Em janeiro, nos reunimos para repensar, planejar e sistematizar nossa ação política no ano de 2012. Para tal, nos debruçamos sobre análises de conjuntura internacional, nacional e regional (publicadas aqui, no blog) bem como refletimos, sempre e mais uma vez, a respeito dos fundamentos e princípios que norteiam nossa intervenção por um país mais justo. Um dos resultados foi essa carta de fundamentos agora apresentada – um documento que objetiva e enuncia tais princípios.
O lançamento da carta foi feito no dia 17 passado em nossa Casa 14. Leia aqui sobre o evento. Abaixo, a carta.
Imaginar para revolucionar
Carta de fundamentos do grupo político Brasil e Desenvolvimento
“Os processos de emancipação que funcionam são aqueles que tornam as pessoas capazes de inventar práticas que não existiam ainda”.
Jacques Rancière
Apresentamos os fundamentos que norteiam a atuação política do grupo Brasil e Desenvolvimento. São, em suma, os temas centrais de nossa intervenção, que se pretende transformadora em busca de uma sociedade justa, igualitária, plural, livre e participativa.
Para nós, o debate sobre desenvolvimento supera a preocupação com crescimento econômico, voltando-se para empoderamento social, emancipação e cidadania. Queremos construir uma nova visão de mundo, uma nova alternativa de esquerda para o Brasil. Disputar esse novo senso comum emancipatório é romper com a ideologia dominante, é inundar o espaço público com novas ideias, é imaginar para revolucionar.
Poder popular
“O poder do povo vai criar um mundo novo”
O poder é a conjunção entre capacidade e prática para a recriação do mundo social. O poder não está sacralizado em leis imutáveis e nem deve ser visto apenas como ferramenta ou meio para o alcance de um dado fim. Para nós, a multiplicação social do poder é o próprio fim.
Reconstruir a apropriação e legitimação do poder é parte do intento de imaginação de uma nova sociedade. Por isso, a constante revisão crítica, reconfiguração prática e resistência democrática perante o poder instituido marcam nossa práxis transformadora da realidade. Nesta práxis, construímos uma alternativa de poder popular que requeira participação efetiva e ampla para sua legitimação.
Democracia participativa
Se por um lado entendemos a democracia como único caminho viável para reconstrução desse poder, negamos a aceitação de uma significação dada, pré-concebida e institucionalizada de democracia. Para entender que todos são responsáveis pelas decisões que os afetam é necessário empoderá-los para que sejam também responsáveis pela própria transformação do processo de que decorrem tais decisões.
É preciso superar o paradigma de democracia representativa do século XX conforme ela se apresenta atualmente. Entendemos que uma sociedade complexa requer instituições que permitam o funcionamento das estruturas sociais. É justamente no aspecto funcional que a democracia representativa se ampara para se dizer legítima e para estabilizar expectativas, tanto quanto a novos modelos, como quanto a novas perspectivas de atuação democrática. Por entendermos que seus limites estão, sobretudo, vinculados à sua importância para um modelo econômico que se embasa na competição por bens materiais e simbólicos, defendemos que é necessário pensar uma reestruturação imaginativa capaz de abarcar autênticos anseios emancipatórios.
Os avanços tecnológicos e mudanças sociais que redesenham a dinâmica da organização e participação política em rede, ampliam as possibilidade de pensar novas instituições e arranjos democráticos mais diretos, abertos e participativos. Esse é um chamado de nossa época e um compromisso do B&D.
Novas alternativas econômicas
Não há como pensar uma nova política sem desconstruir a naturalização do capitalismo. Contraditório e injusto, esse modo de organização economico-social alimenta e reforça nossos maiores problemas políticos, tais como a concentração de renda e poder, a corrupção, a violência, as opressões, exploração do trabalho e devastação ambiental. É preciso, portanto, superar o fetiche pelo modelo que se pretende único e exclusivo de nossa vida econômica, para pensar novas formas de interação, trocas e de organização da produção social.
O primeiro passo está na negação da lógica do “lucro a qualquer custo”, que corrompe os diversos outros códigos sociais em favor da maximização de capital. A produção deve servir ao ser humano e não o ser humano à produção. Lutamos por uma economia sustentável, justa, colaborativa e solidária – que redefina a relação do ser humano na natureza.
A ousadia em buscar modos alternativos de vida e produção não progride sem a imaginação criadora e a abertura à reflexão das vantagens e desvantagens do modelo hegemônico. Imaginar é negar-se a aceitar dogmas e visões únicas para a solução dos problemas. Apresentamos uma proposta de busca constante e infindável por respostas radicalmente democráticas e inclusivas.
Revolução-processo
Para nós, revolução não é a tomada de umpoder instituído, mas um processo de invenção de outra sociedade, de reconfiguração de sensibilidades, valores, interesses e práticas. Essa compreensão de revolução-processo, baseada na construção contra-hegemônica de um novo campo político-cultural, nos leva à convicção de que uma revolução não se faz em um ato. É com essa transformação radical no modo de ser, viver, pensar e produzir que estamos comprometidos. Ao longo desse caminho, as tensões entre conservação e mudança serão inevitáveis, portanto uma resistência ampla requer compreensão estratégica dessa disputa.
Nova Esquerda: socialismo criativo como ponto de partida
Reivindicamos os valores do socialismo democrático, em sua construção filosófica e ideológica, como horizonte estratégico na luta política por uma nova sociedade. Esse conjunto de ideias e valores representou historicamente, e segue representando, um intento imaginativo e inovador de proposição de alternativas em oposição ao modelo vigente. É com esse intento libertário, baseado nos valores de igualdade, afetividade solidariedade, que estamos comprometidos. Assumimos o socialismo como conjunto de valores para além de práticas pontuais ou um programa de estático de medidas economico-sociais. Nele está nosso ponto de partida conceitual para a construção de uma nova sociedade – por meio de uma compreensão não dogmática, da imaginação constante de novos de princípios e horizontes, da luta que se quer inclusiva e abrangente de todos – sem a visão sectária de que somente nós somos capazes de entender e conceber a luta pela concretização desses valores.