O sucesso é dos heróis?

Por Clarice Calixto

“Os brasileiros pobres que estudam e trabalham são verdadeiros heróis. Submetem-se a uma jornada de até 16 horas diárias: oito de trabalho, quatro de estudo e outras quatro de deslocamento. Isso é mais do que os operários no século XIX.” Márcio Pochmann

A afirmação de que o brasileiro pobre estudante-trabalhador gasta 4 horas por dia se deslocando pode parecer exagerada. Só parece.
Uma simples olhadinha na internet em busca de dados sobre transporte urbano em capitais como São Paulo, Belo Horizonte ou Recife é suficiente pra verificarmos que a coisa tá mesmo braba quanto ao transporte coletivo.


Fonte: Observatório das Metrópoles

Cresce a cada dia, em ritmo acelerado, o número de pessoas que passa mais de 1 hora no trajeto casa-trabalho.
Se esse número cresce, cresce especialmente sobre os pobres, como demonstram relevantes pesquisas sobre o tema, disponíveis aqui e aqui:
E se as maiores vítimas da tragédia da mobilidade urbana são os pobres, vamos voltar ao começo da fala do Pochmann, pra refletir sobre outras tragédias:

“Os brasileiros pobres que estudam e trabalham são verdadeiros heróis”.

A genialidade dessa fala está menos no que diz e mais no que sugere.

Num elogio ao heroísmo (inegável) dos brasileiros pobres estudantes-trabalhadores, Pochmann (paradoxalmente) nos permite levantar interessantes questionamentos sobre essa tal meritocracia.

Num país em crescimento, com maior acesso à universidade, com maior formalidade no mundo de trabalho (que me recuso a chamar de mercado de trabalho porque trabalho não pode ser mercadoria, já nos diz a OIT há uns 30 anos), as oportunidades aparecem para ricos e pobres. Assim dizem os entusiastas da meritocracia, com uma boa dose de romantismo tipo filme americano de time de baseball falido tentando dar a volta por cima pela motivação de cada um dos seus jogadores que dá o máximo de si em horas e horas de treino e de repente ganha milagrosamente o grande campeonato da cidade.

Enfim, basta dedicação, concentração, disciplina, e pronto: sucesso garantido.

Os estudos sociais que demonstram a estupidez dessa fórmula são inúmeros. Um dos mais interessantes deles é o de Jessé de Souza, já várias vezes citado neste blog, que desmistifica a excessiva fé na educação como capaz de extinguir a desigualdade social:

“O problema é que a competição social não começa na escola. Ela começa em casa, no berço, na imitação (…). Se os pais ou figuras de referência são indivíduos de classe média ou alta, ou seja, indivíduos que aprenderam a ser disciplinados, autocontrolados e a verem o futuro como mais importante que o presente, vamos ter também certas virtudes de classe, como a que permite a ‘capacidade de concentração’, algo determinante no sucesso escolar e depois no mercado de trabalho”.

Pois é, as tais virtudes da meritocracia (dedicação, concentração, disciplina) não são algo natural, mera escolha individual pelo suor em detrimento da preguiça.
E se o argumento de um sociólogo te parecer pouco convincente (ainda que fruto de pesquisa empírica), basta dar uma olhadinha nas conclusões a que tem chegado sobre o assunto a super-na-moda neurociência.

A capacidade de se concentrar é um aprendizado de classe. As “virtudes” que levam ao sucesso quase sempre são um privilégio de sangue, transmitido em casa de modo afetivo e “invisível”.

Em resumo, podemos dizer: os brasileiros pobres trabalhadores-estudantes são sim heróis. Pochmann está certíssimo. Jornada de 16 horas de labuta é algo absolutamente impressionante em pleno século XXI, séculos depois da Revolução Industrial.

Mas a transformação de sua difícil história de vida em uma história de sucesso profissional dependerá muito menos do esforço individual desses jovens pobres do que gostaríamos de admitir. Muito menos.

E a miopia do Estado, do mercado, da mídia e das classes média e alta a respeito das insuficiências da lógica da meritocracia definitivamente não ajuda a solucionar o problema.

2 thoughts on “O sucesso é dos heróis?

  1. Me parece haver uma contradição no texto. Por um lado reconhece a existência de um número crescente de pessoas pobres, presumivelmente de famílias pobres, que fazem um grande esforço para mudar suas condições de vida. Por outro deixa entender que o esforço, a dedicação e o pensamento voltado pro futuro são características que se adquire na infância e que famílias abastadas passam essas virtudes com mais facilidade.
    Acredito que o verdadeiro ponto a ser atacado na falácia da meritocracia é a dispersão randômica das oportunidades. O resultado que exige esforço heróico de alguns, e para estes é uma grande vitória, é a pior das hipóteses para os incluídos a priori.

    • Fábio, concordo plenamente com você quanto à falácia da meritocracia ser essencialmente a dispersão randômica de oportunidades.
      É o que muitos chamam de “diferença de ponto de partida”. Isso é essencial.
      No entanto, tentei introduzir no texto um elemento a mais: o fato de que além da falta de oportunidades concretas (de acesso a boas escolas e postos de trabalho), essas pessoas que saem de “piores” pontos de partida têm ainda dificuldades um pouco mais complexas referentes a “valores de classe”, aprendidos em casa, relacionados às classes média e alta, que são determinantes na hora de acertar o tal alvo do sucesso, determinantes, por exemplo, no momento em que uma pessoa é etiquetada como “competente” ou “incompetente” no trabalho.
      Dois desses valores são concentração e serenidade (entendida como oposto da agressividade).
      Bom, o argumento foi exposto de uma maneira rasa, infelizmente, por ser apenas um post, mas ele se encontra bem bacana no livro A Ralé Brasileira, do sociólogo Jessé de Souza. Super indico!

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