A experiência ambígua das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs)*

PM sobe o Morro do Alemão, no Rio. Fonte: Folha de SP.

PM sobe o Morro do Alemão, no Rio. Fonte: Folha de SP.

Um dos maiores desafios à política de segurança pública em grandes cidades da América Latina têm sido as áreas controladas por grupos armados que oprimem as comunidades nas quais se localizam e impedem a ação do Estado nelas, inclusive a adequada prestação de serviços públicos.

Tradicionalmente, o padrão de atuação da polícia carioca em boa parte das áreas socialmente mais vulneráveis, como as favelas, pauta-se pela presença inconstante e violenta, tal como assinalava o pesquisador Pablo Dreyfus, do Viva Rio,  em texto de 2009: “Com táticas próprias das Forças Armadas, a polícia ingressa esporadicamente com contingentes fortemente armados para o cumprimento de missões pontuais e específicas como a prisão de pessoas ou a captura de armas e de drogas. Essas intervenções são violentas e com uso intensivo de armas de alto poder de fogo tanto por parte dos policiais como dos criminosos”.

Desde 2008, a cidade do Rio de Janeiro tem sido palco de uma política – as “Unidades de Polícia Pacificadora” (UPPs) – recebida com esperança por amplos setores da sociedade, inclusive a maioria dos moradores das comunidades “pacificadas.

A rigor, as ideias que as UPPs buscam realizar não apresentam diferenças essenciais com relação a outras experiências que tinham se sucedido no Rio de Janeiro ao longo das últimas décadas (a partir das ideias do Coronel Nazareth Cerqueira, Chefe da Polícia Militar nos governos de Leonel de Moura Brizola): retomada do controle territorial por parte do Estado e implementação dos princípios do policiamento comunitário aliada à prestação de serviços públicos e cooperação entre instituições públicas e com a sociedade civil organizada. Seu antecedente mais imediato, o Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais (GPAE), foi criado em 2000 e alcançou resultados de êxito em algumas comunidades. Porém, segundo Pablo Dreyfus, enfrentou resistências na corporação policial, avessa aos princípios e práticas do policiamento comunitário, e padeceu sob a deficiência de recursos para assegurar condições logísticas às próprias atividades policiais e também às de infra-estrutura urbana. Naquela ocasião, Dreyfus assinalava que para que o modelo de policiamento comunitário tivesse sucesso, deveria ser adotado como “estratégia generalizada de segurança pública” e contar com mais investimento em recursos humanos, equipamento e formação.

Mas, se as UPPs não apresentavam nada de novo em sua concepção com relação a outras experiências (v. também texto de Ana Paula Miranda sobre o assunto), haveria alguma novidade que justificasse todo o alarde que geraram? Duas diferenças importantes podem ser percebidas: primeiro, o forte apoio recebido, desta vez, por parte dos maiores veículos de imprensa, apesar da persistência de certa incompreensão de que o objetivo da política não é exterminar o tráfico de drogas e a criminalidade de uma vez, mas a retomada do controle territorial, mudança do modelo de policiamento e integração da política de segurança às políticas de desenvolvimento social; segundo, o alinhamento político-partidário conjunturalmente existente entre o governo estadual e o federal, o que tem sido relevante para aporte de recursos financeiros, logísticos e de pessoal para as operações.

Segurança para a favela ou contra ela?

Porém, ainda subsistem algumas dúvidas e críticas ao projeto, e ceticismo à perspectiva de que se consolide como alternativa viável e consistente de política de segurança pública.

Primeiro, observa-se que a cooperação entre os entes federativos tem dependido dos ventos inconstantes do alinhamento político-partidário, não tendo sido alçada ainda ao nível de política de Estado.

Segundo, questiona-se se o apoio de alguns órgãos da imprensa, embora positivo por um lado (a imprensa, até alguns anos atrás, só costumava dar manchetes e apoio a ações de enfrentamento direto a facções criminosas, tratando com desprezo, forte desconfiança ou severas críticas as tentativas de policiamento comunitário), não chegou a um nível ufanista, incapaz de fazer críticas a limites e equívocos do projetos.

Terceiro, há críticas aos critérios de escolha das comunidades para implantação prioritária das UPP’s. Observa-se que as unidades têm sido instaladas em lugares estratégicos para a realização de megaeventos, em especial Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, e questiona-se se é o direito à segurança pública dos cidadãos do Rio de Janeiro ou se são os interesses econômicos de alguns setores empresariais, como o do ramo do turismo, o que condiciona essa escolha (v. pesquisas do Observatório das Metrópoles sobre Megaeventos e UPPs).

Quarto, há denúncias das comunidades “pacificadas” sobre a persistência de vícios e abusos por parte da polícia, reproduzindo práticas de desrespeito, repressão a práticas e preferências culturais da comunidade (como o funk) e ao direito de ir e vir de moradores.

Quinto, há críticas à insuficiência de recursos e a equívocos de concepção das políticas públicas de desenvolvimento social que têm sido desenvolvidas nas áreas das UPP’s (v. dossiê do Comitê Popular da Copa do Rio de Janeiro), embora também se reconheçam avanços (v. matéria na revista piauí).

Sexto, as UPPs têm confrontado o poderio das facções que comandam o tráfico de drogas, mas muito pouco o das milícias, que hoje representariam ameaça ainda maior, pelo seu enraizamento nos mais altos escalões do aparato estatal em múltiplos níveis, inclusive nos órgãos eletivos (v. texto publicado também na revista piauí).

Sétimo, as UPPs têm um custo muito alto, de modo que é duvidoso se haverá orçamento disponível para que a experiência se alastre a ponto de se tornar política geral de segurança pública.

Oitavo, e não menos importante, a crítica ao tempo prolongado – 20 meses – de ocupação do Complexo do Alemão pelo Exército, como fase prévia à instalação das UPP’s na área: iniciada em dezembro de 2010, a ocupação pelas tropas das Forças Armadas encerrou-se somente em julho de 2012.

Paradigmas de segurança pública em tensão

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#Freixopq

“Claramente, a construção de um corredor de segurança na Zona Sul da cidade não segue critérios de um projeto de segurança pública, e sim de cidade para megaeventos. É o mapa da cidade olímpica: Jacarepaguá–Zona Sul–Zona Portuária–Maracanã. Só em Copacabana tem quatro UPPs, enquanto na Baixada só tem milicianos. Cidade segura não é a que tem muita polícia, e sim a que precisa de pouca, mas que tem muita escola, muita saúde.” – Marcelo Freixo em Revista Piauí

Quando votamos, espera-se, levamos em consideração algumas coisas básicas: qual é o projeto que o partido desse sujeito defende (afinal, no Brasil, o mandato eleitoral público é monopólio dos partidos)?; Quais são as propostas que melhor atendem às necessidades que esse cargo pode enfrentar?; e Qual é a desse sujeito que hoje pede meu voto?

Enfim, o que é representado pela candidatura? O que que ela representa?

No Rio de Janeiro, sede de Copa do Mundo e das próximas olimpíadas, a disputa eleitoral revela, mais que uma escolha sobre quem será chefe do executivo da cidade, a possibilidade de questionarmos, mundialmente, o modelo de cidade que se quer. Conhecido tanto por ser o cartão postal do Brasil no exterior, quanto pelos noticiários e filmes que exploram as dinâmicas problemáticas que envolvem o mundo criminal da cidade, o espaço urbano carioca se reivindica enquanto problema há tempos. Sou nascido no rio, de família carioca, tenho 26 anos e desde que reconheci a funcionalidade desse “eu” simbólico chamado Gustavo escuto em casa, no bar, na praia e no ônibus quão problemáticas são as relações de poder que imperam sobre o espaço urbano do Rio.  Não me parece, portanto, que é segredo que há, em momentos, desespero por mudança. Mudança estrutural. Mudança estruturante.

A candidatura de Marcelo Freixo tenta ser essa possibilidade. Além de reivindicar a pauta da ética enquanto projeto mínimo (é o mínimo que se espera de um homem público), a candidatura expande-se justamente quando, na prática, e não só no discurso, enfrenta e escancara, sem medo, os problemas de fato. As ameaças à vida de Freixo não são pelo que ele fala. São pelo que ele faz. E faz com frequência.

Baseada, hoje, num projeto de poder de um partido que busca guarnecer os projetos históricos da esquerda programática, a candidatura de Freixo tem conteúdo propositivo e transparente: quer tornar o espaço urbano do rio de janeiro um local mais público, menos excludente, mais conectado, menos ilhado. Isso tudo sem maquiagem, sem dependência de projetos ocultos que bancam seu caminho político.

Para emplacar a visão que hoje predomina no seu partido no Rio de Janeiro, o deputado estadual encara hoje as máfias do Morro e do asfalto. Enfrenta milícias armadas e máfias eleitoreiras. Disputa um projeto político contra uma aliança que hoje se vincula ao projeto de poder já instaurado no rio de janeiro. Projeto que não questiona, cede a pressões conservadoras. Projeto que não propõe, defende-se do avanço reacionário.

A política, dizem alguns, é a mistura entre Virtu e Fortuna. Na atual conjuntura, parece-nos que a cidade do Rio se vê diante da fortuna de poder votar com vontade. Pouquíssimas outras podem dizer o mesmo. Em geral, hoje, vota-se nao no que se quer, mas no que se pode. Mais que apresentar um projeto alternativo, pois, parece que a candidatura de Freixo pode realocar libido social em um projeto que empolga, que renova, que enfrenta.

Espera-se, logo, que a virtu de Freixo, valente e constante, concretize-se ao receber da população a oportunidade de se imiscuir na estrutura e tentar desagregar o hegemônico. Porque, nesse momento, mais que contra a hegemonia, é indispensável ser anti-hegemonico diante do projeto de cidade escolhido na sala da Fifa e do comitê olímpico.

Na piauí: a violência e o poder político das milícias no Rio de Janeiro

Por João Telésforo Medeiros Filho, do blog Da Planície

As velhas imagens sobre o poder dos traficantes de drogas no Rio de Janeiro, ainda alimentadas por grande parte da imprensa, cada vez condizem menos com a realidade.

Os grupos criminosos e violentos que têm poder no Rio hoje, cada vez mais, são as milícias formadas por policiais militares e civis, bombeiros, funcionários do sistema penitenciário. Poder crescente e tenebroso. Segundo bem apontam especialistas como Luiz Eduardo Soares e Jacqueline Muniz, não se trata de “Estado paralelo”, mas de um poder paralelo que cresceu dentro do próprio Estado, usando sua estrutura e penetrando inclusive – e com força – nos órgãos eletivos.

Triste do país que precisa de heróis, dizia Brecht. O fotógrafo Nilton Claudino é um deles, no nosso.

A revista piauí novamente presta um grande serviço jornalístico à nação, publicando seu texto sobre as torturas e ameaças de morte de que foi vítima, junto a uma colega, quando apuravam a atuação de um grupo miliciano no Rio, e que destruíram a sua vida. Além de muitos policiais, um vereador e um deputado estadual também estavam diretamente envolvidos. Seguem impunes.

Leitura imperdível. Seguem abaixo alguns trechos, com o único fim de estimular a leitura da íntegra da matéria, que está disponível no site da piauí. Confira: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-59/historia-pessoal/minha-dor-nao-sai-no-jornal

Leia também texto publicado em 2008 pelo Deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), o corajoso Presidente da CPI das Milícias: “Combater as milícias: uma questão de soberania“.

Minha dor não sai no jornal

Eu era fotógrafo de O Dia, em 2008, quando fui morar numa favela para fazer uma reportagem sobre as milícias. Fui descoberto, torturado e humilhado. Perdi minha mulher, meus filhos, os amigos, a casa, o Rio, o sol, a praia, o futebol, tudo

por Nilton Claudino

(…)
o começo de 2008, fui chamado pelo diretor de redação de O Dia, Alexandre Freeland, para uma pauta que tinha que ser cumprida sigilosamente: investigar um grupo de milicianos (policiais militares e civis, bombeiros, funcionários do sistema penitenciário) que atuava no Jardim Batan, uma favela encravada em Realengo, na Zona Oeste.

(…)Havia fotografado muito: a movimentação pelas ruas, PMs bêbados, castigos, punições, carcaças de carros roubados acumuladas dentro de um terreno do Exército, o depósito clandestino de gás.

Às 21h30 da quarta-feira, dia 14, falamos com o diretor de redação. Eu sempre me reportava a ele. A possibilidade de envolvimento de um deputado e um vereador com a milícia fez com que decidíssemos estender nosso período por lá. Queríamos provas indesmentíveis.

Quinze minutos depois desse telefonema, fui pego em frente à pizzaria vizinha da nossa casa. Já comecei apanhando muito. Gritavam que sabiam que eu era jornalista.  (…)

Fomos algemados, encapuzados com toucas pretas e enfiados no banco traseiro de um carro. Rodamos alguns minutos atrás da chave de onde seria nosso cativeiro. (…)

 iquei encapuzado a maior parte do tempo. Mas sabia que havia em volta muitos policiais. Sentia os chutes vindos de coturnos. (…)
A repórter reconheceu a voz de um vereador, filho de um deputado estadual. E ele a reconheceu. Recomeçou a porradaria. Esse político me batia muito. Perguntava o que eu tinha ido fazer na Zona Oeste. Questionava se eu não amava meus filhos.

Cada vez chegavam mais camburões. Depois que apanhamos muito, levaram-nos para a sessão de choque. Era um instrumento que tinha o formato de uma pizza com um cano no meio. Tiraram minha roupa e me davam choques na região baixa e nos pés. Não posso, não devo, não quero entrar nos detalhes das brutalidades e das humilhações que sofremos. (…)

Leia a íntegra da matéria no site da revista piauí: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-59/historia-pessoal/minha-dor-nao-sai-no-jornal.

Solidariedade às vítimas do RJ

Considerando que boa parte dos leitores do blog mora em Brasília, chamamos todos a contribuírem com as campanhas que acontecem na UnB para enviar alimentos e materiais de higiene às vítimas dos recentes desastres no RJ. Doações podem ser entregues na sede do Diretório Central dos Estudantes, que fica na parte norte do Instituto Central de Ciências (ICC, o famoso “Minhocão”), ao lado do Anfiteatro 11, e também no Centro Acadêmico de Engenharia de Produção (CAEPRO), na Faculdade de Tecnologia.

Ao mesmo tempo que não podemos admitir o adiamento de medidas capazes de evitar novos desastres, também não podemos omitir, neste momento, ajuda para o socorro mais imediato às vítimas. Contribua!

Da UnB Agência:

UnB lança campanhas para ajudar vítimas do RJ

Alimentos, roupas e garrafas água poderão ser entregues em diversos pontos de coletas pelos campi
João Campos – Da Secretaria de Comunicação da UnB

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A Universidade de Brasília mobiliza-se para ajudar as vítimas dos deslizamentos na região Serrana do Rio de Janeiro. Duas campanhas lançadas esta semana oferecem diversos pontos de coleta de alimentos, roupas, água e outros materiais nos campi (veja quadro abaixo). Ao todo, o desastre provocado pelas chuvas no início do ano contabilizam mais de 694 vítimas e 21,5 mil desalojados em seis cidades.

O Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub), em parceria com o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e a Associação dos Docentes da UnB (ADUnB), vai disponibilizar dez pontos de coleta nos campi a partir das 14h desta quarta-feira, 19 de janeiro. “Vamos colocar caixas também em Planaltina, Gama e Ceilândia”, ressalta a servidora Eurídes Araújo, coordenadora-geral do Sintfub.

Alimentos de fácil preparo – como enlatados e macarrões instantâneos – e garrafas de água são prioridade na campanha do sindicato. “Segundo orientações da Cruz Vermelha, essas são as maiores demandas dos desabrigados”, comenta Eurídes. A servidora ressalta, no entanto, que outros bens – como roupas, fraldas e acessórios de higiene pessoal – também são bem-vindos. “Nesse momento qualquer ajuda vale”, completa.

A campanha do Sintfub, que conta com uma parceria com a Cruz Vermelha e com o Corpo de Bombeiros, inspirou-se em iniciativa de um grupo de moradores da Colina para lançar os postos de recolhimento na Universidade. “Eles pediram apoio com o carro de som e nós resolvemos ampliar a campanha para toda a UnB”, conta Antônio Guedes, coordenador-geral do sindicato.

ESTUDANTES – No CA de Engenharia de Produção as arrecadações já começaram. Também em parceria com o Corpo de Bombeiros, os estudantes que recém ocuparam duas salas na Faculdade de Tecnologia, ao lado do CA de Engenharia Florestal, lançaram campanha para arrecadar alimentos e roupas para as vítimas dos deslizamentos.

Garrafas de água, escovas de dente, roupas para crianças e alimentos não perecíveis podem ser entregues a qualquer hora do dia no CA do curso. “Vamos enviar o material recolhido em um avião dos Bombeiros na sexta”, conta o presidente do CA, Pedro Leal.

DESASTRE – Em Nova Friburgo, um dos locais mais atingidos, já foram registrados 325 mortos. A prefeitura calcula que existam na cidade entre 5.200 e 6 mil desalojados e desabrigados. Em Teresópolis, o último relatório da Defensoria Pública e da Defesa Civil registrou 278 mortos na cidade. Destes, 235 já foram identificados e sepultados. Petrópolis, Bom Jardim, São José do Vale do Rio Preto, Sumidouro e Areal também foram afetados pelas tempestades.

ONDE AJUDAR? 

Alimentos enlatados, não-perecíveis, garrafas de água, roupas e acessórios de higiene pessoal podem ser entregue nos seguintes postos de coleta na UnB:

Reitoria
ICC Norte, Central e Sul
Banca da Colina
Sintfub
Cespe
Campi do Gama, Planaltina e Ceilândia
CA de Engenharia de Produção

Mais informações: 3307-2471

Todos os textos e fotos podem ser utilizados e reproduzidos desde que a fonte seja citada. Textos: UnB Agência. Fotos: nome do fotógrafo/UnB Agência.