A Comissão da Verdade e uma divergência não salutar

Infelizmente a Comissão da Verdade, cujos membros foram designados pela Presidenta Dilma Rousseff em Decreto publicado no Diário Oficial da União de 11 de maio de 2012, não foi integrada por nenhum historiador. Longe de querer defender a especialização profissional, considero, contudo, que o período em que prevaleceu o arranjo político-institucional da ditadura civil-militar brasileira deve ser bem delineado, e sobre ele algumas divergências não devem permear os trabalhos da comissão. Pois memória e verdade são construídos por meio de pressupostos fundamentais. E o trabalho de um pesquisador do período histórico traumático da recente história política brasileira (1964-1985) poderia auxiliar, e muito, a clarificar tais pressupostos.

O pressuposto fundamental é o de compromisso com a superação de arbitrariedades violadoras de direitos humanos praticadas no regime de exceção que vigorou no país de 1964 a 1985. Esse pressuposto se coaduna com o compromisso com a democracia e também com a superação concreta das marcas deixadas por um período obscuro de nossa história. Significa construir uma memória coletiva do período, promover a justiça e não apenas esquecer o passado.

Sobre que divergência da Comissão escrevo? Uma, apenas, fundamental, e até hoje não superada: caberia à Comissão apurar e esclarecer supostas violações de direitos humanos também cometidas por grupos militantes de esquerda tidos, à época, por “terroristas”? Continue lendo

Um dia tão cinza

Por João Vitor Loureiro.

Para o Luiz Eduardo, por escritas menos quadradas. 

Estava ali. Silenciada no meio do caos urbano. Uma palavra que caísse em seus ouvidos poderia soar como cor em um dia tão cinza. Trambolhava papéis, lia notícias, via sua vida em rápidas postagens, curtas digitações, explosivas sensações.

Completava vinte e poucos anos, miúda, olhos grandes e cabeça inquieta. Observava todos aqueles carros que iam e vinham, e por vezes se encalacravam rua abaixo. Uma distância enorme entre os seres afogados em rotinas, silêncios e desconversas. Abraçava seus livros com cheiro de novo. E pensava…

Pensava: “cheguei a este mundo”. Devassado, devastado, curto, no qual a brevidade cabe na palma da mão; encerra-se em setenta e poucos anos de vida dessas criaturas bípedes. Cheguei a este mundo, em que produzir é um imperativo, e onde em espaços poucos assomam-se milhões de vontades e necessidades, cada vez mais distantes entre si, sem tempo para tomarem de assalto seus corações em cores, descobertas, sons e texturas. Exploravam seus sentidos como mercadorias: quanto mais sensação, mais caras.

E viu uma debilidade dócil diante do que chamaram mercado: a vida é assim. Exige isso. Foi ensinada, treinada nesses termos. Observava, com uma azia indecifrável, aquela pasmaceira que contaminava governos e poderosos: corrompiam-se por campanhas e financiamentos, jogavam no lixo bandeiras e vontades. Bastava o silêncio, a patifaria. E o lixo, esse era o vácuo dos sentimentos perdidos. Aterravam-nos com grandes camadas de terra. Lá despejavam toda sorte de ultrapasso, velharia, descompasso social: desde máquinas a mercadorias outrora caras, aduladoras de sentidos. Aterravam diferentes, menores, ignóbeis, desajustados, insatisfeitos.

Voltou a abraçar seu livro. Enxergava todo o excesso de micro-poderes, micro-ameaças, microfísicas, micro-homens e micro-verdades nas páginas incessantemente viradas. Sentia-se idiota por ver, por outro lado, quanto de grandes acordos haviam sido feitos, quanta meia-verdade prevalecia: os bípedes acordavam quantas horas iriam trabalhar, quanto dinheiro iriam ganhar por isso, quanto custava sua saúde, sua educação, seu teto onde estariam abrigados do vento, da chuva e dos “aterrados do lixo”. Acordavam que roupa iriam usar, que barriga, seios e peitoral iriam ter, que aos dezoito anos teriam uma carteira, um carro e algumas possibilidades. Que suas vidas dependiam de sucesso. E que sucesso era diretamente proporcional a esforço pessoal e mérito.

O silêncio a perturbava, tornava seus olhos ainda mais arregalados. Estava ali, naquele apartamentinho abafado no centro da cidade, engolida pelo barulho quotidiano e ainda assim, afogada em silêncio e solidão. Tinha seu livro, ao menos…Um livro…Que lia, afinal? Muitas páginas, muitas palavras, algum sono, várias pausas e reflexões. Voltou à contracapa: “a grande ilusão”. Diziam que era um best-seller. Foi-se dando conta que era um grande engodo, isso sim.

Foi-se dando conta também de que vinte anos passaram, e ela via isso tudo acontecendo sem ter dito nada, expressado nada, escrito nada. Lia, pensava e tal. Apenas lhe ocorriam azias espasmóticas, dores de cabeça ou náuseas. Incomodava-se com o gigantismo e o excesso maquinado de uma vida tão desumana. Preocupou-se com o tempo em que se absorvia de atividades inteiramente inúteis para o que queria.

Voltou com uma velocidade impressionante seu pensamento ao lixo e tudo o que lá estava aterrado. Tudo sobre o que estava jogado uma porção de terra e quinquilharias. Havia amigas e amigos muito importantes e valiosos por lá: esperança, luta, sabedoria, criatividade, cafuné, abraço, ternura, crítica, todos esquecidos sob grossas camadas. E pensou que seus vinte e poucos anos foram outro engodo: tomava muitos medicamentos para que parecesse nova, inovadora até. Sua idade era muito mais antiga, mas foi confundida pelos bípedes, para que representasse o nov…O novo? O que? Por favor!!!! Essa palavra era uma espécie de confusão mental…O novo, o novo, o novo…E o velho ia sendo enterrado naquele lixão. Percebeu que havia esquecido seu próprio nome!

Seu nome! Como era? Não é possível que tenha sido tão desmemoriada.

Seu nome…

Não lembrava de si, afogada em leituras, algumas azias e dores! In-su-por-tá-vel. Decidiu ir ao lixo procurar seus amigos soterrados.

Começou a cavucar, e fundo, entre soluções, desesperos, choros e angústias…A terra e as quinquilharias eram intermináveis. Muitas. Mas não desistiria. Seus amigos haviam de estar ali embaixo, e vivos.

Aos poucos, depois de muito tempo cavucando, sentiu-se fraca. Mas continuou, mesmo com os braços dormentes. Começavam a surgir umas palavrinhas abafadas, bolhinhas de gás-palavra que brotavam do fundo…aos poucos, em meio àquelas frestas, podia ver cada um de suas amigas e amigos perdidos, clamando por serem resgatados. Subiam as palavrinhas feito metano do fundo, de forma muito rápida… “São” “Uço”, “Vo”, saíam da terra, abafadas e pouco ou nada decifráveis.

Foi quando lhe interrompeu um homem meio esquecido ali do lixão, muito bonito, porém surrado pelo tempo e profundamente maltrapilho. Via ansiedade nos olhos grandes daquela menina-mulher, a cavucar o monturo de cacarecos. Aproximou-se. Perguntou: Que foi, que desepero é esse? Que queres achar?

E ela: “Eu mesma. Esqueci meu nome”.

O homem: “Esqueceu? Poxa, isso deve ser horrível. Muito prazer, meu nome é Amor. Se puder ajudá-la em algo…

A moça: “como faço para remover esse lixo?”

“Não sei… Mas vejo que está muito nervosa. Quer um cigarro?”

Foi quando Amor chegou mais perto da moça, arrancou de seu bolso um cigarro esquecido e amassado. Colocou-lhe em sua boca. E acendeu um fósforo.

As palavrotas metano! As palavrotas metano! Correram feito doidos por ali. Meio que inútil:

Explodiu uma hecatombe de grande som, enorme, estrondoso, poderoso: REVOLUÇÃO!!!!!

Lembrou de seu nome, e o Amor, sobre esse tinha certeza de que era um velho conhecido…

O lixo deixou então de existir.

O Kirchnerismo mostra os dentes

Por João Vitor Loureiro.

Cristina Fernández de Kirchner tem um compromisso claro. Seu compromisso é com a população de que é mandatária, diferentemente de algumas democracias que prestam devoção a bancos e empresários financiadores de campanhas. Após a decisão da Casa Rosada, de restabelecer o controle estatal das ações do Konzern YPF (Yacimientos Petrolíferos Fiscales), gigante da produção de hidrocarbonetos, o kirchnerismo escreve nova página no anuário da economia argentina.

O ocorrido deixa uma mensagem muito clara a investidores internacionais, primeiro-regimento da infantaria pesada que contra-ataca as medidas: a Argentina não é uma ilha paradisíaca de investimentos rentabilíssimos, onde se encontram matérias-primas a preço de banana, mão de obra a preço de banana, regras de mercado (sim, regras efetivas, de mercados devidamente regulados, e nao autorregulados) molengas feito banana e governos de bananas, silentes com relação à tranquilidade com que oligopólios multinacionais evadem divisas e expropriam riquezas, realimentando a lógica de exploração e divisão de tarefas norte-sul.

O Kirchnerismo, assim chamada a cultura política que vem assumindo forma e conteúdo e marcando o século XXI no vizinho brasileiro, remonta suas origens ao peronismo de esquerda. Tanto Cristina quanto seu falecido Néstor militaram, ao longo dos anos 70, à frente da esquerda peronista. Contudo, o sonhado nacionalismo que protagonizou o populismo argentino do século passado fora desmoronado na era em que Carlos Menem esteve no poder, nos anos 90, deixando como legado um país sacodido pelo cambalacho das privatizações do período. Dentre tais privatizações, significativa parcela da YPF fora vendida à Repsol, gigante espanhola do setor, e o Estado argentino perdido o controle sobre a exploração de recursos petrolíferos. A portentosa onda privatizante do país na década de noventa significou também a Argentina como único país da América Latina sem o controle de exploração de recursos petrolíferos, e isso independentemente de que orientação ideológica coadunam os governos latino-americanos  hoje assentados nos Parlamentos e no Executivo. Deve-se, aí sim, a circunstâncias históricas, tendo o neoliberalismo da década de noventa, como vimos, abocanhado o setor na Argentina.

Cristina, muito ciente desse fato, e diante do baixíssimo nível de investimento que a Repsol vinha conferindo à economia do país, tomou a decisão. Permanecem os acionistas da família Eskenazi e os investidores de fundos de investimento estadunidenses.

Em momentos como esse é que se torna clara e ululante a dimensão das relações entre instituições públicas e capital privado: a União Europeia, por meio do Presidente de sua Comissão, José Manuel Durão Barroso, já se declarou seriamente decepcionado, enquanto o FMI, também encabeçado pelos europeus, lamentou o que avaliou como postura imprevisível. O presidente da YPF afirmou que irá demandar diante do tribunal de arbitragem do Banco Mundial, para preservar o valor de todos os ativos da Repsol e os interesses de todos os seus acionistas. Completou um dos ministros do governo Rajoy que: “Qualquer gesto de hostilidade contra uma empresa espanhola, o Governo interpreta-o como um gesto contra Espanha e contra o Governo espanhol”.

Em um momento de crise do capitalismo mundial como a que vivemos, e ainda mais no contexto espanhol, a nacionalização empreendida pelo governo de Cristina, na linha de outras nacionalizações já efetuadas no governo de seu marido, como foi o caso da Aerolineas Argentinas, antes nas mãos da espanhola Iberia, e os Correios, para citar alguns exemplos, fere diretamente os interesses da classe empresarial de uma Espanha estagnada, que vislumbra senão em práticas extranacionais de exploração de recursos, sem contrapartidas de investimento, uma saída. Um recurso desesperado a lucros para reinvestimento na Espanha. Seguramente, as fronteiras nacionais falam mais alto em momentos como esse, mesmo que as falsas pretensões do capitalismo mundial digam o contrário: num tabuleiro de nações regido por regras da “ordem mundial”, qualquer jogador que ameace desrespeitar tais regras, que legitimam sua estrutura desigual, são tachados de irresponsáveis. “Pacta sunt servanda”, alguns dirão. Contudo, num contexto de governos predecessores que são, estes sim, irreponsáveis, não é admissível manter um pacto prejudicial aos interesses nacionais. E o petróleo, sabemos muito bem, é estratégico para qualquer desenvolvimento econômico que se queira sustentável em longo prazo, e que possa significar a distribuição de riquezas para um país.

Evidentemente, a medida denuncia não só o núcleo pragmático do Kirchnerismo argentino, marcado pelo desenvolvimentismo de esquerda, a cooperação sul-sul e o rechaço ao neoliberalismo. A renacionalização da YPF (sim, ela já foi nacional antes, a medida reduziu o percentual de participação da Repsol de 57 para míseros 6%) significa redimensionar o que foi pessimamente dimensionado. Absurdo! absurdo!, esbravejam os liberais de plantão. Será mesmo absurdo uma empresa erguida fortemente com dinheiro público, vendida a mixarias no passado, não voltar ao controle do Estado? Se Estado não é necessariamente público, repetirão, quem deve ficar com o controle da empresa?

É certo que o estatal é sim público, em casos como esses.  A deontologia do “estatal como público” se ontologiza aqui. Não é nas mãos de grupos empresariais estrangeiros, obviamente, que a empresa se fará pública, que o controle social aumentará ou a população poderá ver revertidos para si benefícios da exploração da atividade.

Certamente, nacionalização possui um significado mais importante na linha de frente dos discursos kirchneristas. É mais que mera estatização, exatamente por reforçar essa carga de que o controle da empresa é dos argentinos, que elegem seu governo e decidem que tipo de política de exploração de recursos minerais querem ver em curso no seu país, ou quase isso.

Se o protecionismo afugenta investidores e inibe a produção, se a Argentina está com inflação na casa dos 20% ou se a Ley de Medios está dando rasteiras na oligofrenia dos principais jornais à direita e antigovernistas, a Argentina inaugura uma nova fase em sua história, a fim de recuperar a saúde de sua economia, resgatar a vitalidade perdida ao longo do final do século passado e empreender a árdua missão de crescer integrando-se a seus vizinhos, mesmo diante da clara dispridade competitiva entre o Brasil e ela mesma. Mais que isso, a Argentina reaquece o debate sobre a herança neoliberal na América do Sul, e deixa clara a necessidade de priorizar investimentos nacionais. Deixa também claro que o compromisso com o povo dispensa falsas seguranças jurídicas. E deixa também um recado à imprensa espanhola, que trata o assunto nos tons de uma verdadeira guerra: el petroleo es nuestro.

Seguros, segurem-se: a polícia vem aí!

Por João Vitor Loureiro

Não esquecemos o passado presente. 

A memória coletiva não se cozinha com a enxurrada de informações que os meios de comunicação social nos oferecem. Refrescá-la é uma atividade permanente, pelo menos para os inquietos, sabem por quê? Porque informação não se dissolve ao dissabor do excesso: somos criaturas sociais, e por isso mesmo empoleiradas nas hastes das identidades. A informação, exatamente porque pública e social, define-se na arena do debate. Sobre ela, permanentes juízos, filtros, críticas. Nela, cimentamos ou ao menos tentamos cimentar compreensões sobre a realidade.

Pois bem, essa compreensão crítica da realidade a partir de um conjunto de informações é que nos importa. Que informações? Refiro-me aos eventos divulgados pelas mídias no último ano, marcados pelo conflito, em que forças policiais militares assumiram um papel de protagonista: Pinheirinho, Cracolândia, Manifestações de movimentos grevistas, implementação do sistema de UPPs nas favelas cariocas, repressão a estudantes na USP.

Minimamente sintomático que uma parte importante desses eventos tenha tomado corpo e forma na cidade de São Paulo e seus entornos. Exagero? Nenhum. Já explico. É precisamente em São Paulo, em comparação com outras capitais brasileiras, onde a relação habitante-cidade possui um dos piores dimensionamentos do país. E é exatamente essa péssima relação dos habitantes com o espaço de que fazem parte que impulsiona os excessos do vigilantismo punitivo, julgando necessário o uso e reforço de forças policiais.

Não estou menosprezando o elemento político que envolve cada uma das decisões de utilizar a polícia na resolução de conflitos. Por isso mesmo, é importante observar que esses conflitos foram definidos como conflitos porque os atores políticos, tomadores de decisão, assim o fizeram. A decisão de policiamento da Cidade Universitária pela PM partiu da Reitoria da USP – que também decidiu recentemente trocar o chefe da segurança universitária por um coronel da Polícia Militar paulista, a decisão de utilizar a polícia para cumprir ação de despejo partiu de gabinetes do Judiciário e do Executivo paulista, a decisão de enxotar usuários de crack do centro de São Paulo partiu também de gabinetes do Executivo paulista… Nesse sentido, agentes políticos comprometidos com polpudos financiadores de campanhas, com especuladores imobiliários, ou mesmo com irreais espaços onde segurança se torna sinônimo da hegemonia de uma organização espacial moralista e “ordeira“, fazem diferença sobre que papel esses agentes imprimem à polícia.


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São Paulo: negar direito à cidade, afirmar o direito à segurança policial.

Voltando à proposição de que em São Paulo a relação entre habitante e cidade é pessimamente dimensionada, aponto três fatores que sustentam essa constatação: 1) o forte elemento de construção histórico-espacial da cidade, no qual predomina um sentimento de dinamismo de negócios, proliferação de oportunidades e determinação subjetiva por meio de conquistas pessoais, 2) a multiculturalidade ocultada pelas formas de organização do trabalho na cidade e 3) o menosprezo a formas de construção coletiva do espaço urbano.

Vamos analisar cada um desses fatores para entendermos porque São Paulo é uma cidade que chega a negar o direito à cidade a seus habitantes, e daí compreenderemos por que motivo o uso da polícia tem sido tão recorrente para resolver situações de aparente conflito, instaurado exatamente porque tensionado pelo uso de forças policiais.

1) o forte elemento de construção histórico-espacial da cidade. Para além de toda uma simbologia cultural do mito bandeirante, apartado mas ao mesmo tempo em simbiose com a coroa portuguesa, da qual alguns sociólogos e historiadores são adeptos, São Paulo constituiu as condições para seu processo de industrialização crescente no século XX, sobretudo através da formação primitiva de capital proporcionada pelo boom da economia cafeeira no século XIX e a extinção do entrave que o tráfico de escravos representava. A formação da economia industrial tomou corpo, conteúdo, e sobretudo espaço. Trabalhadores ditos livres, afluxos migratórios já proporcionados pelo crescimento da economia cafeeira, linhas férreas conectando a cidade ao litoral. E daí, galpões, fábricas, mais afluxos de imigrantes e importações. Certamente o grande impacto que sofreu a cidade foi a criação do parque industrial do ABC paulista, já no período do desenvolvimentismo do governo de Kubitschek, a fim de substituir as importações crescentes. O espaço da cidade prioriza, a partir daí, a lógica automotiva: abrem-se ruas e mais avenidas, vias e gigantescas artérias onde o carro, símbolo máximo das conquistas pessoais, sonho de muitos, por vezes regalos para estudantes recém aprovados em vestibulares ou para casais recém-casados, ocupa completamente as dimensões da cidade. É claro, a indústria, o crescimento econômico, a dinamização das atividades produtivas e de serviços agiganta-se e se complexifica e, em carona com o modelo de desenvolvimentismo concentrado no eixo centro-sul brasileiro, envolve a cidade na dinâmica das grandes capitais. A lógica do dinamismo econômico abrilhanta olhos de estudantes interessados em MBAs, mundo de negócios, potencialidades, empregos melhores. O mito do homem de sucesso, executivo, ou de chances escritas pela sorte multiplicada na velocidade da indústria impulsiona fileiras de migrações regionais e a ocupação do espaço da cidade com um sentido prioritário: aqui há chances, aqui se trabalha, aqui se vive. Nasce o mito do paulistano como o mais intenso trabalhador do Brasil, workaholic. E, com ele, toda a carga de menosprezo em relação às dinâmicas regionais do Brasil, tidas como resto, residuais, como acompanhamos nas últimas eleições presidenciais. E com ele, o menosprezo quanto à condição pública do espaço urbano: ideia de que “meu carro me basta”, “minha família e minha casa cercada me bastam“. A sensível carência de sociabilidades públicas tornou a cidade careta: beber na rua é proibido, fumar é proibido, e toda sorte de leis moralistas municipais emplacam sociabilidades restritas a recintos claustrofóbicos, a clubes ou à casa. Esse universo de dinamismo econômico impulsiona, portanto, a determinação das pessoas pelo trabalho que exercem e sobretudo aos bens materiais que conseguem acumular para si. Isso, diante de condições de desigualdade social (e evidentemente material) enormes e de destratamentos de usos públicos para a cidade, impulsiona um sentimento de paranoia coletiva, que julga imprescindível um guardião e vigilante perpétuo de “minhas coisas”. Uma polícia instrumental, cuja finalidade seja prender ladrões.

2) O trabalho em São Paulo oculta a multiculturalidade da cidade. Isso guarda relação com o modo como as pessoas vivem o espaço urbano. Bolivianos, chineses, angolanos, e toda sorte de povos que construíram e constroem a história da maior cidade do país são diariamente absorvidos pela lógica de trabalho na cidade. Diante de um momento em que o crescimento econômico não dá sinais de plena vitalidade, qualquer emprego representa as possibilidades que a cidade traz consigo. Idem para a parcela de nordestinos, retirantes de diferentes rincões do país, a depositarem nas tarefas braçais e nos trabalhos menos especializados suas esperanças. São inúmeros subempregos, condições de trabalho análogas à de escravo, trabalhotes que requerem uma carga enorme de energia e um esmero intelectual mínimo, quando nenhum. Essa forma reconstrói ou desconstrói algumas identidades: o outro, o diferente, muitas vezes é reduzido a essa ocupação social de seu trabalho, e nada mais. A carência de espaços públicos, de eventos e celebrações onde diferentes culturas possam exprimir suas identidades – e aqui também me refiro à baixa comunicação entre cultura da periferia e as zonas centrais da cidade, agrava ainda mais essa miopia à multiculturalidade da cidade, provocada pela desintegração social do ritmo do trabalho. Significa que, à medida em que mais e mais pessoas passam a fazer parte da cidade, a compor seu espaço, cada vez menos ocupam esse mesmo espaço com um ritmo que não o do trabalho intenso, das jornadas estafantes, da preocupação com trabalhar para comprar os últimos produtos fashionistas, travar a fastidiosa luta pela determinação material dos sujeitos. As pessoas não se conhecem, as pessoas não se reconhecem.

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3) São Paulo menospreza algumas importantes formas de construção coletiva de seu espaço. Isso é vital para entendermos que a apropriação da cidade pelas pessoas é colocada em segundo plano, cedendo passagem para que poderosos investimentos imobiliários, arranhas céus e grandes obras de desafogamento viário passem à sua frente, sejam priorizadas num espaço onde já prevalecem a paranoia da verticalidade, o brutal excesso automotivo e a desarmonia do concreto. São Paulo não abraçou a possibilidade do orçamento participativo, ferramenta concreta de decisão descentralizada (ainda que com todos os problemas que tem), para aproximar o sentimento de pertencimento e direito à cidade pelas pessoas que nela habitam. Para além disso, a cidade carece de instrumentos de negociação coletivos, construção compartilhada do espaço urbano. Exemplo claro dessa surdez é o caso da Luz/Santa Efigênia, com o unilateralismo das medidas de “revitalização” espacial, como se o mesmo espaço estivesse morto até sua implementação.

Segurança não prescinde de sentir. Sentir, ocupar, descobrir. Sem medo. 

Pois bem. Esse cenário não é prerrogativa de São Paulo, pois acontece, de uma forma ou de outra, em outras capitais brasileiras. Contudo, acirra-se fortemente naquela cidade, por contradições e influxos que o próprio processo de urbanização e industrialização lhe imprimiram.

E o que isso tem a ver com segurança? Tudo. As ruas mais seguras do planeta não fazem imprescindível um policial à espreita, à cata de qualquer eventual criminoso. Exatamente porque são seguras. Segurança pública decorre de um sentimento. E um lugar seguro depende de que as pessoas se sintam seguras para que assim o seja.

Tomemos como exemplo capitais europeias, essas tão formosas cidades para onde algumas pessoas vão passar temporadas e voltam vislumbradas com o sentimento de segurança que lá encontram. Sentimento que decorre, na maior parte das vezes, ao fato de haver outras pessoas circulando nas ruas, pontos bem iluminados e limpos, parques onde se anda de bicicleta, se fazem convescotes e churrascos, ou mesmo áreas inteiras fechadas para acesso a pedestres, onde funcionam bares, pubs, feiras e outras diversões de rua. E que decorre, muito menos, da presença de um ser humano fardado, com algemas e arma na cintura, rondando parques e travessas, protegendo propriedades e açoitando “meliantes”.

Uma cidade, um espaço seguro é exatamente aquele que é devidamente apropriado pelas pessoas, efetivamente público, com condições de sociabilidade, interação e sentimento de pertencimento a ele. Utilizado para fins que não a exclusiva esquizofrenia diária do trabalho, consumo, acumulação. Dimensionado conforme as necessidades dos seus usuários. Compartilhado em seus usos públicos, e efetivamente aproveitado para a interação, comunicação, cooperação e o importantíssimo processo de sociabilização.

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Afinal, São Paulo com todos os seus policiais nas ruas, conseguiu reduzir índices de homicídio de maneira significativa. Em contrapartida, os índices de crimes contra o patrimônio (furto, roubo) tem crescido exponencialmente: crescem as ocorrências registradas, a vigilância constante, o espetáculo euforizante de ações policiais, noticiados em programas de TV como Cidade Alerta, Brasil Urgente e tantos outros, que promovem a sensacionalização do policial e da punição como se fossem instrumentos eficazes de promoção da paz social.

Diante de uma evidente desapropriação social do uso coletivo do espaço urbano, onde também está presente um déficit habitacional enorme, de cerca de 800 mil unidades residenciais, São Paulo tem eleito o policial como herói de seus problemas. A ele cabe a difícil tarefa de fazer a cidade desagradável parecer agradável, por meio de ações higienizatórias. A ele incumbe promover um sentimento de segurança que menos tem a ver com segurança e mais com a certeza de punição. A ele incumbe preservar os domínios dos poderosos em cumprimento a ordens judiciais. A ele compete transmitir a falsa ideia de ordem e estabilidade, num contexto marcado pela desigualdade e conflitos permanentes.

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Segurança não se conquista com mais policiais nas ruas. Em situações onde o conflito não aparece com toda força, menos ainda: Pinheirinho, Luz, USP são conflitos fortemente tensionados pela presença policial: dicotomizam-se disputas contra as classes e grupos já inferiorizados, transformados em inimigos. Sejam eles moradores de rua, dependentes químicos, ocupadores de áreas urbanas, usuários de maconha, estudantes universitários, moradores de favelas, professores em greve, funcionários em greve. A polícia passa a vigiar e coibir uma parte importante de diferentes estratos sociais. Sua presença forja um modelo de segurança que vale da arbitragem social, para cristalizar ordem no contexto de conflito. Uma política de segurança com foco na polícia não pode ser tida como política. Política de segurança envolve a comunidade (os diferentes setores que a compõem, polis, múltiplo), passa por sua integração e fortalecimento. Segurança efetiva, aí sim, é resultado da apropriação e uso correto do espaço coletivo, da construção coletiva desse espaço, no qual as pessoas possam exercer suas atividades sem a paranoia repressiva. Sem acreditarem que o que as tornam mais ou menos seguras não é um guarda rondante, mas o fato de elas poderem guardar umas as outras, como parte de um mesmo espaço. O fato de esse espaço deixá-las sentir parte dele, e de todos.

Seguros, segurem-se: a polícia vem aí!