Em defesa do Senado

Na Comédia grega em que se transfigurou a atual crise do Senado brasileiro, o grande ato protagonizado pelo presidente Lula na última semana foi de dar inveja a qualquer Aristófanes. Pela pragmática do poder ou por 80% de pura pretensão, Lula contou seu conto rindo mais uma vez da nossa inteligência: O Sarney não é uma pessoa comum.

Do incomum fez-se o patético e o Senado protagoniza cenas tão comuns quanto nossa resignação. O PT não sabe se reza a cartilha retórica de Lula ou seu preza pelo o que ainda resta de sua história de luta contra o coronelismo. A oposição joga o jogo da conveniência na certeza de que o povo brasileiro realmente acreditará na sinceridade de seus apelos éticos; o prazo de validade? 2010.

Mas voltemos à graça sem graça. Ponto alto da crise nas últimas semanas, a intervenção de Lula expôs o óbvio: o equilíbrio dos poderes no país não passa de uma grande piada. Na galhofa em que se transformou a política brasileira sobram palavras, falta responsabilidade. É um tal de um chamar presidente ás falas daqui, de fazer piada e opinar sobre tudo dali e assim caminha o país em 80% de pura mediocridade.

Lula acha que pode manter o presidente do Senado. Pouca gente duvida disso. Não é de hoje que a hipertrofia do Executivo corrói as bases da nossa democracia. Não bastassem as intermináveis Medidas Provisórias e o Judiciário legislando, o Congresso amarga insignificância crescente diante de um presidente que se avoluma rumo a altíssimos índices de popularidade. Lula trata o Congresso como mais um ministério e Sarney como mais um de seus ministros. Sarney aceita a benção e diz amém ao lembrar em plenário que o objetivo de seu cargo é atender o presidente. As últimas gotas de sangue do Senado foram ofertadas em cálice quebrado.

Os sócios, Lula e Sarney, pensaram em tudo mas, como sempre, esqueceram do mais importante: a democracia e o povo brasileiro, que amargam a manutenção teimosa de um status quo profundamente desigual. Os custos? Corrupção,nepotismo, clientelismo, péssimos serviços públicos, ineficiência, desigualdade extrema, injustiça, enfim; quem paga deveria se lembrar.

Fechar o congresso seria a resposta mais estúpida que a sociedade poderia oferecer. Na contramão, deveríamos defender a autonomia e fortalecimento das Câmaras representativas. O congresso é o poder mais fundamental da República. Se sobra picaretisse, falta controle, transparência e participação popular.

Como o Danniel, em seu texto sobre corrupção, não tenho dúvida de que o voto é um de nossos maiores instrumentos contra essa situação, mas quando é único meio disponível para mudanças é sinal de que alguma coisa está errada com a nossa democracia, de que a sociedade está engessada em si mesma. Educação para participação e participação para educação. Talvez um dia entendamos que democracia é muito mais do que o voto, que o presidente é muito menos que o Governo e que o Congresso é muito maior do que qualquer Sarney. Até lá seguimos protagonizando Comédias e Tragédias, na certeza de que o tempo é o melhor amigo dos que aprendem com os próprios erros.

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é sociólogo e jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

2 respostas em “Em defesa do Senado

  1. http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=546IMQ002

    Concordo inteiramente com este comentário de um conhecido sobre o texto linkado acima:

    “Concordo com a tese do artigo. Nessa história toda, a imprensa tem falhado no essencial: contextualizar a notícia. Um festival diário de denuncismo, com claros propósitos políticos, como tem sido, não deixa de ser uma maneira de fazer os leitores de palhaços…”

  2. Pingback: Corupção e o fim do Senado! O imediatismo autoritário « Brasil e Desenvolvimento

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