Doze regras para o bom debate político

Por João Telésforo Medeiros Filho

Aos amigos do Instituto Alvorada e do grupo Repensar a Esquerda, inspirado por nossos bons debates.

Mais do que uma conversa, o bom debate é uma dança. (Acima: La Danse. Henri Matisse, 1910.)

1. Antes de falar (ou escrever), ouça (ou leia) o que a outra pessoa tem a dizer.

2. Espere a outra pessoa terminar de falar, ouça-a atentamente até o fim, não a interrompa. Não suponha que você já sabe o que ela vai dizer, nem que ela não pode falar nada que tenha importância.

3. Desqualificar o seu interlocutor (ou interlocutora), seja lá no que for, não prova que o ponto que você defende esteja certo (a não ser que a discussão seja sobre os méritos do seu interlocutor, o que não costuma ser muito produtivo).

4. Vá além do Fla-Flu. Lembre-se de que, nas questões que vale mais a pena discutir, dificilmente existem apenas dois lados, um contra e um a favor. Preste atenção à variedade de posições existentes, às diferenças, grandes ou sutis, entre elas.

5. Esteja aberto a aprender com o seu interlocutor (ou interlocutora), e com o desenrolar da discussão. Disponha-se a considerar novos fatos e pontos de vista, e a criar, por meio do processo de diálogo, novas ideias, que não estavam no seu mapa mental antes. Essa é uma das principais razões para se discutir qualquer coisa.

6. Não compartilhe apenas opiniões e certezas com o seu interlocutor, mas também dúvidas, angústias e inquietações. Quando duas pessoas pensam a partir de perguntas, é maior a chance de que possam, juntas, dar passos adiante na compreensão das diversas respostas possíveis, bem como na imaginação de novas respostas e perguntas.

7. Evite usar rótulos pejorativos, como “reacionário”, “extremista”, “pelego” (e também, claro, “imbecil” ou “burro”), para enquadrar o interlocutor. Ainda que as opiniões dele realmente mereçam rótulos desse tipo, você vai ter mais sucesso em mostrar o seu ponto se conseguir expôr de outra maneira a falta de fundamento de uma ideia ou argumento, ou o seu teor nocivo.

8. Evite até mesmo rótulos que não tenham, necessariamente, sentido pejorativo (como liberal, comunista, pós-moderno, etc). Eles têm sua utilidade em diversos contextos, mas o seu uso, numa discussão, frequentemente acaba levando-a a ser mais sobre o rótulo (eu/você sou/não sou é/não é liberal/comunista/capitalista/pós-moderno), e menos sobre a questão em torno da qual se pretendia conversar. Então, é melhor usar um rótulo só se você estiver a fim de discutir isso (o que até pode valer a pena eventualmente, por diversas razões).

9. Encare a discussão como uma conversa, não como uma briga. Seu objetivo não é destruir o interlocutor, nem mostrar que ele é um bosta e você é foda (a não ser que você seja um completo idiota e costume conversar com os outros por essa razão – ops, se for esse o caso, acabo de rotulá-lo ;) ). Não é melhor dialogar para pôr os próprios pontos de vista à prova do raciocínio de outras pessoas, conhecer perspectivas diferentes das suas, pensar novas ideias em conjunto com outras cabeças?

10. O desejo de convencer os outros também é legítimo, claro – e, por vezes, pode ser até um dever -, mas não se deixe cegar por ele. Não se torne dogmático, fechado à reflexão autocrítica, à curiosidade por ideias diferentes e novas, e à criatividade que pode emergir de uma boa discussão.

11. Não trate o seu interlocutor como um idiota, não use de didatismo exagerado. Por outro lado, também não pressuponha que ele conhece os seus pontos de partida ou concorda com eles. Quando se tratar de uma premissa fundamental à compreensão do seu raciocínio, cheque se ela está clara e compreensível, e a exponha bem.

12. E aí, o que achou destas regras?

PS: eu mesmo, infelizmente, tenho dificuldades para conseguir cumprir várias dessas regras. Quanto mais consigo fazê-lo, porém, percebo que mais proveitoso costuma tornar-se o debate. Então, este texto é literalmente de auto-ajuda: uma sistematização que escrevi para ajudar a mim mesmo.

Chopes, beijos e lutas

ou: De como podemos aprender com a história de um bar

Por: Luiz Eduardo Sarmento Araujo

Pouco antes de eu começar esse post, fiz uma pequena caminhada pela 407N, afim de organizar idéias dispersas em minha cabeça e finalmente definir um tema para meu já atrasado texto para esse blog.

Eis que me deparo com uma dessas pequenas surpresas cotidianas que só uma boa caminhada e uma boa cidade pode nos oferecer. Remexendo em uma banca de livros usados, promocionais, entre tantos livros ultrapassados de direito trabalhista, antologias poéticas de autores obscuros e qualidade idem, livros didáticos também ultrapassados (tudo  por apenas 1,99) eis que  Le Corbusier se sobressai entre aquele emaranhado de palavras ordenadas em milhares de páginas.

A nível de esclarecimento, Le Corbusier -  o Corbu – foi um dois mais influentes arquitetos do século XX, talvez o mais influente (provavelmente falarei mais dele em outros posts) sendo importante referência para entender o planejamento urbano do Plano Piloto.  O fato é, que como bom estudante de arquitetura que (normalmente) sou, peguei logo o livro para ver do que se tratava (bastante surpreso, imaginando que pela primeira vez na vida  poderia comprar um livro de arquitetura por um preço tão módico).

Não se tratava porém de um livro de arquitetura, mas um livro sobre a história do Bar Beirute (que para quem não é/não conhece Brasília, é um dos bares mais antigos e conhecidos da cidade), que citava o nome do Corbu na contracapa argumentando que o Beirute era exatamente o oposto de tudo o que pregava o arquiteto calvinista. Este bar é de certo modo a esquina da cidade sem cruzamentos, um ponto de encontro em uma cidade de tantos desencontros.

Apesar de seus preços a cada dia mais salgados, o Beiras é ainda um dos mais democráticos points do Plano Piloto. Por lá circulam as mais diversas tribos: artistas, intelectuais, pseudo-intelectuais, famílias tradicionais, famílias alternativas, idosos e idosas de todos os tipos, pessoas de “sexualidades alternativas”, como diz um dos textos do livro, além de toda a gama de turistas e famosos que tem ali uma parada obrigatória quando na cidade planejada.

Interessante para mim foi entender como esse espaço democrático, tolerante, foi construído. Não sendo de Brasília, quando cheguei aqui imaginei que o Beirute sempre foi o Beirute que conhecemos – um espaço de convívio dos diferentes, mas não foi, e isto é o mais fascinante de sua história.

Inaugurado em 1966, por candangos de origens árabes, já na década de 70 foi vendido e comprado por dois irmãos que eram garçons que ali trabalhavam. A assustadora dívida que assumiram na aquisição do bar e a fascinante tentativa de ascensão financeira dos dois despertaram a simpatia e a solidariedade dos brasilienses, que passaram a freqüentar o Beiras para ajudar aqueles corajosos garçons que haviam pulado para o outro lado do balcão.

O empreendimento de alto risco dos irmãos foi um sucesso, tanto é que o bar está ai até hoje, inclusive com uma também movimentada filial.

Dada a localidade da primeira sede, na 109 Sul (para os não iniciados no endereçamento cartesiano do Plano Piloto, explico logo que 109 Sul significa algo como um quarteirão, só que aos moldes modernistas, localizado na zona sul da cidade) o Beirute desde sempre atraiu um público alternativo. Está próximo ao Cine Brasília, à Escola Parque da Superquadra Modelo e do Espaço Cultural da 508 Sul – então o coração da cultura e contra-cultura de candanga – os freqüentadores destes espaços sempre davam uma esticadinha no Beiras, transformando aquele canto de tesourinha (outra especificidade de Brasília: trata-se um emaranhado de vias/contornos para evitar o cruzamento viário tradicional) no cerne boêmio da nova capital.

Obviamente que a presença de homossexuais ali era notável – todo tipo de gente livre se encontrava ali, transformando aqueles metros quadrados do quadradinho em sua própria “Cidade Livre” (nome original de um dos acampamentos dos construtores de Brasília, infelizmente substituído por Núcleo Bandeirante). Sendo até então um espaço que hoje seria chamado de gay friendly, as línguas preconceituosas logo o apelidaram de Gueirute.

Ofendido, o administrador do bar entrou em ação e proibiu que os garçons servissem mesas onde tinham homossexuais, no linguajar dele, mais afetados. Antes, quando alguns casais gays estavam abraçados  o dono do bar já havia dito que este “não era um comportamento adequado” em seu estabelecimento, que é aberto ao público.

Os garçons, a partir de então, sumariamente ignoravam freqüentadores que o chamavam, pelo simples fatos de serem gays –“Não atendemos mais os bichas”, disse algum.

Numa daquelas noites porém, quando os habitués daquela “esquina” já estavam assustados com a guinada reacionária do bar (que já havia proibido atender pessoas em trajes de banho e camisas sem manga) eis que chegou um grande grupo de “viados e sapatonas”, sentaram todos em uma  mesma mesa, pediram uma rodada de chope, foram atendidos até que um casal dentre eles deu um beijo. O dono do bar deu o sinal para os garçons não servirem mais chope para aquela mesa. Essa proibição gerou revolta dos presentes, que de acordo com reportagem do Correio Braziliense, começaram a bater nas mesas e sapatear… estavam visivelmente incomodados, feridos em sua dignidade. Aquele estabelecimento, nas palavras de seu então dono, não era uma zona, logo os homo não poderiam ali se beijar. Sendo namoro de casais trocando carícias algo comum desde sempre no Beiras, a ofensa foi tão grande, que nasceu ali, naquele momento, o “Movimento Beijo Livre”.

Estava aberta a discussão. O jornal Correio Braziliense publicou uma série de artigos denunciando a falta da liberdade no famoso bar, o movimento gay se organizou – foram debater a questão, colocaram o tema no espaço público, suas demandas pessoais. A discussão sobre a liberdade de expressão de sexualidades dissidentes se tornou o assunto do momento da nascente capital.

Uma rodada de chope negada e um beijo proibido geraram  o primeiro grande debate de sexualidade no distrito federal.

As pessoas tiveram a coragem de se assumirem, contornaram o medo da repressão, dos conservadores, da ditadura, da opinião pública – jogaram um problema que é público, social, para a sociedade, para o espaço público.

Não se guetificaram, não escolheram outro bar para freqüentar – em um subsolo escuro, em um beco qualquer- eles e elas, homossexuais sempre estiveram presentes ali, no bar mais famoso da cidade, e ali queriam ficar, se expressar, serem eles mesmos no espaço publico, olharem e serem vistos. Ora, se casais heterossexuais sempre se beijaram a vontade ali, porque os homossexuais não poderiam fazer o mesmo, diante dos olhos da cidade?

O fato, aparentemente fútil (a negação de uma rodada de chope), desencadeou um processo que vemos/vivemos o resultado – o Beirute hoje comporta todo tipo de público, dos mais conservadores aos mais liberais, e parece que ninguém se importa com quem está beijando quem. O beijo livre venceu o preconceito.

Essa história é para mim muito importante para nos encorajar enquanto integrantes de movimentos sociais e militantes de muitas lutas dos oprimidos e me lembra também uma história contada por uma amiga que morou no Canadá – após vários séculos de briga entre a igreja e as prostitutas de um bairro de Quebec, essas ganharam a briga e finalmente podem exercer seu direito ao trabalho. A liberdade venceu o preconceito.

Nesse começo de século XXI, parece que perdemos a coragem para o debate. Ficamos a mercê de uma conjuntura favorável vindoura para nos expormos. Ficamos com medo de debater o direito da comunidade LGBTS no espaço público, ficamos com medo de defender o aborto, a legalização das drogas, o direito reprodutivo e muitas outras causas importantíssimas que, são discutidas apenas em reuniões em pequenos guetos herméticamente fechados, entre iguais. O caso de intolerância aqui apresentado, ocorrido a mais de trinta anos  é, infelizmente, uma situação muito conteporânea, cotidiana.

Se não lançarmos os debates que a nosso ver são tão importantes, a conjuntura nunca será favorável, o dia ideal para discussão nunca vai chegar. Quantos mortos, quanto sofrimento será preciso para “batermos nas mesas e sapatearmos” na cara dessa sociedade hipócrita e a cada dia mais conservadora?

Os oprimidos não podem se calar, silencio só causa mais opressão, só nos distancia do debate público, a cada dia com mais presença de forças reacionárias bem sapateantes. Ficamos por isso mais longe de garantir direitos para os marginalizados do status quo,  para os dissidentes dos padrões determinados por essa sociedade arbitrária.

O chope já foi cortado e o garçom não nos atende mais e estamos calados esperando o dia que espontaneamente alguém nos traga um petisco e uma bebida gelada – sem beijo e sem liberdade.

O livro de que tanto falei é “Beirute – final de século” organizado por Fernando Fonseca , de 1994.

Democratização da comunicação: perguntas à Marina Silva

Por João Telésforo Medeiros Filho

Publico aqui relato do debate sobre democratização da comunicação que fiz, representando o B&D, com a candidata do PV à presidência da República, Senadora Marina Silva, no roda-viva que promovemos na UnB na última quinta-feira. No final do post, abordarei a reação às respostas dela na imprensa (que mereceu até um artigo específico, no Blog do Noblat). PS: veja aqui os vídeos desse trecho do debate com Marina.

Como fruto das lutas populares contra a ditadura e pela democracia, a sociedade brasileira consagrou, na Constituição de 1988, o direito à liberdade de pensamento e de expressão. Sob forte memória do sofrimento imposto pela censura, pela negação da voz no espaço público, a Constituinte instituiu a atividade de radiodifusão como serviço público, para garantir o direito de todos à informação e à comunicação. Se os meios de comunicação são os canais por meio dos quais a sociedade se informa e se manifesta, eles não podem, numa sociedade democrática, ser utilizados e abusados por entes particulares a seu bel-prazer na busca pelos seus próprios interesses. Assim, a Constituição estabeleceu normas para garantir o cumprimento da função social dos meios de comunicação e evitar a sua concentração nas mãos de poucos.

No Capítulo Constitucional destinado à Comunicação Social (que, aliás, vem logo antes do capítulo sobre Meio Ambiente), ficou estabelecido explicitamente, por exemplo, que:

“Art. 220, § 5º – Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”.

Porém, até hoje essa e outras disposições constitucionais referentes à Comunicação Social não foram regulamentadas pelo Congresso Nacional. Os meios de comunicação de massa continuam sob domínio de forte oligopólio empresarial, e exercem forte pressão para que tudo continue como está. A Constituição não tem sido levada a sério. O efeito disso é que não se vê pluralidade nos meios de comunicação. Sentimos isso de diversas formas. Por exemplo, na forma como a imprensa costuma estigmatizar e até criminalizar movimentos sociais, greves, manifestações, minorias, índigenas, sem-terras… A imprensa claramente tem lado, e não se trata de calar a voz que se manifesta hoje por meio dela, mas de impor limites à concentração para pluralizá-la, dar voz a mais vozes no espaço público.

A primeira pergunta à candidata Marina: a senhora e o seu partido assumem a luta democrática e constitucional pela democratização dos meios de comunicação, contra o oligopólio dos meios de radiodifusão? A senhora pretende levar a Constituição a sério, se unir às forças vivas da sociedade para romper a inércia legislativa em torno do assunto e propor uma legislação que limite a concentração dos meios?

A segunda pergunta: acontece, atualmente, processo de transição do ambiente analógico para o ambiente digital de radiodifusão. A criação dessa nova plataforma seria uma oportunidade histórica para dar cumprimento à diretriz constitucional que proíbe o oligopólio dos meios de rádio e TV, para outorgar as concessões de  uso do espectro digital por meio de amplo processo público, permitindo a entrada de novos atores, dando voz a mais vozes. Porém, não foi isso que ocorreu. Por meio de decreto, o governo determinou que esse novo ambiente continuaria dominado pelos mesmos velhos grupos concessionários. Essa decisão é antidemocrática e fere os princípios constitucionais para a outorga ou renovação de concessão pública; foi inclusive ajuizada uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no STF contra ela (que – isso eu esqueci de dizer na pergunta – já recebeu parecer do Procurador-Geral da República pela procedência da ação, isto é, pela inconstitucionalidade do decreto). A senadora Marina Silva, caso seja eleita Presidente, revogará esse decreto?

Terceira pergunta: 25% dos seus colegas senadores são concessionários de rádio e TV. A propriedade de empresas de radiodifusão por deputados e senadores também desrespeita a Constituição Federal e o interesse democrático, pois reforça o uso do meio de comunicação em nome de interesses privados, e reforça oligarquias regionais sob nova forma, do coronelismo eletrônico (v. também aqui e aqui). Qual a posição da senhora a respeito?

A candidata Marina respondeu, em síntese, que (i) é importante que esse debate aconteça, (ii) não conhece a fundo o assunto e não pode dizer que revogará o decreto, mas estudará a questão; (iii) sofreu muito com a concentração de concessões de rádio e TV nas mãos de políticos. Enquanto seus adversários usavam rádios, jornais, TV, ela tinha “apenas uma cornetinha” para fazer campanha no Acre. Porém, a Senadora acrescentou que é preciso “ter cuidado” para não se cercear a liberdade de expressão, pois toda forma de censura é inadmissível. A Senadora acrescentou também que não é contra a concessão a grupos privados, mas que é preciso ter com eles uma relação transparente.

Na minha réplica, observei que dizer que o movimento pela democratização da comunicação quer censura é tão bizarro quanto dizer que os ambientalistas brasileiros na verdade defendem interesses escusos de empresas e governos estrangeiros (a primeira pergunta feita à Marina no debate, pelo socioambientalista André Lima, criticava esse canhestro discurso, que procura deslocar o foco do problema – v. crítica aqui). Não que a Senadora estivesse dizendo isso, mas é fundamental deixar claro que não é disso que se trata: pelo contrário, a luta pela democratização da comunicação nasceu na resistência contra a censura, durante a ditadura, e o que ela busca é assegurar a pluralidade, é ampliar os espaços de participação de mais grupos no espaço público. E também não se trata de ser contra a propriedade privada. Assim como a reforma agrária não tem o objetivo de abolir a propriedade, mas de  desconcentrá-la, democratizá-la, a reforma contra o “latifúndio do ar” tem o objetivo de pluralizar, democratizar a propriedade dos meios de comunicação. Para que a diversidade ideológica da sociedade tenha o direito de se manifestar, e para que assim tenhamos acesso a fontes plurais de informação, elemento essencial à noção de espaço público.

Tão importante quanto democratizar a propriedade dos meios,  porém, é garantir que cumpram a sua função social, que respeitem os direitos humanos e cumpram o caráter público da comunicação social, estabelecido constitucionalmente. Numa democracia, toda empresa, toda organização, todo indivíduo tem obrigação de respeitar os direitos humanos, a Constituição, o direito. A liberdade econômica das empresas não pode estar acima da sua obrigação de cumprir as regras de direito do trabalho ou a legislação ambiental, por exemplo. E o papel do Estado e dos cidadãos é zelar para que essas normas protetivas sejam respeitadas. Só as empresas de comunicação estariam acima de quaisquer deveres e limites?

Nesse sentido, pergunto: a candidata Marina é a favor de mecanismos de controle social sobre o conteúdo veiculado pela mídia, para assegurar, por exemplo, representação de minorias e veiculação de conteúdo local? O que a senhora pensa da proposta de que pelo menos metade dos componentes do conselho de administração das entidades de comunicação seja eleita pelos jornalistas que nelas trabalham? Finalmente, o André Lima faz uma crítica muito importante às falhas do BNDES, que  financia empreendimentos que não são social e ambientalmente sustentáveis. Também no ramo da comunicação, o Estado não deveria adotar critérios de respeito aos direitos humanos para o financiamento que dá às empresas privadas, sob a forma de publicidade estatal?

Na tréplica, Marina Silva respondeu que sua experiência com controle social no Ministério do Meio Ambiente foi muito positiva, o controle social é uma conquista da sociedade brasileira e deve ser aprofundado. Áreas como arte e comunicação, porém, merecem uma liberdade especial, pelo papel que tem; deve-se ter cuidado para que controle social não signifique censura. A Senadora é favorável ao Conselho de Comunicação Social, responsável por analisar, no Congresso Nacional, as outorgas e concessões de rádios e televisões.

Infelizmente, a candidata Marina não afirmou que revogaria o decreto da TV Digital, nem se posicionou favoravelmente ao incremento da participação social no controle do conteúdo veiculado pela mídia, com vistas a pluralizá-lo e impor o respeito aos direitos humanos. Não quis comprar a briga contra o corporativismo da maioria dos veículos da grande imprensa, que tem garantido a ela um espaço significativo de exposição pública. Mesmo assim, é impressionante que um jornalista a tenha criticado pelo mínimo comentário que ela fez favoravelmente ao controle social previsto na nossa Constituição

Caso eu tivessse tempo para fazer um comentário final, citaria experiências bem-sucedidas de regulação e fiscalização da atuação dos meios de comunicação de países como Inglaterra, Suécia e Espanha. A esse respeito, diz o Prof. Dr. Fernando Paulino, do Laboratório de Políticas de Comunicação da UnB:

Por uma série de processos históricos, os catalães tendem a se inspirar nos vizinhos europeus. No campo mediático, a exemplo de iniciativas de democracias consolidadas como Suécia e Inglaterra, há dez anos foram criadas experiências de conselho de imprensa e conselho do audiovisual que promovem um sistema permanente de prestação de contas à mídia, pleiteando garantir os direitos humanos dos usuários, sem atentar contra a liberdade de expressão.” (V. aqui íntegra desse seu breve texto , sobre responsabilidade social da mídia, tema de sua tese de doutorado).

Não se pode admitir que o fantasma da censura seja utilizado para censurar o importante debate público sobre a questão fundamental da responsabilidade social da imprensa – e a necessidade de controle social para garanti-lo (a forma republicana de assegurar a responsabilidade é a fiscalização e controle por meio da sociedade). Costuma-se omitir do debate público o fato de que o espectro eletromagnético de difusão de rádio e TV é extremamente limitado, escasso. É preciso definir publicamente, socialmente, portanto, qual é a maneira adequada de compartilhar esse importantíssimo recurso público. Infelizmente, não é o que tem ocorrido…

Veja-se, na apresentação à edição n. 2, de 2010, da Revista de Direito, Estado e Telecomunicações (REDETEL, p. 12, aqui), elaborada por seu Conselho Editorial, formado por professores de diversos cursos da Universidade de Brasília, da University of Southern California e da Portland State University:

As TVs universitárias e comunitárias, por sua vez historicamente marginalizadas da ocupação do espectro da TV aberta, viram suas pretensões de consignação de canais digitais de 6 MHz novamente postergadas quando o consultor jurídico do Ministério das Comunicações foi o porta-voz da posição da pasta de que a discussão de tais consignações somente seria possível quando da devolução dos canais analógicos em 2016, já que o ministério já teria feito um ‘esforço enorme’ para acomodação dos quatro canais públicos, além da TV Senado, TV Câmara e TV Justiça. Como se pôde notar, a presença dos canais comunitários, componente fundamental da democracia participativa de nível local, continua ocupando uma posição periférica na política setorial.” (Em sentido contrário ao que afirmou o jornalista Ruy Fabiano em artigo para o blog do Noblat).

O movimento pela democratização da comunicação é solidário ao movimento socioambiental. Eu cobro da Senadora Marina Silva que assuma essa luta, não apenas por reciprocidade, mas porque se trata de uma pauta central para atacar os grandes e indissociáveis déficits democráticos da sociedade brasileira: a concentração de poder, a desigualdade, os desrespeitos aos direitos humanos, o aparelhamento e a usurpação de tudo o que deveria ser público pelos velhos grupos privados dominantes. Faço, assim, minha última pergunta: a candidata e aqueles que a apóiam irão à luta ou se conformarão com pintar de verde o recorrente fenômeno brasileiro da reprodução da desigualdade, no nosso histórico processo de modernização excludente?

Em Busca da Política

Por Laila Maia Galvão

O livro Em Busca da Política, de Zygmunt Bauman, foi publicado ainda no século passado, em 1999. A introdução, redigida por Bauman em agosto 1998, traz um breve resumo das principais ideias da obra. Logo no início, encontra-se a seguinte afirmação “As crenças não precisam ser coerentes para que se acredite nelas”. Assim, duas “crenças” seriam perceptíveis em nosso mundo contemporâneo:

1)      A questão da liberdade na ‘nossa parte’ do mundo está concluída e (descontando correções menores aqui e acolá) resolvida da melhor maneira possível, não sentimos necessidade (de novo, salvo irritações menores e fortuitas) de ir para as ruas protestar e exigir maior liberdade do que já temos ou achamos ter.

2)      Tendemos a crer que pouco podemos mudar – sozinhos, em grupo ou juntos – na maneira como as coisas ocorrem ou são produzidas no mundo; e acreditamos também que, se pudéssemos mudar alguma coisa, seria inútil e até irracional pensar num mundo diferente do que existe e aplicar os músculos em fazê-lo surgir por acharmos que é melhor do que este aqui.

Diante disso, Bauman questiona: Se a liberdade foi conquistada, como explicar que entre os louros da vitória não esteja a capacidade humana de imaginar um mundo melhor e de fazer algo para concretizá-lo? E que liberdade é essa que desestimula a imaginação e tolera a impotência das pessoas livres em questões que dizem respeito a todos?

A importância dessas perguntas é crucial. Ao final dessa introdução, Bauman diz acreditar que as perguntas dificilmente estão erradas e que as respostas é que devem estar. Diz ele: Também acredito, no entanto, que evitar fazer perguntas, questionar, é a pior resposta de todas.

Uma das teses principais da obra é a de que o aumento da liberdade individual pode coincidir com o aumento da impotência coletiva na medida em que as pontes entre a vida pública e privada são destruídas ou, para começar, nem foram construídas (em outras palavras: não há uma maneira óbvia e fácil de traduzir preocupações pessoais em questões públicas e, inversamente, de discernir e apontar o que é público nos problemas privados).

Novamente, é lançada uma relevante pergunta: As únicas queixas ventiladas em público são um punhado de agonias e ansiedades pessoais que, no entanto, não se tornam questões públicas apenas por estarem em exibição pública (…) O que, nessas circunstâncias, pode nos unir?

É aí que entra uma importante constatação. No meu entender, alguns dos acontecimentos de 2010 são muitíssimo bem explicados por essa análise de Bauman. Trata-se de uma crítica muito relevante e inquietantemente atual:

A sociabilidade é, por assim dizer, flutuante, procura em vão terreno firme onde ancorar, um alvo visível a todos para mirar, companheiros com quem cerrar fileiras. Há um bocado desses elementos por aí – vagando, andando às tontas, fora de foco. Sem poder extravasar normalmente, nossa sociabilidade tende a se soltar em explosões espetaculares, concentradas – e breves, como todas as explosões.

Explosões espetaculares… aí sim soltamos a nossa sociabilidade. Como diz Bauman, “festivais de compaixão e caridade, em eclosões de agressão acumulada contra um inimigo público recém-descoberto”. Na sociedade do espetáculo, os grandes traumas coletivos servem de munição para a mídia nos bombardear. Ao invés de coberturas jornalísticas bem elaboradas e de informações coerentes e bem concatenadas, temos edições apelativas e sensacionalistas, com cenas de choro, sangue e horror. Sensibilizamos-nos com isso, é claro. Assim ocorreu no terremoto do Haiti, no terremoto do Chile, nas chuvas em Angra dos Reis, em São Paulo e na cidade do Rio de Janeiro. Choramos a dor do pai que perdeu a filha em um desmoronamento. Sofremos o sofrimento de Isabella Nardoni e de sua mãe, e da família dos meninos de Luziânia (e amaldiçoamos o pedófilo e a incompetência dos sistemas judicial e carcerário do país). Consideramos importantes as campanhas de arrecadação de mantimentos. E na semana seguinte já aguardamos a próxima notícia bombástica do plantão de notícias ou a manchete-bomba veiculada nos grandes portais da internet.

O problema disso, diz o sociólogo, é que essas oportunidades perdem força rapidamente e assim que voltamos à nossa vida diária, rotineira, retornamos ao ponto inicial… e seguimos tão solitários quanto antes.

Para mudar isso, Bauman chama atenção para a imprescindibilidade da ágora, espaço público e privado ao mesmo tempo, em que problemas particulares se encontram de modo significativo – isto é, não apenas para extrair prazeres narcisísticos ou buscar alguma terapia através da exibição pública, mas para procurar coletivamente alavancas controladas e poderosas (…) espaço em que as ideias podem nascer e tomar forma como “bem público”, “sociedade justa” ou “valores partilhados”.

Por isso é importante que esses movimentos de sociabilidade estejam de fato comprometidos com a mudança. É preciso que esses movimentos sejam corajosos o bastante para enfrentarem o medo, a inércia e o que Bauman chama de auto-apologia da rendição do liberalismo (‘Este não é o melhor dos mundos imagináveis, mas o único mundo real’). É preciso retomar/recriar os espaços públicos. É preciso atribuir novos significados à nossa experiência nesse planeta.

E, vale lembrar, o real comprometimento com a mudança é diário, constante. A batalha é travada todos os dias, nos mais diferentes momentos. O fenômeno da “espetacularização” é algo presente na sociedade contemporânea e cabe aos mais diversos movimentos fugir da superficialidade desse fenômeno e buscar aprofundar a luta pela transformação da sociedade.

Ainda no contexto de 2010…          Que as ideias de Bauman sirvam de reflexão e de incentivo ao Movimento Fora Arruda e Toda Máfia. O Movimento, mesmo depois da cassação de Arruda e da saída de Paulo Octávio do governo, dá continuidade às suas reivindicações. Expõe a ilegitimidade das eleições indiretas e a violência policial no DF. Luta por uma Câmara Legislativa mais transparente e democrática, que não se renda aos interesses privados de um grupo de deputados corruptos. E em todas essas ações aqui citadas e nas demais atividades realizadas pelo Movimento somos capazes de observar um grupo que, com erros e acertos, está, de fato, em busca da política.

Para encerrar, mais um trecho de Bauman: Tendemos a nos orgulhar do que talvez devesse nos envergonhar: de viver numa época “pós-ideológica” ou “pós-utópica”, de não nos preocuparmos com uma visão coerente de boa sociedade e de ter trocado a preocupação com o bem público pela liberdade de buscar satisfação pessoal. E, no entanto, se pararmos para pensar por que essa busca de felicidade o mais das vezes não consegue produzir os resultados que esperamos e por que o sabor amargo da insegurança torna a bênção menos doce do que nos disseram que seria, não iremos longe sem trazer de volta do exílio ideias como a do bem público, da boa sociedade, da igualdade, da justiça e assim por diante – ideias que não fazem sentido senão cuidadas e cultivadas na companhia de outros.