Criatividade pra quê?

Por Gustavo Capela

Num mundo onde as desigualdades sociais são um fato, pensar a estrutura da sociedade e a alocação de recursos é quase que um lugar comum. Afinal, a pergunta que martela a cabeça do cientista social, ao que tudo indica, é para quem vão e, em seguida, para quem devem ir os recursos? A resposta tem muito a ver com o sistema de distribuição que elencamos como valido ou, talvez, simplesmente como mais útil a sociedade. Essa utilidade e validez decorrem, em tese, de princípios que justificam e aglomeram a sociedade em torno de si para um melhor compartilhamento e desenvolvimento coletivo. E aí encontramos a maldita palavra que não só pode, como deve ser disputada pela esquerda atual – desenvolvimento. O que é desenvolvimento afinal e qual é a relação que ele (é masculino o desenvolvimento?) tem com a esquerda?

José Luis Fiori busca analisar essa relação, e seu viés histórico-atual, num artigo bastante recomendável que se encontra aqui. Em síntese, Fiori demonstra como, apesar de o desenvolvimentismo, historicamente no Brasil, ter se atrelado ao que é comummente conservador, houve espaço para a criação daquilo que é chamado de desenvolvimentismo de esquerda.

Segundo seu artigo, desde os modelos utilizados pela Ditadura de Vargas até aquele proposto e efetivado pelo governo militar pós-golpe de 64, a veia conservadora de um modelo nacionalista que se embasa no empoderamento econômico da nação dentro do mercado capitalista global afastou, inicialmente, a esquerda desse proposito, reaproximando-os a partir de uma releitura, segundo o autor, do PCB (o partidão na candidatura de JK e, posteriormente, na reflexão marxista a partir de releituras dos trabalhos da CEPAL e do movimento que acabou por fundar a UNICAMP, como centro emissor das ideias eixo-econômico esquerda.

Fiori questiona, e aparentemente cobra, a esquerda campineira no que diz respeito a criatividade que, segundo o autor, era ali vivenciada nos anos 70. Para o autor, desde então, a criatividade deixou de ser um fator forte da escola, que passou a se portar como mero locus tecnocrata e pouco afeita aos anseios sociais. Diz ele:

“Por isso, não é de estranhar que neste início do século XXI, quando o desenvolvimentismo e a escola campineira voltaram a ocupar um lugar de destaque no debate nacional, a sensação que fica da sua leitura é que o “desenvolvimentismo de esquerda” estreitou tanto o seu “horizonte utópico” que acabou se transformando numa ideologia tecnocrática, sem mais nenhuma capacidade de mobilização social. Como se a esquerda tivesse aprendido a navegar, mas ao mesmo tempo tivesse perdido a sua própria bússola”.

Acreditando ou não na descrição feita no artigo, fato é que a guinada desenvolvimentista no Brasil, desde a chegada do PT ao poder, parece ter desviado o foco da esquerda no quesito criação. A despeito dos diversos fatores que certamente apontam para uma melhora considerável em alguns campos, ainda engatinhamos em alguns fatores elementares no que diz respeito a justiça social. O saneamento básico e o deficit habitacional são alguns deles. Sob o pretexto de desenvolvimento nacional, construímos estádios gigantescos, com orçamentos igualmente grandiosos em lugares onde não ha time de futebol, mas ha, sim, miséria e pobreza. Mas talvez mais injustificável que a inversão de princípios que governam o desenvolvimentismo-puro, parte da esquerda parou, ao que tudo indica, de pensar que uma outra sociedade é possível. Agir e pensar assim, para a esquerda, é super problemático. Se a esquerda deixa de agir e pensar o novo, cai no terrível erro de não só permitir como convalidar o que já existe. E, pelo que sei, o que já existe não contempla os princípios que coordenam a esquerda mundial. Estou errado? Partindo desse pressuposto, todo e qualquer passo deve ser tomado com vistas a algo novo e isso é um principio claro de uma esquerda que se predispõe a mudar e reestruturar as bases de uma sociedade que julga injusta.

Enquanto alguns chamam essa postura de sonhadora, com o nítido viés conservador de quem não entende o potencial de um sonho para a mudança de fato, eu chamaria essa indicação de principio. Sem ele, nos perdemos na fácil consideração de que estamos fazendo o melhor possível. E aí, amigo, nao sei diferenciar muito bem o que é PSDB, o que é PT e, claro, o que é PMDB. Alias, ha, no governo, hoje, essa diferenciação? Ha esse embate ideológico? Ou isso é uma mera conjectura irrelevante para o projeto de pais? Se não nos dispusermos a pensar e disputar esses espaços já estamos perdendo-o.

Acredito que num mundo que da cada vez mais sinais de questionamento social frente ao modelo desenvolvido globalmente, o caminho para a palavra desenvolvimento é, antes de mais nada, se vincular a possibilidade criativa que esta atrelada a própria condição de nos reconhecermos enquanto seres humanos. É no novo e no diferente, no plural e no diverso que nos encontramos enquanto seres capazes de construir e ditar caminhos ainda não traçados. Pensemos, pois, o novo, disputemos o posto e, pelo a amor de algum-ser-superior, criemos com mais frequência.

Prefácio do livro do B&D

Leia abaixo o honroso prefácio da profa. Deisy Ventura (IRI-USP, editora do blog Educar para o Mundo) ao livro do B&D lançado há um ano na 1ª Conferência de Desenvolvimento do IPEA. Ainda temos alguns exemplares, não deixe de passar no estande do B&D na #arenacode amanhã ou sexta e pegar o seu!

Prefácio

A estrutura institucional das universidades oferece aos titulares de numerosos cargos a vertigem do poder. Ilusório, na maior parte dos casos; sempre ínfimo, quando real. Lástima, portanto, a autofagia que testemunhamos na política universitária atual: é a partilha voraz do quase nada, é a batalha vã.

Melhor seria pensar nos órgãos da universidade como catapulta do saber que produzimos. Porque o que produzimos, e principalmente o que deixamos de produzir na universidade, isto sim é poder verdadeiro. Quando não fabricamos o novo, reiteramos o velho na formação de milhões de jovens que passam pelo ensino superior, em declarações à imprensa de “especialistas”, na colaboração nem sempre decente com órgãos públicos e privados. Em alguns campos específicos do conhecimento, como é o caso do Direito, ao seguir repetindo o que não tem mais eco na realidade, vamos caindo na irrelevância. E quando o Direito não é importante para um país, resta o quê? A força? O mercado?

É, pois, penoso o convívio cotidiano com a parte amorfa ou com a parte conservadora da universidade (que não são o mesmo, mas que dão no mesmo). A liturgia acadêmica traz consigo: um exército de homens que sabiam javanês (para limabarretear um pouco); as redes de amigos, ditas “capelas”, que partilham entre si convites, verbas e honrarias, além de algumas notas na CAPES e certos conceitos no Qualis; ou o pretenso antídoto que resulta quase pior, a defesa de uma meritocracia impossível, num país retalhado pela desigualdade, e no campo por excelência da desquantitatividade, a educação (e me desculpem os estatísticos, porque duas trajetórias iguais de formação não existem, e o abraço entre um professor e um aluno, por exemplo, pode ser de um efeito imensurável para a pátria); a discriminação dos que fazem extensão universitária, apresentada como incompatível com a excelência, logicamente porque esta estaria longe, talvez lá nos Estados Unidos; e entre muitos elementos de uma lista que seria longa, encerro com o que nos interessa agora, o fato de que a nata do ambiente acadêmico dissemina uma alergia, uma aversão, quase pânico, ao engajamento, a quem tem partido, a quem anda com adesivo e faz discurso, aos malditos militantes, estes que não são neutros, que atrapalham as reuniões, que interrompem a aula, que criticam tudo e vêm com esta maldita política. Cruzes! – entre outras, as que estão em muitas salas de aula, Brasil afora, e na do plenário do Supremo Tribunal Federal.

Pois em meio a este adverso contexto, conheci, primeiro, as meninas e os meninos do Fórum da Esquerda, em plena Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, com camisetas vermelhas, escrito nelas isto mesmo, “Esquerda”. Que surpresa! Apanharam muito, imaginem só o quanto, mas nunca desistiram.  E pasmem, com mais de 700 votos, no coração da elite brasileira, venceram, há pouco, as eleições para o legendário Centro Acadêmico XI de agosto.

Depois, eu que sempre disse que não gostava de Brasília, comecei a pensar numa frase que Loussia Félix um dia usou a meu respeito, justamente num prefácio, como este que ora faço: diz a canção, o novo sempre vem. Em listas de discussão como a da Associação Brasileira do Ensino do Direito (ABEDI), em conversas com amigos, mais tarde no twitter, fui conhecendo os protagonistas do Brasil & Desenvolvimento, até me ver numa sala da Universidade de Brasília com eles, conversando sobre o que há de mais interessante para se conversar hoje. E não é que eles falam a palavra “Revolução”?

Neste livro mesmo, já no nome está o revolucionar. Crime contra a humanidade, para a Mireille Delmas-Marty, é aquele que retira nossa singularidade, e foi o que se fez no Brasil durante décadas, em que a gente não era a gente, éramos de esquerda, ou comunistas, ou vermelhos, e alguns foram por isto mortos ou escorraçados. Pior, o legado da Guerra Fria ainda é vivo. A esquerda é discriminada, sim, como autoritária, utópica, chata, incompetente, superficial, e agora que – a exemplo de outros países no mundo – existe, no Brasil, a “esquerda no poder”, todos nós podemos ser também chamados de corruptos, fisiológicos, etc. Mas na universidade, especialmente, somos os vagabundos grevistas, os que tem mania de convidar até os sem-terra pra vir aqui (o cúmulo), os que manifestam por “qualquer coisa” (educação, saúde, democracia), e me diz pra quê tantos emails?

Na universidade, a grande objeção à esquerda é, porém, sua densidade acadêmica. E as meninas e os meninos do B&D são uma resposta viva a esta objeção. Buscam as melhores referências, estudam, discutem à exaustão, sem deixar de lado a rua, o microfone, a câmera. Escrevem e falam bem, cultivam-se, possuem tino, discernimento, exalam esta radicalidade de quem vai mesmo à fonte ver onde começa o rio.

Um de seus diversos frutos é este livro, feliz parceria com o IPEA que merece, por ela, os maiores parabéns. O virtual do blog que sempre lemos passa agora ao formato tangível que nós tanto amamos. Nós que vivemos em meio aos livros, que adoramos o cheiro deles, o frescor do que acaba de sair da gráfica, a textura daquele que garimpamos nos sebos. Nós que nos dispusemos a conhecer o acervo do que o homem viveu e vive, que queremos saber de onde viemos, e no caso do grupo B&D, sobretudo, nós que queremos opinar sobre para onde vamos.

Pois a jovialidade dos posts do blog tinge agora o papel, e é uma honra para mim prefaciar esta dose de inteligência inquieta, numerada e encadernada, na que vai, mais do que meu prefácio, meu respeito intelectual e meu carinho de companheira. E o faço hoje, dia que comecei lendo uma notícia sobre a propositura de ação contra os supostos torturadores da Presidenta eleita do Brasil, Dilma Roussef. Foi quando pensei, cá com meus muitos botões de camadas de roupas de inverno, talvez seja isto, talvez quando estes meninos e meninas do B&D forem chegando, dos mais diversos modos, aos espaços de poder, e só o farão para renová-los, talvez os torturadores que em cantinhos e saletas do Brasil humilham e destroçam jovens pardos e pretos e pobres, pensem assim: melhor parar, nunca se sabe, agora qualquer um da periferia pode, um dia, virar Presidente do Brasil.

Genebra, 5 de novembro de 2010.

Deisy Ventura

Professora do Instituto de Relações Internacionais da USP

Doutora em Direito da Universidade de Paris 1, Panthéon-Sorbonne

Visiting Scholar do Instituto de Altos Estudos Internacionais e do Desenvolvimento de Genebra

Safatle: o que a esquerda deve propor?

Por João Telésforo Medeiros Filho

Segue abaixo um dos textos que podem servir como referência para a discussão que faremos nesta sexta à noite, na UnB, com Vladimir Safatle, sobre “O desafio da reconstrução da esquerda no Brasil”. Foi publicado na coluna mantida pelo filósofo na Folha de São Paulo, no dia 25 de janeiro deste ano.

Nele, Safatle identifica três grandes razões para que o Die Linke, partido de esquerda na Alemanha, venha conseguindo crescer e pautar o debate político: (i) capacidade de especificar suas propostas e processos de aplicação; (ii) pautar questões importantes ignoradas pelos partidos de centro-esquerda (talvez porque as considerem “radicais” demais); (iii) disposição para fazer alianças programáticas com os partidos social-democratas.

Ademais, Safatle, inspirado em proposta de Jean-Luc Mélenchon na França, sugere que uma dessas pautas, no Brasil, poderia ser a do salário-máximo.

VLADIMIR SAFATLE – Salário máximo

Falta uma oposição de esquerda no país. A última eleição demonstrou que todos aqueles que procuraram fazer oposição à esquerda do governo acabaram se transformando em partidos nanicos. Uma das razões para tanto talvez esteja na incapacidade que tais setores demonstraram em pautar o debate político.
Contentando-se, muitas vezes, com diatribes genéricas contra o capitalismo, eles ganhariam mais se seguissem o exemplo do Die Linke, partido alemão de esquerda não social-democrata e único dentre os partidos europeus de seu gênero a conseguir mais que 10% dos votos.
Comandado, entre outros, por Oskar Lafontaine, um ex-ministro da economia que saiu do governo Schroeder por não concordar com sua guinada liberal, o partido demonstrou grande capacidade de especificação de suas propostas e de seus processos de aplicação. Eles convenceram parcelas expressivas do eleitorado de que suas propostas eram factíveis e eficazes.
Por outro lado, foram capazes de abraçar propostas que outros partidos recusaram, trazendo novas questões para o debate político, como a bandeira da retirada das tropas alemãs do Afeganistão.
Por fim, não temeram entrar em coalizões programáticas como aquela que governa Berlim. Isso demonstra que eles são capazes de administrar e que sua concepção de governo não é uma abstração espontaneísta. Esses três pontos deveriam guiar aqueles que gostariam de fazer oposição à esquerda no Brasil.
Um exemplo de novas pautas que poderiam animar o debate político brasileiro foi sugerida pelo provável candidato de uma coligação francesa de partidos de esquerda, Jean-Luc Mélenchon. Ela consiste na proposição de um “salário máximo”. Trata-se de um teto salarial máximo que impediria que a diferença entre o maior e o menor salário fosse acima de 20 vezes. Uma lei específica também limitaria o pagamento de bonificações e stock-options.
Em uma realidade social de generalização mundial das situações de desigualdade extrema -outra face daquilo que certos sociólogos chamam de “brasialinização”-, propostas como essa têm a força de trazer, para o debate político, a necessidade de institucionalização de políticas contra a desigualdade.
Em um país como o Brasil, onde a diferença entre o maior e o menor salário em um grande banco chega facilmente a mais de 80 vezes, discussões dessa natureza são absolutamente necessárias. Elas permitem a revalorização de atividades desqualificadas economicamente e a criação da consciência de que a desigualdade impõe “balcanização social”, com consequências profundas e caras. Discussões como essas, só uma esquerda que não tem medo de dizer seu nome pode apresentar.


VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.

B&D debate com Vladimir Safatle: O desafio da reconstrução da esquerda no Brasil

Nesta sexta-feira, 13 de maio, a partir das 19h, o B&D vai discutir com Vladimir Safatle na FA-UnB o desafio da reconstrução da esquerda no Brasil. Venha debater conosco!

Uma das melhores introduções ao debate que propomos é o editorial do “Diplô Brasil” de abril, por Silvio Caccia Bava, que segue abaixo.

É interessante observar qual é a aposta destes pequenos grupos que hoje se reúnem em privado: se eles se multiplicarem e levarem estes temas para o debate público, a produção do conhecimento pode articular um novo campo político popular e democrático.

O B&D é exatamente um desses pequenos grupos de que Bava fala – mas já há dois anos temos levado esses temas para o debate público, e procurado construir esse campo em articulação direta com movimentos sociais como o “Fora Arruda e Toda Máfia” e o “Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST)”.

Rearticulemos o campo popular e democrático!

EDITORIAL

Um campo político fragmentado

por Silvio Caccia Bava

Claudius

Fui convidado, recentemente, a participar de algumas discussões em privado que me chamaram a atenção. Elas tentam romper o que se poderia identificar como a interdição de um debate sobre a política e seus atores, sobre o futuro do país. Com formulações instigantes, essas discussões apontam impasses e desafios que não aparecem na cena pública.

Não existe mais uma esquerda no Brasil. Não existem partidos políticos que defendam rupturas com a ordem instituída. Os sindicatos estão desmobilizados e sem capacidade de pressão. Os movimentos sociais, criminalizados, ou se acomodaram com o pouco que lhes foi concedido ou estão isolados e sem forças. O que antes era reconhecido como um campo político popular e democrático, com peso político para influir nas decisões nacionais, está fragmentado e sem capacidade de falar para o conjunto da sociedade ou influir nas decisões de governo.

Essa avaliação, com pequenas variações, está sendo produzida por pequenos grupos de militantes sociais e políticos que se formam aqui e ali, inconformados com a ausência de um projeto estratégico de transformação social para o Brasil, e que começam a discutir, de uma maneira molecular e atomizada, como criar condições para que o tema seja retomado e se coloque de uma maneira mais ampla em nossa sociedade.

Eles se perguntam qual o Brasil que queremos para daqui a 20 anos. Conseguiremos superar esse enorme fosso da desigualdade entre uma grande maioria pobre e a minoria super-rica? Conseguiremos interromper a devastação ambiental que o modelo atual de desenvolvimento provoca? Conseguiremos construir um Estado democrático capaz de impor uma regulação e limites à voracidade do capital, um controle público sobre o mercado? Qual o lugar e o papel da cidadania – organizada em suas associações, sindicatos, entidades, movimentos sociais – na definição do futuro de nosso país?

O fato é que há um reconhecimento de que não há uma disputa pública por alternativas de desenvolvimento. Nem mesmo os candidatos à Presidência nas últimas eleições registraram planos de governo. Os partidos políticos não incorporaram nem o ambientalismo nem o feminismo e continuam chamando de desenvolvimento o que nada mais é que crescimento econômico.

O que era uma tradição no campo das esquerdas, as análises de conjuntura, não se fazem mais. A produção do conhecimento que permitia orientar a ação política está debilitada. Como interpretar então as contradições deste momento, buscar produzir as pequenas e grandes rupturas que abram espaço para o novo? Afinal, quem são hoje os protagonistas da transformação social?

Aparentemente, segundo esses pequenos grupos, o cenário é desolador. O diagnóstico das razões dessas fragilidades está na incapacidade de se exercer a crítica às políticas que reafirmam a exclusão social e política das maiorias, assim como a concentração da riqueza e a produção da desigualdade. A produção de conhecimento é identificada como a questão nevrálgica. E as dificuldades residem na ausência de uma reflexão teórica e coletiva, o que priva esses militantes de um ferramental analítico indispensável para a formulação de alternativas.

Anticapitalista, antipatriarcal, antirracista, anti-homofóbica. Essa é a plataforma mínima da qual partem as discussões. Há uma compreensão de que as atividades econômicas, para que tenham como objetivo satisfazer às necessidades das pessoas, precisam superar o modelo de desenvolvimento que coloca o lucro como o objetivo máximo da produção de bens e serviços. E essa mudança só se consegue com muita pressão social, com amplas mobilizações, com controle social sobre os governos e as políticas públicas.

Há um reconhecimento de que as formas de opressão que garantem o funcionamento desse modelo se fundam em discriminações que criam os cidadãos de segunda categoria, com destaque para o lugar que nossa sociedade reserva para as mulheres e os negros. Isso só se supera com muita democracia e participação cidadã.

Como dizia Amilcar Herrera, “é óbvio que o novo desenvolvimento não pode levar-se a cabo com as estruturas capitalistas prevalecentes na maioria dos países em desenvolvimento, baseadas no benefício privado e na exploração da maioria da população”.1

É interessante observar qual é a aposta destes pequenos grupos que hoje se reúnem em privado: se eles se multiplicarem e levarem estes temas para o debate público, a produção do conhecimento pode articular um novo campo político popular e democrático.

Silvio Caccia Bava é editor de Le Monde Diplomatique Brasil e coordenador geral do Instituto Pólis.
1 A milcar O. Herrera; “A geração de tecnologias nas zonas rurais”; in Tecnologia Social; ferramenta para construir outra sociedade, Renato Dagnino (org), Campinas, Ed. Komedi, 2010.