Por Rafael de Acypreste
Nos dias 14 e 15 de abril, em Cartagena, Colômbia, a Sexta Edição da Cúpula das Américas debateu, pela primeira vez em nível continental, a necessidade de mudar a atual política antidrogas. A discussão foi puxada pelo presidente da Guatemala, Otto Pérez Molina. Barack Obama enfatizou que legalização não está entre as possibilidades.
A dependência às drogas pode ser uma trágica perda de potencial para o indivíduo envolvido, mas também extremamente prejudicial para sua família, sua comunidade e, em conjunto, para toda a sociedade. E são por esses fatores que devemos, enquanto membros da sociedade, levantar um debate de forma mais aberta e plural, buscando livrar-se de preconceitos.
Nesse sentido, cada vez mais ganham força as marchas da maconha. Em Brasília, será dia 25 de maio de 2012.
A Guerra
De acordo com o coronel Jorge da Silva, ex-chefe do Estado-Maior Geral da PMERJ, “O governo brasileiro precisa assumir maior protagonismo nas discussões sobre a questão no mundo. O modelo vigente, da radicalização repressiva, tem produzido os efeitos desastrosos conhecidos. Basta contar os mortos. O ponto de partida há de ser tomar o usuário como destinatário dos serviços de saúde e não da polícia”.
Só no México morreram 50 mil pessoas desde que o presidente Felipe Calderón declarou guerra contra as drogas em dezembro de 2006. Passados mais de 40 anos desde que Richard Nixon empreendeu em 1971 a “guerra contra as drogas” e criou a Força Administrativa de Narcóticos (DEA, na sigla em inglês), Washington gastou mais de US$ 2,5 trilhões e prendeu mais de 40 milhões de pessoas por crimes de narcotráfico e posse de substâncias ilícitas, sem os resultados esperados.
A guerra contra as drogas – um processo de “limpeza social-sanitária” – era (é) marcada por um caráter racial e xenófobo presente nas campanhas políticas e publicitárias quando do início (e hoje) de sua criminalização. No Brasil a maconha era diretamente associada às classes baixas, aos negros e mulatos e à bandidagem.
Nesse contexto constata-se – há muito – a criminalização da pobreza, explicada fundamentalmente pela característica seletiva do sistema penal. Este é uma construção política dos atores do poder, que constroem o direito penal com uma intencionalidade chamada por alguns de “velada”. Mas não há nada de intencionalidade velada no fato de o direito penal ter um caráter meramente punitivo, que estigmatiza determinado sujeito classificado de “delinquente”, o qual já é marginalizado antes mesmo de qualquer delito.
O “delinquente” é o jovem negro, pobre, desempregado, com baixa escolaridade e, em verdade, um sujeito-quase-objeto que não tem seus direitos fundamentais assegurados. Esse personagem é o alvo do sistema penal, que viola ainda mais seus direitos, numa busca por seu “corpo dócil” – como bem explicou Foucault –, para se encaixar no sistema pré-estabelecido imutável e hermético que é a sociedade utopiada pelo “Direito”.
Como a própria análise histórica mostra, as drogas serão utilizadas inevitavelmente pelos seres humanos e criminalizá-las é perder o controle sobre a produção, o comércio e o consumo, que não desaparecem, apenas se tornam ilegais. O sistema social exige vazadouros para dissolver suas tensões e as pessoas, em geral, procuram meios de “escapar” da realidade. Além do mais, as drogas – como fruto proibido que são – estimulam a libido, no mais amplo sentido da palavra, adquirindo valor libertário e contestador, servindo de protesto independentemente da natureza objetivamente nociva. É mais interessante pensar e construir estratégias para diminuição dos riscos e danos das drogas – lembre-se que o Brasil é exemplo mundial na redução do uso de tabaco, por exemplo – mediante políticas públicas bem elaboradas, que envolvem prevenção, regulação, vigilância nos processos de produção e comercialização, educação e sistemas públicos de recuperação e saúde.
Além do mais, a criminalização só beneficia quem age “fora da lei”, criando o mercado ilegal de drogas e gerando violência, corrupção, mortes e sonegação de impostos. Aí está a porta de entrada para outras drogas. Quem financia tudo isso não é o usuário que compra, mas o Estado que, por meio da omissão e proibição, abre caminho para todo um sistema sustentado na criminalidade. Os riscos e danos crescem também pelo fato de não ser possível uma conscientização do uso correto de um produto ilícito.
Com a descriminalização todo o mercado poderia ser regulado, com controle de qualidade, arrecadação de impostos e sem resquícios violentos no processo de produção e comercialização. A arrecadação de impostos merece especial atenção, pois estes podem ser revertidos para a saúde e educação públicas. Além de aumentar essa arrecadação, reduzem-se os custos com policiamento e sistema penal, o que pode resultar em ainda mais políticas públicas para assegurar direitos sociais.
Enfim, legalizar não é banalizar, mas sim encarar o problema de maneira mais eficaz e segura possível. Ficam postas as questões de como é possível fazer isso e como a sociedade precisa se transformar culturalmente, sempre tendo em vistas as condições e realidades sociais e culturais de cada localidade.
*Este post faz parte de um artigo que escrevi para uma disciplina com o querido amigo Augusto.

Polêmico tema!
Porém se até agora os resultados das políticas de enfrentamento dele não conseguiram garantir os resultados esperados, há que se adotar outra não hipócrita, não coercitiva e não estigmatizante, a exemplo do feito com o tabaco, como bem argumenta o texto.
Parabéns aos jovens redatores desse texto pela clareza, objetividade e neutralidade na abordagem do tema, permitindo a liberdade de reflexão do leitor.
Clarice Valle
Clarice,
Obrigado pela atenção dada ao tema. Você tocou no ponto central do debate que é… debater, francamente.
Abraços
Ótimo o texto. Um tema de fato polêmico. Mas ainda há muito o que estudar e debater. E apenas uma observação, divergência de data do cartaz.
Abraços,
Christina do Valle
Christina,
Obrigado pela correção, que já foi feita.
A ideia do texto é realmente essa. A partir da análise de uma conjuntura, que não resolveu a questão das drogas, precisamos pensar em alternativas. E estas precisam ser avaliadas de maneira responsável e comprometida, sem mascarar ou condenar o problema à invisibilidade.
Abraços, Rafael de Acypreste
A palavra imediata é DESCRIMINALIZAR, está na hora do primeiro passo, para depois uma possivel regulamentação e ou legalização. Já que vivemos em um País onde todos os serviços essenciais a dignidade do homem são escassos.
Não é tão simples legalizar, mais com certeza o caminho necessário é DESCRIMINALIZAR O USO, é um problema de saude é não de policia, para que em um quadro futuro a passos largos seja possivel a sua regulamentação.
Salve Salve