Por Gustavo Capela
Se há alguma lição dada aos cidadãos brasileiros nessas últimas semanas, ela definitivamente é a de que os meios institucionais, democraticamente eleitos, são incapazes de lidar com a corrupção sistêmica que envolve nossos políticos. Ora por falta de vontade, ora por falta de capacidade. Isso significa, numa sociedade democrática, que é dever do cidadão agir. Agir para demonstrar que os princípios que regem a atual prática política não estão em consonância com aqueles ditados no projeto histórico da nossa sociedade: a constituição.
Sociedade livre, democrática, aberta ao plural, soberana, digna, como requer o primeiro artigo da Carta Política que expressa nossos valores máximos. Sociedade que já não pode confiar nos políticos para exercerem função pública, pois a esfera onde as decisões devem ser tomadas com base num interesse público, ou seja, aquele determinado por lei, que só se legitima através de um procedimento democrático, já há tempos encontra-se privatizada.
Colar adesivos no carro, diante disso tudo, não é suficiente. São vários os tipos de adesivos. São várias as frases neles inscritos. “Tenho vergonha do congresso do meu país”; “Fora Arruda”; “Fora Arruda e PO”; “Fora Noroeste”, etc. Se há vergonha, se queremos o governador corrupto fora, não serão somente esses adesivos que vão nos levar aos nossos objetivos. É preciso mais do que isso. Mais que buzinas de apoio, mais que palavras, mais que acenos. É preciso, ante de mais nada, acreditar. Acreditar que nós, como povo, somos capazes de dizer não. Capazes de agir contra um estado que já não se resguarda pela legitimidade que lhe é conferido pelo consentimento, mas sim pela inércia de seus cidadãos, pela descrença da maioria de que é possível sim mudar o status quo corrupto que nos abate.
Convocamos, então, todos os cidadãos a se levantarem. Não é na poltrona de casa que diremos a esses políticos que estamos infelizes. Não é mediante conversas na mesa de jantar. Tampouco na crítica aos poucos que se insurgem contra uma ordem caduca que já não representa mais um interesse coletivo, mas sim o do dinheiro e da fortuna própria. A solução é mobilizar-se. É gritar e se levantar contra esses indivíduos que riem da nossa cara como se fossemos menos capazes, menos inteligentes, menos cidadãos que eles.
Não vivemos numa sociedade nobiliárquica, para o desprazer de alguns. Logo, ninguém merece privilégio pecuniário maior do que o determinado por lei por gerir os bens públicos. Confiamos a alguém esse dever com o intuito de uma gerencia honesta, aberta, transparente. Quando esse papel não é cumprido, por óbvio, essa pessoa deve sair do cargo. Para apurar isso, elegemos um outro poder, o legislativo, que, em tese, deve ser independente do executivo e impedir os excessos do uso de poder deste. E quando não há mais essa separação? Quando um se confunde com o outro, quando um ajuda o outro na corrupção? Quando quem julga está diretamente atrelado ao julgado? Nesse caso, as instituições já não respeitam os princípios que os elegeram, já não são mais capazes de defender o bem público.
Cabe a nós, repito, o dever de exercer cidadania. Precisamos ir às ruas, precisamos gritar, espernear, e mostrar a TODO o corpo governante que não aceitaremos essas condutas. Cabe a nós impedi-la. Somente a nós. Não é caso de palanque, não é caso de ser engajado. É uma necessidade categórica da vivência coletiva que elegemos. Chamamo-la de democracia. Não é suficiente colar adesivos.