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Alegria. Nada a mais, nada a menos!
Por Rafael de Acypreste
O ano de 2011 foi de inquietações, de decisão no Supremo Tribunal Federal (avanço ou reconhecimento tardio e incompleto da qualidade de sujeitos, da visibilização de quem foi, e ainda é muito, invisibilizada/o e oprimida/o pela própria orientação sexual? Fica para outro post), de amores e de muita, muita violência e discriminação, desde os atos de agressão física noticiados (e não se noticia muitos, o que gera um senso comum de que a violência é mínima) até a imbecil estigmatização do “Projeto Escola sem Homofobia”.
Continuando a debater a necessidade de visibilização, compartilho com vocês o excelente texto que o amigo Daniel Jacó, companheiro de curso (Direito) e membro do Centro Acadêmico de Direito da UnB, compartilhou em 25/12/2011:
“Depois de ver A Pele que Habito, entrei numa onda de ver todos os filmes do Almodovar. Férias. Hoje assisti A Má Educação. (Pra quem não viu, o filme é excelente. Impressionante o jogo de emoções que senti.) Depois de assisti-lo, comecei a ler críticas, um costume meu.
Foi então que me surpreendi: todas as críticas, sem exceção, falavam que o filme era muito marcado pelo “homossexualismo”, traço do diretor, e trazia uma crítica à Igreja. A crítica à Igreja, ok, embora pra mim isso seja apenas uma tangente que toca o filme. Minha surpresa aconteceu quando li que o filme tratava do “homossexualismo.”
Antes de mais nada, pra quem não está familiarizado com esse debate, “homossexualismo” deixou de ser usado. Google it e descubra as razões. Fala-se homossexualidade.
A razão da minha surpresa? O filme conta, sim, com inúmeros personagens homossexuais. Alguns transsexuais. Há cenas de sexo entre homens. Isso tudo deveria me alertar que o filme trata de homossexualidade. Por que a surpresa, então?
Talvez seja por que eu sou gay. Por ser aberta e orgulhosamente gay, não consegui ver que as histórias de amor (e interesse) que permeiam o filme tratavam “da homossexualidade.” Pra mim, tratavam do amor (e do interesse). Não consegui ver que o abuso sexual que ocorre no filme é um abuso “gay”, mas um abuso. Não consegui ver que a belíssima cena da piscina era uma cena de sensualidade “gay”. Era só sensualidade.
“Ah, mas você deveria saber! Quando você vê uma cena de sexo entre homem e mulher, não nota que é uma cena hétero?” Sim, noto. Mas isso não importa. Em geral, estou pensando em outros aspectos do roteiro, ou admirando a beleza da atriz e do ator. Não penso: “nossa, como esse filme retrata a heterossexualidade!”
Claro, por possuir orientação sexual minoritária, sei que há amor e desejo sexual além da heterossexualidade. Deve ser por isso que, desde sempre, quando via as representações artísticas do amor e do sexo, não via apenas a heterossexualidade. Sempre soube que há um mundo lá fora.
Mas e os héteros, que são a maioria? Pelo menos @s crític@s de cinema que escrevem para a internet não estão sabendo disso não. Ou, se o sabem, ainda lhes causa espanto, a ponto de a bela imagem do (cuidado, quase spoiler) renascimento de um amor infantil interrompido por mais de dezesseis anos (cena da piscina) ser ofuscada pela “temática homossexual”.
Isso me lembra as ideias de uma autora feminista: Iris Marion Young. Diria ela: a imparcialidade é impossível. Qualquer símbolo do amor e do sexo está associado a uma determinada experiência do amor e do sexo, e não representa os amores e os sexos. Da mesmo forma que a palavra presidente não representa qualquer pessoa que ocupa esse cargo – representa os homens.
Não representa a nós, as minorias. Oprime-nos. Serve para dizer que mulheres não podem ser presidentas. E que gays não amam. Nem trepam. As opressões e violências que partem dessas premissas torpes são logicamente deduzíveis, além de nojentas.
São em momentos de surpresa como esse que toda a raiva que sinto dos vetos às representações anti-opressivas volta à tona. Exemplo desse veto: Globo vetando beijo gay na novela. Quanto tempo demorou mesmo pra termos uma protagonista negra, einh?
Héteros, por favor, não me entendam mal: não é errado achar estranho um filme com tantos gays e trans. É errado que haja tão poucos filmes com gays e trans. É errado que haja tão poucas representações artísticas com gays e trans. É errado que haja tão poucas representações artísticas com gays, trans, lésbicas, negr@s que não são empregad@s, mulheres que não sejam subalternas. É errado que sejamos tão invisibilizad@s. Que as violências e opressões que sofremos sejam tão invisibilizadas.
Apareçamos!
Daniel Jacó
Sobre a revolução: Jacques Rancière
Por João Telésforo Medeiros Filho
Transcrevo abaixo trecho de uma das melhores entrevistas que li nos últimos anos. Com Jacques Rancière, para a Revista Cult, edição 139, de agosto de 2009.
O mote da conversa é o livro “Le spectateur émancipé” (“O espectador emancipado”), lançado em 2009 na França e em 2010 no Brasil. Publico aqui as partes que dizem mais respeito a um tema muito caro ao B&D: a revolução, a transformação profunda das estruturas sociais.
Eu postara essa entrevista no meu blog pessoal em setembro de 2009, e é interessante perceber como a mudança do contexto muda a forma como a lemos.
“O presente não é tão alegre”, dizia Rancière em 2009. A boa notícia é que temos algumas razões para nos alegrarmos: desde o ano passado, temos visto sinais dos “novos modos de palavra, novos meios de fazer circular a informação” manifestando-se na política – condições e sintomas de um momento revolucionário, segundo o pensador francês.
Assistimos a esse fenômeno recentemente no Egito e, com menor intensidade, na Espanha, em Natal (a “primavera potiguar” do #foramicarla), e também em Brasília – na revolucionária ocupação da Reitoria da UnB, em 2008, e nos atos do movimento Fora Arruda e Toda Máfia, em 2009-10. Merecem destaque ainda, entre os novos meios de fazer circular a informação, projetos como o Wikileaks e o Transparência Hacker.
“Criam-se cenas inéditas, aparecem pessoas que não eram visíveis, pessoas na rua, nas barricadas”, afirma Rancière. Isso tem acontecido. Do mesmo modo, a criação e o emprego, na política, de novas formas de comunicação – espera-se que, à semelhança do que aconteceu com o movimento operário no século XIX, isso implique novos poderes e direitos para o povo. Tal como em 1968, vemos agora “surgirem de repente, em diversos lugares ao mesmo tempo, formas de contestação e de ação”.
Nosso desafio é seguir fomentando e participando desses movimentos que rompem com os limites aparentes do possível e instituem novas formas de fazer política. Porém, isso não é suficiente. Rancière aponta também “novas formas de economia” como típicas dos momentos revolucionários. Não basta inventarmos uma nova política, se não tivermos a imaginação necessária para fundar uma outra economia, diferente deste sistema excludente e desigual no qual vivemos. Precisamos transformar nossa indignação em mudança; imaginar para revolucionar, a exemplo do que têm buscado fazer os manifestantes nas praças espanholas.
Anotem-se as palavras de Rancière: “Os processos de emancipação que funcionam são aqueles que tornam as pessoas capazes de inventar práticas que não existiam ainda“. A nova política e a nova economia que precisamos inventar devem incrementar reciprocamente suas capacidades de inovação. Precisamos descobrir/inventar a riqueza e o potencial emancipatório das redes horizontais, não-hierárquicas, na economia, não apenas na política. Isso começa a acontecer, mas é preciso ir além: disseminar, aprofundar, radicalizar esse processo criativo.
Fiquem com a entrevista para a Cult.
“(…) CULT – Continuar lendo
Desigualdade no Brasil e o Plebiscito pelo Limite da propriedade de Terra
Aproveito este espaço novamente para falar sobre a desigualdade no Brasil. Desta vez nas palavras de Frei Betto, em artigo publicado no jornal Brasil de Fato:
Relatório da ONU (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Pnud), divulgado em julho, aponta o Brasil como o terceiro pior índice de desigualdade no mundo. Quanto à distância entre pobres e ricos, nosso país empata com o Equador e só fica atrás de Bolívia, Haiti, Madagáscar, Camarões, Tailândia e África do Sul.
Aqui temos uma das piores distribuições de renda do planeta. Entre os 15 países com maior diferença entre ricos e pobres, 10 se encontram na América Latina e Caribe. Mulheres (que recebem salários menores que os homens), negros e indígenas são os mais afetados pela desigualdade social. No Brasil, apenas 5,1% dos brancos sobrevivem com o equivalente a US$ 30 por mês (cerca de R$ 54) O percentual sobe para 10,6% em relação a índios e negros.
Na América Latina, há menos desigualdade na Costa Rica, Argentina, Venezuela e Uruguai. A ONU aponta como principais causas da disparidade social a falta de acesso à educação, a política fiscal injusta, os baixos salários e a dificuldade de dispor de serviços básicos, como saúde, saneamento e transporte.
É verdade que nos últimos 10 anos o governo brasileiro investiu na redução da miséria. Nem por isso se conseguiu evitar que a desigualdade se propague entre as futuras gerações.
Segundo a ONU, 58% da população brasileira mantêm o mesmo perfil social de pobreza entre duas gerações. No Canadá e países escandinavos, esse índice é de 19%.
O que permite a redução da desigualdade é, em especial, o acesso à educação de qualidade. No Brasil, em cada grupo de 100 habitantes, apenas nove possuem diploma universitário.
Basta dizer que, a cada ano, 130 mil jovens, em todo o Brasil, ingressam nos cursos de engenharia.
Sobram 50 mil vagas. E apenas 30 mil chegam a se formar.
Os demais desistem por falta de capacidade para prosseguir os estudos, de recursos para pagar a mensalidade ou necessidade de abandonar o curso para garantir um lugar no mercado de trabalho.
Nas eleições deste ano votarão 135 milhões de brasileiros. Dos quais, 53% não terminaram o ensino fundamental. Que futuro terá este país se a sangria da desescolaridade não for estancada? Há, sim, melhoras em nosso país. Entre 2001 e 2008, a renda dos 10% mais pobres cresceu seis vezes mais rapidamente que a dos 10% mais ricos. A dos ricos cresceu 11,2%; a dos pobres, 72%. No entanto, há 25 anos, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), esse índice não muda: metade da renda total do Brasil está em mãos dos 10% mais ricos do país. E os 50% mais pobres dividem entre si apenas 10% da riqueza nacional.
Para operar uma drástica redução na desigualdade imperante em nosso país é urgente promover a reforma agrária e multiplicar os mecanismos de transferência de renda, como a Previdência Social. Hoje, 81,2 milhões de brasileiros são beneficiados pelo sistema previdenciário, que promove de fato distribuição de renda.
Mais da metade da população do Brasil detém menos de 3% das propriedades rurais.
E apenas 46 mil proprietários são donos de metade das terras. Nossa estrutura fundiária é a mesma desde o Brasil império! E quem dá emprego no campo não é o latifúndio nem o agronegócio, é a agricultura familiar, que ocupa apenas 24% das terras mas emprega 75% dos trabalhadores rurais.
Hoje, os programas de transferência de renda do governo incluindo assistência social, Bolsa Família e aposentadorias representam 20% do total da renda das famílias brasileiras. Em 2008, 18,7 milhões de pessoas viviam com menos de 1/4 do salário mínimo. Se não fossem as políticas de transferência, seriam 40,5 milhões. Isso significa que, nesses últimos anos, o governo Lula tirou da miséria 21,8 milhões de pessoas.
Em 1978, apenas 8,3% das famílias brasileiras recebiam transferência de renda.
Em 2008 eram 58,3%.
É uma falácia dizer que, ao promover transferência de renda, o governo está sustentando vagabundos. O governo sustenta vagabundos quando não pune os corruptos, o nepotismo, as licitações fajutas, a malversação de dinheiro público. Transferir renda aos mais pobres é dever, em especial num país em que o governo irriga o mercado financeiro engordando a fortuna dos especuladores que nada produzem. A questão reside em ensinar a pescar, em vez de dar o peixe.
Entenda-se: encontrar a porta de saída do Bolsa Família.
Todas as pesquisas comprovam que os mais pobres, ao obterem um pouco mais de renda, investem em qualidade de vida, como saúde, educação e moradia. O Brasil é rico, mas não é justo.
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Vale lembrar que está acontecendo neste exato momento e vai até o dia 7 de setembro, o plebiscito pelo Limite da Propriedade de Terra. Para avançar na Reforma Agrária no Brasil, vote sim para o limite da propriedade no Brasil.
Dez respostas para uma pergunta: Por que as propriedades rurais de terra no Brasil precisam ter um limite máximo de tamanho?
Sociedade brasileira tem a chance de acabar com o latifúndio no Brasil durante o Plebiscito Popular pelo Limite da Terra, que ocorre em todo Brasil de 1 a 7 de setembro.
1- Porque a concentração de terra é a grande responsável pela miséria e fome em nosso país.
2 - Porque no Brasil se uma pessoa quiser comprar todas as terras privadas de Norte a Sul, de Leste ao Oeste, pode! Pois não existe uma lei que limite o tamanho da propriedade de terra no nosso país.
3 - Porque o latifúndio e o agronegócio, no ultimo século, expulsaram mais de 50 milhões de pessoas do campo, provocando o surgimento de milhares de favelas em todo o País, onde vivem mais de 80 milhões de brasileiros e brasileiras em condições desumanas. Se não houver uma Reforma Agrária decente este número vai aumentar ainda mais.
4 - Porque muitas famílias sem terra poderiam ter acesso à terra e com isso aumentaria a produção de alimentos, pois a agricultura familiar e camponesa é a responsável pela produção dos alimentos da mesa dos brasileiros.
5 - Porque são as pequenas propriedades que produzem alimentos orgânicos, livre dos agrotóxicos e é um direito das populações do campo e da cidade ter uma alimentação saudável
6 - Porque a agricultura familiar e camponesa cria muito mais empregos. Emprega 15 pessoas a cada 100 hectares, enquanto que o agronegócio emprega apenas duas.
7 - Porque o latifúndio e o agronegócio são os grandes responsáveis pela violência no campo e pela exploração do trabalho escravo.
8 - Porque banqueiros, grandes empresários e corporações internacionais são donos de grande parte dos latifúndios. Muitos nunca plantaram um pé de cebola.
9 - Porque 1% dos estabelecimentos rurais, com área de mais 1 mil hectares e ocupa 44% de todas as terras, enquanto praticamente 50% dos estabelecimentos com menos de 10 hectares, ocupam somente, 2,36% da área.
10 - Porque no século passado pelo menos 20 países estabeleceram um limite para propriedade rural, entre eles países desenvolvidos como Itália, Japão, Coréia do Sul. Agora é a nossa vez!
Se você concorda que é preciso acabar com a concentração de terras e riqueza em nosso país. Se você está cansado de tanta desigualdade e acredita que com uma Reforma Agrária justa podemos desenvolver o Brasil não só economicamente, mas também no âmbito social, gerando renda, empregos e distribuição de renda, você pode ajudar a mudar o Brasil!
De 1 a 7 de setembro participe do Plebiscito Popular pelo Limite da Propriedade da Terra. Diga sim! Coloque limites em quem não tem!
Exerça sua cidadania e mostre que, juntos, podemos conquistar o que é de direito de todos os brasileiros e brasileiras.