Pelas rádios comunitárias

Por Clarice Calixto
A importância política das rádios comunitárias é um tema crucial em qualquer discussão séria sobre as relações entre regulação da comunicação e democratização da democracia (pra usar uma expressão bem famosa do acadêmico portuga que os esquerdistas adoramos, o Boaventura).

Penso muito sobre essa tal “voz livre do morro” desde que vi o filme “Uma Onda no Ar”, do meu conterrâneo Helvécio Ratton.

Não me sai da cabeça a irônica cena em que enquanto os policiais entram no barraco atrás dos transmissores “piratas”, rola um telefonema da ONU dizendo que aquela pequena rádio de uma favela mineira havia ganhado um prêmio relacionado a cidadania…

E um detalhe importante: o filme é baseado numa história real: a história da Rádio Favela, que surgiu nos anos 80 na Serra, em Belo Horizonte.

Pra quem não viu, vale espiar o trailer:

http://www.youtube.com/watch?v=ose1sOSS898

(Ou dar uma lida na crítica que saiu na Folha à época: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/critica/ult569u890.shtml)

Como hoje o Leonardo Sakamoto escreveu um post bem incisivo sobre o assunto, resolvi compartilhá-lo aqui no nosso blog:

“29/04/2012 – 13:15

Liberdade de escolha, sim. Mas dentro das opções oferecidas 

Creio que alguns de vocês devem ter ouvido as campanhas contra rádio consideradas irregulares movidas por associações de empresas do setor. Umas delas até usa um pastor como personagem, explicando aos fiéis que não precisam de “rádios piratas” para rezar. Na verdade, não precisam nem de rádios e TVs comerciais para fazer uma conexão direta com o divino – mas isso é outra história.
É claro que há muita rádio pirata que só serve para encher o bolso de picareta. Mas as campanhas colocam no mesmo bolo, propositadamente, rádios comunitárias, de baixa potência, que democratizam a comunicação e são um importante instrumento de cidadania para populações que vivem à margem dos benefícios desse berço esplêndido, que nunca são retratadas devidamente pelos meios de comunicação convencionais devido às nossas prioridades, incompetências e ignorâncias. Geram pânico nos desavisados, dizendo que as rádios são capazes de derrubar aviões e interferir no trabalho da polícia – o que é ridículo. É raro interferências ocorrerem mas, quando aparecem, não fazem distinção de legais ou ilegais.
Pedem para a população ser “consciente” e não ouvir rádios comunitárias. Felizmente, falam para o vazio, pois poucos dão bola a esse chamado. Se uma rádio passa informação útil, as pessoas ouvem. Então, como maus perdedores, apelam para leis construídas de forma bizarra em tempos pré-históricos e usam a polícia para tomar transmissores e calar essas vozes. Isso sem contar o abuso de autoridade que rolam no momento do rapa policial.
Para que o povão precisa de acesso a uma rádio, não é mesmo? Ouça a nossa, ué! Liberdade de escolha, sim. Desde que dentro das escolhas que disponibilizamos a vocês, claro. Nada de ficar inventando onda! O que vocês pensam que esse país é? Democrático?
Há um forte movimento para legalizar e ampliar as emissoras comunitárias por todo o país, mas o apoio técnico, legal e financeiro a iniciativas populares nessa área é risível. Qualquer esfera de governo está mais interessada em aportar recursos em veículos privados com grande audiência ou em veículos parceiros de mídia, que defendam o seu ponto de vista. Além do mais, interessa que a concessão de rádios continue sendo garantidas e renovadas a apenas alguns sortudos, com poder político e econômico, deixando a população organizada do lado de fora.
E quando digo populares são populares mesmo, lá da base, do chão de terra, da viela da favela, da comunidade de imigrantes latino-americanos. Não estou falando de agências que se intitulam livres, alternativas ou independentes e que, apesar de conectados com movimentos sociais, são produzidos por profissionais de comunicação com mais acesso a recursos. Estes precisam de apoio também, mas os comunicadores populares são prioridade.
A briga ainda será bem longa, pois o que acabo de dizer não é consenso nem entre progressistas, quem dirá entre os conservadores. Por isso, se você conhece alguma rádio comunitária, escute, divulgue, recomende, participe. Exerça sua cidadania, disparando sua voz. A participação em muitas dessas rádios é livre e gratuita, você pode montar seu próprio programa, independente do que você pense. O espectro invisível é de todos nós.”

Fonte: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2012/04/29/liberdade-de-escolha-sim-mas-dentro-das-opcoes-oferecidas/

Zerói preto

Por Clarice Calixto

Está rolando em Brasília nestes dias (até 29 de abril) uma exposição do Ziraldo com grandes telas de zeróis, releituras do artista a partir de figuras de super-heróis.
A exposição é linda, ainda que me incomode de alguma forma esse fetiche com quadrinhos norte-americanos com estórias norte-americanas, humor norte-americano, costumes norte-americanos, que se impõe pela indústria cultural como se fossem mais interessantes que outras muitas formas de quadrinhos, estórias, piadas, costumes muito mais próximos da vida da gente, como os argentinos (como a genial Mafalda de Quino) e os chilenos (como o Condorito de René Ríos).
Dentre as telas, uma é especialmente impactante: o zerói preto.


E resolvi trazer aqui pro blog a figura desse zerói porque na lista de fatos históricos que aniversariam este mês, há o seguinte: no dia 25 de março de 1807, a Grã-Bretanha proibiu o tráfico de escravos para os EUA. Acabado o tráfico, começa aos poucos a morrer o vergonhoso instituto da escravidão. Aos poucos.
150 anos depois, nesses mesmos EUA, o ainda racismo persistia, acirradíssimo, implacável.

O zerói preto é irônico porque responde à crítica pesada que o Ziraldo recebeu por causa da (infeliz, ao meu ver) imagem relativa à polêmica sobre o racismo na obra de Monteiro Lobato.
O zerói preto é impactante porque nos lembra que os super-heróis NÃO são pretos.
E que isso é fruto, sim, do racismo.

O zerói preto é relevante porque nos lembra dos heróis pretos da vida real. No mundo real, muitos heróis são pretos. Especialmente por lutarem contra a tragédia do racismo.

O golpe da manchete: Folha, Dilma não apoia FARC

Por Clarice Calixto

Grosseiramente dizia a Folha.com nesta semana: “Farc agradece e aceita apoio de Dilma Rousseff”.
Ao clicar nessa manchete e ir até a notícia, descobrimos que ela trata da decisão das FARC de banir a prática do sequestro. Só isso diz o texto.
Mas e o suposto apoio de Dilma, onde fica?
Bom, SE o leitor assistir ao vídeo que a notícia disponibiliza como mero apêndice, ele descobre que o tal apoio refere-se à oferta do governo brasileiro de mais uma vez auxiliar na logística do processo de libertação de reféns sequestrados pelas FARC.
Nas últimas libertações, esse apoio logístico consistiu em helicópteros brasileiros com pilotos brasileiros, que resgataram nas inóspitas montanhas colombianas reféns há anos presos pelas FARC.
A atuação das FARC é uma chaga na história da Colômbia. Ainda que seja defensável a guerrilha contra a injustiça do sistema capitalista e o neocolonialismo americano que subjuga o país há décadas sob a etiqueta de guerra anti-drogas, o modo como ela foi e é conduzida pelas FARC tornou a sua luta mais um instrumento de exploração dos pobres e realização de crueldades. As FARC têm levado dor e sofrimento aos colombianos, especialmente aos trabalhadores do campo.


Um relato impressionante dessa dor pode ser visto no delicado Pequeñas Voces (imagem acima), de Jairo Eduardo Carrillo e Oscar Andrade, filme exibido na Mostra Cinema e Direitos Humanos, em janeiro de 2012, por iniciativa do Ministério da Cultura e da Secretaria de Direitos Humanos do governo Dilma, imagine.
Associar levianamente Dilma às FARC foi um golpe muito baixo da manchete da Folha, que se torna ainda mais repugnante se nos lembramos de um pequeno detalhe: a pretensão de neutralidade da posição política do jornal, discurso da Folha em seu influente Manual de Redação.
Enquanto os grandes veículos midiáticos brasileiros insistirem em se afirmar “neutros” (com exceção do Estadão e da Carta Capital), herança anacrônica do chamado “jornalismo independente” da década de 60 nos EUA (já há muito abandonado na terra de Sam), esse tipo de manchete só pode ser considerada desonestidade. Infelizmente.

O sucesso é dos heróis?

Por Clarice Calixto

“Os brasileiros pobres que estudam e trabalham são verdadeiros heróis. Submetem-se a uma jornada de até 16 horas diárias: oito de trabalho, quatro de estudo e outras quatro de deslocamento. Isso é mais do que os operários no século XIX.” Márcio Pochmann

A afirmação de que o brasileiro pobre estudante-trabalhador gasta 4 horas por dia se deslocando pode parecer exagerada. Só parece.
Uma simples olhadinha na internet em busca de dados sobre transporte urbano em capitais como São Paulo, Belo Horizonte ou Recife é suficiente pra verificarmos que a coisa tá mesmo braba quanto ao transporte coletivo.


Fonte: Observatório das Metrópoles

Cresce a cada dia, em ritmo acelerado, o número de pessoas que passa mais de 1 hora no trajeto casa-trabalho.
Se esse número cresce, cresce especialmente sobre os pobres, como demonstram relevantes pesquisas sobre o tema, disponíveis aqui e aqui:
E se as maiores vítimas da tragédia da mobilidade urbana são os pobres, vamos voltar ao começo da fala do Pochmann, pra refletir sobre outras tragédias:

“Os brasileiros pobres que estudam e trabalham são verdadeiros heróis”.

A genialidade dessa fala está menos no que diz e mais no que sugere.

Num elogio ao heroísmo (inegável) dos brasileiros pobres estudantes-trabalhadores, Pochmann (paradoxalmente) nos permite levantar interessantes questionamentos sobre essa tal meritocracia.

Num país em crescimento, com maior acesso à universidade, com maior formalidade no mundo de trabalho (que me recuso a chamar de mercado de trabalho porque trabalho não pode ser mercadoria, já nos diz a OIT há uns 30 anos), as oportunidades aparecem para ricos e pobres. Assim dizem os entusiastas da meritocracia, com uma boa dose de romantismo tipo filme americano de time de baseball falido tentando dar a volta por cima pela motivação de cada um dos seus jogadores que dá o máximo de si em horas e horas de treino e de repente ganha milagrosamente o grande campeonato da cidade.

Enfim, basta dedicação, concentração, disciplina, e pronto: sucesso garantido.

Os estudos sociais que demonstram a estupidez dessa fórmula são inúmeros. Um dos mais interessantes deles é o de Jessé de Souza, já várias vezes citado neste blog, que desmistifica a excessiva fé na educação como capaz de extinguir a desigualdade social:

“O problema é que a competição social não começa na escola. Ela começa em casa, no berço, na imitação (…). Se os pais ou figuras de referência são indivíduos de classe média ou alta, ou seja, indivíduos que aprenderam a ser disciplinados, autocontrolados e a verem o futuro como mais importante que o presente, vamos ter também certas virtudes de classe, como a que permite a ‘capacidade de concentração’, algo determinante no sucesso escolar e depois no mercado de trabalho”.

Pois é, as tais virtudes da meritocracia (dedicação, concentração, disciplina) não são algo natural, mera escolha individual pelo suor em detrimento da preguiça.
E se o argumento de um sociólogo te parecer pouco convincente (ainda que fruto de pesquisa empírica), basta dar uma olhadinha nas conclusões a que tem chegado sobre o assunto a super-na-moda neurociência.

A capacidade de se concentrar é um aprendizado de classe. As “virtudes” que levam ao sucesso quase sempre são um privilégio de sangue, transmitido em casa de modo afetivo e “invisível”.

Em resumo, podemos dizer: os brasileiros pobres trabalhadores-estudantes são sim heróis. Pochmann está certíssimo. Jornada de 16 horas de labuta é algo absolutamente impressionante em pleno século XXI, séculos depois da Revolução Industrial.

Mas a transformação de sua difícil história de vida em uma história de sucesso profissional dependerá muito menos do esforço individual desses jovens pobres do que gostaríamos de admitir. Muito menos.

E a miopia do Estado, do mercado, da mídia e das classes média e alta a respeito das insuficiências da lógica da meritocracia definitivamente não ajuda a solucionar o problema.