Lula e a personalização da política brasileira

Por Edemilson Paraná

A relação do presidente Luís Inácio Lula da Silva, com o poder e o povo brasileiro diz muito sobre nossa cultura política e as perspectivas de desenvolvimento para o futuro.

Afora o velho preconceito de classe, pouca gente discorda de que o atual presidente é um verdadeiro gênio político. Lula é um político como há muito tempo não se vê no país; e para aguçar a polêmica, me arriscaria a dizer mais: nosso atual presidente é um político do escalão de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.

É importante lembrar que quando coloco Lula no mais alto escalão da habilidade política na história do Brasil, o faço pensando única e exclusivamente em fatores de habilidade para ação e para a disputa de poder (virtú) no sentido maquiaveliano do termo. Me interesso em analisar a genialidade, o talento de Lula para lidar com o jogo político e aqui não me preocupo se esse talento é nobre ou cruel, de direita ou esquerda, bom ou ruim.

Um amigo, cujo pai tem vasta história na política brasileira e no PT e hoje ocupa um alto cargo no governo, certa vez nos comentou sobre as reuniões de seu pai como o presidente. Cito as palavras dele: “Meu pai gosta de dizer que o Lula é um dos caras mais otimistas que ele conhece. Ele cansou de ir á reuniões para debater disputas políticas, dadas como perdidas, onde as pessoas estavam tensas. Quando o Lula entrava na sala e discursava todo mundo se entusiasmava e saía com a impressão de que muito possivelmente eles levariam mais aquela”. Nada mais ilustrativo do que isso.

O otimismo é uma grande moeda de troca na conquista da confiança e da parcimônia. JFK, Ronald Reagan e mesmo Hitler, Churchill e Fidel, para citar pólos distintos, usaram magistralmente do otimismo na política. Obama usou e abusou do “Yes, We can” e o presidente Lula acabou contagiando, em 80% de aprovação, a nação com seu otimismo à brasileira.  Mensalão, escândalos , reeleição, crise econômica, Lula sobreviveu a tudo isso por meio da arte de mostrar que “tudo tem um lado bom”.

Lula, não por acaso, é o político mais popular da atualidade. Mais do que otimista, “o cara” sabe se comunicar. Sua linguagem simples, fácil, direta, baseada em metáforas e inferências comuns ao imaginário da cultura popular ultrapassou a barreira da imprensa e alcançou o povo nas ruas. Quanto mais a imprensa debocha, mais o povo entende e aplaude. O povo se sente parte de Lula. Lula é nordestino retirante, foi metalúrgico, torce pelo Timão, nunca desistiu da presidência e toma cachaça.

Some a isso uma história apoteótica digna de filme, que, aliás, está pra ser lançado com a benção do próprio presidente, um carisma inigualável e uma fantástica habilidade de gerar consenso; pronto: o país foi silenciado.

O Brasil se encontra em um silencio ensurdecedor. Nossos problemas continuam latentes, a corrupção continua sendo o câncer de ontem, o Estado não foi reestruturado, mudanças profundas não foram realizadas e a estrutura de sócio-política permanece a mesma, as desigualdades continuam reproduzidas. As promessas de reforma agrária, reforma tributária, e tantas outras ficaram esquecidas nos folhetos de campanha em 2002. Os movimentos sociais? Foram engolidos por esmolas e desmobilizados pela base. MST? CUT?UNE? Pesquise um pouquinho e verá o que se foi feito deles: se tornaram parte do governo. Empresários? Intelectuais?Estudantes? Pouco se brada no Brasil silenciado.

Não acho que Lula tenha, sozinho, silenciado o país. A aliança foi ampla e dizer o contrário seria superestimar o papel do presidente. Mas a bem da verdade é que a situação ficou favorável pra muita gente. O governo formou um pacote partidário tão amplo que mesmo quando a oposição ganha, ele também ganha. Lula leiloou ministérios, aglutinou o congresso, trouxe a elite pro seu lado e deu ao povo a sensação de que era possível acreditar novamente.

Seu governo teve muitos avanços reais, é preciso admitir, avanços, aliás, que há muito tempo não se viam e que talvez não fossem possíveis sem um governo de matriz ideológica de esquerda, voltado para o aspecto social. Avanços também em democratização. Mas discuti-los não é o meu objetivo aqui.

Se comparei Lula a Getúlio, o faço novamente. Getúlio, como bom leitor de Maquiavel, foi temido e amado, articulou e desarticulou, promoveu políticas para o país de modo que o povo jamais tivesse o sentimento de conquista, mas sim o de premiação. Lula está longe do autoritarismo de Getúlio, mas em muito lembra a habilidade do “pai dos pobres”.

O PT, um dos responsáveis pela construção de Lula, também foi silenciado. Foi obrigado a apoiar Sarney, mesmo sem querer, a referendar Dilma como candidata, mesmo sem querer, e hoje amarga o esvaziamento de seu histórico projeto de poder, o cair da própria ideologia. Lula não precisa tanto do PT, quanto o PT de Lula. O projeto de poder, se é que há um, é agora “lulista” e não mais “petista”.

O problema dessa aglutinação é sério: é personalista e reproduz os velhos males da política brasileira. Em nome de permanecer no poder e ganhar novas eleições, o governo não enfrenta os problemas do país de frente, não toma opções polêmicas na construção do futuro e pouco avança rumo a um país mais igual. Para manter a governabilidade, o governo aceita a contradição político-ideológica. Em nome da manutenção do poder todo mundo se cala. Por um lado, isto traz tranqüilidade social ao país, mas por outro adiamos a solução de nossos reais problemas. E seguimos, brasileiramente, evitando dividir, evitando discordar.

Encarar problemas de frente e pensar nosso desenvolvimento com responsabilidade significa ter um projeto de país definido claramente para além de qualquer figura carismática. Significa estar disposto a ser opção, estar disposto a dividir e ser coerente com o que se defende. Pensar a política de maneira séria e honesta é estar comprometido com soluções de longo prazo.

Alguns irão dizer que isso significa ignorar a dinâmica do poder, a real politik. Pois eu digo que o poder não é única peça do tabuleiro político.Nesse jogo existem inúmeras combinações capazes de nos levar o mais próximo possível daquilo que desejamos, basta sermos criativos.

Mais isso é assunto para outro post.

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

15 respostas em “Lula e a personalização da política brasileira

  1. O texto do Paraná é tão bom, claro em sua perspicácia, que ele produz um paradoxo interessante, embora aparente: pessoas das mais diversas linhas ideológicas têm concordado com sua análise, inclusive pontuando que é a melhor que já leram sobre Lula e seu governo.
    O paradoxo aparente é que ele aponta que um dos graves problemas do governo Lula é que ele exagera ao evitar dividir, ao evitar a todo custo assumir posições que sejam as melhores, mas sucitem mais crítica e desgaste.
    Mas é somente aparente porque a concordância com o Paraná se dá em torno da visão, das ideias que apresenta, e não de um personalismo vazio e uma colcha de retalhos de interesses corporativos mutuamente concedidos (nem sempre no melhor interesse social, e talvez nem mesmo dos próprios interesses corporativos, se pensados a longo prazo). Esse é o problema. Construir amplíssimas maiorias sociais sobre temas não é problema, desde que feito de forma madura, consequente, consciente. Pelo contrário, nós queremos mais é que, por exemplo, a educação se torne uma bandeira e um compromisso de todos na sociedade brasileira. Claro que sempre haverá divergências sobre o modelo de educação, políticas, etc. Mas cito esse com um dos exemplos do que e como se deve buscar construir na busca do consenso, que caracteriza a política. Disputar ideias e práticas de modo transparente, como propõe o Paraná, e não acomodar interesses de forma ambígua, clientelista e pouco republicana, e assim gerar somente conservação do status quo…

  2. De fato, ao ler o texto, só me lembro de um comício do Lula, Cristovam e Magela, em 2002, no centro de Taguatinga.

    Naquele dia, em plena disputa Roriz X Magela, Azuis X Vermelhos, o Lula apareceu no comício de camisa azul. Esbanjava otimismo e nos fez todos acreditar na mudança.

    Muito bom o texto!

  3. É impressionante como Lula conseguiu refazer sua imagem, se eleger presidente, ganhar a confiança da elite e passar ileso por tantos escândalos durante 8 anos, com 80% de aprovação.

    Excelente post! Sintético e conseguiu abordar aspectos importantes. Parabéns.

  4. Falar bem desse post é chover no molhado. É o mesmo que comemorar vitória da seleção brasileira na copa do mundo. Nunca antes na história…
    Muito boa a análise do personalismo na política brasileira, mas me pergunto se o personalismo é marca tupiniquim ou característica forte da política em todo o mundo.
    Obama é um líder personalista; Chavez também; Ahmadinejah também; Churchill, Roosevelt, Vargas, etc.
    Acho digno de se mencionar, em favor do Lula, sua rejeição ao terceiro mandato. É fácil pra quem está no poder e na situação em que se encontra nosso presidente cair na tentação de se tornar um Deus vivo, rejeitando a máxima romana do “lembra-te que és mortal”, proclamada aos vencedores das batalhas e dignitários dos triunfos na Roma republicana.
    Mas é fato que há reais avanços no Brasil sob a regência de Lula. Atuo com formuladores de políticas públicas e com empresários. Todos com quem converso apontam que, sob Lula, a transparência nas decisões administrativas aumentou e que há menos evidência de favorecimento dos “amigos do Rei”. O Brasil parece ter se tornado mais republicano, embora o fisiologismo da política parlamentar e dos ministérios ainda permaneça.
    Concluindo, acho que o personalismo é marca da liderança política, e não precisa ser um mal em si. O problema é quando a unanimidade é tanta a ponto de suprimir todas as diferenças, inclusive as salutares em qualquer debate público. A manutenção das ideologias é importante pois dá coerência e rumo aos debates políticos. Quando são simplesmente ignoradas, o jogo político passa a ser o mero jogo do poder, se submetendo a grupos corporativistas e a interesses casuístas.

  5. Primeiramente, agradeço a todos pelos elogios ao texto. Muito me honram, principalmente porque sei do altíssimo nível daqueles que elogiam. Peço que divulguem aos amigos e em listas de discussão.

    Quanto ao personalismo, como você Márcio, eu tbém acho que todo grande líder acaba inevitavelmente imprimindo um caráter personalista a política de sua época. Ainda assim, o que eu defendo nesse texto é que o arranjo político-institucional do país deve estar “blindado” contra esse tipo de problema. E mais do que isso, que a política deve ser clara, honesta e combativa. Uma democracia não é feita de um só líder.

    Mais do que o personalismo, o que eu critico é o excesso de conciliação na política, viabilizada, como no nosso caso, por e atrés desse personalismo. Perceba que eu argumento que, a maioria dos políticos dos quais não queremos mais ver por aí, estão utilizando estratégicamente da situação. UM MEGA CONSENSO FOI CRIADO e pra mim isso é extremamente danoso ao futuro do país e ao desenvolvimento. Estamos evitando OPTAR DE FATO em nome do “deixa disso”. Isso é extremamente ambíguo para um governo de matriz ideológica de esquerda.

    Como muito bem comentou o Telésforo, esse personalismo á brasileira está funcionando em favor de um lógica extremamente velha na nossa política: a manuentação do status quo. Pra citar ele “acomodar interesses de forma ambígua, clientelista e pouco republicana, e assim gerar somente conservação do status quo”. Acho que isso sinteza bem a minha crítica.

    Concordo que há mto avanços no governo Lula, aliás, poderia fazer um outro texto só falando desses avanços, mas esse não era meu objetivo com o post.

    O personalismo não é de todo ruim,e por vezes funciona como um choque positivo para noções em momentos turbulentos, mas suas consequências pra democracia podem ser mto sérias se não houver uma blindagem político-institucional contra seu voraz avanço.

  6. Prezado Edmilson Paraná,
    é célebre e destacado o sua argumentação sobre o governo Lula.
    Aliado a isto venho te lembrar o susto e assombro que vejo sobre as articulações entre o governo Lula e o aparato policial do Estado. Difunde-se um grande medo a tudo e a todos. Um medo de mudança ou de questionamentos. E também associado a isso, a polícia e os tributos batendo forte em cima do cidadão e determinando ações “vejam só”, na área do Estado. O aparelho repressor está dissimulado por um ideologismo de igualdade. Massabemos, como estudantes e leitores da História Política que isto é típico dos governos de esquerda que tendem a planejar ditaduras totalitaristas. e várias açoes o governo Lula vem mobilizando neste sentido – o excesso de tributação fiscal sobre o cidadão, o aparato policial cada vez mais pesado sobre indivíduos comuns, trabalhadores e populações vulneráveis socialmente, a recente concordata com a igreja católica. Estes são os protótipos das personalizações esquerdistas. Na verdade não sei o que é pior – o mercado a frente (ditadura do individualismo) ou o igualitarismo no fronte (manipulação dos iguais e exclusão da diversidade). Eis o complexo problema da governabilidade neste início do século. Após as desilusões do capitalismo e comunismo por não suprirem os problemas da condição humana outra questão se desdobra: o exílio político da democracia nas mortificações ideologistas do pseudoigualitarismo e do maniqueísmo ludibriador do mercado e a ausência de modelos de governabilidade que possam integrar liberdades individuais com respeito à igualdade de direitos.
    Um abraço e grande reflexão.

  7. Caro amigo,

    obrigado pelo seu comentário.

    Concordo plenamente com esse trecho: “Na verdade não sei o que é pior – o mercado a frente (ditadura do individualismo) ou o igualitarismo no fronte (manipulação dos iguais e exclusão da diversidade)”

    Contudo, ou por não ter uma visão tão aguçada quanto a sua ou por partir de uma matriz ideológica um pouco diferente, vou ter que discordar de que “O aparelho repressor está dissimulado por um ideologismo de igualdade. Massabemos, como estudantes e leitores da História Política que isto é típico dos governos de esquerda que tendem a planejar ditaduras totalitaristas. e várias açoes o governo Lula vem mobilizando neste sentido – o excesso de tributação fiscal sobre o cidadão, o aparato policial cada vez mais pesado sobre indivíduos comuns, trabalhadores e populações vulneráveis socialmente, a recente concordata com a igreja católica”.

    Na minha opinião, de católico, a igreja permanece exatamente onde sempre esteve:no lado conservador do front. Com uma excluída excessão e pequena parcela representada pela teologia da libertação, que sim, é uma das bases de fundação do PT, o resto continua no mesmo lugar. A polícia pouco mudou,tem muito o que melhorar, mas, ao contrário de vc, vejo com bons olhos o trabalho da polícia Federal, que sempre foi deliberadamente menosprezada e diminuída nos governos anteriores. Pra além disso acho louvável o fortalecimento do MP e a independência do STF (apesar de discordar de muitas de suas decisões).É preciso lembrar ainda da relativa independência do Banco Central. A altíssima e ineficiente carga tributária não é nenhuma novidade quando se trata do estado brasileiro, dadas algumas pequenas diferenças, não acho que seja obra de uma ou outra tendência ideológica.

    Acho sua visão um tanto apocalíptica e conspiratória. O governo Lula, como ressaltei no artigo, tem muito pontos positivos e eu acredito, de fato, que foi, de modo geral, um avanço em relação ao governo FHC; apesar de em muitos pontos ser apenas uma continuidade daquele governo. Me preocupo com os pontos apresentados no meu artigo, mas fiz questão de separá-los de uma análise sobre a eficácia das políticas governamentais implantadas no governo Lula.

    Não vejo o surgir de um estado policialesco ou uma ditadura de esquerda. O que vejo é justamente um vazio ideológico em prol da política de interesses, que assola o país desde a sua colonização. Isso é prejudicial porque reforça a manutenção de um status quo desigual e posterga o enfrentamento real de nossos problemas mais graves, que requerem soluções controversas pensadas á longo prazo. O meu argumento central é que essa política deseologizada e sem projeto de poder definido as claras está sendo viabilizada pelo personalismo do presidente, o que pode, e é, extremamente prejudicial á democracia e ao avanço institucional do país.

    abraço

    • Caro Edemilson Paraná,
      seu texto e as traduções que tenho vivido e estudado em História Política me convenceram o ideologismo do mercado é realmente bem pior que tudo que presenciamos atualmente. Mas, tomemos cuidado com o cerceamento das liberdades individuais pelo excesso de vigilância do “braço forte do Estado sobre o cidadão”. Motivada por uma grande fobia de insegurança, a sociedade caminha com este modelo que temos hoje, para uma uniformização dos modos de pensar e agir dos indivíduos que desagua no que você sabiamente colocou sobre o “eszaviamento ideológico”. Pressinto também que o Estado vem tirando proveito sobre tudo isto com o uso da tecnologia e do excesso de vigilância sobre o cidadão como instrumento para manter uma ordem e controle sobre críticas ou contestações. Não acredito que meu pensamento seja apocalíptico pois, citei também o fortalecimento de uma ordem política que com sensatez possa vir a harmonizar direitos individuais com igualdade de liberdade valorizando as diferenças. É para isto que vamos caminhar. Com desafios ou conflitos. Pois, assim, é marcada a história humana. E isto é a constante superação da dialética historicista – supera-se um modelo político social a partir das contradições latentes instaladas ou que se desenvolvem em sua própria estrutura interna.
      Obrigado

  8. Muito bom o texto, concordo com muitos dos prognósticos, mas gostaria de ressaltar um lado que o Márcio levantou: será que o problema é mesmo o personalismo? E o que é o personalismo do Lula? A tentativa de conciliações em exagero?

    “Ainda assim, o que eu defendo nesse texto é que o arranjo político-institucional do país deve estar “blindado” contra esse tipo de problema. E mais do que isso, que a política deve ser clara, honesta e combativa.”

    Quanto a este trecho gostaria de saber de que arranjos político-institucionais você fala. Isto porque acho que as instituições políticas brasileiras estão tão blindadas contra o personalismo (entendendo aqui o poder de agir, optar de fato, de acordo com os desígnios de uma só pare, ou pessoa) que justamente obrigaram o Lula a utilizar de todo seu poder político, personalista, para justamente buscar conciliações, e maneiras de viabilizar certas políticas; afinal ninguém nega que esta política trouxe avanços.
    Balizo está opinião naquela linha que vê as democracias da América latina como tendo sido criadas no molde americano. E como análise, acho que do Sartori, bem pertinente aquela de que a democracia americana funciona apesar das instituições, e não por causa delas. Ou seja, as instituições democráticas evitam tanto que a decisões sejam monocráticas, buscado sempre o debate, que acaba por impossibilitar decisões; principalmente num país com tantos partidos como o nosso, o que acaba por forças decisões por baixo dos panos, por detrás das cortinas, enfim.
    Não estou indo contra a democracia, meu intuito é ressaltar que o personalismo do governo Lula é o modo como as democracias mais efetivas, quando se tem por modelo os USA, funcionam, apesar das instituições. E que as conciliações que você, e eu concordo nesse ponto, diz estar favorecendo figurões da política, que nós nem queríamos mais ver, podem ser tentativas de viabilizar ações, avanços, apesar deles, já que não foi o Lula que os colocou no poder, mas sim as instituições políticas que sempre buscam evitar o personalismo.

    “Alguns irão dizer que isso significa ignorar a dinâmica do poder, a real politik. Pois eu digo que o poder não é única peça do tabuleiro político, nesse jogo existem inúmeras combinações capazes de nos levar o mais próximo possível daquilo que desejamos, basta ser criativo.”

    Seu texto ficou muito bom, e concordo com você que o personalismo em exagero entrava o país, e promove o satus quo. Mas coloco um ponto a mais aqui para reflexão: ao dizer que existem inúmeras soluções criativas para nos levar mais próximos daquilo que queremos, esquece-se do maior problema dessa frase – aquilo que queremos. “Nós” não existe, aquilo que queremos na verdade são muitas e variadas, para não dizer opostas, coisas e que envolvem disputas, promovidas em nossas instituições justamente para evitar as decisões arbitrárias.
    Talvez o personalismo do governo Lula seja justamente a solução criativa de que você fala, já que nunca vi ninguém negar os avanços e melhorias obtidas no governo Lula. A tão sonhada opção de fato talvez não seja emperrada pelo personalismo, mas justamente pelas instituições, que já disse não sou contra (não impedindo mudanças, reinventar a democracia é a frase do dia), pois apesar dos pesares é melhor que ditadura. E nesse ponto me pergunto, porque as conciliações do governo Lula parecem dar mais certo do que dos governos anteriores? Aí pode-se citar vários fatores, a imensa popularidade, o poder de negociação do presidente, o personalismo do presidente, a própria iniciativa de negociar em bases diferenciadas; enfim são muitos.
    No meu entender o maior problema do personalismo do Governo Lula não é falta de debate e transparência, que como o Márcio disse, ainda assim melhorou; poderia ser melhor, mas como disse talvez o problemas sejam as instituições. O maior problema é que o Lula não dura para sempre, nem deveria, mas não se sabe se a proposta de abertura para negociação que ele coloca será mantida, ou mesmo viabilizada sem ele.

    Abraços

  9. Primeiro, obrigado pelos questionamentos. São realmente muito pertinentes e dá gosto respondê-los.

    Segundo, desculpa a demora na resposta, eu estava viajando nesse final de semana.

    Vamos por partes.

    Sobre a “blindagem” questionada, aponto como urgente a necessidade de abertura e ampliação dos canais democráticos, o fortalecimento das instituições e garantias individuais, a ampliação dos direitos sociais e distribuição de renda e a refundação da política sob um novo ethos, mais humanizado, mais participativo. Precisamos com urgência de reformas profundas que reorganizem as relações entre Estado, setor produtivo e sociedade. Precisamos que o poder freie o poder, mas para além disso, precisamos, como diz o Boaventura de Souza Santos, de uma repolitização de todas as esferas sociais. E pra isso é urgente a ampliação de iniciativas como audiências públicas, conferências, debates entre a sociedade e o poder legislativo, orçamento participativo, etc.

    Pra ser menos generalista, acho que a justiça precisa ser mais eficiente e independente, mais protegida das distorções geradas pelo poder político e econômico. Acho que organizações como o MP e a Polícia Federal são fundamentais na luta contra os “males do sistema que corroem o próprio sistema” e penso que as reformas política e eleitoral, em discussão no legislativo federal, são urgentes.

    Reconheço sua visão que considera que

    “as instituições democráticas evitam tanto que a decisões sejam monocráticas, buscado sempre o debate, que acaba por impossibilitar decisões; principalmente num país com tantos partidos como o nosso, o que acaba por forças decisões por baixo dos panos, por detrás das cortinas, enfim.”

    Um dos debates intensos do grupo é justamente sobre isso, sobre inovação institucional. Para nós, são as instituições (mas não só elas) a base sobre a qual se sustentam a democracia representativa e o estado de direito; mais do que isso…são também as instituições que as definem enquanto tais. Ver a questão sobre esse prisma é buscar a reformulação das instituições como uma reformulação da sociedade. Torná-las mais inclusivas, proporcionais,justas e eficientes é também transformar a sociedade. O que eu diria então para respondê-lo? Se as instituições levam invariavelmente ás decisões por baixo dos panos, isso é um forte indício de que elas precisam ser alteradas…e é exatamente isso que defendemos no B&D.

    As instituições não têm fim em si mesmas e nem são eternas…Elas devem estar em consonância com as peculiaridades de cada sociedade, e justamente por isso em constante inovação. Tal dinamicidade se dá, pra mim, na democratização e abertura dessas instituições para e pela a sociedade. Por isso, discordo do Sartori quando diz que a democracia americana funciona apesar das instituições, e não por causa delas. Acredito que são justamente as instituições, em constante transformação e adaptação, que garantem tal funcionamento. Elas são a materialização do “contrato social”.

    Para você, “as instituições políticas brasileiras estão tão blindadas contra o personalismo (entendendo aqui o poder de agir, optar de fato, de acordo com os desígnios de uma só pare, ou pessoa) que justamente obrigaram o Lula a utilizar de todo seu poder político, personalista, para justamente buscar conciliações, e maneiras de viabilizar certas políticas; afinal ninguém nega que esta política trouxe avanços.”

    Vou ter que discordar mais uma vez. Concordo que algumas de nossas instituições melhoram a cada dia, mas de maneira geral ainda temos muitos desafios pela frente. O personalismo discutido aqui não é o personalismo que leva á tentações ditatoriais na tomada das decisões, mas justamente o contrário, é o personalismo que viabiliza a manutenção do status quo por um acordo constante entre a classe política, que está, isolada da sociedade. É também através desse personalismo (mas não só) que tudo continua como está. O país continua não se pensando á longo prazo e a principal força política no governo não tem um plano de poder definido claramente. O personalismo pode ser, em certo grau, uma problema inerente a democracia, mas não o é quando a sociedade é o vetor e o ator mais importante da política. E não acho que isso tem acontecido no Brasil. Mais uma vez aponto a democratização como central. Precisamos tornar a democracia mais participativa.

    “Nós” não existe, aquilo que queremos na verdade são muitas e variadas, para não dizer opostas, coisas e que envolvem disputas, promovidas em nossas instituições justamente para evitar as decisões arbitrárias.
    Sim, considerando a sua visão, que penso estar baseada em Shumpeter, um “nós” de fato é subjetivo demais. Mas o nós B&D sim existe, e foi desse “nós” que eu quis apresentar um pouco no texto. Somos um grupo político com propostas abertas e claras para o desenvolvimento do país e de fato desejamos muitas coisas. Para além do mais, e também por ser jornalista, discordo do Shumpeter quando diz que o “nós” ou “o bem comum”, ou a “opinião publica” não existam. Somos divididos em classes com objetivos diferentes, mas todos, ou a maioria, queremos o fim da violência, queremos saúde, educação, oportunidades. Se não houvesse o mínimo de noção daquilo que é comum, não haveria Estado. Há mais vantagens na coletividade do que imaginamos.

    “Talvez o personalismo do governo Lula seja justamente a solução criativa de que você fala, já que nunca vi ninguém negar os avanços e melhorias obtidas no governo Lula.”

    Os avanços do governo Lula, que eu também não nego, podem ser advindos de uma série de outros pontos, que preferi não abordar no texto porque isso merece um artigo a parte, mas discordo que o personalismo seja a solução criativa; muito pelo contrário…E isso eu já expliquei acima.
    Espero ter esclarecido os pontos.

    Abraços.

  10. Obrigado pela resposta, e desculpe a demora também. É que andei meio fora da internet por causa do período de ajuste de matrículas.

    ”Torná-las mais inclusivas, proporcionais,justas e eficientes é também transformar a sociedade. O que eu diria então para respondê-lo? Se as instituições levam invariavelmente ás decisões por baixo dos panos, isso é um forte indício de que elas precisam ser alteradas…e é exatamente isso que defendemos no B&D.”

    Quanto a este ponto sou obrigado a concordar com os objetivos traçados por vocês, apenas acho que fui um pouco mal compreendido. Não só concordo quando diz que as instituições são a base da Democracia e do Estado de Direito, como também quando diz que transformá-las é transformar a sociedade. Acrescentaria aí inclusive uma perspectiva de que transformar a sociedade também é transformar as instituições, ou seja, instituições não se movimentam sozinhas, elas assumem a cara de quem as movimenta, daí a ambigüidade e conflitos decorrentes de seu uso, uma vez que a sociedade não é una. Inovação institucional é inclusive um dos pontos que eu mais admiro no B&D, e por isso coloquei no meu comentário que reinventar a democracia é a frase do dia.
    Digo que fui mal compreendido porque não acredito que as instituições levam “invariavelmente” às decisões por baixo do pano, defendendo inclusive que no governo Lula tais decisões se tornaram mais transparentes. E que tal conseqüência não é um fruto das instituições, e sim da maneira como são utilizadas, uma vez que defendo que as instituições são a própria sociedade, como disse acima. Por isso utilizei Sartori, pois neste contexto ele não que dizer (pelo menos numa interpretação minha) nem que as instituições são inúteis, nem que são as responsáveis pelo sucesso da democracia americana. Quer dizer que a democracia nos USA funciona pois a sociedade contribui para que funcione, e não porque existe um arranjo institucional maravilhoso; tese essa que, para mim, se torna perfeitamente plausível ao se entender instituições como sendo a própria sociedade; o modo como ela as utiliza é que as constrói, logo as instituições democráticas nos USA funcionariam graças às pessoas, e não à elas próprias.
    Quanto às instituições serem a materialização do contrato social, serei obrigado a concordar novamente. E para isso cito também Boaventura, quando ele diz que um contrato social, apesar do nome, de maneira alguma é um contrato, mas sim está assentado sob pressupostos pré-contratuais, dentre os quais ele entende o regime de valores, de medidas, dentre outros, de uma sociedade. Ou seja, o contrato social se assenta sobre a própria sociedade, retirando dela suas regras; daí inclusive a crise do contrato social à medida que as sociedades se tornaram mais plurais. E se as instituições são a materialização de um contrato social, e este é assentado numa sociedade, ou grupo social num contexto mais plural, acho possível concluir que as instituições são, numa relação dialética, a própria sociedade. Daí dizer que funcionam apesar delas. Inclusive o que leva Sartori a chegar nesta conclusão é justamente o fato de que as democracias da América Latina se deram ao modo da Norte-Americana, sem, contudo obterem o mesmo sucesso.

    “O personalismo discutido aqui não é o personalismo que leva á tentações ditatoriais na tomada das decisões, mas justamente o contrário, é o personalismo que viabiliza a manutenção do status quo por um acordo constante entre a classe política, que está, isolada da sociedade.”

    Sim, mais uma vez concordo com o a conclusão. Discordo somente da análise, pois, assim como você vejo também neste afastamento entre a classe política e a sociedade, como se constituíssem mundos incompatíveis, um enorme problema, exigindo, como você cita, a repolitização da sociedade. Mas mais uma vez interpreto isso como uma falha das instituições, e consequentemente um problema social, ao contrário de uma conseqüência do personalismo de certos políticos. O motivo pelo qual defendo isso é porque acredito que a discussão perde muito quando se tomam caminhos como a crítica de um personalismo específico, sendo muito mais benéfico enfatizar as instituições, o alvo das inovações. Um fator interessante que percebi ao participar de uma simulação da câmara dos deputados é que mesmo numa universidade como a UnB é incrível como não se tem noção do processo legislativo, o inicio de toda a seleção que o Direito atua. Então pode ser que o personalismo do Lula contribua para a manutenção do status quo, mas focar a discussão neste ponto, a meu ver, é pouco produtivo.

    Quanto ao bem comum, no caso do entendimento de um grupo, não tenho porquê discordar de que é possível falar em “nós”, apesar de no fundo todos saberem que, mesmo em grupos, este interesse público é sempre construído. E justamente por isso discordo que este “bem comum” exista em relação à sociedade, mesmo no modo como você o coloca. Pois falar que a sociedade inteira deseja o fim da violência e saúde é como falar que todos desejam a felicidade. Numa sociedade desenvolvida como a nossa, dada a impossibilidade de se prever resultados e fins, os meios, instrumentos adquirem uma importância enorme, se eu não me engano é a Arendt quem diz isso. Então mesmo que a paz seja o objetivo de todos, dada a imprevisibilidade do resultado, os meios utilizados acabam por adquirir uma importância muito grande; e é justamente neste espaço que atuam as instituições, como procedimento, quanto ao qual a divergência é um pouco maior.

    Abraços

  11. O articulista e os que emitiram comentários sobre sua análise da personalidade de Lula partem do pressuposto de que ele conta com elevado índice de popularidade ( em torno de 85 % ). Para mim será um pressuposto até que essas pesquisas, feitas por institutos suspeitos, pois encomendados pelos interessados, sejam confrontadas com a realidade. Quero ver Lula, como Medici, em plena ditadura, ir ao Maracanã assistir Flamengo e Corintians, ou no Mineirão, no Pacaembú ou no Bezerrão. O governador ARRUDA (do time do mensalão, de que Lula é treinador ) inaugurou o Bezerrão com um jogo entre as seleções do Brasil e de Portugal. Montou uma tribuna de honra para Lula e o ministro dos Esportes. Eles foram ? Obviamente que não ! É a síndrome da vaia do PAN. Construiram um mito – LULA, O FILHO DO BRASIL, mais uma fraude, desta vez cinematográfica.

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