Gustavo Dudamel e “El Sistema”: um projeto de engrandecimento do ser humano

Por João Telésforo Medeiros Filho

Senhoras e senhores, com vocês, Gustavo Dudamel e a Orquestra Juvenil Simón Bolívar de Venezuela, executando a belíssima Alma Llanera:

Extasiado e impressionado com esse vídeo (obrigado ao Thiago Tannous pela indicação!), fui procurar sobre o rapaz e a orquestra. Minha admiração cresceu ainda mais, e ultrapassou o aspecto musical: não sei se admiro mais a genialidade do regente ou a excelência e visão do programa social que propiciou a ele, à sua orquestra de talentos e a outros tantos jovens venezuelanos a oportunidade de conquistarem cidadania e desenvolverem suas aptidões  artísticas e humanas por meio da música.

No blog do Guaciara, Lauro Mesquita informa:

O maestro Gustavo Dudamel e a Orquestra Sinfônica Juvenil Simón Bolívar são muita curtição. O maestro é o mais comentado da atualidade, e causa movimentação por onde passa. Muito por causa da musicalidade dele, mas muito por causa de sua performance. Dudamel rege para ser bem escutado e visto, principalmente em vídeos do YouTube.

Considerado uma promessa na música de concerto, suas performances não são nada burocráticas. Mesmo em interpretações de composições complexas como as de Mahler são  marcadas por um envolvimento pouco usual dos músicos com as peças. Pelo menos nos vídeos e no disco, o clima parece ser de grande descontração, de verdadeiras celebrações (que invariavelmente contagiam o público). (…)

Vale  pena ler os ótimos textos do nosso amigo Irineu Franco Perpétuo sobre o venezuelano. Com eles dá pra entender que é possível construir um modelo de orquestra de excelência a partir de um projeto social. (…)

E para os anti-chavistas mais exaltados, é bom avisar: El Sistema foi criado muito antes do Chávez tomar posse pela primeira vez. A rede de educação musical nos bairros pobres foi criada em 1975 pelo músico e professor José Antonio Abreu.

Para conhecer melhor o Sistema Nacional de  Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela, visite o site oficial e a página de Dudamel. Eis a missão do programa:

La Fundación del Estado para el Sistema Nacional de las Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela constituye una obra social del Estado Venezolano consagrada al rescate pedagógico, ocupacional y ético de la infancia y la juventud, mediante la instrucción y la práctica colectiva de la música, dedicada a la capacitación, prevención y recuperación de los grupos más vulnerables del país, tanto por sus características etárias como por su situación socioeconómica.

Dudamel teria se tornado o grande regente que é se não existisse esse programa? Não sei. Sei que El Sistema tem feito a diferença na vida de milhares de crianças e jovens venezuelanos, como Edicson Ruiz:

Edicson Ruiz se convirtió en el contrabajista más joven que jamás ha tenido la Filarmónica de Berlin a la edad de 17. Ochos años antes, el trabajaba medio tiempo empaquetando bolsas en un supermercado para complementar el sueldo de su madre. La calle, con el alcohol, las drogas y las peleas de pandillas, representaba un gran atractivo, y su comportamiento se estaba haciendo cada vez más violento. Entonces un vecino le contó acerca de la escuela de música local.

É bonito ver a chance que os jovens têm de desenvolver sua criatividade e superar os próprios limites:

“Ellos me dieron una viola y me sentaron en el medio de la orquesta, entonces escuche el sonido de los contrabajos, y pensé, si! ese es el instrumento para mi!” recuerda Ruiz, sonriendo.

“Alguno meses después me pusieron en la Orquesta Nacional Juvenil. Por supuesto yo no podía tocar todas las notas! Ellos siempre lo hacen así; te meten en medio de la orquesta.

Yo recuerdo que miraba la partitura en el atril en mi primer ensayo de orquesta. Era una sinfonía de Tchaikovsky. Y yo pensé, Ellos están locos! pero nunca me dijeron, tú no vas a poder hacer eso. Nunca nadie me dijo algo así en la orquesta. Nunca”

É isto que um modelo de desenvolvimento precisa construir: oportunidades para que cada pessoa faça de si mesma o melhor que possa ser, tenha a chance de criar e engrandecer a si própria, ao seu país e à humanidade, como faz Gustavo Dudamel.

É impossível ter noção da extraordinária dose de talento que o Brasil desperdiça ao deixar à míngua, carente de oportunidades de desenvolvimento, grande parte de sua população. E isso não diz respeito somente (embora também, e em grande parte) ao grande problema da pobreza, da exclusão social. Também os “incluídos” padecem sob um modelo de educação que, em geral, mais uniformiza as pessoas e poda suas potencialidades do que contribui para que elas aprimorem seus talentos ao terem a chance de acentuar sua singularidade.

Conseguimos ter grandes jogadores de futebol. Não há nenhum demérito nisso, sou um torcedor apaixonado do time que abrigou em sua Vila sagrada o maior jogador de todos os tempos. E é claro que o Brasil, apesar de tudo, pode se orgulhar de seus grandes artistas, cientistas, trabalhadores e trabalhadoras das mais diversas ocupações… Porém, poderíamos ir muito além, não fosse o modelo excludente e mediocrizante que reina em diversas esferas de nossa vida social. Tenho certeza de que a vitalidade nacional, desde que empoderada de oportunidades de desenvolvimento, seria capaz de feitos ainda maiores, diversos e intensos.

É preciso inovar nas instituições nacionais, abri-las ao experimentalismo criador e distribuidor de oportunidades. É isto o que afirma Roberto Mangabeira Unger (ao fim deste documento):

Com isso, engrandecer-se-á o Brasil. O Brasil se engrandecerá sem imperar. Trará luz e alento para a humanidade,
vergada sob a ditadura da falta de alternativas. Encarnará a reconciliação da idéia pagã da grandeza com a idéia cristão do amor.

Brasil, mostra a tua cara! É a Hora!

Sistema Nacional de Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela
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8 respostas em “Gustavo Dudamel e “El Sistema”: um projeto de engrandecimento do ser humano

  1. é maravilhoso ações como deste jovem.
    A arte realmente vem salvando muitas gerações do crime e das drogas e dignificando-as.
    Será que nossos políticos e autoridades não vão se sensibilizarem para edificarem um grnade projeto de construção social para os nossos jovens?
    Ao invés de permanecer punndo-os com a exclusão
    ou revoltando-os com as prisões?

  2. Achei fantástico, tudo fantástico!

    Vejo que o incentivo à arte, em qualquer dimensão, é um dos pilares que mais podem contribuir para o empoderamente de um indivíduo. Ela é capaz de despertar percepções, de desenvolver olhares, de dar voz a sentimentos mais íntimos. E o que vejo como mais importante: potencializar o indivíduo como um feixe de construção, de mudança e de aperfeiçoamento.

    Assim, todo o projeto que visa à autonomia deve passar necessariamente pela capacidade de o indivíduo olhar para si e se enxergar como autor/ator de seu próprio projeto de vida. E esse é um dos grandes méritos desse programa. Aliás, para revelar essa importância da arte, não é preciso tê-la como forma principal de se ganhar a vida, não é preciso ser apenas músico, ator, pintor, mas, também, um engenheiro músico, um advogador ator, ou, porque não, um administrador que simplesmente tem gosto pela leitura.

    Concordo quando foi dito que a falta de incentivo à arte e ao desenvolvimento de talentos não é exclusividade dos segmentos ‘excluídos’. Gostaria, inclusive, de que aqui no Brasil o papel da arte assumisse outra dimensão que não apenas ‘salvar’ os desgarrados e ‘proteger’ os desprotegidos. Claro que essa função deve ser mais bem valorizada, mas deixa-se de lado todo o resto. A arte não empodera apenas os desempoderados, mas também os já vistos como empoderados. E é essa uma das principais partes do texto do Telésforo.

    Para uma outra discussão, nada melhor que a arte para flexibilizar o olhar em busca de soluções mais simples, para se poder olhar para problemas mais óbvios também.

    Enfim, sou muito suspeito para falar disso tudo: venho de uma família de músicos, fiz teatro por muito tempo, tenho muitos amigos nas artes cências. A arte é tão ligada à minha vida, que eu não poderia ter outra opinião sobre o assunto.

  3. Bela regência. De fato, lembra o Herbert von Karajan, a quem ele está sendo comparado.
    Eu, diferente de alguns, não acredito em genialidade nata ou em pessoas melhores que outras. Acho que oportunidades e condições adequadas fazem os gênios surgirem, se desenvolverem e atingirem seu potencial.
    Impossível imaginar quantos brasileiros, nas mais diferentes áreas, e mesmo pessoas em outros países, poderiam contribuir tanto para a humanidade, não vivessem em situações de completa exclusão e de falta de perspectivas.

    Ressalvas apenas ao seu uso como propaganda de um regime que, embora parece ser inclusivo, não acredito que seja democrático ou republicano.

  4. O texto do Telésforo ficou muito bom, também. Me lembrou o que o Mangabeira Unger diz sobre nosso potencial humano pateticamente desperdiçado.

    Vai fazer falta o Telésforo, lá na França.

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