A liderança e o terceiro mandato.

Muito tem sido dito sobre um suposto terceiro mandato de Lula.  E essa perspectiva não parece ser estranha às sociedades latino americanas do mundo atual. Virou moda permitir (ou tentar permitir) que um líder, normalmente do executivo, possa continuar no cargo por um tempo maior que o inicialmente estipulado.

Dizem alguns que isso acontece por uma falta de maturidade institucional, pela ausência do viés democrático na cultura latino-americana. Afinal, somos herdeiros de sistemas autocráticos(assim como todos os sistemas na Europa), não passamos por revoluções burguesas sanguinárias, não criamos nosso próprio modelo para nos governarmos, etc, etc. Não há como negar nossa história. De fato, nossas instituições carecem de perspectivas mais abertas, nossa sociedade é estratificada, nossos meninos preferem ser jogadores de futebol.

No entanto, parece que muito do que acontece no hemisfério sul do atlântico diz respeito à ausência de líderes. Líderes no sentido de Alberto Melucci. Segundo o autor, não faz sentido definir um líder somente por suas capacidades individuais. Essas são efêmeras, incapazes de serem mantidas por um longo período de tempo. A liderança é uma relação. Nela um indivíduo é chamado a se colocar na posição de ditar rumos sociais, sempre respeitando os anseios plurais e diversos que envolvem todos que são representados.  Há, aí, uma verdadeira troca. Enquanto o líder detém poder de escolha, ele é o que mais se arrisca em suas ações. Todas as escolhas tomadas por ele, enquanto líder, devem estar voltadas para um resultado, um processo, um objetivo que lhe é atribuído pelo próprio poder que o institui. Quando esse poder emerge de um campo diversificado, estratificado e repleto de contradições, o serviço torna-se consideravelmente maior.

Não há surpresa: numa sociedade complexa, plural, contingente e líquida, a representação é um problema. É impossível dizer (ou sonhar) que exista ou que um dia existirá um indivíduo capaz de ditar o espírito do povo. Não existem salvadores da pátria. No regime democrático, há, sim, uma necessidade de diversos líderes, de diversos indivíduos dispostos a se exporem ao âmbito social para tentarem representar bem facções plurais de um contingente pessoal imensamente variado.  Nesse contexto, volta-se ao senso comum habermasiano: não há representação sem participação. O líder é, como dito anteriormente, resultado de uma relação. Nela, indivíduos escolhem A como propulsor de ações que beneficiam o grupo. “Achamos fulano capaz de nos ajudar, ele nos ajuda, vamos mantê-lo no cargo.” Essa relação só é real quando existem mecanismos que possam averiguar a atuação do líder, quando ele é capaz de factualmente se relacionar com aqueles que representa.

O presidente Lula, assim como os outros expoentes de esquerda da América Latina, acabam se beneficiando da ausência completa de líderes pontuais. A origem humilde, em países em que a baixa renda é regra, não exceção, dá ensejo ao imaginário popular. Um povo mal ou pouco educado, com necessidades das-mais-imediatas, entende que, na ausência de pessoas como eles capazes de os representar(afinal, o sistema frequentemente os mostra o quão incompetentes eles são), o único ser apto é aquele nascido e criado entre eles, mas com dádivas sagradas. O grande Salvador. Está aí o problema. Enxergar o líder somente através das características individuais deste é desempoderar o representado.

A liderança como aspecto relacional entende o líder como um ser solidário aos interesses dos outros e capaz de promover um bem-estar geral daqueles que o elegeram como tal. Não existe um indivíduo na terra que faça isso por si só. Falta ao Brasil, e talvez aos povos da América Latina como um todo, mais lideres que não se pretendem messiânicos e mais dispostos a servir ao invés de mandar. Somente nós podemos nos salvar de nós mesmos.

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4 respostas em “A liderança e o terceiro mandato.

  1. Ontem, em conversa com alguns membros do grupo, critiquei a defesa, por alguns, de Getúlio Vargas. Embora tenha sido condutor de uma revolução que trouxe resultados benéficos, me recusei a aceitá-lo como modelo de líder brasileiro, exatamente pela forma autoritária que conduziu seus períodos no poder.
    Tudo bem que eu sou um paulista, ontem era nove de julho, e meu bisavô lutou na Revolução de 32, então tenho uma formação pessoal e familiar que nunca foi conivente com o getulismo.
    Mas ainda assim acho que um líder que governa sem pluralismo e que esteriliza novas lideranças, por ocupar eternamente um cargo, é um mal em si, que deve ser combatido. Por mais brilhante que seja, a capacidade de renovação de lideranças, em qualquer movimento, seja do Estado, seja de movimentos sociais, é um critério que não pode deixar de ser considerado.
    Acredito que nossa falta de lideranças políticas aptas a suceder o presidente Lula é uma herança de arranjos institucionais brasileiros que, em décadas anteriores, restringiu e afastou o cidadão da política. Desinteressado, o eleitor lida com quem “já está aí” e não participa ou se envolve como agente de mudança de seu destino.

    Ótimo post, muito lúcido.

  2. Henrique,
    Não quero apelar para um regresso metalinguístico infinito, mas o que é esquerda?
    Se esquerda é o atrelamento ao trabalhismo-marxista, o intervencionismo direto estatal em tudo e o dirigismo econômico, em detrimento da economia de mercado, ninguém mais é de esquerda.
    Acredito sim que o Lula é um presidente de esquerda, que dá vozes a elementos da sociedade brasileira que nunca foram ouvidos e que promove políticas públicas coerentes com um novo modelo de esquerda, ainda que não plenamente delineado em seus fundamentos ideológicos.
    abs,

  3. “O grande Salvador. Está aí o problema. Enxergar o líder somente através das características individuais deste é desempoderar o representado.”

    É ISSO! Mto bom

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