Por Rodrigo Santaella
A crise em Honduras, proveniente do golpe de Estado que tirou o presidente Manuel Zelaya do poder, tem nos mostrado, em uma situação concreta, algumas facetas interessantes das mudanças que aconteceram na política mundial nos últimos tempos. Muitas das hipóteses a respeito do que pode vir a ser o governo Obama nos EUA ou de quanta força tem a nova esquerda latino-americana se materializam nessa situação excepcional e podem ser testadas. Antes de tudo, entretanto, é preciso contextualizar o que foi o golpe em Honduras.
Honduras é o segundo país mais pobre da América Latina. Com sete milhões e meio de habitantes no território nacional, mais um milhão e meio de hondurenhos vivendo nos Estados Unidos, o país tem uma extensão territorial menor do que a do Ceará. Quase que um protótipo do modelo de República das Bananas e um dos mais claros exemplos de dependência direta dos países centrais durante o século XX (principalmente os EUA), Honduras é um caso clássico de economia de enclave agrícola. Localizada no centro geográfico da América Latina, não se pode deixar de considerar a situação atual de seus vizinhos para entender de forma clara o golpe que tirou o presidente Manuel Zelaya do poder em junho deste ano. A “esquerdização” dos vizinhos El Salvador e Nicarágua assustou bastante as elites hondurenhas.
Durante todo o século XX, Honduras serviu como ponte militar para que os Estados Unidos controlassem as políticas dos países vizinhos, por exemplo nas intervenções de combate à revolução sandinista na Nicarágua nos anos 80. A crise política atual que vive o país, com o golpe que afastou o presidente eleito Manuel Zelaya do poder, tem mostrado ao mundo diversas características interessantíssimas do novo contexto político internacional, e principalmente latino-americano. Para entender esse processo profundamente e analisar de forma mais efetiva as suas conseqüências, é preciso esclarecer alguns pontos a respeito do presidente deposto e, posteriormente, das razões que levaram ao golpe.
Manuel Zelaya, a despeito do que alguns pensam, não é um homem de esquerda. Nem todos os que são derrubados por golpes de direita são de esquerda. Membro de uma família oligarca, Zelaya está muito mais para um grande latifundiário que para um revolucionário. No início de seu governo, o presidente hondurenho mantinha um discurso relativamente alinhado aos interesses norte-americanos e não incomodava, de maneira nenhuma, as elites locais, além de não ter nenhum tipo de apoio dos movimentos sociais.
E o que, então, teria gerado a situação que levou ao golpe? A resposta pode assustar: a busca pelo livre-comércio. É isso mesmo. Justamente a busca pela ruptura dos monopólios, para garantir o mais básico princípio do pensamento liberal é que afastou o governo hondurenho da zona de influência direta dos Estados Unidos na região e que o colocou em conflito direto com o país. Buscando alternativas para comprar petróleo mais barato e invariavelmente esbarrando nos contratos monopolistas que obrigavam o governo hondurenho a comprar petróleo exclusivamente proveniente dos Estados Unidos, Zelaya se aproximou de Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, e logo de Hugo Chávez. Essa aproximação aos países da ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas, espécie de plataforma de cooperação internacional protagonizada pela Venezuela – que vende petróleo para os demais países a preços de custo em compras nas quais o pagamento pode ser feito, em parte, com alimentos – e que vem ajudando de forma efetiva no desenvolvimento de alguns países da América Latina, principalmente do Caribe), somada a uma mudança do discurso do governo hondurenho em direção a uma crítica veemente da política econômica norte-americana para a América Central é que fazem o governo hondurenho ganhar algumas características de um governo de massas. Uma das regras de participação na ALBA é mandar representantes populares, principalmente dos movimentos sociais, para as reuniões de deliberação da entidade. Sendo assim, quando se tornou efetivamente membro da ALBA, o governo hondurenho passou necessariamente a ter de relacionar-se mais diretamente com os movimentos sociais. Assim se deu, em síntese e a muito grosso modo, a aproximação de Zelaya com a pequena esquerda hondurenha e com a esquerda continental.
Entretanto, talvez isso ainda não fosse suficiente para uma atuação tão dura por parte da direita hondurenha. A gota d’água foi a convocação de uma consulta não vinculante na qual a população se posicionaria a respeito de algumas mudanças constitucionais. É preciso entender aqui que a constituição vigente em Honduras foi escrita, digamos, a quatro mãos, em parceria com os Estados Unidos de Reagan em 1983, e tem alguns artigos pétreos. Entre estes, estão a manutenção do modelo de democracia, com referências claras à participação popular, a organização da justiça, a não reeleição, entre outras coisas. A consulta seria justamente para decidir a mudança desses pontos pétreos. A questão é que, como são pétreos, a modificação deles é anticonstitucional e não pode ser feita de dentro do Estado. Não existem instrumentos para isso, já que a simples proposição de mudança nesses pontos já é considerada ilegal. A fórmula à qual recorreu o governo hondurenho foi a de convocar uma consulta popular e apoiar a consulta a partir da presidência. A partir daí se trabalharia, com um pouco mais de legitimidade, para reformular toda a constituição hondurenha. É importante ressaltar que Zelaya nega que um dos pontos que queria modificar era o que diz respeito à proibição da reeleição. O tribunal eleitoral do país considerou, obviamente, a consulta ilegal e ordenou ao exército a retirada de todo o material de campanha, além das cédulas de votação. Zelaya incitou o povo manter-se no pleito, não permitindo que o exército recolhesse as cédulas. Esse último movimento do presidente antes do golpe foi na quinta feira, dia 25 de junho. Da madrugada de sábado para domingo, Zelaya foi seqüestrado e expulso do país.
O golpe em Honduras seguiu mais ou menos os mesmos moldes dos últimos golpes – ou tentativas – no continente, como o da Venezuela em 2002 e o do Haiti em 2004: difamação anterior, seqüestro e apoio dos responsáveis pela política externa norte-americana. Nesse ponto, e aqui começa a materialização das hipóteses, fica clara a posição ambígua do governo Obama nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que não pode legitimar um golpe de Estado, já que foi eleito com base em um discurso progressista e incondicionalmente pró-democracia, a manutenção dos mesmos “responsáveis pela América Latina” do governo Bush faz com que não se possa descartar a possibilidade de uma ajuda por baixo dos panos. A partir da titubeação do governo norte-americano ao não reconhecer o novo governo hondurenho, que mostra uma total ausência da tão famosa boa vontade norte-americana em defender democracias pelo mundo (principalmente pelo Oriente Médio), se pode concluir que não devemos esperar, na América Latina, mudanças concretas da política externa dos EUA (a renovação do bloqueio econômico a Cuba por mais um ano reforça essa tendência). O fato é que em situações de tensão as contradições tendem a desenvolver-se a explicitar-se e o governo Obama está fazendo tudo o que pode para empurrar com a barriga a hora de resolver algumas das contradições mais claras de seu governo.
Por outro lado – e aqui se dá a materialização de um sentimento positivo no continente – o golpe em Honduras mostrou que não é mais tão simples romper com um governo democrático na América Latina. Para além do fato de ninguém ter reconhecido o novo governo golpista, houve uma articulação para a resolução da situação em Honduras por parte dos países de esquerda latino-americanos, na qual agora o Brasil se tornou protagonista. Aqui vale um elogio à postura do governo brasileiro na situação que se apresentou para ele: apesar de todas as suas ambigüidades no que diz respeito à política interna, mais uma vez o Brasil assumiu uma postura digna de respeito internacionalmente. A neutralidade histórica do país, tão reivindicada pela grande mídia nacional (é só ver a última edição da Veja), nesse caso teria sido desastrosa. Não abrir a embaixada brasileira a Zelaya poderia ter significado a consolidação total do golpe, o que seria completamente contraditório com a política de um país democrático que é chamado a prestar ajuda a outra democracia.
Zelaya não é nenhum herói e não deve ser tratado como tal. A oposição em Honduras se precipitou de forma poucas vezes antes vista na história, e terminou por dar muito mais força política ao presidente deposto. Com maioria no congresso e com o controle dos grandes aparelhos midiáticos, além do apoio da Igreja e do Exército, a oposição poderia perfeitamente vencer as eleições do ano que vem. Entretanto, para além da força política que vem ganhando o presidente nacional e internacionalmente, já se formou em Honduras uma frente de resistência ao golpe (FRG), que na verdade tende a degringolar em uma frente de luta contra a oligarquia. Pode-se estar dando um salto qualitativo na esquerda de Honduras, e com certeza a relação de cooperação entre os países da região pode amadurecer muito a partir deste caso. Entretanto, a despeito do não reconhecimento internacional, da ajuda brasileira e de tudo, o governo golpista de Honduras segue de pé. É preciso, portanto, sem criar falsos heróis e sem crer que a volta do presidente deposto encerra a discussão sobre o futuro do país centro-americano, continuar atento à situação de Honduras. É preciso manter-se atento para que essa moda tão vigente nos anos 60 e 70 não volte, aos pouquinhos, a pegar por aqui…