O direito à diferença: Homossexual em pauta.

O conceito de desenvolvimento sempre é algo a ser discutido, sendo difícil determinar, a priori, qual seria uma definição apta ao bem-estar de um povo. Do desenvolvimento deve se encarregar o estado, que nada mais é que um ente social encarregado de tomar decisões amplas que afetam todos em seu território e, hoje em dia, também o resto do globo. Vivemos em sociedade mundial,  isso não é segredo. Hoje em dia, tudo que é brasileiro afeta o argentino, o americano, o boliviano, a inglesa. Assim, para além da preocupação com o povo brasileiro, as decisões governamentais de nosso país devem se preocupar com o resto do mundo, com os efeitos, os exemplos, os modelos de vida que apresentamos à sociedade global.

É entendimento de alguns teóricos do desenvolvimento, como o Professor Amartya Sen, vencedor do Prêmio Nobel de economia, o professor de Harvard Mangabeira Unger, o intelectual brasileiro Celso Furtado, dentre outros, que o desenvolvimento deve se pautar por aquilo que é humano, por aquilo que se destina ao homem. Desenvolvimento não é mero crescimento econômico. Desenvolvimento é empoderar, emancipar, aumentar as capacidades do indivíduo para que este possa atingir seus anseios e, ao mesmo tempo, auxiliar o corpo social a se fortalecer para que ele(o corpo social) possa erguer com mais facilidade o indivíduo.  Torna-se imperioso, nesse sentido, abranger a estrutura social, o desenho institucional, de tal forma que o homem, no seu sentido humano, seja contemplado. Essa é uma ideologia antiga.  Ela faz coro à filosofia política do pós guerra, em especial nas vozes de Arendt, Sartre e Habermas.

A esfera social em que são pautados os princípios capazes de empoderar o indivíduo é a política. É lá, por excelência, que encontramos o espaço da pluralidade. O mundo político é o locus onde as diferenças se encontram para disputar, discutir e assentar os interesses. Sem respeito, sem abertura ao plural, não existe espaço político.  E sem esse espaço público diversificado, as regras criadas para delimitar a ação do outro, e impedir que ele restrinja minha liberdade, carecem de legitimidade. Em especial frente a um mundo onde o homem não é definido, não é uno e está repleto de diferenças. Numa democracia, é impensável uma análise que não aceite o diferente, o plural, o outro.

Aceitar o outro em seu sentido mais pleno faz parte de uma política de desenvolvimento mais humana, mais capaz de aderir aos anseios que dizem respeito à existência e às conseqüências das escolhas dos seres humanos. No mundo de hoje, o homossexual sofre de um mal que se alardeou pelo mundo em momentos diferentes da história contra a mulher, o negro, o índio: o preconceito. O preconceito contra o homossexual é a negação de tudo que é peculiar a uma sociedade aberta, democrática e politicamente ativa. Ele nega o direito a uma opção sexual que em nenhum momento afeta a liberdade dos outros. Digo mais, esse preconceito tem efeitos penosos e duradouros não só na pessoa que é afetada por ele, mas também numa sociedade que tem como uma de suas maiores características a pluralidade. O Brasil é um país continental que agrupa pessoas das mais diversas culturas, línguas, costumes. Negar assento a uma parcela da sociedade bem representada, não só no país, como no mundo, é negar o plural como capaz de compartilhar a única coisa que nos une na diferença: os direitos.

Vejamos, não estamos levantando a bandeira contra todo e qualquer tipo de preconceito. O preconceito, por si só, não é ruim. Ele é importante a qualquer sociedade. Em especial a uma sociedade complexa, onde as escolhas são muito maiores do que as possibilidades de ação e pensamento. Ele é uma forma de fazer o indivíduo escolher sem ter que parar e pensar em todas as possíveis consequencias, sem ter que emitir juízo sobre tudo que lhe rodeia.  Afinal, toda forma de preconceito tem, em sua origem, uma emissão de juízo e aplicação de valores que se vinculam a um conhecimento dado como certo em um determinado momento. É tudo aquilo que já não se questiona por ser tomado como certo. Como diz Arendt, o problema do preconceito é justamente seu vínculo com o passado e a normalidade com que ele se aplica. Assim, não se questiona diante de fatos empíricos atuais o concebido anteriormente como verdadeiro.  O juízo anterior instaurado em um preconceito não é testado, não é passível de refutação.

No caso dos homossexuais, o preconceito advém de um ideal religioso. Entendia-se que as relações amorosas deveriam ser mantidas entre homens e mulheres somente, em suma, pela necessidade de manter a espécie viva. É um contra-senso, na cabeça de alguns, aceitar um relacionamento sexual que não tenha como fim último a procriação. De que vale o sexo se não para procriar a espécie?

A pergunta parecia ter sido respondida em 1968, mas ela ecoa na base do preconceito até hoje. Se pararmos para pensar, não parece haver nenhum outro juízo que possa ser feito contra os homossexuais que não seja esse.  E, convenhamos, essa perspectiva não embasa argumento plausível a nenhum ser que já tenha se relacionado sexualmente alguma vez na vida. O sexo não é, já há alguns anos, mera atividade instrumental para o fim último de se obter prole. E isso até em relação aos casamentos religiosos. A atividade sexual é, tanto na relação homo como na hétero, expressão de desejos individuais.

O caso peculiar do homossexual vai além. Diferentemente da mulher, do negro, e do índio, o homossexual não é reconhecido por características físicas próprias. No mesmo sentido, ele não se encontra todos os dias na sinagoga para seu culto como o judeu, não mora em assentamentos como os ciganos, e não mora na rua como os mendigos. A parcela da sociedade homo é um grupo de pessoas que, na grande parte do tempo, sequer se assume como tal. Com a exceção de se poder encontrá-los uma vez ao ano, em um lugar específico, em grande contingente de representantes, para celebrar os avanços na aceitação social, raras são as características que distinguem o grupo.

Em nossa sociedade,  onde o machismo ainda é dominante(vide post anterior de Mayra Cotta) o homossexual homem sofre ainda mais com o supracitado preconceito. Ele não pode chorar em filmes, ele não pode agir com bondade excessiva, ele não pode demonstrar qualquer tipo de afeto para com um ser do sexo masculino. Se assim o fizer, provavelmente será estigmatizado, não terá amigos héteros e perderá muitas oportunidades de se manifestar publicamente.

Falo isso como alguém que tem amigos homossexuais, não é homossexual, mas sofre preconceito como se fosse, simplesmente pelo fato de ser amigo, sair com os amigos e se divertir com quem tem opção sexual diferente. Não parece ser difícil fazer o pulo e entender a seriedade dessa situação. Esse preconceito implícito, que corre nas veias ocultas da sociedade, dificulta a vida livre e plena de pessoas com anseios e desejos iguais a qualquer outro, mas que se interessa por pessoas do mesmo sexo. O indivíduo que é homossexual é excluído ao ponto de serem criados verdadeiros guetos. As frases “Gay só é amigo de gay”,  “Só um homossexual para defender um outro”, “Amigo de gay, gay é” são comuns no dia-a-dia. E, por isso, existem lugares específicos para gays, bares de gays, pontos de praia de gays. Como se eles não pudessem se relacionar com os indivíduos hétero sob pena de serem eles(os hétero) considerados homo. A sociedade acaba aumentando o preço que se deve pagar ao se relacionar com um homossexual, transtornando as relações sociais entre pessoas que se  gostam.

Não há dúvidas que alguns homossexuais devem preferir ter seus próprios lugares, suas próprias boates, clubes, bares, etc. Nada mais comum. Quem quer fazer certas coisas acaba indo para certos lugares. É uma opção, como outra qualquer. O problema não é esse. O problema é a expulsão da sociedade que acontece direta ou indiretamente desses indivíduos para que eles não possam desfrutar, com a mesma liberdade, dos mesmos relacionamentos, das mesmas demonstrações de afeto, dos mesmos privilégios que aqueles que se enquadram na parcela do sociedade que prefere o sexo oposto.

Não é preciso ir muito longe para ver exemplos claros da exclusão social. Nada mais comum que ouvir alguém que fez algo errado ser chamado de viado, bicha, ou outros termos que denotam os homossexuais. Como qualquer pedaço de linguagem, tais termos estão revestidos de história. Ultimamente essa história já não condiz sempre com o intuito de se mostrar contra o homossexualismo. Porém, da mesma forma que esse não é o intuito, a palavra carrega um peso semântico que, quer queira quer não, acaba por diminuir o outro ao chamá-lo de homossexual, como se essa opção fosse, em si, algo ruim.

O aspecto político desse tipo de discriminação nos remonta a uma sociedade que exclui indivíduos que não afetam a liberdade do outro em nenhum aspecto e, no entanto, são excluídos como se ao corpo social cometessem uma infração do mais alto grau. A sexualidade e a opção sexual, apesar de assim ser chamada, em nada parece ter que ver com opção, com escolha no sentido racional da palavra. É possível escolher gostar mais de futebol que basquete? É possível escolher gostar mais de abacaxi que morango? De chocolate que baunilha? A condição humana é  ser imprevisível, diferente e plural[1]. Não há como rechaçar, em uma sociedade como essa, um gosto, um interesse individual diferente, por um juízo feito por um campo de conhecimento em muito ultrapassado e demasiadamente preso à tradição.

Desenvolver é, também, escancarar a aceitação do indivíduo como próximo apesar das diferenças. É permitir ao homem que ele se invente e reinvente a qualquer momento em que achar necessário. É buscar a vida que possa dar ao homem a possibilidade de se realizar efetivamente. “O homem só existe(ou se realiza) na política a partir do momento em que seus pares reconhecem direitos iguais aos mais diferentes. Os homens devem a si mesmos sua pluralidade.”[2]

Um dos primeiros passos à reinvenção própria é o reconhecimento de seus defeitos, de suas dificuldades. O país, assim como um indivíduo, precisa estar atento aos problemas sociais que enfrenta e expô-los ao debate aberto e público. Só assim as instituições democráticas estarão aptas para a resolução satisfatória dos conflitos inter-pessoais. Só assim haverá legitimidade para mudanças estruturais bastante necessárias ao desenvolvimento.


[1] ARENDT, Hannah. Que és la libertad? Traducción: Mara Kolesas Revisión: Claudia Hilb. 1991.

[2] ARENDT, Hannah. O que é a política? Editora Ursula Ludz, Tradução Reinaldo Guarany – Rio de Janeiro: 1998.

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22 respostas em “O direito à diferença: Homossexual em pauta.

  1. Gosto dessa idéia de que não há uma opção, mas uma tendência. Por isso mesmo acho que “orientação sexual” é uma expressão mais precisa do que “opção”.
    E achei legal você ter feito um texto tão pessoal. Nesse assunto, acho que a impessoalidade reduz a argumentação, pois creio que muitas das pessoas que têm preconceito os têm em abstrato.
    Meus amigos homofóbicos (infelizmente alguns são…) somente são preconceituosos quando falam dos gays em geral, ou dos desconhecidos. Quando a convivência se aproxima, quando a relação se “personaliza” de alguma forma, resta a pessoa e não o gay ou a lésbica. Mas, curiosamente, a tolerância particular não se converte em uma mudança do discurso geral.
    Por isso mesmo, creio que talvez uma ampliação do campo de reconhecimento pessoal possa gerar uma mudança na percepção abstrata.

    • Alexandre,

      Você tem razão quanto à aplicação do termo orientação ao invés de opção. Aliás, um amigo meu, que é gay, manifestou essa mesma crítica quando leu meu texto. Acho que isso mostra o quanto o universo homo é pouco conhecido e evidenciado pela sociedade. Os termos, as teorias queers, etc, são pouco difundidos e o debate público sobre o assunto é quase nulo. Daí a importância de chamar atenção ao que acontece com e, mais importantemente, contra eles de forma tácita, implícita e covarde. Essas são as formas mais violentas da violência.

  2. Apesar de ter usado o termo opção, acredito que contornou isso muito bem no fim do texto ao questionar se de fato existe espaço para uma escolha.
    Notei também que nos tags existe a palavra homossexualismo. Se não me engano, o termo não é mais utilizado, pois o sufixo ismo remete a doença. Desde que a homossexualidade deixou de ser considerada doença, ao menos cientificamente, o termo deixou de ser usado.
    O texto está muito bom, acredito que mais do que o direito a diferença, os homossexuais e as demais minorias também lutam pelo direito a indiferença, não ser notado como uma aberração, mas como só mais um.

  3. Meu melhor amigo é Gay. Sempre o acompanho para esses lugares tidos como “alternativos”. Nunca escondi minha predileção por tais lugares. Mas alguns colegas de unb me martirizam por frequentar e usar algumas girias tidas como de gays. Isso demosntra o pior tipo de violência que se possa praticar contra uma “categoria social”: o preconceito silencioso. Ele descansa no fundo dos sentimentos da maioria das pessoas por se tratar de algo “incorreto”, mas que sobresai ao menor sinal de abalo da sua “tranquilidade particular heterosexual”.

    Em verdade, qual o verdadeiro sentido desse preconceito? Não Há!

    Neste caso, o preconceito nao faz sentido nem mesmo para os modelos de subjetividade que formam os outros preconceitos.

    Não digo que sou um defensor dos direitos dos homosexuais pois acredito que eles não deveiram precisar ser defendidos. Mas sei que as coisas não funcionam dessa maneira.

    A humanidade se caracteriza diante de sua pluralidade. Pluralidade que se reflete em direitos, ideias, vontades completamente diferentes; mas o carater humano atribuido ao nosso ser surge da capacidade de se conviver harmoniozamente na pluralidade.

    Se as pessoas deixarem de acreditar nisso passaremos a nos chamar, sem nenhuma restrição, de homo animalis.

  4. Nesse texto, as informações sobre a homossexualidade são primárias e algumas discussões parecem irrelevantes:
    Comparar a rotina de um heterossexual (e conseqüentemente suas opções) com a de um gay não é justo, visto que há, justamente nessa diferença, a graça de ser um ou outro. Ser hétero não é uma condição irreversível, visto que hoje já existem pessoas de sexualidade indefinida, que passeiam por experiências de todos os gêneros e mantem uma vida social comum aos demais.
    Em tempo, é importante lembrar que, muitas das discriminações para com os homossexuais existentes hoje são feitas e causadas por eles mesmos, deixando mais difícil a persuasão do discurso de “igualdade” perante a sociedade.
    De toda forma – geralmente – os ambientes gays são mais tolerantes, receptivos, divertidos, mostrando aos “curiosos” que, na rotina dessas pessoas, há apenas o “querer viver bem, se divertir e nada mais”, deixando claro que o preconceito só existe por falta de informação, que é o maior problema existente, no que diz respeito a sexualidade, religião, entre outros.

    • Não entendi o que você quis dizer com “muitas das discriminações para com os homossexuais existentes hoje são feitas e causadas por eles mesmos”.
      Você está dizendo que o homossexual escolhe e cria a discriminação por meio de uma segregação consciente?

      Nem acho que se possa dizer que “há, justamente nessa diferença, a graça de ser um ou outro”. Se você está falando da orientação sexual, concordo, mas quanto ao modo de vida, acho que está carregada de preconceito a afirmação de que uma rotina de vida não possa ser comparável à outra. O fato de você fazer sexo com alguém não deve determinar sua rotina de vida, seja ela boa ou ruim.

  5. Muito bom o texto.
    Infelizmente, não tenho convívio com homossexuais assumidos atualmente, apesar das estatísticas indicarem que cerca de 10% da população é homossexual.
    Acho que você deixou de abordar um ponto: no Brasil e em alguns outros lugares do mundo, ser homossexual não significa apenas sofrer com a violência simbólica, com piadinhas e com a exclusão de grupos sociais.
    Ser homossexual e assumir isso pode significar a diferença entre a vida e a morte. O GGB (Grupo Gay da Bahia) é uma das associações de apoio aos homossexuais que denuncia o imenso número de mortes de homossexuais no Brasil, especialmente de jovens e na região Nordeste. No Irã, um homossexual pode ser preso e condenado à morte! Nas Bahamas, protestos religiosos já impediram a visita de um cruzeiro voltado para o público homossexual.
    Quanto à questão da opção e da forma como a sociedade lida com isso, em reação à homossexualidade, sempre costumo fazer uma consideração a alguns amigos mais homofóbicos: imagine que você acordasse um dia e a regra fosse ser homossexual. Seus desejos hetereossexuais pelo sexo oposto fossem reprimidos socialmente, moralmente. Você seria capaz de, numa situação dessas, passar a desejar alguém do mesmo sexo? Simplesmente escolhendo quem amar? Tudo bem, você pode, pelo bem da convivência social, por um senso de auto-preservação e de adequação às expectativas, passar a viver como um gay, mas você seria capaz de viver uma vida feliz, realizada, desse jeito?
    Não tenho razões pra acreditar que a formação do amor e do desejo homossexual se dê de forma diferente do heterossexual. É muito provável que sejam apenas diferentes manifestações de uma mesma estrutura cognitiva, com os mesmos limites à sua modificação pela força ou pela vontade.
    Existe ainda a questão da parceria/casamento homossexual. Comentei com membros do B&D semana passada sobre decisão do TJSP que excluiu um parceiro da herança de seu par, por serem homossexuais. Ambos haviam vivido em conjunto, publicamente, por 21 anos! Agora, com a morte de um, fica o outro sem bens, sem sustento, sem vida…
    Já vi que escrevi demais. Foi mal. Ia escrever pouco sobre o tema, mas continuo me lembrando de pontos que são importantes…
    O small talking e o preconceito contra homossexuais ainda continua aceito, mesmo em círculos que se dizem anti-homofóbicos. A televisão, peças teatrais e o cinema estimulam e favorecem o escárnio de tipos homossexuais, regularmente. Reforçando a diferença de um grupo, mas não para aceitá-lo; faz isso apenas para ridicularizá-lo e tentar trazê-lo de volta para os padrões gerais de aceitabilidade.
    Bem, é isso. Mais uma vez, ótimo post.

  6. Muito interessante sua abordagem de desenvolvimento e sexualidade. Não é comum ligar-se a questão do desenvolvimento com o respeito à diferença e à pluralidade.

    Como disse Alexandre, muito boa também a sua aproximação ao tema ao utilizar-se mais da primeira pessoa ao invés de manter-se na impessoalidade confortável.

    Em relação ao tema, ainda tenho dificuldade em entender o porquê do cerceamento de direitos fundamentais com base em argumentos morais e religiosos ultrapassados, afinal de contas o Estado é, ou ao menos deveria ser, laico. Não vejo porque não se reconhecer as uniões homoafetivas (equiparando-as às uniões estáveis ou mesmo criando uma nova modalidade no rol de entidades familiares), além, é claro, da tipificação do crime de homofobia.

    De qualquer forma, aos poucos há instrumentos que buscam melhorar a mitigada cidadania LGBT, a exemplo dos planos de governo Brasil Sem Homofobia (2004) e Plano Nacional da Promoção da Cidadania LGBT (2009), além da recente ADPF 178.

    Muito bom seu texto, Capela.

    Um abraço,
    Vinicius

  7. Vou tentar responder todos de uma só vez. Primeiramente, tenho que concordar com o Marcello. O texto,de fato, aborda temas primários. Eu não sou um estudioso do tema, apesar de me interessar bastante por ele, e sou novo, muito novo, no sentimento que me foi peculiar sobre o preconceito que afasta, que magoa, no que tange à homossexualidade. Por essa, dentre outras razões e limitações, meu texto está repleto de erros, omissões, terminologia errada e falta de tato. Acho, no entanto, que esse é o intuito de pautar um problema tão sério e, ao mesmo tempo, tão pouco discutido. Não sei de muita coisa, mas abro o espaço para que me ensinem assim como os outros. O assunto é essencial e deve ser pautado desde já.

    De novo ao marcello, digo que a comparação aos heterosexuais, por mais infrutífera que tenha sido, foi com o intuito de mostrar algumas coisas que devem ser garantidas a todos, independentemente de orientação(agora eu acertei) sexual. Por exemplo, um indivíduo gay que queira beijar seu parceiro em público terá muito mais restrição que um hétero. Isso não parece estar de acordo com a liberdade de fazer-se típica de um estado democrático de direito.

    Márcio, o intuito era abordar o Brasil e o preconceito em sua análise básica. Independentemente da violência ser física, explícita, implícita, moral ou de qualquer outro tipo, o fato relevante é: nossa sociedade ainda rejeita e entende a homossexualidade como algo ruim em si.

    Carlos, muito boa a idéia da indiferença. Ponto que não havia pensado e que me deu novas perspectivas para um possível novo post: o direito à indiferença. òtimo, obrigado!

  8. Entro neste debate trazendo uma temática que, muitas vezes, é vista como auxiliar ou deslocada da homossexualidade enquanto questão: o direito do homem – em um sentido mais amplo – ser, ou estar, frágil.

    Imaginemos a seguinte cena: dois homens se beijando de forma intensa, um sentado no colo do outro. Um dos homens acaricia de forma afável o cabelo do outro, este por sua vez chora e encosta sua cabeça no ombro do companheiro. A raiz de um possível incômodo ou estranhamento nessa cena está no deslocamento de um indivíduo masculino para uma posição que, histórica e numericamente, é tipicamente feminina. Vivemos em uma sociedade que autoriza somente a mulher a preencher esse espaço de receptividade. Lembrem-se do pior ser humano que vocês possam ter conhecido, certamente uma das frases que faz parte do seu rol de pérolas de imbecilidade é algo do tipo: “Pior do veado que come, é veado que dá.”

    O ódio, presente em homens e mulheres, tem sua origem na possibilidade de deslocar o macho da função de provedor e protetor da fêmea, que procria. Temos muitos preconceitos a dirimir, e este certamente me parece de profunda ligação com a homofobia. É essa impossibilidade de aceitar que o masculino possa conviver com a fragilidade – momentânea ou perene – que alimentou historicamente as religiões, território fértil para a condenação da homossexualidade.

    Em um momento de descontração, é comum ouvir uma mulher descrevendo seu parceiro ideal: um homem sensível, atento as necessidades e medos da companheira, carinhoso e paciente, mas também um homem que seja forte e a proteja quando ela se sentir ameaçada, que a ampare em momentos de desespero, que seja emocionalmente estável.

    É curioso que poucas vezes a sociedade discute, em seus momentos de descontração, o quanto também deveria ser fundamental a mulher oferecer amparo ao homem, a mulher proteger o homem. Homens, hetero ou não, também sofrem, sentem vontade de chorar, tem medo, perdem o controle e gostam de colo. Entretanto, quando um homem manifesta estas – e muitas outras – características tipicamente femininas, ele é quase que constrangido à homossexualidade. Aquela história de: “Esse aí é veado enrustido. Na melhor das hipóteses, carente.”

    A questão de gênero é uma via de mão dupla: mulheres fortes sem se masculinizarem, homens frágeis sem se feminilizarem.

    Se dermos esse passo, a homofobia receberá, a meu ver, um golpe letal.

  9. Querido (serei condenado como “homossexual” por começar assim?) Capela,

    Vão algumas considerações e questionamentos:

    1-Desenvolvimento humano – Você fala nesse novo tipo de desenvolvimento com o velho ranço e chatice de quem quer se diferenciar desse desenvolvimento impessoal, mercadológico e cruel do mundo econômico. Ainda que seja discreto, fica com ar de bandeira ideológica autojustificada. Pois bem, crescimento econômico, se não é humano, é o que!? Alienígena? Veja que entendo perfeitamente e concordo com seu intuito de afirmar que o único desenvolvimento não é o econômico e que há outras faces do desenvolvimento da humanidade (humano), o que inclui o aprimoramento de garantias dos direitos civis (para ficarmos com o tema tratado). Mas, como sou um direitista neurótico e preconceituoso que vê comunistas em todos os lugares, não pude deixar de bater na estrutura utilizada.

    2 – Você afirma que “Sem respeito, sem abertura ao plural, não existe espaço político”. Oras, de onde vem essa definição? Então regimes autoritários ou totalitários não são e não reproduzem espaços políticos? Você teria usado a Arendt? Veja que não critico sua afirmativa, mas sim a fundamentação dela. Parece-me algo muito importante para estar simplesmente jogado no meio do texto.

    3 – Você afirma: “No caso dos homossexuais, o preconceito advém de um ideal religioso. Entendia-se que as relações amorosas deveriam ser mantidas entre homens e mulheres somente, em suma, pela necessidade de manter a espécie viva. É um contra-senso, na cabeça de alguns, aceitar um relacionamento sexual que não tenha como fim último a procriação. De que vale o sexo se não para procriar a espécie?”

    DE FORMA ALGUMA! Acho que aqui você cometeu um equívoco de forma e conteúdo. Primeiro que a justifica apresentada é também religiosa, mas, fundamentalmente, um argumento laico. Por isso um erro de forma. Citou uma coisa e usou um exemplo que considero fraco ou deslocado. Laico pelo fato de, em princípio, podermos assumir que não é necessário ser religioso para defender a manutenção reprodutiva da espécie. Seria sim religioso no aspecto de sexo apenas para fins de procriação. Contudo, de qual religião estaríamos falando? Essa crítica não se enquadra, por exemplo, dentro da percepção de imensa parte das igrejas protestantes e evangélicas (por motivações de desenvolvimento histórico faço essa diferenciação), que acredita que o sexo é algo santo e benção na vida do casal (dentro da perspectiva do matrimônio entre homem e mulher). Se tratarmos do Brasil, o seu exemplo é basicamente uma crítica da Igreja Católica (e, claro, importante, mas, não, exclusivo).
    O que quero dizer é que o preconceito não é apenas religioso (apesar de majoritariamente ser) e que a crítica principal na perspectiva cristã é a do desvio moral que o homossexualismo representa, fato esse (ser efeminado, sodomia …) que está mencionado mais de uma vez em trecho da Bíblia. Um cristão com embasamento bíblico (dentro do entendimento do mainstream a respeito do ponto em debate) condenará o homossexualismo dentro de uma perspectiva moral, sem necessidade de fundamentá-la na questão da procriação (apesar de alguns fazerem isso e de vc ter, de forma clara, desmontado tal argumento).

    4 – QUANTO AO ASPECTO DA ESCOLHA: De fato o termo mais adequado é “orientação”, como você mesmo fundamenta ao longo do texto. Para reforçar: parece natural alguém “optar” pelo caminho do que é mais difícil e doloroso? As pessoas optariam por discriminação e intrigas não apenas públicas, mas, em especial, familiares contra si? Acredito que, majoritariamente, não. Contudo, elogio sua escolha pelo termo “opção” por enfatizar a necessidade em se respeitar as escolhas individuais. Do contrário, poderíamos justificar a tolerância pelos homossexuais pelo fato deles serem “coitadinhos” sem opção. Mesmo que as pessoas optem por um relacionamento e/ou comportamento homossexual, elas devem ser respeitadas.

    5 – Direito à indiferença: Neste aspecto aplaudo o que já foi dito. O ponto essencial de todo o debate não deve ser ignorar o problema (preconceito e violência) ou querer tratar tal grupo como especial, mas insistir para que os indivíduos GLBTTs sejam respeitados e tratados como qualquer outro indivíduo, visto que em nada prejudicam a liberdade de terceiros. (Aliás, confesso que em certos momentos me sinto em uma sociedade completamente retardada e idiotizada por decisões judiciais e uma legislação que até hoje tratam homossexuais como seres de segunda classe).

    6 – Finalmente, meus parabéns por abordar o tema neste espaço tão importante e bem consolidado. Pedindo venia para atropelar todas as peculiaridades históricas, afirmo sem medo que hoje o homossexual é o índio, negro e mulher (muito por fazer em especial a respeito deste último grupo) de ontem. Um grupo capacitado como o de vocês não pode pensar o Brasil e seu desenvolvimento sem enfrentar abertamente o tema. Deixando a rabugice de lado, seu texto tem muito, muito mais acertos do que “erros”. Mantenha a franqueza e honestidade com o tema e não tenha medo de usar o exemplo pessoal como fonte de “fundamentação paralela”. Ah, e neste aspecto, não compactuo com o mainstream acima mencionado (mas isso já é debate teológico).

  10. Acredito que a afirmação dos direitos homossexuais estaria consolidada com uma série de mudanças sociais e psicológicas que estão ainda longe de serem completamente visualizadas. A situação não se resolveria apenas com uma acomodação ou tolerância visual. Não bastaria apenas ser tranquilo quanto à possibilidade de duas pessoas do mesmo sexo serem vistas trocando afeto publicamente, em qualquer lugar (e, aqui, não se trata de comparar a vida de um homo à de um hétero, mas de entender que, para a sexualidade ser plenamente realizada, não é preciso lugares específicos ou hora marcada).

    Vejo, em um modelo assumidamente ideal, que a homossexualidade já não seria mais um problema a ser discutido quando alguns pressupostos forem modificados ou, da mesma forma como hoje é a ideia do sexo destinado à procriação, superados. Seria preciso que não se partisse mais do pressuposto de que todo indivíduo é hétero, de que nasce hétero e só passasse a ser homo a partir de sua própria afirmação ou da de terceiros. Ao conhecer uma pessoa nova, seria preciso que ela não fosse enxergada como alguém potencialmente heterossexual, mas como alguém capaz de se relacionar com qualquer pessoa. E, ao se saber que se trata de um homo, diferente da que se pressupunha, que o natural espanto não mais existisse.

    Tudo isso, principalmente, porque a questão da homossexualidade não está restrita à prática sexual com pessoas do mesmo sexo, vai muito além. Ela diz respeito à capacidade de se relacionar, de se apaixonar, de querer viver uma história com outra pessoa do mesmo sexo. Assim, um homossexual seria definido apenas – e é muita coisa! – como um indivíduo capaz de amar outro com a mesma orientação sexual.

    Para além disso, apesar da busca por uma pessoa definida para compartilhar um histórico de vida específico, a construção da identidade de um indivíduo alcança, sem dúvidas, todos os laços e relações interpessoais, inclusive as relações de amizade. Há uma busca constante por pessoas com inclinações idênticas, similares ou afins. E, nesse caso, não faz qualquer sentido haver restrições quanto à orientação sexual, cor, origem e por aí vai. A restrição deve dizer respeito apenas ao foro íntimo das pessoas envolvidas e na sensação de se estar bem ao lado uma da outra.

    Contudo, como ainda se trata de um modelo ideal, alguns grandes passos devem ser tomados, como, por exemplo, a afirmação a plenos pulmões da sexualidade e a exposição escancarada de preconceitos e de quem os pratica, quer para desvelar os aqui chamado de silenciosos e mostrar a impossibilidade de sua sustentação, quer para pôr em cheque aqueles que, automaticamente, absorveram um preconceito, e passam a repeti-lo, muitas vezes, sim, conscientemente e sem qualquer valoração.

    Feitas essas observações, destaco o quão bem escrito e pensando é o texto do Capela. Uma de suas virtudes é evidenciar que esse assunto não diz respeito apenas a quem o vive de dentro, mas a toda a sociedade. Gostaria, sim, de chamá-lo (o texto) de primário, por tratar de questão irrelevante, caso a situação fosse outra e a homossexualidade já fosse um assunto indiferente. Mas como não o é, o direito ao reconhecimento e à afirmação da diferença é ainda imprescindível e um caminho inafastável.

  11. Bravo, Deco!

    Bravíssimo!

    Finalmente alguém com bom senso nessa joça!

    (joça no sentido carinhoso, igual a sede da UVE é uma joça, hehehe)

    p.s.: Eu não estou sendo irõnico.

    Abraços liberais! Já não me sinto mais tão sozinho aqui na PINKolândia (centro-esquerdolândia, fique bem dito).

  12. Opa. E sou totalmente pró-GLS (não lembro a siglona, agora).

    E antes que critiquem demais nós, da Administração Pública, recomendo uma leitura dessa portaria aqui.

    Portaria SRH/MP nº 1, de 2007
    DOS BENEFICIÁRIOS DO PLANO DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE SUPLEMENTAR

    Art. 5º Para fins desta Portaria, são beneficiários do plano de assistência à saúde:

    I – na qualidade de servidor, os inativos e os ocupantes de cargo efetivo, de cargo

    comissionado ou de natureza especial, de emprego público e os profissionais contratados

    temporariamente, na forma da

    Lei nº 8.745, de 09 de dezembro de 1993, vinculado a órgão ou
    entidade do Poder Executivo Federal;

    II – na qualidade de dependente do servidor:

    a)o cônjuge, o companheiro ou companheira de união estável;

    b)o companheiro ou companheira de união homo-afetiva, comprovada a co-habitação por

    período igual ou superior a dois anos;

    (Nós, do Executivo, estamos fazendo nosso papel. Somos uma andorinha sozinha à procura de belos bosques primaveris de beleza pós-apocalíptica e etérea como um delicado conto pseudo-infantil de Oscar Wilde — um dos grandes fás dos prazeres do caroço do pêssego, como dizem os orientais.

    Você: está fazendo o seu papel? Hein?)

  13. Muito boa a iniciativa de tratar um tema assim, do tipo que quase ninguém é abertamente contra, mas o debate simplesmente não existe. Para melhorar só tratando das drogas também, mas aí é outra história.
    Parabéns.

    Tenho dois pontos:

    1. Apesar de concordar com o argumento para utilização do termo orientação, no lugar de opção, ainda assim prefiro utilizar opção. Primeiramente pelo motivo já exposto de valorizara a liberdade, ao contrário de tratar como coitadinhos sem escolha. E mais importante porque se formos adotar esse padrão, quem realmente tem escolha, opção quanto à qualquer assunto? Eu particularmente não consigo localizar a opção fora de um singularidade, todo um complexo das mais variadas relações que formam, e reformam, as pessoas. Não creio em um motorzinho de autonomia presente em cada um. Mas apesar da minha “escolha” de não ter escolha, ainda prefiro acreditar que tenho, e tentar tomar consciência de quem sou, para chegar o mais próximo possível de uma opção verdadeira.
    Acho que me embaralhei, mas o importante é que apesar de opções não existirem, não podemos abandoná-las. Somente tratando estas singularidades, pessoas, como conscientes e esclarecidas (logicamente que não inocentemente, mas sempre procurando observar os cenários dos mais diversos pontos de vista e contextos), preservaremos a liberdade e alcançaremos o desenvolvimento humano pretendido. Por isso prefiro tratar questões “humanas” sempre sob a perspectiva de uma opção, num sentido parafraseado aqui de Boaventura: opção pois poderia ser diferente.

    2. Este é mais uma sugestão, pois para conseguir tratar como opção questões como estas, primeiremente temos que nos reinventar, já que hoje claramente ser homem ou mulher não é uma questão de escolha. Gostaria de levantar uma pergunta que sempre ronda minha cabeça quando ouço discussões sobre sexualidade: “O que nos faz homens e mulheres? O que nos diferencia?” Pode parecer óbvio, e até uma simples tentativa de acrescentar complexidade desnecessária. Inclusive eu quase eu quase havia me convencido disso, até ler uma reportagens sobre crianças trangêneres. Crianças que numa idade de sete ou oito anos já estão decididas de que são do sexo oposto ao que nasceram. Então os pais tem de vesti-las como eles se veem, e mudar nomes, tratamento, e tudo. Até aí tudo bem, mas o problema ocorre quando chega a puberdade: imaginem um menino que tem certeza de que é mulher tendo de ver seu corpo cada vez mais dizendo o contrário; ou uma menina que tem certeza de que é homem, na mesma situação.
    O que os pais fazem é dar hormônios bloqueadores de puberdade até que eles possam escolher e ter idade para fazer a operações.

    Voltando à pergunta. Distinguir homens de mulheres, definido papéis, como já foi exposto acima, de machão é mocinha por exemplo, com base em características biológicas não seria como distinguir negros e brancos? Estava começando a me deixar convencer de que tal distinção, homem/mulher, é benéfica. Mas ao ver a reportagem das crianças, pensei: será que não seria bem melhor para elas se se vessem simplesmente como diferentes, já que num mundo ideal (na minha opinião), homens e mulheres, se é que a distinção permaneceria, seriam distinguidos pela opção que adotam, e não por terem barba, ou peitos, ou qualquer característica física. Uma criança jamais nasceria no sexo oposto, uma criança nasceria uma criança, apta a tomar decisões no futuro, mas somente uma criança, e nada mais. Podendo ser um homem de peitos, ou um mulher de barba.

    Pode parecer meio irreal, mas às vezes é bom olhar para o passado e pensar: porque diabos o mundo é assim? Será que não é tudo graças à um pequeno erro, talvez religioso, que foi cometido lá atrás? Pensar assim nos trás opções, no sentido mais Boaventura do termo.

    Ah, todos trataram da minha argumentação de um modo ou de outro, não estou discordando de ninguém. Minha intenção é só expor a pergunta de um modo menos comedido.

    “O que é que diferencia homens e mulheres mesmo?” Responder à esta pergunta, na minha opinião, levará a um esclarecimento bem maior sobre sexualidade e outras questões.

    Abraços

  14. Pelo que vejo, muitos aqui se preocupam com a utilização do termo “opção” ou “orientação”.

    Em primeiro lugar, esta me parece uma disputa escolástica e bizantina — para não dizer politicamente correta. A mesma gripe mental que leva as pessoas a ficarem mudando as siglas do movimento gay de tempos em tempos — o simpático GLS dando lugar para um intratável GBBLTYZ. O pior de tudo é que se esqueceram dos pansexuais na sigla, o que deixa de fora o pobre Sergey, único brasileiro a jamais ter conhecido biblicamente a Janis Joplin.

    Em segundo lugar: entre 3 e 6% de qualquer população é formada por homossexuais masculinos que PREFEREM fortemente o sexo com homens. Há vários estudos sendo feitos nesta seara. Um deles mostrou que a área que em cérebros masculinos costuma ser ativada pela visão de belas raparigas é a mesmíssima ativada no cérebro dos homossexuais masculinos quando estes vêem belos rapagões.

    Isso é um forte indício de que há uma base inata, biológica, para a preferência. Afinal, seus sistemas neurais, ao contrário de sua boca, não mente com tanta facilidade numa imagem de MRI.

    Em terceiro lugar: é muito comum a existência de sexo homossexual em circunstâncias em que pessoas predominantemente heterossexuais se vêem numa situação de carência de fontes para sua opção mais desejada. Neste caso, o sexo homossexual funciona como um second best, ao qual se recorre para satisfazer as agulhadas de Afrodite. Pesquisas empíricas indicam q

  15. (opa, enviei sem querer antes de terminar — digitar deitado pode ser uma maldição)

    Continuando: pesquisas empíricas indicam que um número enorme de homens são capazes de recorrer ao sexo homossexual como alternativa ao sexo heteressexual preferido. Em prisões americanas, por exemplo, até quarenta por cento dos presos se engajam em atividades assim. Isso é muito comum também, por razões óbvias, em sociedades que põe uma importância elevada à virgindade feminina (o que diminui a oferta de sexo em um momento particulamente “horny”-oso de nossas vidas — ou em instituições como exército e monastérios. Nestes últimos casos a evidência é predominantemente anedótica, hehehe.

    Em quarto lugar: sociedades que — como a nossa — adotam o “casamento companial” tendem a ser mais intolerantes com homossexuais. Por casamento companial, refiro-me ao tipo de ligação em que as pessoas compartilham a mesma casa, o mesmo quarto, a mesma mesa, e supõe-se que elas devem ser “amigas” e que devem se apresentar em eventos sociais juntas, e não admite-se — moral e às vezes juridicamente — o adultério abertamente realizado. Esse tipo de casamento surge na Europa em meados da Idade Média, em grande parte por influência cristã.

    Sociedades que não adotam o casamento companial, simetricamente, tendem a ser mais tolerantes com homossexuais. Assim na Grécia Antiga — em que homens e mulheres sequer compartilhavam os mesmos aposentos, e era de mal tom o homem se apaixonar pela mulher a ponto de levá-la a eventos sociais com seus amigos masculinos (o caso de Aspásia, a amante-esposa do grande estadista Péricles). Isso também se verificou no Japão medieval, que nos legou uma literatura homossexual até numerosa (“prazeres do caroço do pêssego”, hahuahauahauah)

    Por que o casamento companial é tão cruel com os homossexuais? A razão é simples: homossexuais podem engajar-se em sexo ocasional com mulheres, mas no longo prazo eles não conseguem restringir-se apenas a essa espécie de comportamento sexual. Então, em sociedades companiais, que exigem o convívio próximo, quotidiano e por vezes sufocante (esta última é minha opinião, hehehe) entre os cônjuges, os homossexuais se encontram sob uma pressão psicológica particularmente elevada — o que leva muitos a serem excluídos de uma das instituições basilares desses sociedades: o casamento.

    Em sociedades que não adotam o casamento companial, ao contrário, é perfeitamente possível a um homossexual cumprir os deveres sociais e, ao mesmo tempo, satisfazer fora dos laços matrimoniais seus reais apetites. Assim, eles não se encontram excluídos da instituição mais importante de sua sociedade.

    Mas o otimismo é a marca do século XXI — o colorido século das manifestações multi-milionárias da Avenida Paulista. A instituição do casamento companial se encontra em cheque em várias frentes, e a sociedade agora admite várias outras formas de relacionamento — há pluralismo institucional, aqui, hehehe, dentro de cada sociedade. Findo o monopólio do casamento monogâmico, cristão e entre sexos opostos, surgidas novas formas de “contratualizar” as relações sociais que antes era todas regidas pelo jugo opressor do casamento monogâmico, pois bem, o futuro se mosta colorido e arco-irísico, para não dizer róseo.

    (Prefiro usar o termo róseo não para homossexuais, mas para esquerdistas da esquerda aguada, da esquerda domesticada, como a maioria de vós parece ser.)

    Abraços róseos!

  16. Um grande amigo meu me corrigiu. Na verdade, a literatura japonesa fala em “prazeres do pêssego mordido”, e não do caroço do pêssego. A primeira expressão é muito mais poética, se menos realista. Culpem a minha criação crixaense (Crixás-GO, ruleia) pelo lapso.

    A propósito, esse meu amigo me diz que:

    “Entre os japas, sei de pinturas, muitas(séc. XVI,XVII, XVIII), com adolescentes andróginos sendo comidos como se mulheres, além do caso dos samurais que vc mencionou.”

    Abraços pró-literatura-do-pêssego-suculento-mordido!

    p.s.: A vida do maior escritor japonês do século XX, o Yukio Mishima é fascinante: http://en.wikipedia.org/wiki/Yukio_Mishima

    Aparentemente ele também era fã da fruta:

    Although he visited gay bars in Japan, Mishima’s sexual orientation remains a matter of debate, though his widow wanted that part of his life downplayed after his death.[4] However, several people have claimed to have had homosexual relationships with Mishima, including writer Jiro Fukushima who, in his book, published a revealing correspondence between himself and the famed novelist. Soon after publication, Mishima’s children successfully sued Fukushima for violating Mishima’s privacy.[5] After briefly considering a marital alliance with Michiko Shōda—she later became the wife of Emperor Akihito—he married Yoko Sugiyama on June 11, 1958. The couple had two children, a daughter named Noriko (born June 2, 1959) and a son named Iichiro (born May 2, 1962).

    Abraços!

    p.s.: Reparem que, segundo a Wikipedia, a atual imperatriz do Japão quase se casou com o Mishima! E reparem também que — graças à bela cultura japonesa — ele pôde ser um bom pai de família e um viado, tudo ao mesmo tempo!

    Lindo!

  17. Eu acho que primeiro somos todos cidadãos e, portanto, sujeitos tanto aos mesmos deveres quanto aos mesmos direitos, sejamos hetero ou homossexuais. Cada um é livre para fazer sua escolha e ser feliz como melhor lhe convém. E até o momento que isso não ferir a liberdade do próximo, ninguém tem nada a ver com a opção escolhida. Estamos todos tão preocupados com preconceitos bobos que perdemos de vista as coisas que realmente são importantes. É isso…

  18. Pingback: Fique por dentro Homossexual » Blog Archive » O direito à diferença: Homossexual em pauta. « Brasil e …

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