Confortavelmente Anestesiados

Hoje o Real completa 15 anos em circulação. Grande parte de nós que ocupa atualmente os bancos universitários mal se lembra da transição. Éramos ainda muito crianças para percebermos o significado da nova moeda. Se nossos pais tiveram de comprar com ágio antiinflamatórios para a nossa sinusite ou se tiveram de fazer estoque das nossas fraldas em casa para não precisar ir à farmácia e se assustar com o fato de que o preço delas havia dobrado em apenas um mês, nós, hoje, podemos dizer que vivemos numa tranqüilidade econômica. Apesar da recente crise, que muitos analistas já avaliam como superada, nosso país cresce formidavelmente e a classe média se expande.

E não foi apenas um país economicamente mais bem estruturado que herdamos. A nós foi entregue também a democracia, sem que houvéssemos precisado lutar contra a ditadura por ela. Muitos de nós, inclusive, já nascemos protegidos pelos direitos fundamentais da atual Constituição. Nós nunca precisamos falar às escondidas o que pensamos com medo de sermos presos ou perseguidos por nossas idéias. Nós pudemos escolher o presidente que gostaríamos para o país.

Além das facilidades econômicas e políticas, nós também fazemos parte da geração mais bem informada que já existiu. Fomos criados no mundo digital, que possibilita um acesso incrível a todo tipo de informação que desejarmos – é só clicar. Também podemos nos comunicar com uma facilidade inimaginável há 50 anos, podemos estabelecer contato virtual com praticamente todas as partes do planeta. O mundo se tornou pequeno para nós.

 Mas enquanto nossa vida é feita numa estrutura tranqüila e cheia de possibilidades e confortos, sabemos que uma parte muito grande das pessoas que divide o país com a gente continua tendo de se preocupar apenas em sobreviver, continua privada de se desenvolver de forma plena. Nós vemos do lado de fora do nosso carro pessoas que parecem abandonadas por todos, intocadas por qualquer política social. Nós lemos nos jornais sobre as crianças da rodoviária que se sujeitam às mais sinistras formas de maus-tratos. Nós ouvimos histórias de mulheres que apanham constantemente de seus maridos, mas não conseguem sair de casa por falta das condições financeiras para tanto. De vez em quando, somos convidados a participar de eventos caridosos voltados às comunidades mais carentes. Enfim, nós estamos cientes que tem muita coisa errada. Nós somos capazes de perceber que nem todos no país vivem como a gente.

E nós não nos importamos. Quando vemos na TV dezenas de famílias de retirantes sendo devastadas pela seca no nordeste, estamos tão anestesiados pela abundância de água nas nossas casas, que não conseguimos ser tocados pela tragédia. Quando a temperatura cai vertiginosamente nas madrugadas do cerrado, estamos tão confortáveis debaixo de nossas cobertas, nas nossas camas quentes, que a idéia de milhares de pessoas vivendo a céu aberto e submetidas a todo tipo de intempérie simplesmente não consegue nos abalar.

Somos a geração que mais tem possibilidades de mudança social ao seu alcance. Não precisamos nos preocupar com instabilidade econômica, podemos exercer nossos direitos políticos, temos amplo acesso aos mais variados conhecimentos e temos dinheiro para consumirmos o suficiente para estarmos sempre confortáveis. E o que fazemos com isso? Desenvolvemos uma assustadora indiferença em relação aos que não vivem como nós para podermos aproveitar melhor tantas regalias. Estamos cada vez mais indiferentes aos outros.

Somos a geração que mais tem possibilidades de mudança social ao seu alcance, mas estamos confortavelmente anestesiados para não precisarmos nos incomodar com isso. Uma geração de prostrados.

 

Comfortably Numb

Roger Waters e David Gilmour

When I was a child I caught a fleeting glimpse,
Out of the corner of my eye.
I turned to look but it was gone.
I cannot put my finger on it now.
The child is grown, the dream is gone.
I have become comfortably numb

Anúncios

4 respostas em “Confortavelmente Anestesiados

  1. Não compartilho o pessimismo de Mayra em relação à suposta “prostração” de nossa juventude, pelo contrário. O fato de estarmos mais conectados do que em qualquer outra fase da história humana permite que nos sensibilizemos e nos comovamos com eventos tão distantes quanto: eleições no Irã, massacre de estudantes em Tiananmen ou mesmo com a sobrevivência de uma única adolescente, a nadar no mar, num atroz acidente de avião que matou centenas. De fato, “somos a geração que mais tem possibilidades de mudança social” ao nosso alcance e estamos utilizando essas ferramentas para revolucionar o mundo, que nunca se modificou de maneira tão rápida. Quantos jovens não mudaram o endereço de seus Twitters para Irã, de maneira a confundir a censura daquele país? Quantos jovens não estão tentando multiplicar os buracos da “Great Firewall of China”, de maneira a auxiliar nossos companheiros de olhos puxados a ter todo o acesso á informação que desejam?

    Creio, enfim, que a colega Mayra está sendo excessivamente pessimista, mas creio também que sua insatisfação com o que a cerca pode ter efeitos benéficos, uma vez que é essa a sensação que nos inspira às necessárias — e cada vez mais urgentes — mudanças no status quo.

    Abraços otimistas!

  2. Um exemplo de bela colaboração, de belo altruísmo, que somente seria possível em nossa época (nem uma década a menos:

    http://www.geek.com.br/blogs/832697632/posts/10357-new-york-times-e-wikipedia-salvam-jornalista-ao-sonegar-informacoes-ao-publico

    Enquanto Rhode planejava sua fuga, o jornal em que trabalha começou uma luta para evitar que a informação fosse divulgada, e conseguiu que 35 canais de notícias não falassem nada a respeito do seqüestro. Porém, havia um veículo muito difícil de ser controlado, pois era produzido por pessoas comuns, a enciclopédia online Wikipédia, famosa por furar grandes sites de notícia em acontecimentos passados.

    Após uma negociação com os editores da enciclopédia, esta começou a ser moderada para que informações sobre Rhode não fossem inseridas. A cada nova citação sobre Rhode, um editor apagava qualquer rastro possível sobre o fato, gerando uma série de críticas e protestos por parte de seus colaboradores. E, como estes são anônimos, não poderiam ser avisados pelos mantenedores do site sobre o motivo da edição, noticiou o TechCrunch.

    “Uma dúzia de vezes os usuários publicaram atualizações sobre o seqüestro na página de Rhode da Wikipédia, apenas para tê-las apagadas. Muitas vezes a página foi paralisada para prevenir edições – um jogo de gato e rato que claramente irritou as pessoas que estavam tentando espalhar a notícia do ocorrido”, disse Richard Perez-Pena, repórter do New York Times em uma nota. Jimmy Whales, fundador da Wikipédia, falou no mesmo artigo: “Nós só conseguimos ajudar realmente porque a informação não apareceu em nenhum lugar que poderíamos considerar como fonte confiável. Teria sido muito difícil se isso tivesse acontecido”. Todas as edições censuradas basearam-se na “desculpa” de que não haviam fontes de onde a notícia vinha, algo obrigatório na Wikipédia.

    Com os esforços de todos o jornalista conseguiu escapar do Talibã junto com o repórter local Tahir Ludin. O motorista que os acompanhava resolveu se juntar à organização que o seqüestrou. Quando soube do sucesso da operação, Jimmy Wales afirmou em seu Twitter que esse esforço pode ter salvo a vida de Rohde. “Eu estou realmente orgulhoso de todos os ‘Wikipedians’ que tornaram isso possível, talvez tenhamos salvo a vida dele”, disse.

  3. Seu texto desenvolve a idéia anterior de Solidariedade da Laila. Mostra como esse elemento faz falta nas nossas atitudes, enquanto indivíduos privilegiados por seu tempo. Ante o pessimismo da sua conclusão, o desafio continua: como estimular essa solidariedade e superar essa indiferença?

  4. Na linha deste texto da Mayra e do anterior sobre Solidariedade, fica clara a constatação de que é necessário despertar para a realidade de que crescimento econômico sem desenvolvimento é um caminho insustentável. Na verdade, é uma contradição nos próprios termos. A economia é feita pelo homem e para o homem, e não o oposto. Daí que uma economia sufocante, concentradora e injusta acarreta verdadeira destruição de qualquer projeto de sociedade que tenha por meta a promoção da dignidade da pessoa humana. A universidade é o âmbito de desenvolvimento de um pensamento economica, social e politicamente equilibrado, a fim de se promover o ser humano como o centro de todas as esferas da vida em comunidade. Como disse o então Secretário-Geral da ONU (Sr. B.
    Boutros-Ghali), em uma nota de junho de 1994 ao Comitê Preparatório
    da citada Cúpula Mundial de Copenhagen, precisamos de um “renascimento dos ideais de justiça social” para a solução dos problemas
    de nossas sociedades, assim como de um “desenvolvimento mundial da
    humanidade” a partir das responsabilidades sociais do saber, porquanto “a ciência sem consciência
    nada mais é do que a ruína da alma”. Parabéns ao grupo pelas iniciativas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s