Mulheres de Atenas

Um autor muito lido pelo grupo é Amartya Sen, em especial sua obra “Desenvolvimento como Liberdade”, na qual o economista indiano trabalha a idéia de desenvolvimento como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam. Estas liberdades dependeriam não apenas do crescimento do PIB ou do aumento das rendas individuais das pessoas, mas também das disposições econômicas e sociais e dos direitos civis.

Dessa forma, diz o autor, “o desenvolvimento requer que se removam as principais fontes de privação de liberdade: pobreza e tirania, carência de oportunidades econômicas e destituição social sistemática, negligência dos serviços públicos e intolerância ou interferência excessiva dos Estados repressivos.”

Nesta mesma obra, Sen dedica um capítulo às mulheres, enfatizando-as como agentes ativos de mudança social. As mulheres, então, já não mais se satisfazem com o papel de receptoras passivas de auxílio para melhoramento de seu bem-estar, mas se vêem e são vistas, cada vez mais, como agentes de transformações sociais. Afinal, “ver os indivíduos como entidades que sentem e têm bem-estar é um reconhecimento importante, mas ficar só nisso implica uma concepção muito restrita da mulher como pessoa.” De qualquer maneira, tanto o bem-estar feminino como a condição de agente das mulheres são duas abordagens que se sobrepõem – a condição de agente deve se sustentar no bem-estar, assim como o aumento do bem-estar deve depender do reforço da condição de agente.

O bem-estar das mulheres, portanto, não deve deixar de ser cuidado, mas há uma necessidade urgente de se adotar medidas no sentido de transformação da mulher em agente, que se dá por meio da independência e do ganho de poder. Neste sentido, diversos são os fatores que contribuem para este empoderamento, especialmente o potencial para auferir rendimentos, o papel econômico fora da família, a alfabetização e instrução e os direitos de propriedade.

Curiosamente, eu lia este capítulo do livro enquanto aguardava o início de uma audiência de instrução e julgamento para apurar um suposto cárcere privado praticado por um homem contra a sua companheira. Contou a mulher que seu companheiro a manteve dentro de casa por dezenove dias seguidos, período em que a submeteu a diferentes tipo de maus-tratos físicos e psicológicos. Quando o juiz perguntou como o acusado conseguiu mantê-la presa por esse período, a mulher respondeu que ele ia trabalhar e a proibia de sair de casa. O juiz, impressionado, perguntou, então, por que ela não tentava fugir e obteve a seguinte resposta: “Mas para onde eu poderia ir? Quem iria cuidar de mim e da minha filha?”

Este capítulo da obra de Amartya Sen, então, passou a ter um significado ainda mais profundo, pois, se é certo que o desenvolvimento deve acontecer também pela transformação das mulheres em agentes ativos de mudança social, não é menos certo que esta transformação encontra grandiosos obstáculos. Afinal, casos como o retratado acima não são poucos freqüentes, apesar de em menores proporções.

Muitas são as mulheres que não agüentam mais a submissão ao marido, que desejam viver de forma independente, conquistando o poder que nunca tiveram, mas simplesmente não conseguem sair de casa – e diversos são os fatores que a prendem, como a dependência econômica em relação ao marido, o sentimento de dever para com a família e o não-reconhecimento de seu papel fora do lar. E ainda é considerável o número de mulheres que foram por tanto tempo despidas da condição de seres humanos que hoje sequer conseguem ter a perspectiva de um dia se transformarem em agentes. Há muito o que ser conquistado ainda.

O grande alcance da condição de agente das mulheres é uma das áreas mais negligenciadas nos estudos sobre o desenvolvimento e requer correção urgente. Pode-se dizer que nada atualmente é tão importante na economia política do desenvolvimento quanto um reconhecimento adequado da participação e da liderança política, econômica e social das mulheres. Esse é, de fato, um aspecto crucial do ‘desenvolvimento como liberdade’.” (Amartya Sen).

Mulheres  de Atenas

Chico Buarque

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas

Quando amadas se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas, cadenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos
Poder e força de Atenas

Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obscenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas

Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos
Os novos filhos de Atenas

Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não tem sonhos, só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas, morenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos
Heróis e amantes de Atenas

As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas, não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
As suas novenas
Serenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos
Orgulho e raça de Atenas

Anúncios

2 respostas em “Mulheres de Atenas

  1. Belíssimo post, se um tanto unilateral. Neste ponto, sou marxista até o último mol. É que a tal “igualdade das mulheres” em relação aos homens é muito dificultada por condições materiais (e biológicas) adversas. A nossa sorte foi que o século XX viu o enfraquecimento ou mesmo o desaparecimento de todas elas.

    Vejamos qual é a infra-estrutura econômico-biológica que contribuiu para a inferiorização social das mulheres até meados do século passado.

    (i) Inexistência de métodos contraceptivos eficientes. Diante disso, a maior parte das mulheres (fora as mulheres da elite, isso é outra história) ficava presa num ciclo de gravidezes sem fins, sendo que apenas um fração dos rebentos chegava até a idade adulta. Minha querida vovó, por exemplo, teve vinte partos, e somente nove dos filhos dela chegaram à vida adulta. Não vou salientar aqui, em respeito à inteligência do leitor, o quanto isso dificultava o desenvolvimento político e social das mulheres, até porque não havia substituto eficiente aos cuidados maternos de casa, fralda e banho, neste quesito.

    (ii) Até a revolução industrial, a maior parte das atividades econômicas fora de casa exigia força braçal. Essa necessidade foi cada vez mais deixada a segundo plano, a tal ponto de hoje quase esquecermos que ela já existiu. Numa sociedade na qual a maior parte dos bens e serviços decorria da agricultura (culpem a revolução neolítica!), com a coadjuvância da pecuária e de atividades como as do ferreiro, do açougueiro e da manufatura com máquinas toscas, as mulheres de fato não tinha como ser tão produtivas quanto os homens;

    (iii) A inferioridade em que todas as três religiões monoteístas colocam a mulher é uma realidade de longa duração (para usar o termo do grande Braudel). Em parte, essa inferioridade decorre dos dois fatores mencionados em (i) e (ii), mas em grande parte decorre da simples contingência histórica. Essa inferioridade justificou a exclusão das mulheres, até épocas bem recentes, da educação, o que tornava auto-realizada a crença de que mulheres eram menos capazes intelectualmente que os homens, e por isso não deveria receber nenhum tipo sofisticado de educação.

    Bem, existem outros fatores, mas estou digitando com o laptop em cima da minha barriga deitado na cama, de maneira que meu braço está DOENDO!

    Abraços doloridos!

  2. Muito interessante o tema do Post, Mayra, e a forma como você o relaciona com o desenvolvimento.
    Mulheres ainda enfrentam muito mais dificuldades que homens para viverem suas vidas segundo suas próprias determinações.
    Além disso, para terem sucesso profissional, não são poucas as que têm de deixar de lado sua própria feminilidade, se travestindo de homens para conseguir respeito e espaço em suas carreiras.
    Acho que o objetivo de políticas voltadas para a inclusão de mulheres não deve passar pela mera igualdade formal, mas também por elementos que permitam às mulheres manterem sua feminilidade, e poderem determinar suas vidas segundo suas próprias razões.
    Sim. A proposta pode parecer vaga, mas reflexões sobre o tema, como a proposta por você, ajudam a delinear melhor o problema e as formas de sua superação.
    abs,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s