(Feliz dia das mães) Maternidade como escolha

Por Laila Maia Galvão

Participei, recentemente, de uma cerimônia de colação de grau em que uma estudante fez o discurso de homenagem aos pais. O tom do discurso era de agradecimento. A forma pela qual a aluna dizia obrigada parecia focar o grande peso que é assumir a responsabilidade de ser mãe: falou-se em “sacrifício” e em “abrir mão” da juventude, da liberdade e dos sonhos para assumir a tarefa de ser mãe e viver única e exclusivamente em função de outro ser humano.

De outro lado, há por aí um discurso comum que enxerga a maternidade como algo divino, em que a mãe se torna uma espécie de Virgem Maria, um ser sagrado, intocável, que não comete erros.  Não é por outro motivo que a questão da depressão pós-parto ainda é um tabu em nossa sociedade, sendo a mulher que passa por isso considerada uma aberração por ser incapaz de assumir com serenidade a sagrada missão de ser mãe.

O discurso da “mãe santa” é o outro lado da moeda do discurso do “sacrifício”. As ideias que vinculam a maternidade a um trabalho hercúleo e penoso ou então a uma experiência divina e redentora tratam a maternidade como essa enorme carga que a mulher deve carregar por conta própria. Continue lendo

Big Society Capital: a solução não está na City

Por Laila Maia Galvão

A Europa enfrenta grave crise econômica e social já há algum tempo e, até o presente momento, os países que formam a união europeia têm encontrado dificuldades para delinear uma solução consensual. Na medida do possível, cada país tem adotado suas próprias fórmulas de modo a lidar com as crises interna e externa.

Na Inglaterra, após o escândalo do mês passado envolvendo as visitas de doadores do Conservative Party ao Primeiro Ministro no 10 Downing Street, David Cameron resolveu anunciar a implementação de um novo programa de investimentos na área social, que vai além do Estado e das instituições de caridade. De acordo com a The Economist, a ideia de Cameron de que o espírito comunitário pode resolver problemas sociais melhor que o Estado não é nova. Ainda na campanha eleitoral, a expressão “big society” foi usada por Cameron (“to invite British people to join his government as part of an open, big society”), mas seus companheiros de partido o dissuadiram de usá-la, por ser difícil de explicar. Somente nesse mês de abril Cameron decidiu inaugurar um banco de investimento social, que será capitalizado com aproximadamente 600 milhões de libras.

O Big Society Capital (BSC), na verdade, atuará como uma organização administrada independentemente do governo, emprestando dinheiro, via intermediários, a programas sociais. Esses intermediários são chamados de SIFIs (social investment finance intermediaries) e podem ser (i) bancos sociais que já emprestam para organizações que visam o benefício social e ambiental; (ii) fundos que investem na área social que poderão gerenciar fundos  em favor de outros investidores; (iii) outras entidades de oferecem prestação de serviços a programas sociais.

Alguns questionam a viabilidade econômica desse empreendimento. A The Economist aponta que há uma grande quantidade de dinheiro disponível e que há poucos empreendimentos seguros para se investir, o que poderá gerar desperdício de dinheiro. Assim, só se poderá avaliar a eficácia do Big Society Capital se houver geração de rendimentos a partir de bons investimentos sociais.

Por outro lado, outros questionam o impacto social negativo que tal Fundo poderá gerar. O Big Society Capital busca fazer com que organizações voluntárias e de caridade que antes dependiam de contratos com o governo não dependam mais desse apoio. O jornal The Independent chama atenção para o fato de que essa estratégia de os grupos comunitários locais passarem a administrar as bibliotecas, ginásios e correios de seus bairros não será suficiente para aplacar o enorme rombo nos serviços públicos causados pelos cortes de gastos promovidos por Cameron.

De acordo com o editoral o The Independent, a ideia de destinar essa quantidade significativa de recursos que estava parada em contas de banco para a área social é, de qualquer forma, bem-vinda. No entanto, é de se questionar a forma como essa destinação de recursos será feita. O programa parece um pouco mais do mesmo. O Big Society Capital será administrado por pessoas diretamente vinculadas ao mundo do sistema financeiro. Seus administradores serão Nick O’Donohoe, que ocupou o cargo de “Gobal Head of Research” do JP Morgan entre 1996 e 201,1 e também o Sir Ronald Cohen, um dos fundadores da firma privada de investimentos APAX.

O discurso que envolve o BSC trata a realidade dos programas sociais como um mercado: fala-se em um mercado de investimentos sociais, em retorno financeiro, em “players”. O vocabulário que envolve o programa é oriundo do mundo do sistema financeiro e não dos movimentos sociais. Não se menciona em lugar algum palavras como cidadania, democracia e transparência.  Isso pode nos dizer muita coisa sobre os interesses que serão priorizados.

E se a ideia de Cameron é favorecer as iniciativas locais, talvez devesse produzir um desenho institucional mais inovador, que fosse capaz de repensar esse protagonismo da City londrina, símbolo do sistema financeiro inglês. Aliás, uma das declarações do Primeiro Ministro no lançamento do BSC foi a seguinte: “For years, the City has been associated with providing capital to help businesses to expand. Today, this is about supplying capital to help society expand. Just as finance from the City has been essential to help businesses grow and take on the world, so finance from the City is going to be essential to helping tackle our deepest social problems.” Cameron acredita que a solução para os problemas sociais mais profundos está na ajuda que a City poderá ofecer aos indivíduos. Mas a solução pode estar justamente na população nas ruas, por meio de um ativismo social e político, exigindo maior controle em relação aos abusos e distorções advindas da City.

As pontes que isolam as ilhas

Por Laila Maia Galvão

Não é novidade estabelecer a conexão da palavra ilha às noções de fechamento, isolamento, restrição e segregação. Por outro lado, a palavra ponte também pode funcionar como metáfora para as ideias de conexão, abertura, interação e troca. As ilhas precisam de pontes para estar ligadas ao restante do mundo e para diminuir a distância que as separam daquilo que existe ao seu redor.

As cidades brasileiras em geral reproduzem em seu desenho urbano a desigualdade socioeconômica de suas populações. Nessas cidades, criam-se bolhas de riqueza circundadas por bairros de infraestrutura precária.

Brasília, apelidada de ilha da fantasia, com seu plano piloto planejado, possui um dos custos de vida mais altos do Brasil. Ao redor de Brasília, a quilômetros de distância da visão de seus moradores, está localizado o entorno, uma das áreas mais violentas e pobres do Brasil. Em Florianópolis, carinhosamente chamada de ilha da magia, há belas praias, hotéis de luxo, baladas internacionais. Para quem fica do lado de lá, no continente, a história é um pouco diferente… o trajeto de ônibus para usufruir das maravilhas da ilha pode levar mais de duas horas(!).

Nessas cidades, a construção de pontes (literalmente e metaforicamente) é imprescindível. E justamente nessas cidades a construção dessas pontes se tornou problemática. Em Brasília, o governo Roriz foi acusado de desviar recursos da saúde pública do DF, que até hoje se encontra em crise profunda, para construir a superfaturada ponte Juscelino Kubitschek, conhecida também como terceira ponte. Poucos anos após a inauguração, a ponte já apresenta desníveis, oscilações e outros problemas de estrutura.

Em Florianópolis, a ponte Hercílio Luz, famoso cartão-postal da cidade, está interditada desde 1982. A partir de 2004, a ponte passou por obras de restauração, com obras orçadas em quantias que ultrapassam os 200 milhões. Há anos está impedida a passagem do cidadão. A previsão inicial é de que somente em 2014 as obras estarão concluídas, mas a prorrogação do prazo já é quase certa. Se não bastassem as obras milionárias e intermináveis, o Diário Catarinense publicou reportagem nessa semana informando que Santa Catarina conseguiu aprovar a maior verba da história da Lei Rouanet para a reforma da Ponte Hercílio Luz. Recursos que poderiam ser destinados a outros projetos culturais agora contribuem para o enorme bolo destinado às obras de uma ponte inoperante. Nada contra a restauração da ponte, que é um dos símbolos da cidade, mas é preciso avaliar de que forma isso será feito – em especial com quais recursos – e como se dará a utilização da ponte após as obras. Uma ponte que não funciona como travessia, pode favorecer ainda mais a segregação.

Dizem por aí que fazer política é derrubar muros e construir pontes. No entanto, as pontes superfaturadas, que desviam dinheiro da saúde e que retiram recursos da cultura, não promovem a integração, mas contribuem para a exclusão. Não são essas as pontes que queremos.

Histórias do desfile da vaca

Por Laila Maia Galvão

Não é mais preciso viajar à Europa ou aos Estados Unidos para se deparar com vaquinhas coloridas em pontos movimentados de grandes centros urbanos como estações de metrô, praças e shopping centers. Algumas cidades brasileiras, desde a década passada, entraram na onda da já-famosa CowParade, em que estátuas de vacas customizadas são expostas em locais públicos por determinado período. A exposição, que já passou por diversas cidades do hemisfério norte e que já circulou pelas cidades brasileiras do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia entre outras, chega agora às cidades catarinenses de Joinville, Florianópolis e Balneário Camboriú.

O evento funciona mais ou menos assim: alguma cidade decide promovê-lo e artistas “locais”, desde amadores e desconhecidos até profissionais e famosos, podem participar da seleção apresentando um projeto. Grandes corporações ou indivíduos isolados podem patrocinar a produção de uma vaca ou até mesmo de um rebanho. Após a seleção, os artistas, devidamente patrocinados, pintam, montam, enfeitam as vacas de fibra de vidro. As vaquinhas ficam expostas ao público e, após a exibição, são leiloadas. A maior parte da arrecadação do leilão é, então, destinada a entidades beneficentes. Quem não pode se dar ao luxo de oferecer o lance mínimo de R$ 5.000,00 por vaca, pode comprar via internet algumas réplicas em miniatura das vaquinhas mais famosas.

Trata-se, segundo os organizadores, do maior e mais bem sucedido evento de arte pública do mundo. São apontados os seguintes números: mais de 100 milhões de pessoas já contemplaram as vaquinhas; mais de 20 milhões de dólares foram destinados a organizações filantrópicas e mais de 5 mil artistas participaram da exposição ao redor do mundo.

A CowParade se auto denomina como public art - arte pública. A arte pública busca retirar as obras de arte do âmbito restrito dos museus e das galerias para colocá-las ao ar livre, em contato direto com seu público e com acesso gratuito. Dessa forma, a audiência se amplia significativamente. A arte pública também se vincula à ideia de que experimentar a arte e a cultura não deve ser tratado como algo supérfluo e secundário e nem deve ser restrito a poucas pessoas, já que constitui um direito humano essencial, assim como descrito na declaração universal dos direitos humanos.

A concepção de arte pública se aproxima, em vários pontos, da ideia de arte de rua. É preciso reconhecer que é tênue a linha que divide as classificações de public art­ – arte pública e street art – arte de rua e que essas classificações não são fixas, sendo continuamente reformuladas. Ocorre que, historicamente, a ideia de arte de rua esteve diretamente relacionada à problemática urbana, com tons mais anticapitalistas e transgressores, já que, muitas das vezes, ela opera como um protesto político. Muitos consideram a arte de rua uma forma mais democrática de arte pública. São interações que se desenvolvem com o espaço urbano em que a arte dificilmente pode ser retirada para uma galeria, colecionada ou comprada por alguém, pois ela pertence à própria cidade. É o caso, por exemplo, dos stencils feitos nos viadutos e nos muros. Se antes essas intervenções eram tachadas de vandalismo, hoje muitas metrópoles estimulam a produção de grafites e outras intervenções artísticas a fim de embelezar espaços urbanos decadentes.

Voltemos às nossas vaquinhas. A CowParade segue e amplia uma tendência de estilo de arte que busca colorir a cidade e que escolhe a vaca como símbolo justamente por ela representar “um sentimento comum de carinho” e por “ela simplesmente fazer todos sorrirem”. A questão é que, sem entrar na discussão se as vacas produzidas são kitsch ou não, elas costumam proporcionar mais um cenário alegre para fotografias de turistas do que uma experiência sensorial mais profunda.

Essa tentativa de evitar controvérsias, muitas vezes, está prevista no próprio regulamento do evento. Em Nova York, por exemplo, a fundação que organizou a CowParade por lá determinou que designs que fossem essencialmente religiosos, políticos ou sexuais não seriam aceitos. Mas a questão é a seguinte: uma vez aberto um regulamento para selecionar projetos “de vacas”, haverá necessariamente uma discussão sobre os critérios de seleção. Uma vez colocada a arte na rua, haverá necessariamente uma interação da arte com o público que não pode ser totalmente prevista e calculada. A arte nos leva além. Da tentativa do controle, surgem histórias que escapam do programado e que demonstram a complexidade do humano. Abaixo seguem algumas dessas histórias. Continue lendo