AJD demanda participação popular no processo de escolha dos juízes do STF

Por João Telésforo, do blog Da Planície

A reforma política não pode resumir-se à reforma eleitoral, se queremos de fato promover transformações profundas na estrutura política do nosso Estado e construir instituições que fomentem a participação popular e sejam mais porosas a ela (e não ao poder econômico e de grandes conglomerados midiáticos atrelados a ele). O Legislativo aparece diariamente vinculado a escândalos de corrupção, e de fato não podemos nos orgulhar de grande parte dos nossos congressistas; porém, talvez o poder da República mais carente de reforma seja o Judiciário, onde abundam o conservadorismo e a corrupção, frequentemente abafada pelo corporativismo de muitos juízes.

Surgiu recentemente uma proposta interessante que pode ser uma das medidas da necessária reforma democratizante desse Poder. A Associação Juízes para a Democracia (AJD) pede que a Presidenta Dilma inspire-se no decreto argentino 222/03 e institua mecanismo de participação social para decidir quais Ministros indicar para a Suprema Corte. Importante mencionar que mesmo opositores de Néstor Kirchner, como Beatriz Sarlo, reconheceram esse decreto como uma grande medida de seu governo. Eis o que escreveu a grande intelectual argentina em artigo publicado imediatamente após o falecimento do ex-Presidente:

La Argentina tiene, como tuvo Kirchner, una oscilación clásica entre la reivindicación del pluralismo y la concentración del poder. Como presidente, Kirchner eligió no simplemente el liderazgo fuerte (quizás indispensable en 2003) sino la concentración de las decisiones, de las grandes líneas y los más pequeños detalles: tener el gobierno en un puño. Consideró el poder como sustancia indivisible. Con una excepción que marca con honor el comienzo de su gobierno: la renovación de la Corte Suprema, un acto de gran alcance cuyas consecuencias van más allá de la muerte de quien tuvo el valor de decidirlo. [grifei]

Na Bolívia, acontecerá a experiência pioneira de eleição dos membros da Suprema Corte pelo voto direto. Não sei se é a melhor solução, mas o mínimo de que precisamos aqui é o fomento ao debate social em torno da indicação, tal como ocorreu na Argentina e pede a AJD.

Segue a nota da Associação.

EXCELENTÍSSIMA SENHORA PRESIDENTA DA REPÚBLICA DILMA ROUSSEFF.

Ref.: nomeação ministro Supremo Tribunal Federal

A Associação Juízes para a Democracia, entidade não governamental, sem fins corporativos, fundada em 1991, que tem dentre seus objetivos estatutários o respeito absoluto e incondicional aos valores próprios do Estado Democrático de Direito vem à presença de Vossa Excelência requerer, no que diz respeito ao preenchimento de vagas de Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), requerer que, mediante decreto, estabeleça procedimento que permita e estimule a participação popular no processo de escolha dos integrantes do STF, sem vulnerar o sistema estabelecido na Constituição Federal, de nomeação pelo Presidente da República, mediante aprovação pelo Senado.

Ao STF foi atribuída elevada função institucional, pois é o intérprete final da Constituição Federal e dos Direitos Humanos, encargo que conferiu à Corte parcela de poder decisivo na organização das relações sociais públicas e privadas. Conquanto desempenhe papel de protagonista na vida política do país e que o serviço jurisdicional afete diretamente a vida e os interesses de cada cidadão e cidadã individualmente considerados, como também o conjunto da sociedade e a escolha de seus integrantes seja ato de interesse primordial de todo o povo brasileiro, o processo de nomeação continua desprovido de procedimento que possibilite a efetiva participação popular.

O princípio republicano indica a necessidade de que o(a/s) jurista(a/s) considerado para a vaga seja apresentado à nação, de modo a permitir o conhecimento público de sua trajetória política e profissional. O princípio democrático impõe considerar que a sociedade brasileira tenha reconhecido o direito de se manifestar sobre os pretendentes, desde as legítimas expectativas populares e das entidades da sociedade civil organizada.

A implementação deste processo político democrático, no qual o Presidente da República estabelece um amplo debate com a sociedade acerca do perfil dos possíveis candidatos, certamente ofertará elementos ímpares para sua escolha.

O mecanismo permite e exige uma ação transparente, na perspectiva democrática, o que implica, igualmente, um sentido de colaboração com a democracia e com a tarefa do Presidente da República, na medida que oferta elementos para a escolha da composição da mais alta Corte do Poder Judiciário, considerando aspectos relevantes, como legitimidade e representação social de cada pretensão, vinculação dos postulantes com os fundamentos constitucionais da cidadania, da dignidade da pessoa humana, dos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e seus compromissos com os objetivos constitucionais de construção de uma sociedade livre, justa e solidária, de erradicação da pobreza e da marginalização social, da redução das desigualdades regionais, e da promoção do bem de todos sem distinção de origem, raça, sexo, cor, idade e outras formas de discriminação.

É premente que se aprofunde o sistema democrático no que tange a nomeação dos ministros do STF, que deve ter como pressuposto a adoção de procedimento que permita a máxima divulgação do histórico dos juristas que são considerados para integrar o STF, assim como preveja período razoável para o debate e a manifestação formal dos cidadãos, associações e entidades acerca dos candidatos indicados.

A participação popular proporcionará um debate efetivo e enriquecedor sobre o papel do STF no Estado Democrático de Direito e sobre a trajetória profissional e os compromissos assumidos pelo indicado durante sua carreira e vida, o que acarretará um aperfeiçoamento institucional e o aumento do interesse dos cidadãos pela coisa pública, requisitos imprescindíveis à consolidação da democracia em nosso país.

Deste modo, requeremos a Vossa Excelência que, desde já, mediante decreto, disponha sobre o processo de nomeação ao cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal no âmbito da Presidência da República, prevendo a máxima divulgação do histórico dos juristas que são considerados para a vaga, prazo para debate e meios de recepção de considerações e sugestões pelos cidadãos, cidadãs e pela sociedade civil organizada.

Certos que os compromissos sociais e vínculos populares do Presidente da República ensejarão o acatamento desta proposição cidadã, subscrevemos o presente e encaminhamos exemplar do jornal Juízes para a Democracia, cujo editorial trata do tema e do decreto argentino 222/03 que adotou mecanismo de participação social.

São Paulo, 01 de agosto de 2011.

José Henrique Rodrigues Torres

Presidente do Conselho Executivo

Reunião aberta: B&D debate Reforma Política

Acompanhe ao vivo nossa transmissão do debate sobre a Reforma Política. Veja o video abaixo ou acesse nosso canal no livestream

http://cdn.livestream.com/embed/brasiledesenvolvimento?layout=4&autoplay=false&mute=false

Watch live streaming video from brasiledesenvolvimento at livestream.com

B&D debate Reforma Política

 

 

 

 

Convidamos todos que se interessarem no debate sobre reforma política a participar de uma reunião neste sábado, dia 16, na FA/UnB, às 15 horas. Nessa reunião discutiremos as diversas propostas e os limites que a atual conjuntura apresenta, iniciando uma articulação para agirmos sobre o resultado da reforma política no Brasil.

Muitos, há algum tempo, já falam da reforma política como uma das medidas essenciais e urgentes para o Brasil. A cada eleição são lembrados os problemas e as distorções produzidas pelo nosso sistema eleitoral apontando a necessidade de pensarmos como são escolhidos nossos representantes e como é feita a política no Brasil.

Mas agora podemos considerar que o tema realmente entrou na agenda política do país. Comissões especiais instaladas na Câmara e no Senado para organizar propostas estão repercutindo através de diversas posições na mídia e na academia. Na sociedade civil também há importantes mobilizações e propostas que devem ser consideradas pelo parlamento. As questões que ficam são: Qual é a importância de uma reforma política para o país? Como nos posicionar e atuar nesse tema tão específico, com espaços de debate tão restritos? O primeiro passo é conhecer melhor o que está sendo discutido.

No Senado Federal a Comissão Especial formada para discutir o tema andou mais rápido e encerrou os trabalhos na quinta feira passada (7). As principais mudanças propostas foram:

  • Mudança da data da Posse dos Governadores para o dia 10 de janeiro e do/a presidente/a para o dia 15.
  • Fim da reeleição
  • Duração dos mandatos executivos de 5 anos
  • Fim das coligações partidárias
  • Sistema eleitoral proporcional com lista pré-ordenada
  • Financiamento exclusivamente público
  • Candidatura avulsa para prefeito e vereador (sem filiação partidária)
  • Cotas de 50% para mulheres com alternação de gênero na lista partidária.
  • Realização de referendo para a definição do Sistema Eleitoral.

Na Câmara dos Deputados ainda estão previstos mais dois meses de debate, sem qualquer decisão tomada até agora. A idéia dos deputados é realizar mais audiências públicas com entidades da sociedade civil e ainda cinco seminários visando ampliar o debate sobre a reforma política no país. Os seminários vão acontecer nos dias 29 de abril em Sergipe; 2 de maio no Rio Grande do Sul;  27 de maio no Paraná;  2 de junho em Goiás e 6 de junho em São Paulo.

Vale a pena conhecer a Plataforma pela Reforma do Sistema Político, grupo de entidades e movimentos sociais que há seis anos apresentou uma cartilha com reflexões para o debate. Como resultado dessa mobilização, a Plataforma lançou, no dia 29 de março, uma proposta de iniciativa popular para a reforma política.

Acompanharemos também bem de perto a Frente Parlamentar pela Reforma Política com Participação Popular, que, de forma inédita, conta com a participação de entidades e organizações da sociedade civil para debater no congresso nacional a democratização dos espaços de decisão, aumentando a participação do povo na própria democracia.

O B&D luta por uma nova política, mais inclusiva e participativa, mais justa e mais humana. Interessado em pautar essa luta por uma nova política, o B&D integra a Frente Parlamentar pela Reforma Política com Participação Popular e se dispõe a mobilizar o debate sobre a reforma política na sociedade. Queremos que mais e mais pessoas participem dessas discussões. Só assim teremos o empoderamento social, a inclusão e a cidadania pelos quais tanto lutamos.