Modelo de Desenvolvimento e Custo Ambiental

Na edição da revista Le Monde Diplomatique Brasil deste mês  -julho de 2009-, encontramos uma série de artigos que discutem o modelo de desenvolvimento e o custo ambiental.  

O primeiro artigo, de Rubens Harry Born – membro do Vitae Civilis Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz – trata da mudança climática. De acordo com o autor, em dezembro de 2009 serão realizadas a 15ª Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança de Clima e a 5ª reunião das Partes do Protocolo de Quioto, em que se espera que “sejam tomadas decisões políticas importantes para reorientar as atividades econômicas e sociais, a fim de reverter o aquecimento global e as mudanças de clima”.  Quanto às alterações climáticas, o autor do artigo enumera alguns mitos que precisam ser rompidos:  i) de que se trata de um problema meramente ambiental; ii) de que não haveria comprovação científica suficiente da influência das atividades humanas sobre o sistema climático da Terra; iii) de que medidas de cunho “ambiental” são obstáculos ao “desenvolvimento” (entendido como crescimento econômico); iv) de que as respostas aos problemas de mudanças climáticas dependem exclusivamente de ações dos países industrializados. O autor ainda critica o Plano Nacional sobre Mudança Climática, ao dizer que não se trata de um documento objetivo, com metas claras e indicação de instrumentos concretos: “o plano é uma mistura de carta de intenções e colcha de retalhos que o país pretende implantar e de algumas que já diz adotar” 

Marina Silva, por sua vez, aponta a presença e persistência do modelo econômico arcaico e predatório na Amazônia. A Senadora faz um apanhado geral de estudos recentes sobre a Amazônia e, ao final, denuncia que autoridades responsáveis pelas políticas de desenvolvimento tratam as florestas como obstáculo e não como trunfo para a nova economia do século XXI. Assim, o governo brasileiro precisa decidir se deseja “liderar uma transição que torne o país referência para a busca de novos parâmetros globais de desenvolvimento, ou se continuará sendo fiador do passado, garantindo sobrevida a uma concepção ultrapassada de mundo, baseada em privilégios e na superexploração dos ativos sociais e ambientais para usufruto de poucos, sem pesar as consequências”.  

Ignacy Sachs, professor e economista polonês, aponta que com a crise todos viraram keynesianos, de repente. Ao anunciar que nos deparamos com paradigmas falidos, passa a propor que nos concentremos em mudanças estruturais no funcionamento do sistema socioeconômico. Assim sendo, teríamos três eixos de ação: i) expansão das redes universais de serviços sociais (educação, saúde, saneamento básico); ii) ampliação, dentro da economia de mercado, do perímetro da economia solidária; iii) adoção de uma matriz energética sóbria e limpa e geração de oportunidades para agricultores familiares (novo ciclo de desenvolvimento rural). E conclui: “O Brasil reúne todas as condições para se tornar um laboratório, em escala mundial, da transição para energias renováveis”. 

No último artigo, a jornalista Receba Lerer critica o Plano Nacional de Energia, que prevê a construção de oito novas instalações nucleares, enquanto se “perde o bonde tecnológico e econômico das energias renováveis”.  
 

É preciso que estejamos sempre atualizados em relação às discussões que se travam no país sobre desenvolvimento. Os diversos debates travados na mídia devem ser acompanhados, analisados e criticados. Na reportagem especial do Le Monde diplomatique, a questão ambiental serve de referência para a discussão do modelo de desenvolvimento a ser adotado pelo Brasil. A sensação que se tem após a leitura da reportagem é a de que o Brasil passa por um momento crítico, em que importantes decisões estão sendo tomadas. Os autores, então, propõem um novo modelo de desenvolvimento, mais sustentável e muito mais atento para as questões relativas à preservação do meio ambiente. Por mais que se possa criticar o ponto de vista de alguns autores, que muitas vezes parecem deixar em segundo plano indicadores sociais para privilegiar apenas aspectos ambientais, é estimulante observar que prospera um discurso de enfrentamento aos grupos detentores do poder econômico. Assim, enquanto a lógica do crescimento econômico se impõe, subsiste uma resistência que luta por uma concepção de desenvolvimento que ultrapassa a mera noção de crescimento econômico e que vislumbra a possibilidade, nesse início de século XXI, de um salto civilizatório.  

Fica a dica da leitura.  

 

Fonte: New Yorker

Anúncios

3 respostas em “Modelo de Desenvolvimento e Custo Ambiental

  1. Comentarei citando Mangabeira: o problema do desenvolvimento sustentável na Amazônia é que as atuais políticas voltadas para as comunidades tradicionais e exploração da floresta não são eficientes do ponto de vista econômico, mas geram preservação. Por outro lado, as práticas que destroem a floresta são eficientes e rápidas em gerar recursos para os exploradores, mas destroem a floresta.
    Tentar resolver o problema com polícia será impossível. É preciso um novo modelo de uso e aproveitamento do território, que agregue eficiência e preservação; que não dependa do poder de polícia e da constante vigilância do Estado.
    Enquanto um modelo desse tipo não for proposto, enquanto ambientalistas e exploradores não cederem em seus radicalismos, quem perde é o Brasil, a amazônia e a população.

  2. Além do primor do artigo, a relevância do tema não poderia ser maior.

    Se o modelo de desenvolvimento adotado indica sua própria falência, mesmo que não tenhamos alternativas no curto prazo, precisamos repensar nosso modo de vida.

    A destruição acelerada do planeta, promovida pela ação antrópica, enseja como conseqüencia o fim da própria existência humana. Nos restam duas opções: ou buscamos alternativas, ou assisitimos inertes ao nosso próprio fim.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s