Capitalismo Criativo

Diz-se por aí que, depois de rico, todo mundo fala o que quer. Parece haver uma espécie de gene da solidariedade ou sentimento de culpa nos conservadores em geral, que se revela depois que os profissionais bem sucedidos envelhecem. No mundo jurídico, seria o caso de Fábio Ulhôa Coelho, que depois de advogar para bancos a vida inteira dá ares de “garantista” – diz a boca pequena. No mundo dos negócios, é com certeza o caso de Bill Gates, que, quem diria, fala em capitalismo criativo, conforme reportagem da Época Negócios de outubro.

Segundo Gates, as empresas “têm as habilidades para criar inovações que beneficiem os mais pobres”. O capitalismo criativo é “uma abordagem na qual empresas, governo e organizações sem fins lucrativos trabalham juntos para ampliar o alcance dos mecanismos de mercado, incluindo as populações mais pobres”. Em termos práticos, significa estabelecer uma fábrica da marca Danone em Bangladesh, criar um iogurte para suprir as necessidades nutricionais da população local, qualificar e empregar mão-de-obra da região, comprar matéria-prima de lá, vender a preços acessíveis, pagar as próprias contas e ainda obter ganho com isso – nem que seja de reputação, para que o acionista durma em paz enquanto assiste o vídeo promocional demonstrando como investir é uma boa ação.

Apresentado no Fórum Econômico Mundial de 2008 e em um artigo publicado na Time meses depois, o termo (creative capitalism) ficou tão famoso que já tem espaço próprio na Wikipedia, e o jornalista político Michael Kinsley criou um blog (Creative Capitalism – A Conversation) só para debater as idéias de Gates. As idéias têm por objeto, basicamente, criar incentivos de mercado para que as empresas desenvolvam negócios com as populações mais pobres, obtendo lucros e reputação. Isso significa uma nova forma de responsabilidade social das empresas? Estudos e eventos recentes têm discutido a responsabilidade social corporativa e sua racionalidade econômica e, embora não se possa, prima facie, igualar a responsabilidade social corporativa clássica à proposta de Gates, elas parecem ter pressupostos comuns. Em qual medida, no entanto, não está claro.

Aliás, a proposta como um todo não está bem definida. Críticos apontam falta de consistência de idéias e de método – isso é característico das boas idéias ainda não desenvolvidas; mas também da picaretagem camuflada, de uma reestruturação de negócio para atingir o mercado consumidor das classes de baixa renda (e ainda ficar bem na fita). Neste último caso, não é de se duvidar que o processo ocorra sem a atenção devida ao interesse social, deixado de lado. Isto já foi demonstrado, por exemplo, com a venda de leite impróprio para consumo, no Brasil e nos EUA – como denunciado pelo filme The Corporation (para quem quiser, a íntegra está disponível no YouTube).

O desenvolvimento nacional passa, sem dúvida, pela coordenação da relação entre a sociedade civil, as empresas e o Estado. Criatividade jurídica é indispensável para regular essa relação e indicar os caminhos de como aproveitar o que há de bom, para o Brasil, no “capitalismo criativo”. Quem tiver palpite, manifeste-se.

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3 respostas em “Capitalismo Criativo

  1. O texto dá uma notícia muito relevante, por estar relacionada a uma possível (e o texto destaca o caráter de possibilidade) proposta e oportunidade de transformação estrutural do capitalismo.

    Transformação estrutural do capitalismo por meio mudança cultural que redefine o funcionamento de mercados. O papel das instituições é incorporar e incentivar essa transformação.

    Parecem muito promissoras as iniciativas que não abdicam do lucro (importante para a dinâmica do mercado), mas não o tornam o único objetivo da atividade econômica, o aliam ao combate à pobreza, à atuação pela expansão de liberdades substantivas das pessoas.

  2. O incentivo das instituições que trabalham com política pública propriamente dita (Estado e entidades sem fins lucrativos) é fundamental para viabilizar as iniciativas inovadoras das empresas. Nesse sentido, a oferta de crédito específico para programas de pesquisa em iogurtes supernutritivos ou outros produtos “inclusivos” voltados a esse mercado consumidor é uma alternativa.

    A discussão sobre se é uma mudança estrutural e não uma ampliação do conceito de “lucro” dentro da mesma estrutura de funcionamento, como dizem alguns críticos, ganha relevância na medida em que se possa distinguir os resultados esperados (e as limitações) de um e outro movimento.

    Sinceramente, a partir dos elementos que estão disponíveis, não consigo fazer essa diferenciação no momento porque (i) há uma busca consciente de iniciativas direcionadas aos mais pobres e (ii) um destaque do valor que isso agrega a uma empresa (o que é exprimível em termos financeiros, inclusive). Independentemente da discussão, o importante é que esses dois pilares caminhem juntos.

  3. André, texto bastante provocador e instigante. É esta tensão entre liberdade de mercado e regulação que aumenta meu interesse pela disciplina Direito e Economia. Daí a grande relevância deste grupo para o debate acadêmico. Parabéns.

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