Chopes, beijos e lutas

ou: De como podemos aprender com a história de um bar

Por: Luiz Eduardo Sarmento Araujo

Pouco antes de eu começar esse post, fiz uma pequena caminhada pela 407N, afim de organizar idéias dispersas em minha cabeça e finalmente definir um tema para meu já atrasado texto para esse blog.

Eis que me deparo com uma dessas pequenas surpresas cotidianas que só uma boa caminhada e uma boa cidade pode nos oferecer. Remexendo em uma banca de livros usados, promocionais, entre tantos livros ultrapassados de direito trabalhista, antologias poéticas de autores obscuros e qualidade idem, livros didáticos também ultrapassados (tudo  por apenas 1,99) eis que  Le Corbusier se sobressai entre aquele emaranhado de palavras ordenadas em milhares de páginas.

A nível de esclarecimento, Le Corbusier -  o Corbu – foi um dois mais influentes arquitetos do século XX, talvez o mais influente (provavelmente falarei mais dele em outros posts) sendo importante referência para entender o planejamento urbano do Plano Piloto.  O fato é, que como bom estudante de arquitetura que (normalmente) sou, peguei logo o livro para ver do que se tratava (bastante surpreso, imaginando que pela primeira vez na vida  poderia comprar um livro de arquitetura por um preço tão módico).

Não se tratava porém de um livro de arquitetura, mas um livro sobre a história do Bar Beirute (que para quem não é/não conhece Brasília, é um dos bares mais antigos e conhecidos da cidade), que citava o nome do Corbu na contracapa argumentando que o Beirute era exatamente o oposto de tudo o que pregava o arquiteto calvinista. Este bar é de certo modo a esquina da cidade sem cruzamentos, um ponto de encontro em uma cidade de tantos desencontros.

Apesar de seus preços a cada dia mais salgados, o Beiras é ainda um dos mais democráticos points do Plano Piloto. Por lá circulam as mais diversas tribos: artistas, intelectuais, pseudo-intelectuais, famílias tradicionais, famílias alternativas, idosos e idosas de todos os tipos, pessoas de “sexualidades alternativas”, como diz um dos textos do livro, além de toda a gama de turistas e famosos que tem ali uma parada obrigatória quando na cidade planejada.

Interessante para mim foi entender como esse espaço democrático, tolerante, foi construído. Não sendo de Brasília, quando cheguei aqui imaginei que o Beirute sempre foi o Beirute que conhecemos – um espaço de convívio dos diferentes, mas não foi, e isto é o mais fascinante de sua história.

Inaugurado em 1966, por candangos de origens árabes, já na década de 70 foi vendido e comprado por dois irmãos que eram garçons que ali trabalhavam. A assustadora dívida que assumiram na aquisição do bar e a fascinante tentativa de ascensão financeira dos dois despertaram a simpatia e a solidariedade dos brasilienses, que passaram a freqüentar o Beiras para ajudar aqueles corajosos garçons que haviam pulado para o outro lado do balcão.

O empreendimento de alto risco dos irmãos foi um sucesso, tanto é que o bar está ai até hoje, inclusive com uma também movimentada filial.

Dada a localidade da primeira sede, na 109 Sul (para os não iniciados no endereçamento cartesiano do Plano Piloto, explico logo que 109 Sul significa algo como um quarteirão, só que aos moldes modernistas, localizado na zona sul da cidade) o Beirute desde sempre atraiu um público alternativo. Está próximo ao Cine Brasília, à Escola Parque da Superquadra Modelo e do Espaço Cultural da 508 Sul – então o coração da cultura e contra-cultura de candanga – os freqüentadores destes espaços sempre davam uma esticadinha no Beiras, transformando aquele canto de tesourinha (outra especificidade de Brasília: trata-se um emaranhado de vias/contornos para evitar o cruzamento viário tradicional) no cerne boêmio da nova capital.

Obviamente que a presença de homossexuais ali era notável – todo tipo de gente livre se encontrava ali, transformando aqueles metros quadrados do quadradinho em sua própria “Cidade Livre” (nome original de um dos acampamentos dos construtores de Brasília, infelizmente substituído por Núcleo Bandeirante). Sendo até então um espaço que hoje seria chamado de gay friendly, as línguas preconceituosas logo o apelidaram de Gueirute.

Ofendido, o administrador do bar entrou em ação e proibiu que os garçons servissem mesas onde tinham homossexuais, no linguajar dele, mais afetados. Antes, quando alguns casais gays estavam abraçados  o dono do bar já havia dito que este “não era um comportamento adequado” em seu estabelecimento, que é aberto ao público.

Os garçons, a partir de então, sumariamente ignoravam freqüentadores que o chamavam, pelo simples fatos de serem gays –“Não atendemos mais os bichas”, disse algum.

Numa daquelas noites porém, quando os habitués daquela “esquina” já estavam assustados com a guinada reacionária do bar (que já havia proibido atender pessoas em trajes de banho e camisas sem manga) eis que chegou um grande grupo de “viados e sapatonas”, sentaram todos em uma  mesma mesa, pediram uma rodada de chope, foram atendidos até que um casal dentre eles deu um beijo. O dono do bar deu o sinal para os garçons não servirem mais chope para aquela mesa. Essa proibição gerou revolta dos presentes, que de acordo com reportagem do Correio Braziliense, começaram a bater nas mesas e sapatear… estavam visivelmente incomodados, feridos em sua dignidade. Aquele estabelecimento, nas palavras de seu então dono, não era uma zona, logo os homo não poderiam ali se beijar. Sendo namoro de casais trocando carícias algo comum desde sempre no Beiras, a ofensa foi tão grande, que nasceu ali, naquele momento, o “Movimento Beijo Livre”.

Estava aberta a discussão. O jornal Correio Braziliense publicou uma série de artigos denunciando a falta da liberdade no famoso bar, o movimento gay se organizou – foram debater a questão, colocaram o tema no espaço público, suas demandas pessoais. A discussão sobre a liberdade de expressão de sexualidades dissidentes se tornou o assunto do momento da nascente capital.

Uma rodada de chope negada e um beijo proibido geraram  o primeiro grande debate de sexualidade no distrito federal.

As pessoas tiveram a coragem de se assumirem, contornaram o medo da repressão, dos conservadores, da ditadura, da opinião pública – jogaram um problema que é público, social, para a sociedade, para o espaço público.

Não se guetificaram, não escolheram outro bar para freqüentar – em um subsolo escuro, em um beco qualquer- eles e elas, homossexuais sempre estiveram presentes ali, no bar mais famoso da cidade, e ali queriam ficar, se expressar, serem eles mesmos no espaço publico, olharem e serem vistos. Ora, se casais heterossexuais sempre se beijaram a vontade ali, porque os homossexuais não poderiam fazer o mesmo, diante dos olhos da cidade?

O fato, aparentemente fútil (a negação de uma rodada de chope), desencadeou um processo que vemos/vivemos o resultado – o Beirute hoje comporta todo tipo de público, dos mais conservadores aos mais liberais, e parece que ninguém se importa com quem está beijando quem. O beijo livre venceu o preconceito.

Essa história é para mim muito importante para nos encorajar enquanto integrantes de movimentos sociais e militantes de muitas lutas dos oprimidos e me lembra também uma história contada por uma amiga que morou no Canadá – após vários séculos de briga entre a igreja e as prostitutas de um bairro de Quebec, essas ganharam a briga e finalmente podem exercer seu direito ao trabalho. A liberdade venceu o preconceito.

Nesse começo de século XXI, parece que perdemos a coragem para o debate. Ficamos a mercê de uma conjuntura favorável vindoura para nos expormos. Ficamos com medo de debater o direito da comunidade LGBTS no espaço público, ficamos com medo de defender o aborto, a legalização das drogas, o direito reprodutivo e muitas outras causas importantíssimas que, são discutidas apenas em reuniões em pequenos guetos herméticamente fechados, entre iguais. O caso de intolerância aqui apresentado, ocorrido a mais de trinta anos  é, infelizmente, uma situação muito conteporânea, cotidiana.

Se não lançarmos os debates que a nosso ver são tão importantes, a conjuntura nunca será favorável, o dia ideal para discussão nunca vai chegar. Quantos mortos, quanto sofrimento será preciso para “batermos nas mesas e sapatearmos” na cara dessa sociedade hipócrita e a cada dia mais conservadora?

Os oprimidos não podem se calar, silencio só causa mais opressão, só nos distancia do debate público, a cada dia com mais presença de forças reacionárias bem sapateantes. Ficamos por isso mais longe de garantir direitos para os marginalizados do status quo,  para os dissidentes dos padrões determinados por essa sociedade arbitrária.

O chope já foi cortado e o garçom não nos atende mais e estamos calados esperando o dia que espontaneamente alguém nos traga um petisco e uma bebida gelada – sem beijo e sem liberdade.

O livro de que tanto falei é “Beirute – final de século” organizado por Fernando Fonseca , de 1994.

A cultura como espaço de transformação social

Por Gabriel Santos Elias

Quando falo de transformação, falo no sentido de redução de desigualdades econômicas, políticas e de reconhecimento. Da articulação de uma nova organização social que inclua mais e mais pessoas no espaço público e na tomada de decisões, falo de uma política mais justa e mais humana. Essa disputa política deve ser feita em todas as frentes e acredito que a cultura é um espaço privilegiado de disputa política por uma transformação profunda da nossa sociedade. Assim, falo da produção, para constante reprodução e adaptação, de uma nova cultura, dinâmica e que avance na conquista de nossos ideais para a sociedade

Fortemente influenciados pelo enquadramento da mídia, temos uma imagem negativa da política representativa. Como conseqüência, muitas vezes escolhemos a apatia e desinteresse ou a eterna desilusão de quem se preocupa. Isso ocorre pela centralidade que damos ao papel do Estado e dos nossos representantes nessa transformação. A cada eleição temos esperança de que algo finalmente possa dar certo, sendo que a história normalmente nos mostra o contrário.

Devemos reconhecer, sim, a importância da disputa política institucional, aquela que é feita na luta pela vitória em eleições, construção de políticas públicas em instituições estatais e em instituições da sociedade civil, como ONGs e Associações. Mas é importante ter em mente que somente esses mecanismos institucionais não são capazes de realizar a transformação que queremos. Temos que transformar a cultura política da nossa sociedade juntamente com o Estado a que nos submetemos, organizamos e disputamos para também transformá-lo.

Dois problemas são os que mais limitam a transformação social que desejamos: a restrição de participantes do processo político e no debate público e as práticas viciadas que estes participantes sustentam.

Pois a cultura é um importante espaço de transformação social justamente por construir um caminho para resolver esses problemas, atraindo mais pessoas para o debate público, por sua abordagem diferenciada dos temas; e incentivando a criatividade política, através de práticas inovadoras, facilitadas pela maior diversidade de novos atores no espaço público.

A cultura é um espaço naturalmente mais atrativo para pessoas que sofrem uma justificada resistência com a política do púlpito, dos longos discursos, dos vícios de linguagem em palavras e siglas difíceis de entender. A cultura é diversa e dialoga com o cotidiano e com interesses das pessoas nela inseridas, seja na MPB, no rap, funk, grafitti, capoeira ou qualquer outra forma de expressão cultural. Essa diversidade deve ser aproveitada para incluir e ampliar também a diversidade de vozes no debate sobre os problemas da nossa sociedade e as possibilidades de mudança.

Ao mesmo tempo, a cultura é um espaço de criatividade. A inclusão de mais pessoas e a maior diversidade de meios de interação propiciam a inovação das práticas bem como uma reflexão diferente, mais profunda e ligada à realidade que essas pessoas vivem. A inovação e a criatividade geram uma forma diferente de fazer política que atrai mais pessoas, tornando o ambiente ainda mais criativo e atrativo.

É estabelecido, assim, um ciclo virtuoso que inclui cada vez mais pessoas no debate público trazendo novas idéias, o que inova a prática política e na ação pela transformação, aumentando o potencial do povo para a autodeterminação de seu futuro através da construção coletiva do poder popular.

O resultado dessa transformação poderá ser visto nas urnas e nas instituições políticas, mas como reflexo de uma transformação inserida no nosso cotidiano, através dos valores que estabelecemos, das práticas que sustentamos e das mudanças que buscamos na sociedade.

Twitter: @GSantelli

A universidade na transformação social

Por João Telésforo Medeiros Filho

O B&D fez hoje uma visita a São Sebastião, cidade-satélite do DF. Em breve escreveremos aqui a respeito do projeto no qual estamos nos engajando por lá. Por ora, quero deixar registrada apenas a impressão fortíssima com que todos voltamos à bolha do Plano Piloto: é incrível o tanto que aprendemos com as poucas horas de diálogo que tivemos hoje com lideranças do movimento de cultura da região! E destaco que o aprendizado não veio apenas do acesso às experiências de pessoas de uma realidade que em grande medida desconhecíamos, mas às suas reflexões profundamente críticas e autocríticas a respeito delas. Aprendi mais sobre cidadania e gestão pública hoje do que lendo muitos bons livros… Sem menosprezar a importância da leitura!

A extensão tem um papel fundamental para que a universidade não siga cega aos problemas e surda aos saberes populares, e assuma seu papel na transformação social, pelo diálogo com outros atores. A esse respeito, transcrevo abaixo trecho de artigo que escrevi em 2007 sobre a experiência da ONG/Projeto de Extensão Universitários Vão à Escola, da UnB. Ele diz muito também sobre o tipo de utopia – ou heterotopia – que nos move no B&D.

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UnB, 2008, durante o processo de ocupação da Reitoria

A universidade tem de questionar constantemente a si mesma, examinando com independência e lucidez o saber que produz ou deixa de produzir, o papel que ocupa na sociedade, os condicionantes e efeitos de sua atuação. Sempre cabe pensar sobre as perguntas que Darcy Ribeiro fez em discurso proferido há mais de vinte anos aqui na UnB: “Universidade de Brasília, para quê? Universidade Brasília, para quem?”[1].

Para Darcy, a universidade, além de ter de ser crítica e autocrítica, teria que ser um espaço privilegiado para pensar o Brasil e formular e perseguir utopias. Mais uma vez, concordamos com ele: a universidade deve ser o lugar da utopia. Eis uma frase que soa paradoxal: como um lugar poderia ser o lugar do não-lugar?[2] A contradição, no entanto, é apenas aparente, porque “a universidade é o lugar de todos os lugares; a universidade é o lugar do não-lugar”[3]. A idéia de universidade funda-se no compromisso com a diversidade de pontos de vista, de pensamentos, de saberes, de modos de ser e de agir. Nela, não pode haver espaço para a intolerância e para o pensamento único; devem proliferar perspectivas diferentes e opostas, que permitam o conhecimento do mundo em sua inesgotável complexidade. Por isso, a universidade é o lugar de todos os lugares, inclusive daqueles que não existem.

Trata-se de um local que aspira “a inventar um outro lugar, uma heterotopia, se não mesmo uma utopia”[4]: a universidade tem a função de imaginar, de pensar o que não existe, o não-lugar, o outro, o novo. Os grandes fins da universidade são reproduzir e criar conhecimentos; não há criação sem imaginação, por isso a universidade é local privilegiado para a formulação de utopias e para a reflexão sobre elas.

Universidade não pode ser, portanto, lugar para conformismo acrítico – freqüentemente escondido sob a capa de pretensa neutralidade ou de suposto realismo. Se a ciência tem a função de compreender a realidade, não pode se limitar a conhecer o que existe, porque a realidade abrange as possibilidades e alternativas potencialmente existentes. Caso reduzamos a realidade ao que existe, teremos uma visão já de antemão parcial, ficando desprezada uma parte importante do objeto de estudo. Edgar Morin adverte que “importa não ser realista no sentido trivial (adaptar-se ao imediato), nem irrealista no sentido trivial (subtrair-se às limitações da realidade); importa ser realista no sentido complexo: compreender a incerteza do real, saber que há algo possível ainda invisível no real”[5]. No mesmo sentido, Boaventura de Sousa Santos explica que

“[a] realidade qualquer que seja o modo como é concebida é considerada pela teoria crítica como um campo de possibilidades (…) A análise crítica do que existe assenta no pressuposto de que a existência não esgota as possibilidades da existência e que portanto há alternativas susceptíveis de superar o que é criticável no que existe. O desconforto o inconformismo ou a indignação perante o que existe suscita impulso para teorizar a sua superação”.

O desconforto, o inconformismo e a indignação perante a situação de Itapoã suscitaram em estudantes de Direito da UnB o impulso imediato não para a teorização, mas para a ação. Moveu-os um anseio utópico de transformação social e uma concomitante repulsa a discursos pretensamente transformadores, porém descolados da realidade e de ações realizadoras de mudanças concretas. Francis Bacon disse que “os filósofos elaboram leis imaginárias para comunidades imaginárias e seus discursos são como estrelas que dão pouca luz por estarem muito altas”[6]; utopias como essas não são as nossas.

A utopia que inspira o projeto Universitários Vão à Escola é de outro tipo. Encaixa-se na definição de Boaventura de Sousa Santos, segundo a qual a “utopia é, assim, o realismo desesperado de uma espera que se permite lutar pelo conteúdo da espera, não em geral mas no exacto lugar e tempo em que se encontra”[7]. A nossa utopia não está junto às estrelas altas e distantes criticadas por Bacon. Não estamos distantes de Itapoã, nem produzimos discursos superiores à realidade; não sobrepomos a ela a camisa-de-força de quaisquer teorias absolutas. Tampouco nos pretendemos a luz daquela comunidade. A UVE nasceu do chão da realidade, do chão não pavimentado que pisamos em Itapoã; a partir dele pensamos, sobre ele agimos. O projeto se faz pelo contato com essa realidade, pela relação entre os estudantes da UnB e as pessoas de Itapoã.

Esta é a importância da extensão para a universidade. Discursos, teorias e profissionais passam a se formar a partir da relação estreita com outros segmentos da sociedade. Isso não significa que na universidade não se devam desenvolver pesquisas desprovidas de aplicação prática perceptível, ou que não possam ser compartilhadas com a comunidade externa. Não se deve exigir, por exemplo, que um pesquisador deixe de estudar um assunto extremamente abstrato, de alta complexidade técnica, apenas porque não há aplicação aparente daquele conhecimento no momento, ou porque ele não pode ser compartilhado com a comunidade externa (devido à sua extrema tecnicalidade, que o torna compreensível apenas num meio acadêmico restrito). Uma exigência de tal modo absurda poria fim à autonomia da universidade, à sua singular função social de pesquisar livremente todos os campos do saber humano. A questão é outra: a centralidade da extensão decorre do fato de ela ser meio para que a universidade aplique seus conhecimentos de modo criativo para transformar a realidade social em conjunto com a comunidade externa; para que se produza novo conhecimento sobre essa intervenção; para que o estudante, o professor e o pesquisador incorporem ao seu trabalho a permanente consciência crítica sobre a função desempenhada pelo seu conhecimento na sociedade, sobre as formas como esse conhecimento é e deve ser apropriado e utilizado.

Essa é a postura que a UVE busca adotar. A nossa utopia é uma sociedade democrática em que todas as pessoas sejam plenamente cidadãs, tenham concretamente assegurados os seus direitos fundamentais. Decidimos lutar em Itapoã por essa utopia, e a arma que escolhemos foi a educação de crianças e adolescentes.

 


[1] RIBEIRO (1986, p. 9).

[2] Utopia, etimologicamente, significa não-lugar, conforme explica o Dicionário Aurélio. “Utopia: Do lat. mod. utopia < gr. o oÏ, ‘não’, + gr. tópos, ‘lugar’, + gr. -ía, (v. -ia1)”.

[3] A frase foi dita pelo professor Carlos Newton Júnior, da UFRN, em vídeo da década de 1990 sobre o projeto de extensão Trilhas Potiguares.

[4] SANTOS (2005).

[5] MORIN (2002, p. 85).

[6] BACON apud CARR.

[7] SANTOS (2005, p. 36).

A importância do debate público no processo eleitoral

Por Gabriel Santos Elias

As eleições são um momento mágico. Não tanto pela decisão final que escolhe os mandatários dos cargos que pretendem representar a população, mas por forçar todos os brasileiros e brasileiras a discutir, ainda que minimamente, os problemas do nosso país e as possíveis soluções para resolvê-los. Esse é o aspecto mais importante das eleições e que devemos aproveitar mais.

O debate público que é feito durante as eleições, os temas que são pautados, as demandas que são apresentadas pela sociedade, são tão ou mais importantes que as pessoas escolhidas como representantes. Os debates e compromissos feitos no debate público afetam as posições que esses representantes tomarão em seu mandato através dos compromissos firmados durante as eleições.

Se não essa, qual a explicação para a posição conservadora de FHC em relação às drogas enquanto presidente, que mudou logo que saiu do cargo? Ou a posição de Lula em relação à política macro-econômica? Esse talvez seja o melhor exemplo. Nos espaços hegemônicos do debate público, principalmente organizados pela CNI, CNA, e a grande mídia em geral, o candidato Lula era questionado e cobrado em relação à manutenção da política macro-econômica do governo FHC. A pressão foi tanta que Lula firmou seu compromisso através da “Carta aos Brasileiros”.

No último debate organizado pelo grupo Brasil & Desenvolvimento, questionamos Marina Silva em relação a sua posição quanto à democratização da comunicação. Sua resposta foi no sentido de garantir e fortalecer o controle social da mídia, como meio democrático de regular as concessões públicas da área de comunicação no Brasil. A reação da mídia foi clara: atacou a candidata e sua posição em relação ao tema, certamente será questionada nos outros espaços organizados por esses grupos. Marina sofrerá muita pressão ainda nessas eleições para recuar em sua posição sobre a democratização da comunicação. A sociedade civil organizada em torno dessa bandeira deve também pressionar para que, não só ela, mas todos os candidatos, assumam seu compromisso com a democratização da comunicação.

Nessa semana, Dilma Rousseff tomou a corajosa (e arriscada) decisão de não participar de uma sabatina organizada pelo jornal Folha de São Paulo, além de um evento da Confederação Nacional da Agricultura. Nada contra a decisão da candidata. Por mais que não seja o real motivo, ela poderia dizer que recusou pois estes são os espaços tradicionais de poder, que influenciam mais o debate público, principalmente através de seu poder econômico.

Mas, tendo clara a importância de se pensar o Brasil, nossos problemas e as possíveis soluções, e entendendo o momento eleitoral como importante nesse sentido, o candidato ou a candidata não pode se furtar a participação no debate público. Muito pelo contrário, deve aproveitar ao máximo as oportunidades de expor suas idéias à criticas e opiniões. Através do processo de diálogo com os setores da sociedade devem definir suas posições e seus argumentos em relação aos diversos temas que incorporam a agenda do poder.

O problema é que os candidatos ainda freqüentam os mesmos espaços durante as eleições: os debates promovidos pelas entidades patronais (CNI, CNA, FIESP, etc) e os debates organizados por grandes meios de comunicação. Se algum candidato está preocupado em realizar um processo de mudança na sociedade através de novas ideias, deve valorizar os espaços onde essas novas idéias são pautadas. Deve dar voz, visibilidade e assumir publicamente compromissos com essas idéias. Sem o compromisso público, as boas intenções são as primeiras a serem trocadas no processo de negociação política e a tão sonhada mudança profunda da nossa realidade fica cada vez mais distante…