Auditoria da dívida pública: verdade, justiça e soberania democrática*

Por João Telésforo Medeiros Filho

Transcrevo abaixo minha participação em audiência pública da CPI da Dívida Pública, na Câmara dos Deputados, no dia 4 de maio deste ano. O áudio está disponível aqui. O discurso foi feito de improviso, por isso retirei aqui algumas das marcas de oralidade.

PS: Aproveito para convidar todos a assistirem, na quinta-feira da semana que vem, 25/11, às 9h da manhã, ao painel “Direito ao desenvolvimento: o endividamento dos países latino-americanos“, no âmbito da Semana Jurídica da UnB, que traz debates importantíssimos e grandes debatedores em torno do tema “Conexões: América Latina”. Deverá haver transmissão ao vivo pela internet, mantenham-se informados pelo twitter do CADIR-UnB.

PS2: o Campus Online traz, nesta semana, uma série de matérias sobre a dívida pública brasileira.  Começou muito bem, com uma entrevista com Maria Lúcia Fatorelli, que você pode ler aqui.

Auditoria da dívida pública: verdade, justiça e soberania democrática

Bom dia a todas e a todos.

É importante que esse debate esteja acontecendo aqui hoje. Infelizmente, nós o vemos pouco pautado pela maioria dos meios de comunicação do Brasil, por poucos partidos políticos, e pouco pautado aqui por esta Casa. É lamentável a presença de poucos parlamentares aqui hoje. Esta Casa tem se desviado para debates menores, e tem deixado que a política seja vista pela população do Brasil como apenas um foco de escândalos de corrupção e não como um espaço de debate público dos grandes problemas nacionais. E esse sem dúvida é um dos grandes problemas nacionais: como já foi dito, 36% do Orçamento do ano passado foi comprometido com o pagamento dos juros e amortizações da dívida.

Eu venho de uma tradição de pensamento e de ação segundo a qual “a cabeça pensa onde os pés pisam”. Neste momento, lá na Universidade de Brasília, onde meus pés costumam pisar, nós estamos em greve geral de estudantes, professores e servidores técnico-administrativos há mais de cinquenta dias devido ao não pagamento da URP, uma parcela que é um direito adquirido de professores e servidores há mais de vinte anos e que agora se decidiu retirar. Uma clara precarização dos direitos dos trabalhadores da UnB, e que sem dúvida alguma tem total ligação com o pagamento dos juros da dívida, com o pagamento da dívida pública.

Esse ataque é feito pontualmente e resistido pontualmente em cada categoria, mas tem se articulado também numa luta nacional, numa luta global contra o direcionamento do orçamento público para o pagamento da especulação financeira e não para a remuneração do trabalho e o financiamento dos serviços públicos, que vão sendo precarizados (no caso da URP, o da educação).

Voltando à UnB, começou hoje lá um Seminário Nacional, que vai até amanhã, sobre tortura. E isso também está diretamente relacionado ao debate que acontece aqui hoje, porque no combate à tortura, assim como na questão da dívida pública, o Brasil – ou partes dominantes do Brasil – tem optado pelo caminho do não enfrentamento, pelo caminho do esquecimento do que representa o projeto constitucional democrático de 1988. Nós tivemos agora, recentemente, uma decisão do STF em que foi sacramentado o esquecimento, a anistia a crimes de tortura, e na questão da auditoria da dívida pública vê-se a mesma coisa: setores querendo pautar o esquecimento do dispositivo do Ato de Disposições Constitucionais Transitórias que determina a auditoria da dívida.

Realizar a auditoria também é um requisito fundamental para que se finalize a transição democrática no Brasil. Até hoje nós não sabemos a verdade sobre os crimes cometidos pela ditadura: nós não tivemos abertura dos arquivos, nós não tivemos comissão de verdade. E essa abertura dos arquivos inclui também a auditoria da dívida, que é uma demanda por justiça e por verdade, tal como a demanda dos que foram perseguidos e torturados pela ditadura, porque o atual pagamento da dívida pública, o direcionamento dos recursos públicos para a remuneração do capital financeiro especulativo em detrimento das necessidades da população, é também uma forma de tortura.

A luta pela democracia no Brasil tem de ser retomada hoje, tem de ser aprofundada. Eu sou Coordenador de um DCE que se chama Honestino Guimarães, um estudante que foi perseguido pela ditadura, um desaparecido político. Ele não lutou contra a ditadura dos generais para que ela fosse substituída pela ditadura do mercado financeiro.

A ditadura do capital financeiro especulativo é um fato muito concreto. Gilberto Bercovici, Professor Livre-Docente de Direito Econômico da Universidade de São Paulo, afirma que o soberano, no Estado brasileiro hoje, é o mercado financeiro. Porque soberano é quem decide, e quem decide na nossa estrutura é o mercado financeiro. O mesmo também diz o Professor Emérito da USP Fábio Konder Comparato, assim como – embora talvez não com tanta veemência –, nesta CPI, o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, quando lembrou que a política do Banco Central não é determinada de forma democrática. Essa ideia de que o Banco Central tem de ser autônomo significa que ele tem de ser sequestrado, capturado por interesses privados que o utilizam para remuneração própria. Ou seja, os bancos escolhem qual política econômica o país deve ter.

O que nós precisamos ter nesta CPI é um passo inicial, o fortalecimento da luta pela verdade sobre a dívida, e na busca pela justiça, com respaldo em preceitos constitucionais claríssimos. A Constituição estabelece que o Estado tem de erradicar a pobreza, e que nenhum cidadão deve ser discriminado em virtude de nenhuma condição. Mas a política econômica do Estado brasileiro é discriminatória, ela viola o princípio constitucional da igualdade, porque ela estabelece que é mais importante pagar a suposta dívida do Estado com a parcela mais rica do que a enorme dívida social com a parcela mais pobre. Portanto, temos uma discriminação de classe claramente colocada na política de pagamento da dívida.

É uma política que também desrespeita os princípios republicano e democrático, porque o poder, numa república democrática,  se exerce em público, e a nossa política econômica é sequestrada por agências privadas de classificação de risco que sequer são submetidas a regulação pública. Marcus Faro de Castro, Professor da Faculdade de Direito da UnB e Doutor pela Universidade de Harvard, comenta que os códigos estabelecidos por essas agências de regulação privada, as regras de classificação em “investment grade” e outros códigos de investimento, são privados e muitas vezes inclusive secretos, protegidos por normas de propriedade intelectual (ver aqui, aqui e aqui). É um absurdo: o Banco Central fica eufórico ao ganhar o investment grade segundo critérios que sequer são públicos. Essa é uma clara violação não só ao poder de autodeterminação do povo, mas também ao direito à informação. O cidadão tem de ter o direito a saber ao menos, no mínimo!, quais são os critérios que determinam a política econômica. Isso tem de ser transparente.

Então, esta CPI tem de ser o passo inicial. Como todo regime de transição, ele se inicia com a busca pela verdade e prossegue nas reformas institucionais que têm de ser feitas. Reformas institucionais que têm de mudar a mentalidade que impregna este Parlamento, que não se vê no papel de dar voz ao povo brasileiro, mas também reproduz esse sistema de espoliação, e que mude a forma como o Brasil lida com as agências de classificação de risco, que o Brasil tome as medidas necessárias internamente e globalmente pela regulação pública ou pelo desprezo a essas agências em face das necessidades do povo.

Sobre essa agenda de reformas institucionais, volto ao mote de que a cabeça pensa onde os pés pisam, para lembrar que foi aprovado há dez anos, por este Congresso, a Lei de Responsabilidade Fiscal. Existe um movimento do Fórum Brasil do Orçamento para que ela seja transformada em Lei de Responsabilidade Fiscal e Social, porque, como eu disse antes, não existe razão que justifique que as necessidades sociais sejam colocadas em segundo plano com relação ao pagamento do capital especulativo.

É importante também frisar que a caixa preta que é o mercado financeiro é um dos grandes responsáveis pela crise que se vive agora (embora seja complicado falar que essa crise seja conjuntural, porque na verdade essa crise é permanente para a classe trabalhadora, ela tem apenas um momento mais agudo agora). E também nessa crise, na forma como se lida com ela – por exemplo, no pacote de US$ 700 bilhões que foi aprovado pelo Congresso dos EUA para auxiliar grandes bancos e empresas –, há denúncias muito sérias de que não houve qualquer tipo de regramento público nessa destinação – a professora Elizabeth Warren, da Faculdade de Direito de Harvard, faz críticas severas nesse sentido. Isso se reproduz mundo afora, tal como já ocorreu no Brasil no PROER, o que também contribuiu para o aumento da dívida.

A dívida tem uma origem injusta. Ela foi contraída não para financiar a efetivação dos direitos do povo brasileiro, mas em prol dos interesses de uma classe muito restrita. Porém, é o povo brasileiro quem paga essa dívida, são as camadas mais pobres da população, que pagam muito mais impostos. E além disso, essa dívida já está paga há muito tempo, com sobras. Então, essa dívida não é de modo algum uma dívida do povo brasileiro, e o povo brasileiro não tem de assumi-la.

Alguns setores afirmam, no entanto, que essa posição é utópica porque o Brasil tem necessidade de crédito no mercado internacional, então ele não pode simplesmente, por uma questão de princípio (que eles até podem conceder), abrir mão desse crédito. Mas, a questão é: de qual crédito o Brasil estará abrindo mão ao fazer uma auditoria da dívida? Qual será o investimento de que se abre mão ao se fazer uma auditoria da dívida? Eu tenho a impressão de que sim, se abre mão do capital especulativo que muitas vezes age de forma ilegal e não produz nada na economia real, para o empoderamento do cidadão, para a satisfação das necessidades sociais. Se for esse o capital que será afastado por uma auditoria da dívida, não há nada a perder. Porque o único capital que pode ser afastado por uma vontade pública de republicanizar, de tornar pública a regulamentação das finanças públicas do Brasil – ou das finanças do Brasil que deveriam ser públicas – é o capital que age à margem do Estado de Direito, da legalidade, de qualquer poder público.

Esse poder que se esconde, esse poder dos porões da ditadura de ontem que prossegue no poder oculto do mercado de hoje, das JP Morgan da vida, esse poder oculto não pode permanecer oculto numa democracia. Ele tem de ser trazido a público, porque numa democracia, como dizia Bobbio, não pode haver poder que se esconda, todo poder deve ser trazido a público para ser controlado.

Então, finalizo lembrando uma frase do Comício das Diretas, de Brasília, da época das Diretas Já. O poeta Tetê Catalão e o maestro Jorge Antunes, professor da UnB, compuseram a Sinfonia das Buzinas, e eles diziam que “sempre haverá quem se atreva às trevas”, “sempre haverá quem se atreva, mesmo por um triz”. Assim como lá na UnB nós resistimos – e com esse “nós”, eu me insiro por meio da memória coletiva nesse processo histórico – contra as trevas da ditadura, continuaremos resistindo às trevas do mercado financeiro. Trevas literalmente, porque seguem ocultas. E este Parlamento, nós só o reconhecemos como poder legítimo institucional do povo brasileiro na medida em que ele corresponda a esse anseio popular de emancipação.

Obrigado.

B&D debate dívida pública com movimento pela auditoria cidadã

Por João Telésforo Medeiros Filho

Hoje (daqui a pouco!!), às 17h, na FA/UnB, o Grupo Brasil e Desenvolvimento realizará reunião aberta com Maria Lúcia Fatorelli, Coordenadora do Movimento pela Auditoria Cidadã da Dívida Pública. Você está convidado(a) a ir participar, se informar melhor e debater sobre as obscuras origens e a nada democrática gestão da dívida pública brasileira, que tanto tem afetado e continua a afetar negativamente a efetivação dos direitos sociais previstos na nossa Constituição. Não fique indiferente a esse grande problema do Brasil!

Nessa semana, a Câmara dos Deputados assou mais uma pizza ao concluir a CPI da dívida pública… Nós, do Grupo Brasil e Desenvolvimento, estivemos lá junto com outras pessoas e entidades da sociedade civil, para protestar. Exigimos a realização da auditoria da dívida, prevista na Constituição!

Na próxima terça-feira,dia 18 de maio de 2010, às 14h, será realizado na Procuradoria Geral da República (SAF Sul Quadra 4 Conjunto C, Bloco B, na Sala 305  – 5ª Câmara de Coordenação e Revisão), o Ato de Entrega ao Ministério Público do Voto em Separado da CPI da Dívida Pública. Na oportunidade, serão entregues também as oito Análises Técnicas elaboradas durante os trabalhos da CPI. O movimento pela auditoria cidadã convoca a participação de todos nesse ato, a fim de demonstrar o interesse social no aprofundamento das investigações iniciadas durante a CPI, especialmente diante dos sérios indícios de ilegalidades, danos ao patrimônio público e aos direitos humanos encontrados nos documentos obtidos pela CPI da Dívida.

Logo após o Ato de Entrega será realizada, no mesmo local, breve reunião do Conselho Político da Auditoria Cidadã da Dívida, para deliberações acerca do seguimento das atividades da Auditoria Cidadã.

Entenda melhor a questão lendo o boletim feito pelo movimento da auditoria cidadã acerca do encerramento da CPI:

(…)

Hoje, 11 de maio de 2010, a CPI da Dívida aprovou o Relatório Final do Deputado Pedro Novais (PMDB/MA), por margem apertada: 8 votos a 5. Ou seja: mesmo aliando-se à Velha Direita (PSDB e DEM), os parlamentares da base do governo enfrentaram dificuldades para aprovar o Relatório Final. Embora o texto do relatório admita a ausência de transparência em vários aspectos do endividamento, o descumprimento da ‘Lei de Responsabilidade Fiscal’ quanto à ausência de limite para a dívida da União, as irregularidades na contabilização de atualização monetária da dívida como se fosse amortização, a predominância dos juros no crescimento da dívida, dentre outras irregularidades, conclui pela inexistência de ilegalidades no endividamento, e não aponta os perversos impactos da dívida na sociedade.

O Voto em Separado do Dep. Ivan Valente (PSOL/SP), que indica diversos e graves indícios de ilegalidades, pede a auditoria da dívida prevista na Constituição, bem como o encaminhamento ao Ministério Público Federal – para o aprofundamento das investigações, apuração de responsabilidades e reparação dos danos provocados ao patrimônio público - foi assinado por 8 (oito) parlamentares, ou seja, igual quantidade dos que votaram a favor do Relatório do Governo. Porém, nem todos os que apoiaram e assinaram o Voto em Separado puderam votar, por serem suplentes – de outros deputados que votaram – ou por não se encontrarem em Brasília.

Encaminharam o voto contrário ao relatório final de Pedro Novais os deputados Ivan Valente (PSOL/SP), Hugo Leal (PSC/RJ) e Julião Amin (PDT/MA). Era evidente a maioria dos deputados contrários ao relatório final naquele momento. O presidente da CPI suspendeu a votação – durante o processo de votação, tendo já sido feitos encaminhamentos – e aguardou a chegada de outros parlamentares da base do governo, do PSDB e do PMDB, quando então iniciou-se a apertada votação.

Na próxima semana, parlamentares e representantes da sociedade civil farão a entrega, ao Ministério Público Federal, do Voto em Separado, juntamente com todas as análises técnicas elaboradas durante a CPI, solicitando o aprofundamento das investigações, apuração de responsabilidades, reparação dos danos provocados ao patrimônio público e a elaboração das ações judiciais cabíveis.

Merecem destaque os dizeres dos coletes – “CHEGA DE FARRA DOS RENTISTAS”  e cartazes que os representantes das entidades sustentaram durante as votações:

AUDITORIA JÁ

QUEREMOS A VERDADE

JUROS SOBRE JUROS: ILEGAL (STF)

PIZZA NÃO

Não desrespeitem o voto de 6 milhões de brasileiros que exigiram no Plebiscito de 2000 a AUDITORIA DA DÍVIDA


A presença maciça de representantes de diversos setores da sociedade civil foi fundamental para demonstrar sua preocupação com a falta de controle do endividamento público brasileiro, que anualmente consome quase 40% dos recursos orçamentários da União para o pagamento de juros e impõe severos sacrifícios à sociedade brasileira, sendo que essa dívida pública não apresenta contrapartida que justifique tamanho sacrifício.”

Embora o texto do relatório admita a ausência de transparência em vários aspectos do endividamento, o descumprimento da “Lei de Responsabilidade Fiscal” quanto à ausência de limite para a dívida da União, as irregularidades na contabilização de atualização monetária da dívida como se fosse amortização, a predominância dos juros no crescimento da dívida, dentre outras irregularidades, conclui pela inexistência de ilegalidades no endividamento, e não aponta os perversos impactos da dívida na sociedade.

O Voto em Separado do Dep. Ivan Valente (PSOL/SP), que indica diversos e graves indícios de ilegalidades, pede a auditoria da dívida prevista na Constituição, bem como o encaminhamento ao Ministério Público Federal – para o aprofundamento das investigações, apuração de responsabilidades e reparação dos danos provocados ao patrimônio público - foi assinado por 8 (oito) parlamentares, ou seja, igual quantidade dos que votaram a favor do Relatório do Governo. Porém, nem todos os que apoiaram e assinaram o Voto em Separado puderam votar, por serem suplentes – de outros deputados que votaram – ou por não se encontrarem em Brasília.

Encaminharam o voto contrário ao relatório final de Pedro Novais os deputados Ivan Valente (PSOL/SP), Hugo Leal (PSC/RJ) e Julião Amin (PDT/MA). Era evidente a maioria dos deputados contrários ao relatório final naquele momento. O presidente da CPI suspendeu a votação – durante o processo de votação, tendo já sido feitos encaminhamentos – e aguardou a chegada de outros parlamentares da base do governo, do PSDB e do PMDB, quando então iniciou-se a apertada votação.

Na próxima semana, parlamentares e representantes da sociedade civil farão a entrega, ao Ministério Público Federal, do Voto em Separado, juntamente com todas as análises técnicas elaboradas durante a CPI, solicitando o aprofundamento das investigações, apuração de responsabilidades, reparação dos danos provocados ao patrimônio público e a elaboração das ações judiciais cabíveis. (…)

CPI da dívida pública – auditoria já!

Por João Telésforo Medeiros Filho

Você sabia que atualmente acontece na Câmara dos Deputados a CPI da dívida pública? Provavelmente, não… Infelizmente, quase nenhum meio de comunicação tem dado destaque a essa CPI, sobre uma questão que continua a ser um dos grandes problemas do país (talvez O grande problema econômico), um dos grandes entraves ao seu desenvolvimento – o pagamento dos juros e amortizações da dívida consumiu, no ano passado, 36% do Orçamento Geral da União, enquanto menos de 3% foram destinados, por exemplo, à educação…. (E o problema não é simplesmente o tamanho da dívida, mas a sua origem e a forma como é gerida).

Nesta terça-feira, às 14h, deverá ser votado o Relatório Final da CPI. É fundamental a participação da sociedade, para pressionar contra as várias omissões do relatório, em especial o fato de não propor a realização da auditoria da dívida, prevista pela Constituição Federal. Se você mora em Brasília, compareça!  No anexo 2 da Câmara dos Deputados, corredor das comissões, plenário 9.

Fica o convite para que todos conheçam um pouco mais sobre este assunto, visitando o site da Auditoria Cidadã da Dívida. Segue abaixo relato da audiência pública realizada na semana passada pela CPI, da qual participei.

ENTIDADES SE REÚNEM COM DEPUTADOS DA CPI E REIVINDICAM QUE O RELATÓRIO FINAL CONTEMPLE AS DEMANDAS DA SOCIEDADE CIVIL

Boletim elaborado pela Auditoria Cidadã da Dívida – www.divida-auditoriacidada.org.br

Brasília, 4 de maio de 2010

Realizou-se, na manhã de hoje, importante reunião de diversas entidades com os deputados da CPI da Dívida, a fim de reivindicar que o Relatório Final apresentado na semana passada pelo Relator possa ser alterado, de forma a contemplar as demandas da sociedade civil.

A reunião foi o resultado de pleito das entidades que integram o movimento da Auditoria Cidadã da Dívida, que haviam entregado carta ao Presidente da CPI, Deputado Virgílio Guimarães (PT/MG), solicitando reunião com os deputados da CPI para discutir o Relatório Final.

A reunião foi extremamente rica, com a manifestação de 16 representantes da sociedade civil que fizeram uso da palavra. Apenas para dar uma idéia do tema tratado por cada manifestante, resumimos abaixo em poucas linhas, sendo que em breve divulgaremos a completa transcrição dos valiosos depoimentos:

Auditoria Cidadã da Dívida – Maria Lucia Fattorelli, que mostrou os graves indícios de ilegalidades da dívida constatadas pela CPI, reivindicando que a CPI determine a realização da auditoria prevista na Constituição Federal, bem como o encaminhamento de todas as análises técnicas produzidas pela CPI ao Ministério Público para o aprofundamento das investigações e medidas judiciais cabíveis, para reparação dos danos provocados ao patrimônio público e ofensas aos direitos humanos. Clique aqui para obter acesso ao texto e à Apresentação em Power Point.

CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil / CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – Pe. Gabrielle Cipriani, que defendeu que o Relatório inclua como recomendação a auditoria da dívida, e discordou do fato de o relator ter considerado o endividamento como um fato consumado, definitivamente incorporado ao sistema econômico brasileiro. Ressaltou a necessidade de buscar justiça e combater as desigualdades sociais. Clique aqui para obter acesso ao texto.

OAB – Ordem dos Advogados do Brasil – Régia Brasil, que destacou a ação (ADPF) impetrada pela OAB requerendo o cumprimento do Art. 26 do ADCT da Constituição Federal de 1988, o qual prevê a realização da auditoria da dívida. Destacou os perversos impactos do endividamento sobre todas as áreas sociais, em especial do Trabalho.

IFC – Instituto de Fiscalização e Controle – Edimar Miguel da Costa, que defendeu a importância de uma auditoria permanente da dívida, visando esclarecer e sanear todo o processo de endividamento público e estancar a sangria de recursos, devolvendo aos cofres públicos os valores pagos indevidamente. Clique aqui para obter acesso ao texto.

CONFEA – Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia – Osiris Barboza, que relatou como a dívida impede a realização dos investimentos em infra-estrutura, tais como saneamento, habitação, transportes, etc, que poderiam gerar empregos para os engenheiros, arquitetos e agrônomos, em benefício de toda a sociedade. Defendeu a realização da auditoria prevista no art. 26 do ADCT. Clique aqui para obter acesso ao texto – Pág 1Pág 2Pág 3.

FENAFISCO – Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital – Manoel Isidro, que questionou os impactos negativos do endividamento sobre todas as áreas sociais. Mencionou também a redução das transferências a estados e municípios em decorrência da pressão provocada pelos compromissos da dívida e defendeu a realização da auditoria.

CFEMEA – Centro Feminista de Estudos e Assessoria – Sarah Reis, que mostrou os impactos do endividamento sobre diversas áreas sociais, por meio do contingenciamento dos recursos orçamentários, especialmente dos recursos destinados às políticas para as mulheres. Defendeu a necessidade de maior transparência e acesso aos dados do endividamento público.

FEBRAFITE – Federação Brasileira de Associações de Fiscais de Tributos Estaduais – João Pedro Casarotto, que ressaltou a problemática relacionada à dívida dos estados que foi renegociada com a União em condições que se revelaram fortemente onerosas para os entes federados, e reivindicou a extinção dos juros acumulados em decorrência meramente do IGP-M e acréscimos, bem como a substituição desse índice oneroso, revendo-se os cálculos de tais dívidas.

ANDES – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior - Helvio Mariano, que destacou que o endividamento tem impedido investimentos em Educação, demonstrando a necessidade de aumentar para 10% do PIB os investimentos em educação. Denunciou que o aumento de vagas nas universidades propagandeado pelo governo esconde a falta de infra-estrutura e pessoal, ressaltando a atual luta dos servidores públicos contra o PLP-549, que prevê o congelamento dos salários dos servidores por 10 anos.

UNASUS – União Nacional dos Auditores do SUS – Jovita José Rosa, que destacou a importância do fortalecimento do SUS, responsável pelo atendimento a 75% da população brasileira, reivindicou o enfrentamento da questão do endividamento por meio de auditoria, a fim de liberar mais recursos para a área da saúde pública.

DCE-UnB – Diretório Central dos Estudantes – Universidade de Brasília / Grupo Brasil e Desenvolvimento – João Telésforo, que reivindicou a realização da auditoria da dívida em defesa da soberania nacional e da democracia, criticando a falta de transparência na atuação do setor financeiro privado e agências de classificação de risco, cujos critérios são sigilosos. Mencionou que a atual greve dos professores e funcionários da UnB em decorrência da redução dos salários praticada pelo governo tem relação com a luta pela auditoria da dívida.

ANFIP – Associação Nacional dos Auditores-fiscais da Receita Federal do Brasil – Floriano Sá Neto, que mostrou como a dívida consome os recursos da Seguridade Social por meio da DRU (Desvinculação das Receitas da União). Somente de 2005 a 2008, foram retirados R$ 145 bilhões, utilizados para cumprir as metas de superávit primário. Clique aqui para acessar o texto.

IFM – Instituto de Fundação do Mérito – Inairo Gomes, que criticou o disposto nos artigos 164 e 166 da Constituição, que impedem o Banco Central de emprestar a pessoas e empresas a juros baixos (deixando que os bancos o façam, cobrando altos juros)  e impedem o Parlamento de apresentar emendas para alterar o montante de recursos destinados à dívida.

ASSTTRA – Associação dos Servidores Técnicos em Transporte e Segurança do Ministério Público da União – Rômulo Silva, que mostrou a carência de estrutura da Justiça para atender à população mais pobre, e enfatizou a necessidade de que os indícios de ilegalidades descobertos pela CPI sejam encaminhados ao Ministério Público.

CAFIL-UnB – Centro Academico de Filosofia Universidade de Brasilia – David Wilkerson, que enfatizou a importância do debate sobre o endividamento público para a resolução de grande parte dos problemas sociais no país.

Vice-Relator da CPI da Dívida de 1983 – Deputado Federal Jacques Dornellas, que ressaltou o privilégio dos rentistas e o absurdo das elevadíssimas taxas de juros brasileiras, transformando o país no cassino dos especuladores.

O SINASEFE - Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica não pôde comparecer, mas também enviou texto.

A reunião foi presidida inicialmente pelo deputado Virgílio Guimarães (Presidente da CPI), tendo contado com a participação também dos deputados Ivan Valente (PSOL/SP), Paulo Rubem Santiago (PDT/PE), Jô Morais (PCdoB/MG), Márcio Reinaldo (PP/MG) e Hugo Leal (PSC/RJ).

No encerramento da reunião, que durou cerca de 4 horas, a coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lucia Fattorelli, agradeceu ao presidente Virgílio Guimarães pelo espaço conferido às entidades, requerendo que os importantes depoimentos e reivindicações apresentadas pelas mesmas fossem incorporados ao Relatório Final. Reiterou a necessidade de a CPI determinar o cumprimento da Constituição mediante a realização da auditoria da dívida, além do envio de toda a documentação ao Ministério Público para o aprofundamento das investigações e adoção das medidas pertinentes. Finalizou declarando que a marca que a Auditoria Cidadã da Dívida gostaria de deixar na CPI é o custo humano e social do endividamento, como mencionado pelas entidades. Enquanto o Brasil tem sido extremamente generoso com o capital, pagando os maiores juros do mundo sobre uma dívida nunca auditada, tem sido extremamente cruel com grande parcela da população, pois cerca de 50 milhões de brasileiros estão totalmente excluídos do acesso a serviços públicos e a uma vida mínimamente digna. Reivindicamos que o ser humano passe a ser a prioridade nacional.

À tarde, foi realizada sessão da CPI, quando foi encaminhado pessoalmente ao Relator, Pedro Novais (que não esteve presente na reunião de manhã) os aportes das entidades. O Deputado Virgílio Guimarães (Presidente da CPI) defendeu a inclusão de pontos reivindicados pelas entidades, e os deputados Ivan Valente, Paulo Rubem Santiago e Hugo Leal criticaram o Relatório Final proposto pelo Relator, também defendendo modificações defendidas pelas entidades durante a reunião da manhã.

Devido à riqueza da representação social e do conteúdo dos debates ocorridos na parte da manhã, à importância dos argumentos apresentados pelas entidades, bem como à pressão exercida pelos deputados Ivan Valente, Paulo Rubem Santiago e Hugo Leal para o aprofundamento da discussão do Relatório Final da CPI, foi possível adiar a votação do Relatório para a semana que vem, abrindo a possibilidade de que os pontos reivindicados pelas entidades possam ser acatados pelo Relator. O deputado Ivan Valente declarou que caso o Relator não acate as diversas reivindicações da sociedade civil, será apresentado Voto em Separado no qual incluirá todos os aportes das entidades e também encaminhará os documentos coletados pela CPI e análises produzidas ao Ministério Público.

Foi convocada nova reunião para debate do Relatório Final para o dia 05 de maio (quarta-feira), às 14:30 horas. Convocamos todas as entidades para acompanhar a referida reunião.

Incluimos a seguir algumas notícias e fotos das reuniões da CPI realizadas hoje: (ver no site da Auditoria Cidadã).