Crônica sobre o estilo dos presidenciáveis

Por Laila Maia Galvão

Abro o jornal e sempre encontro alguma reportagem sobre os modelitos dos presidenciáveis(!). O fato de termos nas eleições de 2010 uma pré-candidata mulher, com grandes chances de chegar ao segundo turno e vencer, parece ser um bálsamo para os jornalistas político-fashions. Finalmente eles podem escrever matérias que vão além dos comentários sobre as cores das gravatas dos candidatos e sobre o significado da utilização de um terno italiano, com o botão mais embaixo, ou de um modelo menos recortado e mais justo (afinal, como dizem por aí: fit, fit, fit, essa é a lei do terno). Nesse ano, além de pele, cabelo, e sapatos, teremos análises sobre babados, saias, colares, batons e tudo mais. Mais divertido, não?

Nos Estados Unidos esse tipo de discussão é recorrente. Bush lançou a moda da gravata azul, tendência seguida por vários congressistas daquele país desde então. Todos falaram que a escolha de Bush foi boa e que o azul, cor preferida dos americanos (será?), simboliza a constância e firmeza e também tranquilidade. O vermelho, cor mais tradicional, representaria o dinamismo e o poder. As eleições britânicas também trouxeram controvérsias desse tipo. Clegg usava, normalmente, gravata amarela, Cameron, gravata azul, e Gordon Brown, vermelha. Não faltaram críticas a Brown pelo nó de sua gravata, que seria muito grande.

Não precisamos nem falar da primeira-dama Michelle Obama. Muitos mal sabem qual é sua formação, sua história de vida, mas todos sabem dar algum palpite sobre suas roupas, na grande maioria das vezes, super elogiada. Já foi eleita uma das “10 pessoas mais bem vestidas no mundo” pela revista Vanity Fair. Obama também é muito elogiado nesse quesito. Muitos o acham bonito e elegante. Seu aspecto magro e longilíneo favorece o uso de ternos. Apesar de concordar com tudo isso, prefiro pensar que Obama está muito além disso.

Dilma foi bastante criticada por seu estilo de roupa. Há algumas semanas, a mídia brasileira repercutiu a notícia de que Lula teria orientado Dilma na troca de suas roupas. Lula propôs um visual mais moderno e leve. As blusas de babados deram espaço para terninhos de cores pastel. Estilistas profissionais trabalharam na nova produção da pré-candidata. Na internet, alguns comentários indignados: “como um ex-sindicalista pode entender de roupas femininas?!”.

Sim, estamos no século XXI, para muitos o triunfo da imagem, da sociedade do espetáculo, do marketing, do voyeurismo. Apesar das críticas, não podemos cair em argumentos puristas. A imagem, em maior ou menor grau, sempre foi relevante. E é claro que, ao votarmos, levamos em conta a imagem… a que temos, a que foi construída, enfim. Não se pode negar que forma e conteúdo são indissociáveis.

Apenas queria poder ler no jornal mais matérias sobre os discursos e sobre os programas de governo, e não só sobre botox e gafes. Um pouco mais de conteúdo e substância não iam fazer mal pra ninguém. Não estamos só preocupados com a embalagem, mas também com o que virá dentro dela. Chamo atenção, então, para uma nova inversão da inversão de valores: Para muitos, Lula ter dado palpite sobre as roupas de Dilma demonstrou a centralização da organização da candidatura do PT. Parece-me mais preocupante o fato de Lula ter escolhido Dilma, sem prévias dentro do partido. É nosso dever fazer com que as eleições de 2010 não sejam engolidas por debates que foquem apenas nos candidatos e nas suas preferências no mundo da moda. Que roupas e maquiagens sejam apenas o ponto de partida para discussões mais profundas sobre projeto de país.

A relação Política – Universidade

Por Gustavo Capela

Ontem, como já amplamente noticiado neste blog, o pré-candidato à Presidência da República pelo PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, foi à Universidade de Brasília participar de um evento organizado pelo B&D. O intuito é levar todos os pré-candidatos à universidade, para que eles possam discutir seus projetos, expor suas idéias e, claro, tentar convencer os ouvintes que suas idéias são melhores, mais plausíveis, concretas, realistas, idealistas,  ousadas, ou qualquer outro adjetivo que um eleitor ache adequado, que a dos outros candidatos.

Essa prática, de embate de idéias, em um ambiente de idéias, como deve ser a Universidade, parece ser incomum em nosso país. Como demonstrou o brilhante e sempre-vivaz Plínio de Arruda, o discurso político parece cada vez mais ter dificuldades para argüir de forma mais profunda, de esboçar projetos e discutir idéias de forma ampla e aberta com a comunidade Universitária. Não que isso ocorra pelo capacidade ou incapacidade individual do candidato. Plínio certamente é um dos melhores políticos de nossa era no que diz respeito à teoria e à prática, ambos necessárias para o âmbito de idéias no mundo político. No entanto, pouco apresentou idéias profundas e distantes do senso comum para resolver problemas. Na sua maior contribuição, referiu-se à reforma agrária com base no tamanho da terra e não na produtividade da própria. Assim, o fenômeno parece estar muito mais atrelado à percepção que o político tem de que precisa convencer pela simpatia, pela cordialidade, não  pelas idéias.

Esse viés político pode ser visto inclusive em países do “Atlântico-Norte”, onde Obama foi por diversas vezes chamado de elitista por querer discutir mais idéias do que jogar boliche para a televisão registrar. Naquele país, no entanto, parece que a idéia prevaleceu. Talvez até pela junção que o então-candidato à Presidência dos EUA conseguiu trazer entre idéias inovadoras, nova forma de fazer política e o bom e velho carisma. O primeiro negro a ser eleito presidente dos Estados Unidos não é exatamente uma pessoa que não agrega pessoas pelo seu jeito de ser. Seu sorriso, sua forma de falar, sua vibração e jeito de agir contagiaram e ainda contagiam toda uma geração naquele país. Parece que aqui, entretanto, as idéias estão cada vez mais escassas e, quando existem, não se comprometem com sua exposição profunda.

Não restam dúvidas que ambos os aspectos são importantes. De nada adianta um intelectual que não se junte às massas, que não é cordial, atencioso, carismático. Da mesma forma, não deveria bastar o contrario: um líder que sabe falar, que sabe agir, que tem facilidade para se comunicar com seu eleitorado, mas não discute, de forma ampla seus projetos e idéias.  O problema com essa segunda hipótese é justamente o de tornar as disputas para cargos majoritários uma disputa entre pessoas, não entre projetos. O tal do personalismo está estreitamente vinculado à essa necessidade da política atual de ter como representante maior um ídolo, ao invés de um norte, um princípio.

Nessas eleições, o B&D pauta idéias, não pessoas. Com isso espera que, trazendo os pré-candidatos à Presidência à UnB, essa prática seja cada vez mais comum. Ao ponto que não seja mais necessário convidarmos políticos para visitarem nossas Universidades.

Presidenciáveis na UnB

O Brasil e Desenvolvimento promoverá debate roda-viva com Plínio de Arruda Sampaio, candidato do PSOL à Presidência da República em 2010.

Será no dia 19 de maio às 10h no auditório Joaquim Nabuco – UnB (Universidade de Brasília).
Este é o primeiro de uma série de debates que o grupo promoverá na UnB com os candidatos à Presidência. Dia 8 de Junho será a vez de Marina Silva (PV).
Para debater com PlínIo estarão presentes:
Ana Rodrigues – B&D
Pablo Valente – DCE/UnB
Fábio Félix – secretário de Juventude do PSOL-DF
Bistra Apostolova – professora da Faculdade de Direito da UnB e coordenadora do projeto de extensão Direitos Humanos e Gênero.
O evento será transmitido ao vivo por rádio-web e terá cobertura no twitter (clique para seguir).
Aqui, vídeo de divulgação do evento.
Mais informações: (61) 8109-4344 e brasiledesenvolvimento@gmail.com

 
Quem é Plínio de Arruda Sampaio?

Em sua longa trajetória, Plínio foi deputado federal relator da reforma agrária no governo João Goulart e um dos primeiros 100 políticos cassados pela ditadura militar. De volta do exílio, foi um dos fundadores do PT, partido em que atuou como deputado constituinte e coordenador da campanha presidencial de Luíz Inácio Lula da Silva em 1989. É promotor público aposentado e mestre em desenvolvimento econômico internacional pela Universidade de Cornell (EUA). Além de atuar como consultor da ONU é presidente da ABRA – Associação Brasileira de Reforma Agrária.

Para ver a entrevista de Plínio de Arruda Sampaio, do dia 7 de maio, para a Bandnews, clique aqui.