a saúde pública no DF, que enfrenta vários problemas. Faltam equipamentos nos hospitais. Há vários meses, exames de dosagem de sódio e potássio não são realizados e pacientes não podem fazer exames pré-operatórios porque as máquinas de tomografia estão sempre quebradas. A fila para ser atendido é longa. Há pessoas que esperam por mais de três anos por uma intervenção cirúrgica. 

Observei a obra das calçadas para saber se alterações importantes seriam realizadas, como, por exemplo, a adaptação delas para pessoas de cadeiras de rodas. Até onde pude perceber isso não foi feito.

E, assim, sigo sem entender a prioridade do gasto na reforma das calçadas do Plano Piloto…

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14 respostas em “Reforma das Calçadas do Plano Piloto

  1. Discordo do conteúdo do post, Laila. Ele parece propor que, dada uma escala de prioridades, determinados pontos jamais poderiam ser resolvidos sem que outros, mais importantes, o fossem antes.
    A seguir essa lógica, antes de “dar o almoço”, precisaríamos “dar água”, pois essa última, em ausência, mata mais rápido.
    Acredito que na implantação de políticas públicas, é necessário equilíbrio entre as demandas urgentes e outras, também necessárias, como o equipamento do mobiliário urbano ou o paisagismo/ordenamento territorial de uma cidade.
    Não vou defender a reforma das calçadas em si – até concordo com vc que a maioria delas me parecia em boa conservação antes das reformas, mas acredito que, na dúvida entre esta ou aquela política pública, a solução a ser encontrada é um pouco mais complexa.
    Não morava em Brasília na época, mas me lembro que uma das críticas ao governo Cristovam ser voltada para o completo abandono do mobiliário urbano, das vias públicas e espaços verdes do plano piloto.
    Como justificar, aqui na terra dos funcionários públicos, que um juiz ganhe seus 20.000,00 enquanto há gente sem moradia?
    Resumindo minha crítica, que não ficou boa – não estou conseguindo me expressar bem – acho que você simplificou o tema e fez uma crítica fácil. É como alguém criticar o CADIR por fazer um Vaca Louca sem antes concluir um projeto de novo regimento interno pra FD. Ambos projetos têm suas importâncias, diferentes, mas a realização de um não quer dizer necessariamente inversão de prioridades numa gestão.
    absss,

  2. Márcio,

    Já esperava que o conteúdo desse post fosse gerar debate e discordância. Em primeiro lugar, gostaria de sinalizar que quis fazer um post mais direto e curto e, por isso, temo que não fui capaz de esmiuçar meu argumento e de trazer dados e números que ratificassem meu ponto. A questão central, no caso, é questionar o investimento público do GDF na reforma das calçadas. Não creio que não deve haver investimento no Plano Piloto, muito pelo contrário. Os problemas de cada bairro devem ser atacados de forma simultânea e planejada. Apenas não consigo enxergar o gasto na reforma das calçadas como prioridade, até mesmo no que diz respeito aos investimentos que devem ser feitos no plano piloto. Creio que outros investimentos no plano, tais como criação de ciclovias, reforma das áreas de lazer, segurança etc seriam mais proveitosos.
    Não deixo de achar que as satélites, por enfretentarem problemas maiores, merecem atenção especial do governo, o que não significa dizer que outras áreas mais nobres devem ser desconsideras por completo.

  3. Se a intenção era pontual, apenas quanto às calçadas, até concordo com você. Eu mesmo não percebia problemas com elas, a ponto de precisarem de reforma.

    Minha intenção foi criticar uma possível extrapolação do tema, como se fosse possível abandonar determinadas áreas de atuação pública em prol de outras, embora mais prioritárias. A discussão sobre obras públicas/ políticas de assistência não precisa ser encarada de forma tão antagônica como geralmente se vê por aí.

    Só pra provocar, pq não criticar a construção de uma nova sede do TRF1 ou do TSE, tribunais que estão bem acomodados em seus atuais locais de funcionamento?

    Ou então o fato de não faltar ar condicionado ou livros novos nas bibliotecas dos tribunais ou do congresso, enquanto isso falta na Universidade.

  4. AH,se as calçadas do governo e do plano fossem o maior problema…

    Acho que tem uma série de investimentos públicos mto mais bizarros em lugares como Lago Sul e etc que as ninguem comenta. Pra além disso, o GDF gasta bizarramente com publicidade…enfim…tem uma porrada de coisas que a imprensa não menciona.

    Concordo que o asfalto em uma cidade satélite é prioritário.Assim como quase todos os investimentos nas regiões carentes. Investimentos em reigões pobres serão sempre prioridades.

    Mas não acho que isso invalide a construção das calçadas no plano. Vamos refletir, juntos: Os ricassos, que vc menciona, andam de carro e raramente usarão tais calçadas. As calçadas do plano são usadas majoritariamente pelos que vão e voltam todo dia ao plano, por aqueles que pegam onibus e precisam se deslocar para fazê-lo. Eu pego ônibus todos os dias e sei como é sofrível a falta de calçadas. Ela é sofrível pra mim e para todos que trabalham no plano, independente de morar lá ou não.

    Odeio ter que defender o Arrudas, mas acho que a construção das calçadas é importante inclusive, porque democratiza o acesso ao plano, facilita a vida dos que precisam ou querem circular pelo plano mas não tem carros.

    mas concordo com a visão geral do texto: essa não é a maior de nossas prioridades. Mas como disse, o fato de não ser a maior das prioridades também não invalida sua construção.
    me fiz entender?!

    abraços não motorizados! hehehe

  5. A questão é que não se trata de construção de novas calçadas. Trata-se de reforma de calçadas que já existiam e que, na minha opinião (de quem caminha bastante pela região), eram de boa qualidade. Acho que o gasto não era prioritário. Assim como o enorme gasto em publicidade, no meu entender, também é desnecessário.

    • então eu entendi errado, sei lá.

      na região onde eu sempre ando por exemplo, estão calçando tudo, antes era barro puro! acho que eles estão fazendo os dois…reformando e construindo novas calçadas.

      abs

  6. Prezados(as),

    Calçadas, de qualquer qualidade, no Plano Piloto de Brasília existem para fazer footing, jogging, levar o cachorro para passear, até para ir comprar o pão no comércio local. Mas não para quem mora fora e tem que fazer seus trajetos para o trabalho no Plano, depois de uma viagem de ônibus, por exemplo.

    Concordo com quem avalia como bom o estado das calçadas dentro das superquadras, ou entre elas (embora também concorde que não estão dentro dos padrões de acessibilidade). Agora, tente o leitor fazer o caminho de um trabalhador.

    Em suma, o problema da concentração de investimentos ser no Plano Piloto é apenas o que a classe média motorizada consegue ver. O problema real da exclusão está dentro e fora do Plano.

  7. A publicidade do governo, além da questão da prioridade nos gastos públicos, envolve também a cooptação da mídia. É um problema que tem mais de uma faceta. Muito bem apontado.

  8. Parece-me que a Laila usa essa questão da calçada para apontar dois problemas mais amplos de fundo:

    1) o problema de os gastos públicos muitas vezes não serem direcionados prioritariamente para solucionar os problemas sociais mais graves, serem destinados, em vez disso, para atender interesses de pessoas e grupos mais influentes;

    2) o corporativismo egocêntrico e egoísta com que atuam as classes privilegiadas da nossa sociedade. Claro que não são só as classes privilegiadas que defendem os próprios interesses. A questão é que quando elas fazem isso junto ao Estado, tendem a agravar ainda mais a desigualdade… Até porque os recursos de influência que têm costumam ser maiores.

    Qual é a solução para esse problema de distorção dos investimentos públicos? É tornar o orçamento público verdadeiramente público.

    Experiências como a do orçamento participativo são importantíssimas para isso, e os estudos empíricos (segundo o prof. Leonardo Avritzer) têm mostrado que contribuem para aumentar o poder das classes baixas influenciarem na alocação dos recursos públicos.

    Também seria muito importante aprovar a Lei de Responsabilidade Fiscal e Social, como argumentei num post (https://brasiledesenvolvimento.wordpress.com/2009/07/13/pela-lei-de-responsabilidade-fiscal-e-social-e-pela-conferencia-nacional-do-orcamento-publico/). Lá, citei a cartilha do Fórum Brasil do Orçamento, que defende a LRFS:

    “A Lei [de Responsabilidade Fiscal] prioriza o controle fiscal e não define um conteúdo social a ser atingido pela ação pública. Assim, acaba por liberar os governos para que façam cortes de gastos para ajustes orçamentários. E o que temos visto é a preservação de gastos administrativos (gastos com publicidade, por exemplo) ao invés de gastos em metas sociais. Por isso, é preciso flexibilizar a Lei atual, exigindo que haja sim a responsabilidade fiscal, mas desde que com responsabilidade social.””

    PS: Lembro que o saudoso professor Osíris de Azevedo Lopes perguntou uma vez a um colega, na aula de Direito Financeiro: “se você fosse o prefeito e fosse calçar as ruas da cidade, por onde começaria?”. Meu colega respondeu que seria pelo hospital. Ótima resposta, comentou o prof. Osíris, que sempre dizia que o problema do nosso Estado é que o prefeito começaria calçando as ruas de pessoas ricas e influentes, etc. Dizia o Osíris que a grande revolução neste país seria feita no dia em que se cumprisse a Constituição. Que este dia chegue logo!

  9. Um detalhe: os efeitos deletérios do corporativismo com que agem pessoas dessas classes são muitas vezes desconhecidos por elas. É também essa a importância de os gastos públicos serem determinados pelo espaço público participativo. Dá-se a oportunidade de o excluído levar a público sua situação de exclusão, e há pessoas que se sensibilizarão para isso. Há outras, claro, que já a conhecem e não tão nem aí. Mas o ambiente público tende a incentivar e mesmo constranger todos a serem mais solidários.

  10. Sou cético em relação ao suposto aumento da influência do populacho mais carente sobre decisões orçamentárias, no contexto de um orçamento participativo. Isso porque os verdadeiramente excluídos, os verdadeiramente pobres, têm mais o que fazer além de ficarem deliberando na Ágora sobre os seus problemas. Há contas a pagar, crianças a cuidar e longas caminhadas (muitas vezes sem calçadas) a trilhar entre o ponto de ônibus e a casa do patrão.

    Mas estou aberto à mudança de opinião, especialmente se me vierem com números e estatísticas sobre essa questão. Belas palavras, belas sentenças sobre a necessidade de o cidadão apitar mais nas políticas públicas, bem… Isso eu tambéms ei criar. Um dia vou parodiar, por esporte, o estilo retórico dos que defendem, articuladamente, a classe dos pouco articulados (que, oh dó, soe ser exatamente a classe dos desdentados e dos que andam de ônibus entre Águas Lindas e Lago Paranoá).

    Mas não pensem — sem provas CONCRETAS para tanto –que o que é bom para nós — os capazes de articular um parágrafo falado ou escrito — será bom também para eles.

    Abraços ansiosos por números e estatísticas abonadores de belas palavras e elevadas idéias!

  11. Quando me mudei para Brasília, e fui morar na Casa do Estudante Universitário (CEU) da UnB, tive um choque: era como voltar a morar numa cidade interiorana sem infra-estrutura básica, sem calçada e com raro asfalto. Sempre chegava com a calça suja de barro ou poeira na sala de aula.

    Depois de um ano e meio, a estudantada pressionou e o reitor de plantão consertou a calçada que conduzia da CEU à civilização. Todavia, não foram arrumadas as calçadas que conduziam da UnB à L2, passando pelas quadras de número 600s (de maneira que minhas calças permaneceram sujas, hehehe).

    Achava isso cruel. Em Goiânia, a cidade de onde proviera, nada disso costuma acontecer. Pude passar uma adolescência feliz lá, sem carro, andando de ônibus ou a pé (sem JAMAIS sujar a barra de minhas calças).

    Como, eu me perguntava, uma cidade tão rica, e tão próspera e tão vampírica (dos recursos do resto do país) poderia ser tão tosca, ao mesmo tempo?

    Ora, é muito bom saber que esse meu questionamento é compartilhado por gente muito mais inteligente e tecnicamente capaz do que eu, como vocês poderão inferir da entrevista com um urbanista famoso, publicada no Mais! de hoje.

    Abraços (com as barras das calças finalmente limpas!)

    O urbanista das multidões
    Marshall Berman comenta seu novo livro, que mostra a Times Square como modelo de convivência na cidade

    O Rio tem muito em comum com Nova York; dá para viver lá sem carro

    Mark Lennihan – 1º.jan.1999/ Associated Press

    A Times Square, em Nova York, lotada durante comemoração de
    Ano Novo

    ERNANE GUIMARÃES NETO
    DA REDAÇÃO
    Entra Marx. Entra Freud. Entram milhares de transeuntes vindos de metrô e começa a função: anedotas sobre a cidade. Esse é o roteiro de “Um Século em Nova York – Espetáculos em Times Square”, de Marshall Berman (Cia. das Letras, trad. Rosaura Eichenberg, 376 págs., R$ 55).
    Conhecido por sua análise da ideia de modernidade, em escritos como “Tudo o Que é Sólido Desmancha no Ar”, Berman apresenta a praça como exemplo bem-sucedido de convivência moderna. O urbanismo explica: a Times Square não seria o que é se não fosse acessível -é um importante destino do metrô desde 1905- e cheia de diversidade.
    Em entrevista à Folha, de sua residência, o professor da Universidade da Cidade de Nova York diz que a ideia de espalhar uma cidade ao longo de rodovias, oposta ao que a Times Square representa, está dando lugar a um urbanismo melhor.
    “O preço do petróleo, a pressão ambiental e a consciência aumentando nos levam ao transporte em massa e à reconcentração de energia”, diz Berman, que elogiou a estrutura urbana de Curitiba e do Rio de Janeiro -nesta cidade, ele fará uma palestra em setembro.

    FOLHA – Ainda acha que Brasília é um mau exemplo de modernidade?
    MARSHALL BERMAN – Com certeza. Quando ouvi falar pela primeira vez da cidade, pareceu-me que havia grande coisa lá. Mas os moradores viram que era um desastre levar a vida em uma cidade cujos segmentos não interagem.
    Se, ao sair do trabalho, você quisesse se reunir com alguém para tomar um café, precisaria tomar um ônibus para outra parte da cidade. Pareceu-me uma coisa perversa, pois, na maioria das vezes, as pessoas não acham que vale a pena.
    Brasília é construída de modo a evitar que as pessoas se encontrem. Perde-se muito do excitante, do especial da vida moderna. Ironicamente, a América Latina começa com algo como o modelo espanhol de urbanismo, as cidades construídas ao redor da “plaza mayor”.
    Em Brasília, Niemeyer [que organizou o concurso para escolha do Plano Piloto, vencido por Lucio Costa] não queria funis aonde todos confluíssem. É importante ver o que isso tem de antidemocrático.

    FOLHA – Projetos “extremos”, como o de Brasília, são uma coisa do século 20 ou ainda há demanda?
    BERMAN – Será que Brasília era apropriada mesmo para os tempos de ontem? Só se você aceitar o modelo de Luís 14 em Versalhes, de o governo manter distância do povo. Luís 14 era um dos heróis de Le Corbusier. Para Niemeyer, seguidor de Le Corbusier e de Stálin, esse estilo de autocracia fazia sentido. Quando as pessoas exigem democracia (e cada vez mais povos fazem isso no mundo), querem o governo a seu alcance.

    FOLHA – A Times Square é o melhor exemplo de modernidade? BERMAN – Pelo menos um exemplo muito bom. Há outros, como a Picadilly, em Londres, e o que costumava ser a Potsdamer Platz, em Berlim -exceto porque esta foi destruída por bombardeios [na Segunda Guerra Mundial] e o que se construiu depois é muito mais parecido com Brasília.
    Um dos temas centrais das cidades do século 19 era a multidão. Uma forma de planejamento urbano e de teoria social foi tentar “descongestionar” as cidades ou, em vez de cidades, investir em subúrbios. Dissolver a multidão significa de certa forma separar as pessoas. Juntas, elas têm potencial de ação e de serem algo diferente do que eram; uma forma de controle é espalhar as pessoas.
    Poderíamos dizer que Brasília é a cidade de ontem, enquanto Curitiba [por seu sistema de transporte público] é a cidade de amanhã. Uma das coisas que amo na Times Square é que se trata de um espaço onde todos colidem. É uma das melhores coisas que podemos ter na modernidade -alguns dos problemas crônicos da modernidade são a automatização, a solidão.

    FOLHA – Em São Paulo, Rio e Brasília, as pessoas compram um carro assim que podem para deixar de depender do transporte público. Em Manhattan, as pessoas caminham ou tomam o metrô. Como isso nos afeta culturalmente?
    BERMAN – Há uma tremenda pressão para se evitar a multidão, a ponto de fazer as cidades menos democráticas. Na Times Square, as pessoas podem “conferir” umas as outras.
    Já nas cidades do “cinturão do sol” é assim: o centro é vazio ou praticamente não existe. Houston [Texas] tem uma demografia bem complicada, nada diferente de Nova York, só que em Nova York ela está na rua, você a vê na rua. Em Houston, as vizinhanças são segregadas, só vemos quão multicultural é a cidade ao vermos as pessoas em seus carros na rodovia.
    Pensamos “que fascinante! Filipinos!” ou “Olha, coreanos”. Mas não há lugar onde essas pessoas se reúnam. Alguns pensam que isso é um triunfo do planejamento urbano. Estive lá nos anos 90 e vi anúncios de novos edifícios de escritórios que diziam: “Você não precisará mais pôr os pés em Houston”. Iria do seu subúrbio para uma rodovia, para uma garagem subterrânea, fazer compras num shopping.

    FOLHA – Em São Paulo, os cartazes gigantes foram banidos como poluição visual, mas houve quem dissesse que perdemos uma forma de arte. Qual é sua opinião?
    BERMAN – Não vi isso, mas sinto que seja um desastre. Os cartazes gigantes e a publicidade do século 20 criaram uma atmosfera de “pop art” que, em muitas partes do mundo, é magnífica. Pessoas vão à Times Square só para ver luzes. Banir isso parece uma reviravolta: as ideologias modernas vêm da cidade e se voltam contra ela.
    Entendo a ideia de ter um zoneamento para os cartazes gigantes, diferentemente de bani-los completamente, o que é um ferimento autoinfligido -afeta uma razão para querermos estar na cidade. Mas não conheço muito sua cidade.

    FOLHA – É uma cidade frequentemente comparada a Nova York…
    BERMAN – O Rio tem muito em comum com Nova York, no sentido de que o sistema de ruas é decifrável, dá para viver lá sem um carro. Nesse sentido, Nova York também é mais europeia que qualquer outra cidade norte-americana.

    FOLHA – Como chamaria a oposição entre a Manhattan “romântica” do livro e os subúrbios compartimentados dos EUA? Paradoxo, contradição ou complementaridade?
    BERMAN – Acho que são coisas complementares, sim, mas isso não foi adequadamente compreendido até os anos 1970, numa época em que Nova York estava em dificuldades financeiras. Depois da Segunda Guerra Mundial, as cidades dependiam de dinheiro federal. Quando o governo Nixon [1969-74] “puxou a tomada”, foi um desastre para Nova York.
    As pessoas começaram a se perguntar: “o que esta cidade tem a oferecer?” Uma das coisas era que oferecia espaço para todos -a Times Square é o arquétipo do “espaço para todos”.
    Um dos primeiros grandes sucessos da gravadora Motown foi “Dancing in the Street” [Dançando na Rua]. Fizeram um vídeo meio primitivo, com pessoas dançando no centro de cidades americanas. Só que era difícil achar centros -o sistema federal de rodovias os havia destruído. Nova York era notável por ter mantido seu centro mais ou menos intacto.

    FOLHA – E em que a Times Square é diferente da própria Nova York?
    BERMAN – É uma supercidade: toma características que existem por toda a cidade e as concentra, mistura, criando um enorme espetáculo.
    Durante a crise fiscal, houve anos de abuso contra Nova York, a mídia contra ela. A cidade já era um centro de “showbiz”, mas precisava de ajuda federal para manter a infraestrutura e os serviços públicos.
    O clímax foi quando Gerald Ford, o presidente que sucedeu Nixon, disse que vetaria um empréstimo porque o destino da cidade não era do interesse do povo norte-americano. Mas as pessoas acabaram entendendo que as atrações de Nova York não eram só interessantes, mas também economicamente vitais; que as luzes brilhantes traziam dinheiro.

    FOLHA – A Times Square virou um símbolo do triunfo do capitalismo?
    BERMAN – Um símbolo de como o capitalismo pode criar um espaço divertido e excitante, que pode ser aproveitado mesmo sem capital -milhares de pessoas todos os dias apenas pegam o metrô e vão até lá. Meus pais faziam isso. As pessoas apenas querem ir lá e se deixar levar pelas luzes.

    FOLHA – O que a crise econômica ensina sobre o capitalismo moderno e espetáculos caros como a Times Square?
    BERMAN – Não acho que a Times Square seja cara -usa transporte público e a energia usada lá não é nada comparada ao que gastamos em nossos elaborados sistemas de computador. E não se destina aos super-ricos -eles não querem estar com milhões de pessoas.

    FOLHA – O sr. lista dois princípios: o do “direito à cidade” e o de que “cidades são vulneráveis”. O sr. se importa com a vida em comunidade…
    BERMAN – Jane Jacobs [1916-2006], autora de “Morte e Vida de Grandes Cidades”, descreve os acontecimentos da vida comum, como num romance realista. Foi muito influente, mas só falou da vizinhança comum. Não há lugares como a Times Square -não que ela os condene. Tentei no livro algo como a literatura dela, mostrar que esse espetáculo é interessante como as comunidades dela.

    FOLHA – Então a solidão é seu pior inimigo?
    BERMAN – Não sei. Talvez o concreto seja meu pior inimigo.

  12. Compartilho com a Laila a indignação de ver essas calçadas sendo reformadas.
    Mas não creio que seja um problema de prioridades. É claro que não podemos investir “apenas” nas zonas mais pobres, pois a manutenção do espaço público deve ser feita em todos os lugares.
    O problema é o da inutilidade.
    Fazer gastos inúteis, como reformar calçadas de qualidade razoável, é só uma maneira de mostrar serviço. E, como refomar as calçadas é algo relativamente barato, faz sentido mostrar trabalho fazendo isso… mas é um gasto barato e inútil.
    E essa inutilidade me parece não apenas vergonhosa, mas ilegítima.

  13. Breve comentário! Calçadas são as vias principais de acesso que a população, em sua grande maioria, moradores, trabalhadores e estudantes que circulam de transporte público e andam a pé! Pasmem, tem gente que anda a pé! … se utilizam. São precárias, não sofrem manutenção desde que foram construídas muitas há 40 ou 50 anos atrás, sem acessibilidade desconsiderando o estatudo das Cidades, idosos, deficientes e aqueles que têm dificuldades de locomoção. Muitas estão sendo feitas somente agora, 50 anos depois da inauguração de Brasília. Nunca vi tamanho abandono de áreas públicas. AQUI EM BRASÍLIA VALE A MÁXIMA: SE É PÚBLICO NÃO É DE NINGUÉM.

    A CIDADE PLANEJADA PARA SER SEDE DE GOVERNO, é projeto único tombado pela UNESCO, neste planeta só existe ela nessa categoria. Diferentemente dos comentários aqui postados, merece SER PRESERVADA e CUIDADA pelo valor ARQUITETôNICO, PAISAGÍSTICO E HISTÓRICO. NÃO É UM SIMPLES CORTE DE GRAMA A CADA 4 MESES QUE RESOLVERÁ O ABANDONO DE DÉCADAS. A preservação, pouco tem a ver com se o Plano Piloto ser ou não área nobre. Tem inestimável valor mundial, e poderia ser melhor equipada para receber os turistas que para aqui se deslocam para vislumbrar a obra tombada. CASO VERDADEIRO DE DESCASO E ABANDONO.

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