Democratizar a comunicação

Por João Telésforo Medeiros Filho

Nessa semana, o Grupo Brasil e Desenvolvimento subscreveu esta carta, elaborada pela Comissão Pró-Conferência Nacional de Comunicação do DF para ser encaminhada ao Governo do Distrito Federal nos próximos dias:

Por uma Conferência Distrital de Comunicação


É notória a importância da comunicação na formação de valores e opiniões, no fomento e na produção das culturas e nas relações de poder. Por isso, a compreensão da comunicação como um direito humano é condição fundamental para que este processo social seja voltado à promoção da emancipação de homens e mulheres, na consolidação de uma efetiva democracia e na construção de um País justo e soberano.

O modelo vigente é marcado pela concentração e a hipertrofia dos meios em poucos grupos comerciais, cujas outorgas são obtidas e renovadas sem controle da sociedade e sem critérios transparentes. O predomínio da mídia comercial marca também a fragilidade dos sistemas público e estatal, que só agora estão entrando na pauta de preocupação de Estado com o debate sobre a criação de uma rede pública e televisão . A necessidade de corrigir tais distorções históricas emerge justamente na hora em que a convergência digital torna cada vez mais complexo o processo de produção, difusão e consumo das informações.

Diante disso, o Governo Federal convocou, através do Decreto Presidencial publicado no dia 16 de abril de 2009, a I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). Esta terá como tema “Comunicação: meios para a construção de direitos e de cidadania na era digital” e será realizada nos dias 01, 02 e 03 de dezembro de 2009, em Brasília.

A Confecom será presidida pelo Ministério das Comunicações e contará com a colaboração direta da Secretaria Geral da Presidência e da Secretaria de Comunicação Social. Na Portaria 185, de 20 de abril de 2009, foram instituídos os órgãos do poder público e as instituições da sociedade civil que compõem a Comissão Organizadora, responsável por regular todos os aspectos da Conferência.

Ela é composta por oito representantes do Executivo Federal, dezesseis representantes da sociedade civil, divididos entre entidades do movimento social (7) , organizações do setor privado-comercial (8) e mídia pública (1). Os trabalhos serão encaminhados por meio de três comissões internas: 1) Comissão de Logística; 2) Comissão de Metodologia e Sistematização; e 3) Comissão de Divulgação.

O que o GDF tem a ver com isso?

Como em qualquer processo de Conferência, etapas estaduais e distrital deverão ser realizadas pelo poder executivo local. E é aqui que entra o GDF. A sociedade civil já está mobilizada através da Comissão Pró-Conferência DF, que conta com a participação de sindicatos, coletivos, a Universidade e movimentos populares.

É necessário instituir uma portaria convocando a Conferência Distrital, mediante as orientações da Comissão Organizadora Nacional e garantir que as regiões administrativas do DF se imbuam da discussão, através de etapas regionais e, finalmente, a distrital com tiragem de delegados para a Confecom.


Trata-se da reflexão, em nível distrital, sobre as diversas formas pelas quais o conteúdo, enquanto conhecimento, cultura, lazer e informação – inclusive comercial -, são produzidos, difundidos, assimilados e usufruídos pela população.

Desta forma, consideramos ser necessário:

  1. A garantia de que o GDF convocará a Conferência Distrital de Comunicação, tal como sua estrutura, organizada através de uma Comissão Distrital que tenha representações do Poder Público Distrital e Sociedade Civil (Empresarial e Não empresarial), com, no mínimo, a mesma proporcionalidade de representação feita pela Comissão Organizadora Nacional.
  2. A realização de etapas regionais em pelo menos seis regiões administrativas do DF, de forma que englobe a totalidade delas.
  3. O compromisso de, a partir do debate com métodos democráticos, construir linhas gerais para um novo momento nas políticas públicas para as comunicações para o DF; entendendo que qualquer mudança substancial nas políticas vigentes deva ser feita somente a partir das deliberações da Conferência.

O que constitui uma sociedade não são indivíduos, mas as relações entre eles. E como se dão tais relações? Pela comunicação. Impossível, pois, pensar uma sociedade democrática sem meios de comunicação  democráticos. Poderá haver democracia sem direito à informação? Sem pluralismo político? Sem respeito aos direitos humanos?

Nossos canais de comunicação têm cumprido esse papel?

Retornaremos a cada uma dessas indagações nos próximos posts.

Por ora, ficam uma dica e um convite.

* Dica: conheça o portal Donos da Mídia. Imperdível!

* Convite: para democratizar a comunicação, mobilize-se e mobilize para a 1ª Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM), que acontecerá de 1 a 3 de dezembro deste ano. Informe-se sobre as atividades da Comissão Pró-Conferência do seu estado. A comunicação precisa de mais vozes!

A convocação da Conferência pelo Presidente da República foi uma conquista dos movimentos pela democratização da comunicação, tais quais Intervozes e FNDC, sobretudo a partir de sua articulação, em 2007, na Comissão Nacional Pró-Conferência Nacional de Comunicação. Mas a Conferência só poderá ser o início de mudanças substanciais  se for construída pela mobilização de expressivos setores sociais, que se unam àqueles que atuam especificamente nesse campo. Todos aqueles que querem um Brasil mais democrático, mais informado, com menos mordaças e mais vozes, com um espaço público mais plural e ativo e uma comunicação mais comprometida com o seu papel social, precisam apoiar esta causa!

Há algumas décadas, você lutou ou teria lutado contra a censura explícita promovida pela ditadura? E hoje, o que você faz?

Anúncios

8 respostas em “Democratizar a comunicação

  1. Excelente, Telésforo.
    O DirCom e o B&D terão muitas comunicações frutíferas nesse semestre.
    E o blgo de você tá cada vez mais bacana, quase refletindo o potencial acadêmico/político de vocês.
    =)

  2. Impressionante os dados do sítio “Donos do Poder”. Embora já tivesse alguma noção do que iria encontrar, não imaginava que os números fossem tão concentrados e que a presença de autoridades políticas fosse tão grande.
    Isso dá ensejo ao círculo vicioso Tostines: são poderosos pq controlam a mídia ou controlam a mídia por serem poderosos? Quebrar essa retro-alimentação do poder é importante em um regime democrático e a conferência parece ser um importante veículo para isso.
    Muito importante esse trecho:
    “O que constitui uma sociedade não são indivíduos, mas as relações entre eles. E como se dão tais relações? Pela comunicação. Impossível, pois, pensar uma sociedade democrática sem meios de comunicação democráticos. Poderá haver democracia sem direito à informação? Sem pluralismo político? Sem respeito aos direitos humanos?”
    Representa uma superação da sociedade tomada como grupo, que só tem valor coletivo, bem como a noção individualista, de somatória de valores individuais. Faz com que eu repense comentários anteriores.
    Parabéns pelo post – por ser propositivo, incentivar a ação.

  3. “O que constitui uma sociedade não são indivíduos, mas as relações entre eles. E como se dão tais relações? Pela comunicação. Impossível, pois, pensar uma sociedade democrática sem meios de comunicação democráticos.” –

    Estou todos os dias lendo as manchetes (já que as matérias são exclusivas para assinantes) da versão online do jornal “O Estado do Maranhão”, de propriedade da família Sarney. Eles têm outra visão sobre a crise no Senado.

  4. Houve uma época em que toda a programação era pública. E então o público percebeu: não é isso o que queremos! Queremos variedade! Queremos múltiplos canais! Filmes românticos popcorn e filmes iranianos, cada qual em seu canal!

    E as redes de TV aberta e — depois — a TV a cabo foram inventadas.

    E o povo sorriu, e viu que aquilo era bom.

    Mas forças mercadológicas do mal levaram à queda gradual da qualidade do que se via na TV. E o Diabo disse: que se faça o Ratinho! E o Sarney disse para ACM, seu ministro de Estado das Comunicações: que se distribuam as concessões em conformidade com os votos do Parlamento.

    E o povo foi dominado pelo telecoronelismo, e o povo chorou (não!) sua transformação em rebanho dominado pelo que lhe impingia a elite dona dos meios — de produção? Não! — de comunicação.

    Mas o povo é matreiro. O povo sabe mudar de canal. E quando o Gugu abusava demais — Latino curtindo de anão em horário nobre! — o povo migrava em vagalhões! E Gugu perdia Ibope.

    E quando o Faustão punha modelos nuas cobertas de deliciosos sashimis? O povo ia escutar pagode.

    E assim, nessa dinâmica ziguezagueante, construíamos nossa democracia televisiva.

    (E as elites universitárias se esqueciam — partenais — que houve um dia em que tudo eram TV estatais, e que o povo que um dia fugiu daquilo não se submeterá a isso de novo… JAMAIS!

    Historically, in many countries (with the notable exception of the US), public broadcasting was once the only form or the dominant form of broadcasting. However, commercial broadcasting now also exists in most of these countries; the number of countries with only public broadcasting has declined substantially during the latter part of the 20th century. In some countries, commercial broadcasting and the emergence of a wider variety of broadcast media have created competition that makes it more difficult for public broadcasters to retain their audiences and survive

  5. Pingback: Pela Lei de Responsabilidade Fiscal e Social e pela Conferência Nacional do Orçamento Público! « Brasil e Desenvolvimento

  6. Vejam isso aqui, galera (um colega da minha turma de gestores ajudou a fazer): http://www.danielherz.com.br/node/290

    Trata-se de um estudo da década de oitenta que mostra como em três anos e meio a dobradinha Sarney-ACM (sigla para Associação Cristão de Moços) deram mais concessões de rádio e TV do que em todas as décadas anteriores somadas.

    Os critérios para concessão certamente foram os mais democráticos, jurídicos e proporcionais.

    Abraços!

  7. Valeu pelo link, Thiago!

    Sobre TV’s estatais… Eu acho que uma TV pública tem um papel importante a cumprir. O que você acha do modelo da BBC?

    Mas acho que também deve haver espaço para a iniciativa privada na área, mas com garantia do caráter de concessão pública dos meios de comunicação, com respeito e promoção das suas finalidades constitucionais. O caráter público há de ser garantido contra tentações privatizantes tanto por parte do governo de plantão, como por parte de abusos do poder econômico. É preciso combater o oligopólio horizontal, vertical e cruzado das concessões de rádio e tv no Brasil, dar fim à criminalização das rádios comunitárias, garantir inclusão digital (o que é uma tarefa complexa que passa também pela educação) e garantir o respeito aos direitos humanos na programação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s