Universidade contra a Homofobia

Pela liberdade de ser quem eu quiser ser, amar quem eu quiser amar e estar onde eu quiser estar

Começou hoje na Universidade de Brasília a II Semana Saúde contra a Homofobia. O evento vai até dia 25 (sexta-feira) e conta com rodas de conversa, cine-debate e um Happy Hour no melhor estilo UnB. 

A semana foi inaugurada com um festival de curtas, entre eles o formidável “Amanda e Monick”, de 17 minutos. Amanda é travesti e professora numa escola municipal em Barra de São Miguel, interior da Paraíba. Monick, também travesti, trabalha como prostituta em Santa Cruz do Capiberibe (PE) e aguarda um filho com sua companheira lésbica. Como é que é??? Isso mesmo que você leu: uma travesti e uma mulher lésbica têm um relacionamento amoroso e, em breve, terão um(a) filho(a). Histórias como esta nos obrigam a desconstruir todas aquelas caixinhas que utilizamos para definir (e limitar) o ser humano e a maneira com que ele se relaciona com o outro.

A quem e pra que servem essas caixinhas? Por que nos sujeitamos a elas? ”Temos medo do sexo e nos custa aceitar que, neste incerto domínio, há opções e variantes que devam ser aceitas como manifestações da diversidade humana. Nesse aspecto da condição de homens e mulheres deve reinar a liberdade, permitindo que na vida sexual cada um escolha sua conduta e vocação sem outra limitação senão o respeito e a aquiescência do próximo.”, lembra Mario Vargas Llosa.

A semana passada também foi marcada pela temática do combate às opressões na Universidade de Brasília. Aproveitando o embalo da Marcha Internacional de Combate à Homofobia, o movimento LGBT da Universidade – com o apoio do Brasil e Desenvolvimento e do Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães – realizou o III UnB Fora do Armário. Fora do armário, fora das caixinhas, dos determinismos e do preconceito.

Um tributo ao movimento estudantil

Por Gustavo Capela

Hoje, o grupo Brasil e Desenvolvimento foi entrevistado pela MTV sobre o tema: “Jovens que se envolvem com política”.

Uma das perguntas da entrevistadora disse respeito à idéia, comumente aceita, de que participar do movimento estudantil significa não estudar, significa, em síntese, ser vagabundo.

Nossa resposta foi curta e grossa: essa idéia é um preconceito. Preconceito de uma sociedade na qual o indivíduo está mais acostumado a preocupar-se com seus próprios anseios do que com o outro; na qual trilhar caminhos diversos e mais coletivos é tido como burrice.

Nos quase-seis anos que estudei na Universidade de Brasília, as pessoas que mais me influenciaram, mais me marcaram e as que eu mais respeito são aquelas que doaram seu tempo em prol de uma construção coletiva. Posso dizer, com toda certeza, que muita de minha “formação” veio da participação em espaços coletivos, onde convenci e fui convencido, onde, com mais freqüência, enxergava o outro diante de um “eu” ainda muito imaturo.

Como disse hoje na entrevista, é fácil para quem estuda na UnB, ou para quem tem acesso aos meios de comunicação e a uma educação de alto nível, preocupar-se com ganhos pessoais, com vitórias unicamente individuais. Nós fomos todos treinados para isso. O difícil é sair do molde pré-fixado e fazer algo sem o mero pretexto de “ter consciência social”. Afinal, o que é essa tal de consciência social se não a construção coletiva por meio de barganhas e convencimento no espaço público de idéias? Há espaço mais propício para um embate constante de visões diferentes do mundo que o movimento estudantil? Acredito que não. Até porque, possuir idéias no corredor, e “debater” com amigos, tendenciosamente sempre concordando com você, não conta.

Por isso, é importante enaltecer o movimento estudantil e, em especial o da UnB, cuja luta contra o “pensamento comum”, o “mesmismo” e a falta de ação social vem de berço. É necessário que mais e mais pessoas sigam essa tendência e disputem o espaço público com suas idéias, tornando o lócus mais plural e, consequentemente, mais significante, em todo o seu sentido.

Assim, talvez, com muito esforço, nosso mundo se torne mais humano.

Para uma Expansão Universitária socialmente referenciada

Por João Telésforo Medeiros Filho

(Segue texto que publiquei em setembro do ano passado no meu blogue pessoal. A temática mantém-se atualíssima, assim como a luta pela expansão democrática e socialmente referenciada da universidade pública.)

Os estudantes de Direito da UnB estão em movimento para resistir a uma expansão que se tenta impor à Faculdade de Direito de forma não democrática. Um argumento volta e meia utilizado contra o movimento dos alunos é dizer que nós (incluo-me no movimento) estaríamos nos apegando a detalhes e ignorando a urgência da demanda social por mais vagas na universidade.

É preciso repudiar essa afirmação. Primeiro, porque a construção democrática da Universidade e o planejamento responsável de uma política pública não são detalhes, são indispensáveis. Segundo, porque sem eles também não se pode garantir que as demandas sociais sejam devidamente levadas em conta no processo de expansão.

A expansão universitária deve ser socialmente referenciada. Não afirmo que a sociedade não-universitária deva escolher sozinha quais cursos a universidade deve abrir, fechar, expandir ou contrair – por vezes, a sociedade não se dá conta do valor de certos saberes teóricos, por exemplo (o próprio Darcy Ribeiro, grande ícone de uma universidade orientada para o desenvolvimento social, falava isso). Porém, é indiscutível que as necessidades sociais devem ser um critério fundamental a orientar a universidade.

Como garanti-la? Como determinar qual expansão é prioritária para a sociedade? Duas maneiras de garantir que as demandas sociais sejam decisivamente levadas em conta no processo de decisão da expansão: 1. representação de setores sociais diversos no processo de tomada de decisão da universidade; 2. debate entre toda a comunidade universitária sobre essa questão, levando-a efetivamente a sério.

O único lugar onde essas 2 coisas acontecem ou podem acontecer ordinariamente são os Conselhos Superiores da Universidade. É lá que a comunidade universitária se reúne e pode discutir se a prioridade social é dobrar as vagas de direito ou se é aumentar vagas de outro curso (e também qual é o padrão de qualidade adequado para atender devidamente à demanda social). Portanto, uma expansão que não é debatida no Conselho Superior (como foi o caso desse processo repentino de expansão contra o qual luta o CADIR UnB) não oferece garantias de ser socialmente referenciada. A comunidade universitária deveria debater amplamente, notadamente no Conselho de Pesquisa, Ensino e Extensão (CEPE) e no Conselho Superior (CONSUNI): será que neste momento é mais urgente, por exemplo, dobrar as vagas de Direito, ou em vez disso aumentar as de Medicina? A prioridade maior é para a formação de engenheiros ou de bacharéis em Direito?

Não existe resposta pronta para essas perguntas. É claro que vários argumentos podem ser utilizados em favor da expansão de uma Faculdade de Direito: o país precisa de juristas bem formados, e talvez ainda mais a capital da República, onde se localiza a UnB. Porém, existem também sérias demandas por vários outros profissionais, e sem diálogo com a sociedade nem interno à Universidade, a expansão acontece às cegas…

Sobre isso, trago o testemunho do Rodrigo Santaella, militante do movimento estudantil na UFC:

[o REUNI propõe] um modelo de expansão (pelo menos aqui na UFC) com a criação de cursos de pouquíssima referência social (Agronegócios, Design de jogos eletrônicos, etc., enquanto existem reivindicações históricas por Agricultura Familiar, por exemplo)“.

Neste post, não vou entrar no mérito do REUNI como um todo (espero fazê-lo futuramente). Mas o fato é que uma expansão que não é discutida nem nos Conselhos Superiores da Universidade, nem aberta para o diálogo social, não pode levantar como fundamento o atendimento às necessidades sociais.

Esse é um dos temas mais importantes para o Congresso Estatuinte Paritário, que deve acontecer na UnB no próximo ano. É preciso garantir ampla participação de diversos atores sociais nos Conselhos Superiores, e também no Conselho de cada Faculdade, Instituto, Departamento. Porém, o Congresso Estatuinte Paritário não pode ser utilizado como desculpa para ações erradas hoje: é possível, já, ouvir a sociedade. Existem formas de fazê-lo: audiências públicas, fóruns, conselhos… E debate sobre assunto entre os vários cursos que compõem a universidade, cada um levando sua experiência e ponto de vista.

O atendimento a demandas sociais não pode ser feito sem inclusão no processo de tomada de decisão dos setores que se pretende incluir pela política. Tal suposta inclusão, que não inclui no processo, não promove cidadania, porque tutela o sujeito que se pretende incluir; a cidadania exige que os destinatários das políticas públicas sejam simultaneamente seus autores.

Não entendo por que professores da FD-UnB que passam a vida defendendo essa ideia de cidadania decidiram ignorá-la ao optarem por uma expansão sem qualquer garantia cidadã de ser socialmente orientada…

http://twitter.com/JTelesforo

A relação Política – Universidade

Por Gustavo Capela

Ontem, como já amplamente noticiado neste blog, o pré-candidato à Presidência da República pelo PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, foi à Universidade de Brasília participar de um evento organizado pelo B&D. O intuito é levar todos os pré-candidatos à universidade, para que eles possam discutir seus projetos, expor suas idéias e, claro, tentar convencer os ouvintes que suas idéias são melhores, mais plausíveis, concretas, realistas, idealistas,  ousadas, ou qualquer outro adjetivo que um eleitor ache adequado, que a dos outros candidatos.

Essa prática, de embate de idéias, em um ambiente de idéias, como deve ser a Universidade, parece ser incomum em nosso país. Como demonstrou o brilhante e sempre-vivaz Plínio de Arruda, o discurso político parece cada vez mais ter dificuldades para argüir de forma mais profunda, de esboçar projetos e discutir idéias de forma ampla e aberta com a comunidade Universitária. Não que isso ocorra pelo capacidade ou incapacidade individual do candidato. Plínio certamente é um dos melhores políticos de nossa era no que diz respeito à teoria e à prática, ambos necessárias para o âmbito de idéias no mundo político. No entanto, pouco apresentou idéias profundas e distantes do senso comum para resolver problemas. Na sua maior contribuição, referiu-se à reforma agrária com base no tamanho da terra e não na produtividade da própria. Assim, o fenômeno parece estar muito mais atrelado à percepção que o político tem de que precisa convencer pela simpatia, pela cordialidade, não  pelas idéias.

Esse viés político pode ser visto inclusive em países do “Atlântico-Norte”, onde Obama foi por diversas vezes chamado de elitista por querer discutir mais idéias do que jogar boliche para a televisão registrar. Naquele país, no entanto, parece que a idéia prevaleceu. Talvez até pela junção que o então-candidato à Presidência dos EUA conseguiu trazer entre idéias inovadoras, nova forma de fazer política e o bom e velho carisma. O primeiro negro a ser eleito presidente dos Estados Unidos não é exatamente uma pessoa que não agrega pessoas pelo seu jeito de ser. Seu sorriso, sua forma de falar, sua vibração e jeito de agir contagiaram e ainda contagiam toda uma geração naquele país. Parece que aqui, entretanto, as idéias estão cada vez mais escassas e, quando existem, não se comprometem com sua exposição profunda.

Não restam dúvidas que ambos os aspectos são importantes. De nada adianta um intelectual que não se junte às massas, que não é cordial, atencioso, carismático. Da mesma forma, não deveria bastar o contrario: um líder que sabe falar, que sabe agir, que tem facilidade para se comunicar com seu eleitorado, mas não discute, de forma ampla seus projetos e idéias.  O problema com essa segunda hipótese é justamente o de tornar as disputas para cargos majoritários uma disputa entre pessoas, não entre projetos. O tal do personalismo está estreitamente vinculado à essa necessidade da política atual de ter como representante maior um ídolo, ao invés de um norte, um princípio.

Nessas eleições, o B&D pauta idéias, não pessoas. Com isso espera que, trazendo os pré-candidatos à Presidência à UnB, essa prática seja cada vez mais comum. Ao ponto que não seja mais necessário convidarmos políticos para visitarem nossas Universidades.