Zerói preto

Por Clarice Calixto

Está rolando em Brasília nestes dias (até 29 de abril) uma exposição do Ziraldo com grandes telas de zeróis, releituras do artista a partir de figuras de super-heróis.
A exposição é linda, ainda que me incomode de alguma forma esse fetiche com quadrinhos norte-americanos com estórias norte-americanas, humor norte-americano, costumes norte-americanos, que se impõe pela indústria cultural como se fossem mais interessantes que outras muitas formas de quadrinhos, estórias, piadas, costumes muito mais próximos da vida da gente, como os argentinos (como a genial Mafalda de Quino) e os chilenos (como o Condorito de René Ríos).
Dentre as telas, uma é especialmente impactante: o zerói preto.


E resolvi trazer aqui pro blog a figura desse zerói porque na lista de fatos históricos que aniversariam este mês, há o seguinte: no dia 25 de março de 1807, a Grã-Bretanha proibiu o tráfico de escravos para os EUA. Acabado o tráfico, começa aos poucos a morrer o vergonhoso instituto da escravidão. Aos poucos.
150 anos depois, nesses mesmos EUA, o ainda racismo persistia, acirradíssimo, implacável.

O zerói preto é irônico porque responde à crítica pesada que o Ziraldo recebeu por causa da (infeliz, ao meu ver) imagem relativa à polêmica sobre o racismo na obra de Monteiro Lobato.
O zerói preto é impactante porque nos lembra que os super-heróis NÃO são pretos.
E que isso é fruto, sim, do racismo.

O zerói preto é relevante porque nos lembra dos heróis pretos da vida real. No mundo real, muitos heróis são pretos. Especialmente por lutarem contra a tragédia do racismo.